23 de dezembro de 2016

34

Adam e eu tentamos manter um metro e meio de distância um do outro na noite passada, mas de algum modo acordei em seus braços. Ele está respirando baixinho, de maneira constante e firme, um zunido quente no ar da manhã. Pisco, olhando para a luz do dia apenas para ser surpreendida por um par de grandes olhos azuis em um rosto de dez anos.
— Como é que você pode tocar nele? — James está em pé por cima de nós, com os braços cruzados, sendo novamente o menino teimoso de que me lembro. Não há sinal de medo, não há indício de lágrimas ameaçando escorrer em seu rosto. É como se a noite passada não tivesse acontecido. — E então? — Sua impaciência me assusta.
Afasto-me de Adam dando um pulo tão rápido que ele, metade superior do corpo descoberta, acorda com o sobressalto. Um pouco.
Ele procura por mim.
— Juliette...?
— Você está tocando uma garota!
Adam senta-se ereto tão rapidamente que ele se complica nos lençóis e cai para trás sobre os cotovelos.
— Jesus, James...
— Você estava dormindo do lado de uma garota!
Adam abre e fecha a boca várias vezes. Ele olha para mim. Olha para seu irmão. Fecha, os olhos e por fim suspira. Passa uma mão por seus cabelos da manhã.
— Não sei o que você quer que eu diga.
— Pensei que você tinha dito que ela não podia tocar em ninguém. — James está me encarando agora, desconfiado.
— Ela não pode.
— Exceto em você?
— Isso. Exceto em mim.
E Warner.
— Ela não pode tocar em ninguém exceto em você.
E Warner.
— Isso.
— Isso é bem conveniente. — James encolhe os olhos.
Adam ri em voz alta.
— Onde você aprendeu a falar desse jeito?
James franze as sobrancelhas.
— Benny fala muito isso. Ela diz que minhas desculpas são “bem convenientes”. — Ele faz as aspas com dois dedos. — Ela diz que isso é quando você não acredita na pessoa. E eu não acredito em você.
Adam fica de pé. A luz da manhã infiltra-se através das pequenas janelas pelo ângulo perfeito, no momento perfeito. Ele está banhado em ouro, se músculos tensos, as calças ainda um pouco baixas nos quadris e eu tenho de me forçar para não desviar o pensamento. Estou chocada com a minha própria falta de autocontrole, e não estou certa de que sei como conter estes sentimentos. Adam me deixa ávida por coisas que eu nunca soube que pudesse ter.
Observo-o enquanto ele coloca um braço nos ombros do irmão, antes de se agachar para encontrar seus olhos.
— Posso falar com você sobre uma coisa? Em particular?
— Só eu e você? — James olha para mim de canto de olho.
— Sim. Só eu e você.
— Ok.
Observo os dois desaparecendo dentro do quarto de James e fico me perguntando o que Adam vai dizer a ele. Leva um momento para eu entender que James deve se sentir ameaçado por minha repentina aparição. Ele finalmente vê seu irmão depois de quase seis meses só para tê-lo em casa na companhia de uma garota esquisita com poderes mágicos malucos. Quase rio com a ideia. Se fosse só a mágica que tivesse me tornado assim...
Não quero que James pense que estou tomando Adam dele.
Enfio-me novamente debaixo da coberta e aguardo. A manhã é fria e fresca e meus pensamentos começam a desviar-se para Warner. Preciso me lembrar de que não estamos a salvo. Não ainda, talvez nunca. Preciso me lembrar de nunca ficar à vontade demais. Sento-me ereta. Trago meus joelhos até o peito e cruzo meus braços nos tornozelos.
Pergunto-me se Adam tem um plano.
A porta do quarto de James abre-se rangendo. Os dois irmãos saem, o mais novo antes do mais velho. James parece um pouco corado e ele mal consegue me olhar nos olhos. Ele parece constrangido e fico pensando se Adam o puniu.
Meu coração falha por um momento.
Adam dá um tapinha no ombro de James. Aperta-o.
— Você está bem?
— Eu sei o que é uma namorada...
— Nunca disse que não soubesse...
— Então você é namorada dele? — James cruza os braços, olha para mim.
Há 400 bolas de algodão presas na minha traqueia. Olho para Adam porque não sei mais o que fazer.
— Ei, talvez você devesse se aprontar pra escola, hã?
Adam abre a geladeira e entrega a James um novo pacote de alumínio. Presumo que seja seu café da manhã.
— Não tenho que ir — protesta James. — Não é uma escola de verdade, ninguém tem que...
— Eu quero que você vá — corta Adam. Ele se volta para o irmão com um sorrisinho. — Relaxa. Vou estar aqui quando você voltar.
James hesita.
— Promete?
— Sim. — Outro sorriso. Faz sinal para ele se aproximar. — Venha cá.
James corre a seu encontro e agarra-se a Adam como se tivesse medo de que ele fosse desaparecer. Adam coloca o pacote de alumínio dentro do Automático e aperta um botão. Ele bagunça os cabelos de James.
— Você precisa de um corte, garoto.
James franze o nariz.
— Gosto assim.
— Está um pouco comprido, não acha?
James baixa o tom de voz.
— Acho que é o cabelo dela que está muito comprido.
James e Adam olham de volta para mim e eu me transformo em uma massinha de modelar rosa. Toco meu cabelo por reflexo, repentinamente autoconsciente. Olho para baixo. Nunca tive motivo para cortar o cabelo. Nunca sequer tive os instrumentos. Ninguém me oferece objetos afiados.
Arrisco uma olhada e vejo que Adam ainda está me olhando. James esta olhando para o Automático.
— Gosto do cabelo dela — diz Adam, e não estou certa de para quem ele está falando.
Observo os dois enquanto Adam ajuda seu irmão a se aprontar para a escola. James é tão cheio de vida, tão cheio de energia, tão empolgado par ter seu irmão por perto. Isso me faz perguntar o que deve ser para um garoto de dez anos viver por conta própria. O que deve ser para todos os garotos que vivem nesta rua.
Estou louca de vontade de me levantar e trocar de roupa, mas não estou certa do que devo fazer. Não quero ocupar o banheiro no caso de James precisar dele, ou se Adam precisar dele. Não quero ocupar mais nenhum espaço além do que já ocupo. Parece tão particular, tão pessoal, este relacionamento entre Adam e James. É o tipo de laço que nunca tive, que nunca terei. Mas estar rodeada de tanto amor conseguiu derreter minhas partes congeladas e transformá-las em algo humano. Sinto-me humana. Como se talvez pudesse fazer parte deste mundo. Como se talvez eu não tivesse de ser um monstro. Talvez eu não seja um monstro.
Talvez as coisas possam mudar.

