23 de dezembro de 2016

39

Há sangue por toda parte.
Adam está no chão, apertando o corpo, mas eu não sei onde ele foi baleado. Um enxame de soldados vai se reunindo em volta dele e eu estou arranhando os braços que me seguram por trás, chutando o ar, gritando no vazio. Alguém está me arrastando e eu não consigo ver o que eles fizeram com Adam. A dor está amarrando meus membros, travando minhas articulações, quebrando cada osso de meu corpo. Quero gritar para o céu, quero cair de joelhos e chorar na terra. Não entendo por que a agonia não está encontrando fuga em meus gritos. Por que minha boca está coberta com a mão de alguém?
— Se eu soltá-la, você tem que prometer não gritar — diz ele para mim.
Ele está tocando meu rosto com suas mãos nuas e eu não sei onde deixei cair minha arma.
Warner me arrasta até um prédio ainda em funcionamento e arromba a porta com um chute. Acende um interruptor. Luzes fluorescentes acendem-se e ficam piscando com um zunido abafado. Há pinturas coladas nas paredes, arco-íris de abecedário alfinetados em quadros de cortiça. Mesinhas espalhadas pela sala. Estamos em uma sala de aula.
Fico me perguntando se esta é a classe onde James estuda.
Warner baixa a mão. Seus olhos verdes vítreos refletem tamanho encanto que estou petrificada.
— Deus, senti sua falta — diz ele para mim. — Você achou mesmo que eu deixaria você ir tão facilmente?
— Você atirou em Adam — são as únicas palavras que consigo diz. Minha mente está confusa pela incredulidade. Continuo vendo seu belo corpo dobrado no chão, vermelho vermelho vermelho. Preciso saber se e está vivo. Ele tem de estar vivo.
Os olhos de Warner lampejam.
— Adam está morto.
— Não...
Warner me empurra para um canto e eu percebo que nunca estive tão indefesa em minha vida. Nunca tão vulnerável. Dezessete anos passei desejando que minha maldição terminasse, mas neste momento estou mais desesperada do que nunca por tê-la de volta. Os olhos de Warner empolgam-se inesperadamente. As mudanças em suas emoções são difíceis de antecipar. Difíceis de deter.
— Juliette — diz ele. Ele toca minha mão de modo tão delicado que me assusta. — Você reparou? Parece que sou imune ao seu dom. — Ele estuda meus olhos. — Isso não é incrível? Você reparou? — pergunta novamente. — Quando você tentou escapar... você sentiu isso...?
Absolutamente nada escapa a Warner. Warner absorve cada detalhe.
É claro que ele sabe.
Mas estou sob o impacto da ternura em sua voz. A sinceridade com a qual ele deseja saber. Ele é como um cão selvagem, enlouquecido e feroz, sedento de caos, ao mesmo tempo que deseja reconhecimento e aceitação.
Amor.
— Podemos mesmo ficar juntos — diz para mim, sem se deixar desanimar com o meu silêncio. Ele me puxa para mais perto, perto demais. Estou congelada em quinhentas camadas de medo. Atordoada de sofrimento, de incredulidade.
Suas mãos alcançam meu rosto, seus lábios, os meus. Meu cérebro está pegando fogo, pronto para explodir em virtude da impossibilidade deste momento. Sinto como se estivesse assistindo a isso acontecer, desprendida de meu próprio corpo, incapaz de intervir. Mais do que qualquer outra coisa, estou surpreendida por suas mãos delicadas, seus olhos ardentes.
— Quero que você me escolha — diz ele. — Quero que você escolha ficar comigo. Quero que você queira isso...
— Você é louco — custa-me respirar. — Você é psicopata...
— Você só está com medo daquilo de que é capaz. — Sua voz é suave. Agradável. Lenta. Enganosamente persuasiva. Antes, não percebera como sua voz poderia ser atraente. — Admita — diz ele. — Somos perfeitos um para o outro. Você tem o poder. Ama a sensação de uma arma em sua mão. Você está... atraída por mim.
Tento lhe dar um soco, mas ele prende meus braços. Imobiliza-os de lado. Aperta-me contra a parede. Ele é muito mais forte do que parece.
— Não minta para si mesma, Juliette. Você vai voltar comigo querendo ou não. Mas pode escolher querer isso. Pode escolher gostar disso...
— Nunca irei... — Respiro, sem ar. — Você é doente... é um monstro doente e deformado.
— Essa não é a resposta certa — diz ele, e parece genuinamente desapontado.
