23 de dezembro de 2016

36

Kenji está xingando, sangrando, esgotando todos os seus palavrões e cambaleando em direção ao banheiro, segurando o nariz.
Adam me puxa para dentro do quarto de James.
— Diga-me alguma coisa — diz ele. Ele encara o teto, respira com dificuldade. — Diga-me qualquer coisa...
Tento concentrar-me em seus olhos, agarro suas mãos, macias macias macias. Espero até que ele esteja olhando para mim.
— Nada vai acontecer a James. Vamos mantê-lo a salvo. Prometo.
Seus olhos estão cheio de dor como nunca vira antes. Ele aparta os lábios.
Aperta-os. Muda de ideia um milhão de vezes até suas palavras caírem no ar entre nós.
— Ele nem mesmo sabe sobre nosso pai. — É a primeira vez que ele admite o problema. É a primeira vez que ele admite que eu saiba alguma coisa sobre isso. — Nunca quis que ele soubesse. Inventava histórias para ele. Queria que ele tivesse uma chance de ser normal. — Seus lábios estão soletrando segredos e meus ouvidos estão derramando tinta, manchando minha pele com suas histórias. — Não quero que ninguém mais o toque. Não quero que ele fique perturbado. Não posso... Deus, não posso deixar isso acontecer — ele diz para mim. Voz abafada. Sereno.
Revirei o mundo na busca pelas palavras certas e minha boca está cheia de nada.
— Nunca é o bastante — sussurra ele. — Nunca consigo fazer o bastante. Ele ainda acorda gritando. Ele ainda chora para dormir. Ele vê coisas que eu não consigo controlar. — Ele pisca um milhão de vezes. — Tantas pessoas, Juliette.
Prendo a respiração.
Mortas.
Toco a palavra em seus lábios e ele beija meus dedos. Seus olhos são dois lagos de perfeição, abertos, honestos, humildes.
— Não sei o que fazer — diz ele, e é como uma confissão que lhe custa muito mais do que posso entender. O controle está escorregando por entre seus dedos e ele está desesperado por retê-lo. — Diga-me o que fazer.
Posso ouvir o batimento de nossos corações no silêncio entre nós. Estudo o formato de seus lábios, as linhas fortes de seu rosto, os cílios que qualquer garota morreria para ter, o azul profundo e escuro de seus olhos no qual aprendi a nadar. Ofereço-lhe a única possibilidade que tenho.
— Vale a pena considerar o plano de Kenji.
— Você confia nele? — Adam recosta-se, subitamente surpreso.
— Não acho que ele esteja mentindo sobre conhecer um lugar para onde possamos ir.
— Não sei se é uma boa ideia.
— Por que não...?
Algo que pode não ter graça alguma.
— Poderia matá-lo antes mesmo de chegarmos lá.
Meus lábios se contorcem em um sorriso triste.
— Não tem nenhum outro lugar em que a gente possa se esconder, tem?
O Sol está girando ao redor da Lua quando ele responde. Ele sacode a cabeça. Uma vez. Rápido. Firme.
Aperto sua mão.
— Então temos de tentar.
— Que diabos vocês estão fazendo aí dentro? — Kenji grita através da porta. Esmurra-a algumas vezes. — Digo, merda, cara, não acho que haja sempre uma hora ruim para ficar peladinho, mas agora provavelmente não é a melhor hora para uma rapidinha. Então, a menos que você queira ser morto, sugiro que traga seu traseiro aqui pra fora. Temos de nos preparar para dar no pé.
— Poderia matá-lo agora. — Adam muda de ideia.
Tomo seu rosto em minhas mãos, fico na ponta dos pés e dou-lhe um beijo. Seus lábios são dois travesseiros, tão suaves, tão doces.
— Eu te amo.
Ele está olhando dentro de meus olhos e olhando para minha boca e sua voz é uma rouquidão sussurrante:
— Mesmo?
— Sem sombra de dúvidas.

