23 de dezembro de 2016

37

— Realmente estou feliz por você estar levando isso tão bem... eu estou... mas James, isso não é algo com que se fique entusiasmado. Estamos fugindo para salvar nossas vidas.
— Mas estamos fazendo isso juntos — diz ele pela quinta vez, um sorriso enorme tomando-lhe o rosto. Ele foi logo indo com a cara de Kenji, e agora os dois estão conspirando para transformar nossa situação periclitante em alguma espécie de missão elaborada. — E eu posso ajudar!
— Não, isso não é...
— Claro que pode...
Adam e Kenji falam ao mesmo tempo. Kenji retoma primeiro.
— Por que ele não pode ajudar? Dez anos é idade suficiente para ajudar.
— Essa decisão não é sua — diz Adam, cuidando para controlar a voz. Eu sei que ele está mantendo a calma por causa do irmão. — E isso não é da sua conta.
— Finalmente vou poder ficar com você — diz James, sem perder o animo. — E eu quero ajudar.
James aceita as notícias com calma. Ele sequer demonstrou medo quando Adam explicou o verdadeiro motivo por ele estar em casa, e por que estávamos juntos. Pensei que ver o rosto espancado de Kenji pudesse assustá-lo, desencorajá-lo, incutir um sentimento de medo em seu coração, mas James ficou estranhamente impassível. Ocorreu-me que ele deve ter visto coisa muito pior.
Adam respira fundo algumas vezes antes de se voltar para Kenji.
— Qual a distância?
— A pé? — Kenji parece incerto pela primeira vez. — Algumas horas pelo menos. Se não fizermos nenhuma estupidez, devemos estar lá ao cair da noite.
— E se pegarmos um carro?
Kenji pisca. Sua surpresa se dissolve em um gigantesco sorriso.
— Ora, porra, Kent, por que não disse isso antes?
— Cuidado com o que fala perto de meu irmão.
James revira os olhos.
— Escuto coisa pior que isso todo dia. Até Benny usa palavrão.
— Benny? — As sobrancelhas de Adam encontram a testa.
— Sim.
— O que ela... — Ele para. Muda de ideia. — Isso não significa que possa continuar escutando isso.
— Tenho quase onze!
— Ei, homenzinho — interrompe Kenji. — Está tudo bem. A culpa é minha. Devia ser mais cuidadoso. Além disso, há damas presentes — pisca para mim.
Desvio o olhar. Olho em volta.
Para mim é difícil deixar esta humilde casa, então só consigo imaginar o que Adam deve estar sentindo neste momento. Acho que James esta entusiasmado demais com o caminho perigoso à nossa frente para se dar conta do que está acontecendo. Para entender verdadeiramente que ele nunca mais voltará aqui.
Somos todos fugitivos correndo por nossa vida.
— Então... você roubou um carro? — pergunta Kenji.
— Um tanque.
Kenji solta uma risada.
— Excelente.
— Mas é um pouco ostensivo para a luz do dia.
— O que “ostensivo” quer dizer? — pergunta James.
— É um pouco... chamativo. — Adam se encolhe.
— Merda. — Kenji levanta-se cambaleante.
— Disse para ter cuidado com o que fala...
— Você escuta isso?
— Escuta o quê...?
Os olhos de Kenji estão se lançando em todas as direções.
— Existe outra maneira de sair daqui?
Adam está de pé.
— James...
James corre para o lado de seu irmão. Adam verifica sua arma. Estou pendurando mochilas nas costas, Adam está fazendo o mesmo, sua atenção desviada pela porta da frente.
— Corre...
— Estamos per...
— Não temos tempo...
— O que você...
— Kent, corre...
E estamos correndo, seguindo Adam para dentro do quarto de James.
Adam rasga uma cortina de uma parede para revelar uma porta escondida, no momento em que três bipes são emitidos da sala de estar.
Adam atira no cadeado da porta de saída.
Alguma coisa explode nem a cinco metros atrás de nós. O som arrebenta em meus ouvidos, vibra através de meu corpo. Quase desabo com o impacto. Tiros estão por toda parte. Passos entram em casa, mas já estamos correndo pela saída. Adam puxa James para seus braços e nós estamos fugindo através da súbita explosão de luz que ofusca nosso caminho pelas ruas. A chuva parou. As vias estão escorregadias e lamacentas. Há crianças por toda parte, cores brilhantes de corpos pequeninos que subitamente gritam à nossa aproximação. Não há mais razão para sermos discretos.
Eles já nos encontraram.