— Essa é a única resposta que você sempre terá de mim.
Seus lábios chegam perto demais.
— Mas eu te amo.
— Não, você não ama.
Seus olhos se fecham. Ele recosta sua testa na minha.
— Você não tem ideia do que faz comigo.
— Eu te odeio.
Ele sacode a cabeça muito lentamente. Desce. Seu nariz roça minha nuca, e eu contenho um calafrio de horror que ele interpreta mal. Seus lábios tocam minha pele e eu, de fato, choro sem voz.
— Deus, adoraria arrancar um pedacinho de você.
Reparo no brilho prateado dentro do bolso de seu casaco.
Sinto um arrepio de esperança. Um arrepio de horror. Preparo-me para o que preciso fazer. Passo um momento em luto pela perda de minha dignidade.
E relaxo.
Ele sente a tensão escoar de meu corpo e, por sua vez, corresponde. Ele sorri, solta suas garras em meus ombros. Desliza os braços ao redor de minha cintura. Engulo o vômito que ameaça me trair.
Seu casaco militar tem um milhão de botões e pergunto-me quantos terei de desabotoar antes que eu consiga colocar a mão na arma. Suas mãos estão explorando meu corpo, deslizando pelas minhas costas para sentir o formato de meu corpo e isso é tudo o que eu posso fazer para evitar fazer algo imprudente. Não sou hábil o bastante para dominá-lo e não faço ideia de por que ele é capaz de tocar em mim. Não faço ideia de por que fui capaz de estraçalhar o concreto. Não faço ideia de onde essa energia veio.
Hoje ele tem toda a vantagem e não é hora de me entregar.
Ainda não.
Coloco minhas mãos em seu peito. Ele me pressiona contra a curva do seu corpo. Ergue meu queixo para encontrar meus olhos.
— Serei bom para você — sussurra ele. — Serei tão bom para você, Juliette. Prometo.
Espero não estar visivelmente trêmula.
E ele me beija. Faminto. Desesperado. Ávido por me escancarar e provar meu gosto. Estou tão atordoada, tão aterrorizada, tão envolvida pela insanidade que me esqueço de mim mesma. Fico lá congelada, enojada. Minhas mãos deslizam de seu peito. Tudo em que consigo pensar é em Adam e sangue e Adam e o som de tiros e Adam deitado em uma poça de sangue e eu quase o empurro de cima de mim. Mas Warner não será desencorajado.
Ele interrompe o beijo. Sussurra algo em meu ouvido que soa absurdo. Pega meu rosto com suas mãos e, desta vez, lembro-me de fingir. Puxo-o para mais perto, agarro um punhado de seu casaco, meus dedos já no afã de libertar o primeiro de seus botões. Warner segura meus quadris e suas mãos conquistam meu corpo. Ele tem gosto de menta, cheira a gardênias. Seus braços são fortes ao redor de mim, seus lábios, suaves, quase doces contra minha pele. Há uma carga elétrica entre nós que eu não previra.
Minha cabeça está girando.
Seus lábios estão no meu pescoço, provando-me, devorando-me, e eu me forço a não desviar do foco. Forço-me a compreender a perversão desta situação. Não sei como conciliar a confusão em minha mente, minha hesitante repulsa, minha inexplicável reação química a seus lábios. Preciso acabar com isso. Já.
Alcanço seus botões.
E ele está desnecessariamente encorajado.
Warner me levanta pela cintura, suspende-me contra a parede, suas mãos no meu traseiro, forçando minhas pernas a envolvê-lo. Ele não percebe que me deu o ângulo perfeito para chegar a seu casaco.
Seus lábios encontram os meus, suas mãos deslizam sob minha blusa e ele está respirando pesado, enrijecendo seu domínio em volta de mim, e eu praticamente rasgo seu casaco no desespero. Não posso deixar isto continuar por mais tempo. Não faço ideia de até onde Warner quer levar as coisas, mas não posso continuar encorajando sua insanidade.
Preciso que ele se incline só um centímetro a mais para a frente...
Minhas mãos envolvem a arma.
Sinto que congela. Recua. Observo seu rosto passar por fases de confusão/medo/angústia/horror/raiva. Ele me larga no chão no momento em que meus dedos puxam o gatilho pela primeira vez.
A arma está desarmada de seu poder e de sua força, o som muito mais ruidoso do que eu previa. As reverberações vibram em meus ouvidos e cada pulsação de meu corpo.
É uma espécie de doce melodia.
É uma espécie de pequena vitória.
Porque, desta vez, o sangue não é de Adam.