Antes de James voltar da escola, já estamos de malas feitas e prontos para partir. Adam e eu pegamos os itens mais importantes de necessidade básica: comida, roupas, dinheiro que Adam economizou. Ele fica olhando ao redor do pequeno espaço como se não pudesse acreditar que o está perdendo com tanta facilidade. Só consigo imaginar quanto trabalho ele colocou nele, o quanto deu duro para tentar fazer dele um lar para seu irmão mais novo. Meu coração está em pedaços por ele.
Seu amigo é de uma espécie completamente diferente.
Kenji está cuidando de novas contusões, mas parece em um estado de espírito razoável, animado por motivos que não consigo compreender. Ele está estranhamente alegre e otimista. Parece impossível desencorajá-lo e eu não consigo deixar de admirar sua determinação. Mas ele não para de me encarar.
— Então como você pode tocar Adam? — diz ele depois de um momento.
— Eu não sei.
Ele ri em deboche.
— Lorota.
Encolho os ombros. Não sinto a necessidade de convencê-lo de que não faço a menor ideia de como tive tanta sorte.
— Como é que você soube que poderia tocá-lo? Algum tipo de experimento doentio?
Espero não estar ruborizando.
— Onde é este lugar para onde você está nos levando?
— Por que você está mudando de assunto? — Ele está sorrindo. Tenho certeza de que ele está sorrindo. Mas me recuso a olhar para ele.
— Talvez você possa me tocar também. Por que você não tenta?
— Você não quer que eu toque em você.
— Talvez eu queira. — Ele definitivamente está sorrindo.
— Talvez você devesse deixá-la em paz antes de eu enfiar aquela bala de volta na sua perna — propõe Adam.
— Sinto muito... um homem solitário não tem permissão para tentar a sorte, Kent? Talvez eu esteja interessado de verdade. Talvez você devesse se retirar e deixá-la falar por si mesma.
Adam passa uma mão pelos cabelos. Sempre a mesma mão. Sempre pelos cabelos. Ele está aturdido. Frustrado. Talvez constrangido.
— Ainda não estou interessada — faço-o lembrar, com o tom de voz um pouco agressivo.
— Sim, mas não vamos esquecer que isso — ele faz sinal para o seu rosto espancado — não é permanente.
— Bem, estou permanentemente desinteressada. — Quero muito dizer a ele que não estou disponível. Quero dizer a ele que estou em um relacionamento sério. Quero dizer a ele que Adam me fez promessas. Mas não posso.
Não faço ideia do que significa estar em um relacionamento. Não sei se dizer “eu te amo” é código para “exclusividade recíproca”. E eu não sei se Adam falava sério quando disse a James que eu era sua namorada. Talvez fosse uma desculpa, um disfarce, uma resposta fácil para uma questão complicada. Gostaria que ele dissesse algo para Kenji... gostaria que ele contasse para ele que nós estamos juntos oficialmente, exclusivamente.
Mas ele não diz nada.
E eu não sei por quê.
— Não acho que você deva decidir até o inchaço diminuir — continua Kenji sem rodeios. — Acho justo. Tenho um rosto espetacular.
Adam se engasga em uma tosse que eu pensei ser uma risada.
— Eu sei, poderia jurar que costumávamos ser boas-pintas — diz Kenji, nivelando seu olhar ao de Adam.
— Não consigo lembrar por quê.
Kenji encrespa-se.
— Tem alguma coisa que você queira me dizer?
— Não confio em você.
— Então por que ainda estou aqui?
— Por que confio nela.
Kenji se vira para olhar para mim. Ele esboça um sorriso imbecil.
— Hum, você confia em mim?
— Desde que você esteja na minha mira. — Aperto a arma na mão.
Seu sorriso está torto.
— Não sei por que, mas acho que gosto quando você me ameaça.
— É porque você é um idiota.
— Não. — Ele sacode a cabeça. — Você tem uma voz sexy. Faz tudo parecer indecente.
Adam levanta-se tão depressa que quase derruba a mesa do café.
Kenji explode em risadas, chiando em decorrência da dor de seus ferimentos.
— Acalme-se, Kent, porra. Só estou brincando com você. Gosto de ver a psicopata ficar toda nervosinha. — Ele olha para mim, baixa o tom de voz. — Digo isso como um elogio porque, você sabe — ele abana uma mão na minha direção —, psicose é tipo uma ocupação para você.
— Qual é o seu problema? — Adam se dirige com raiva para ele.
— Qual é o seu problema? — Kenji cruza os braços, irritado. — Tá todo mundo tão tenso aqui.
Adam aperta a arma na mão. Caminha até a porta. Retorna. Ele está marchando.
— E não se preocupe com seu irmão — acrescenta Kenji. — Estou certo de que ele estará aqui em breve.
Adam não ri. Ele não para de marchar. Seu maxilar estremece.
— Não estou preocupado com meu irmão. Estou tentando me decidir se atiro em você agora ou mais tarde.
— Mais tarde — diz Kenji, desmoronando no sofá. — Você ainda precisa de mim.
Adam tenta falar, mas perde o momento.
Um dique, um bipe e a porta destrava.
James está em casa.