Kenji está ficando para trás, cambaleando até o fim de sua adrenalina.
Viramos em um beco estreito e ele tomba contra a parede.
— Desculpem-me — diz ofegante — não consigo... podem me deixar...
— Não podemos deixar você — grita Adam, olhando por toda parte, absorvido em tudo que nos cerca.
— Obrigado, irmão, mas está tudo bem...
— Precisamos de você para nos mostrar aonde ir!
— Ora, merda...
— Você disse que nos ajudaria...
— Pensei que você tinha dito que tinha um tanque...
— Se você não reparou, houve uma mudança inesperada de planos...
— Não consigo continuar, Kent. Mal posso andar...
— Você tem que tentar...
“Há rebeldes à solta. Eles estão armados e prontos para atirar. Toque de recolher em vigor. Todos retornem imediatamente a suas casas. Há rebeldes à solta. Eles estão armados e prontos para ati...”
Os alto-falantes soam pelas ruas, atraindo atenção para nossos corpos reunidos no beco estreito. Algumas pessoas nos veem e gritam. As botas estão ficando mais ruidosas. Os tiros estão ficando mais frenéticos.
Tiro um momento para analisar os edifícios ao redor e percebo que não estamos em uma área assentada: a rua onde James vive é um território não regulamentado; uma série de edifícios comerciais abandonados, amontoados restos de nossa antiga vida. Não compreendo por que ele não está vivendo em uma área igual à do restante da população. Não tenho tempo pai entender por que vejo apenas dois grupos de idade representados. Por que idosos e os órfãos são os únicos residentes? Por que eles foram despejados em terrenos ilegais com soldados que não deveriam estar aqui? Tenho medo de considerar as respostas às minhas próprias perguntas e, num momento de pânico, temo pela vida de James. Enquanto fugimos, entrevendo si pequeno corpo entrouxado nos braços de Adam.
Seus olhos estão fechados com tanta força que tenho certeza de que doem...
Adam pragueja em sussurro. Ele arromba a primeira porta que encontramos de um prédio abandonado e grita para que nós o sigamos para dentro.
— Preciso que você fique aqui — diz para Kenji. — E, posso não estar batendo bem, mas preciso deixar James com você. Preciso que você tome conta dele. Eles estão procurando por Juliette, e eles estão procurando por mim. Eles não esperam mesmo encontrar vocês dois.
— O que você vai fazer? — pergunta Kenji.
— Preciso roubar um carro. Então voltarei para buscá-los. — James nem mesmo reclama quando Adam o coloca no chão. Seus pequeninos lábios estão brancos. Seus olhos, arregalados. Suas mãos, trêmulas. — Voltarei para buscá-lo, James — diz Adam novamente. — Eu prometo.
James concorda com a cabeça várias e várias vezes. Adam o beija, uma vez, com firmeza, rapidamente. Larga no chão as mochilas de acampamento. Volta-se para Kenji.
— Se acontecer qualquer coisa a ele, mato você.
Kenji não ri. Ele não olha de cara feia. Ele respira fundo.
— Cuidarei dele.
— Juliette?
Ele pega minha mão, e nós desaparecemos pelas ruas.

7 comentários:

  1. Se eu for a primeira a comentar, então...AEEEEEEEEE PRIMEIRA A COMENTAR ~fogos de artifícios~ mano que capítulo tenso, só digo uma coisa CORRE NEGADA HEUHEU

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  2. Lendo muitos livros percebi uma coisa padrão em todos os que tem ação...
    Nada fica bem por mais de dois capítulos kkk

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  3. Ele ta me lembrando Tobias Eaton <3 <3 <3
    Fabiana Santos

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    1. Vdd desde o começo do livro algumas partes parecem com o livro divergente kkk eu tô amando muito tudo isso ♥♥

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  4. Vc leu meus pensamentos tobias quatro divergente amo

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  5. Devoradora de livros3 de julho de 2017 15:37

    Quatro <3 <3 <3

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  6. Nao deixa o menino com esse maluco do Kenji ele nao e confiavel vai f*der tudo...

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Boa leitura :)