36 comentários:

  1. Bicha cretina! Bicha cretina!!! Karaleo... Ela atirou no Warner! Odeio a Juliette. Como ela tem coragem de atirar no MEU HOMEM?!

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    1. Assim colega já tava na hora dele sofrer um poco.

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    2. Eu ri do seu comentário Valéria 😂😂😂

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  2. Eu acho que quem ama ela, pode tocar nela.

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  3. NÃO! COITADO DO WANNER!

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  4. Essa linguagem poética as vezes me confundi toda, que raiva...a arma estava desarmada mas no fim havia sangue???? como assim???

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    1. Brenda, fala que "a arma estava desarmada de seu poder", ou seja, que ele não estava mais com a arma pq ela havia conseguido pega-lá dele e não que a arma estava sem balas

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  5. Que!!!! Sua cretina dos inferno!!!! Meu Merlin! Eu odeio Juliette! Eu te odeio! Sua vaca!

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  6. Pensei que ela nunca ia conseguir achar essa arma, tava com ânsia de vômito já, odeio esse cara ela tem que mata ele de uma vez!

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  7. Mééééééu Dééééééus....Esse livro é pauleira o tempo todoooo!! Ai meu coração. 😱

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  8. Filho da mãe menina do caraio ti odeio mito meu mozão nossa q odioooo WARNER </3

    -karol

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  9. COMO ASSIM GENTE? ele é um psicopata nojento! não é dá vontade dela então né ela fez o certo!

    obs: eu gosto dele,mas tem limites.

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  10. que merda... vagabunda

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  11. Já falei que gosto dele e torço para que eles se envolvam de vdd, mas ele tá forçando ela a fazer muitas coisas e eu não acho isso legal pelo contrário é revoltante

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  12. Fiquei com pena do Adam, não quero que ele morra *^* eu sabia Juju, vc gosta dele, bem lá no fundo, vc percebeu q seu corpo estava reagindo com os toques dele...KRL JUJU, COMO PÔDE ATIRAR NO WARNER???? VC VIADA, VAKAAAAAAAAA, SUA BITCH CRETINA, ATIROU NO MOZÃO, AFFS QUE RAIVA MANO Ò.Ó
    #TeamWarner

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  13. Nossa.. .-. Tenho certeza que se fossem vocês fariam o mesmo, ou algo parecido. Mas não é.. Então vamos apenas chamar ela de vaca, claro. -.-


    * Lanna *

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  14. Engraçado, ela é capaz de quebrar concreto com a mão, mas não consegue nem se soltar de um aperto. Ela fica nesse cu doce de não usar o poder, mas quando percebe que ele tá imune, ela quer. Ela não vê problema em matar e machucar com arma, mas com as mãos vê....

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  15. Eu gosto dos dois T______T Mas o Warner chama mais atenção =x

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  16. Véy... pq eu tenho a impressão d q ela atirou em si mesma?

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  17. Yesubai, a filha do vilão9 de abril de 2017 23:57

    Tomara que o Adam não esteja morto e que o Kenji e o James estejam bem

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  18. Vou mentir não em, ADOOOOREI ESSE TIRO KKKKKK
    - Løpez

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  19. Os comentários são os melhores heuheuheu acredito que ele não morre, assim como Adam, sla...

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  20. N consigo acreditar q tenha agente achando ruim ela ter atirado nele,plmdds gente...
    Se poupe
    Me poupe
    Nos poupe
    O cara é um doente,possessivo,louco e vcs ai defendendo ele

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  21. Pqp não acredito q essa cretina atirou no meu crush!!!!!

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  22. "Warner segura meus quadris e suas mãos conquistam meu corpo. Ele tem gosto de menta, cheira a gardênias. Seus braços são fortes ao redor de mim, seus lábios, suaves, quase doces contra minha pele. Há uma carga elétrica entre nós que eu não previra." tadinha q sacrifÍcio ela teve q fazer.... kkkkkkkkk.. FIINGIIDAAAA TAVA ADORANNDO Q EU SEI

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    1. Se ela estivesse adorando iria até o fim com o Warner.Só depois pensaria na fuga e no Adam.

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  23. Passo um momento eem luto pela perda da minha dignidade kkkkkk ta LOCoNA ... agarra ele mulher kkkkk

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  24. O Warner me enoja quando a trata como um objeto de prazer,que pode ser usado como e quando quizer.Mas não desejo a sua morte.Pois assim ele não pagaria pelos seus atos.

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  25. A Juliette evolui muito.Recuperou sua sanidade,superou os anos de rejeição e tem se mostrado forte diante das adversidades.
    Que orgulho dessa menina!

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  26. Genteeee o vilão é sempre o melhor.
    (Bem,no meu pensamento).

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  27. Ate que enfim Juliette fez alguma coisa que preste, bala nesse safado kkkk odeio ele

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  28. Ainda bem que ela atirou nele, tava merecendo

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  29. Tatah/UMA_LEITORA_QUALQUER_S225 de novembro de 2017 13:22

    Aaaah, super feliz que ela tenha atirado nele. UHUH S2

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Boa leitura :)