12 comentários:

  1. KKKKKKKKKK talvez eu esteja gostando um pouco do Kenji

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  2. kkkkkkkkkkkkk rir demais agora , nao cofiu no Kenji , mas é engraçado demais

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  3. Kkkkkkk Não confio, mas gosto

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  4. "— Não acho que você deva
    decidir até o inchaço diminuir —
    continua Kenji sem rodeios. —
    Acho justo. Tenho um rosto
    espetacular.
    " MANO ESSE KENJI É DEMAIS, ELE É MUITO ENGRAÇADO KKKKK okay, mais um por quem acabo de me apaixonar *-* não sei pq, mas tenho certeza d q o Kenji é d confiança u.U
    #TeamWarner

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  5. — Digo, merda, cara, não acho que haja sempre uma hora ruim para ficar peladinho, mas agora provavelmente não é a melhor hora para uma rapidinha. Então, a menos que você queira ser morto, sugiro que traga seu traseiro aqui pra fora. Temos de nos preparar para dar no pé.


    Kerji gostei de você rapaz kkkkkk

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  6. — Não estou preocupado com meu irmão. Estou tentando me decidir se atiro em você agora ou mais tarde.
    — Mais tarde — diz Kenji, desmoronando no sofá. — Você ainda precisa de mim

    Meu deus, haha.

    * Lanna *

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  7. Acho que sou a única que achou o Kenji um idiota 😂

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  8. Yesubai, a filha do vilão9 de abril de 2017 23:33

    o Kenji pode até não ser de confiança, mais que ele te senso de humor isso tem kkkkk

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  9. Kenji pode até se provar um fdp em um futuro breve, mas já estou amando ele, seu humor kkkkkkkkkkkkk melhor pessoa

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  10. Devoradora de livros3 de julho de 2017 15:33

    Que diabos vocês estão fazendo aí dentro? — Kenji grita através da porta. Esmurra-a algumas vezes. — Digo, merda, cara, não acho que haja sempre uma hora ruim para ficar peladinho, mas agora provavelmente não é a melhor hora para uma rapidinha. Então, a menos que você queira ser morto, sugiro que traga seu traseiro aqui pra fora. Temos de nos preparar para dar no pé.

    Putz, como a pessoa consegue n rir disso kkkkkk
    #Kenjimelhorpersonagem

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  11. — Ainda não estou interessada — faço-o lembrar, com o tom de voz um pouco agressivo.
    — Sim, mas não vamos esquecer que isso — ele faz sinal para o seu rosto espancado — não é permanente.
    — Bem, estou permanentemente desinteressada. — Quero muito dizer a ele que não estou disponível. Quero dizer a ele que estou em um relacionamento sério. Quero dizer a ele que Adam me fez promessas. Mas não posso.
    Não faço ideia do que significa estar em um relacionamento. Não sei se dizer “eu te amo” é código para “exclusividade recíproca”. E eu não sei se Adam falava sério quando disse a James que eu era sua namorada. Talvez fosse uma desculpa, um disfarce, uma resposta fácil para uma questão complicada. Gostaria que ele dissesse algo para Kenji... gostaria que ele contasse para ele que nós estamos juntos oficialmente, exclusivamente.
    Mas ele não diz nada.
    E eu não sei por quê.
    — Não acho que você deva decidir até o inchaço diminuir — continua Kenji sem rodeios. — Acho justo. Tenho um rosto espetacular.
    Adam se engasga em uma tosse que eu pensei ser uma risada
    KENJI!!!VEM PARA A MINHA VIDA!!CASA COMIGO!!EU TE AMO!!
    TO SIMPLESMENTE MORRENDO DE RIR AQUI!!!ME DESCULPA MAIS O KENJI É MELHOR QUE O ADAM E O WARNER<3

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  12. ''— Qual é o seu problema? — Adam se dirige com raiva para ele.
    — Qual é o seu problema? — Kenji cruza os braços, irritado. — Tá todo mundo tão tenso aqui.'' KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK Neh,so falta o James gritando agora...

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Boa leitura :)