8 comentários:

  1. é como diz o ditado né: quando as crianças saem, os adultos fazem a festa.

    o Adam certamente quer fazer uma festança com a Ju

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  2. — Ela não pode tocar em ninguém exceto em você.
    E Warner.
    — Isso.
    — Isso é bem conveniente. — James encolhe os olhos.
    -----> A diabólica sabedoria nos lábios de uma criança <----- kkkkkk

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  3. — Pensei que você tinha dito que ela não podia tocar em ninguém. — James está me encarando agora, desconfiado.
    — Ela não pode.
    — Exceto em você?
    — Isso. Exceto em mim.
    — Ela não pode tocar em ninguém exceto em você.
    — Isso.
    — Isso é bem conveniente. — James encolhe os olhos.
    Ri litros depois dessa.

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  4. "— Pensei que você tinha
    dito que ela não podia
    tocar em ninguém. —
    James está me encarando
    agora, desconfiado.
    — Ela não pode.
    — Exceto em você?
    — Isso. Exceto em mim.
    — Ela não pode tocar em
    ninguém exceto em você.
    — Isso.
    — Isso é bem
    conveniente. — James
    encolhe os olhos.
    "
    mano esse garoto é demais, ri muuuuuito, amo James *-*

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  5. Yesubai, a filha do vilão9 de abril de 2017 23:13

    — Pensei que você tinha dito que ela não podia tocar em ninguém. — James está me encarando agora, desconfiado.
    — Ela não pode.
    — Exceto em você?
    — Isso. Exceto em mim.
    E Warner.
    — Ela não pode tocar em ninguém exceto em você.
    E Warner.
    — Isso.
    — Isso é bem conveniente. — James encolhe os olhos.






    kkkkkkkkkkkkkkk esse James é incrível
    nem #TeamWarner nem #TeamAdam agora eu sou #TeamJmaes

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  6. — Pensei que você tinha dito que ela não podia tocar em ninguém. — James está me encarando agora, desconfiado.

    — Ela não pode.

    — Exceto em você?

    — Isso. Exceto em mim.

    E Warner.

    — Ela não pode tocar em ninguém exceto em você.

    E Warner.

    — Isso.

    — Isso é bem conveniente. — James encolhe os olhos.


    Eu to rindo e n é pouco kkkkkkkkjjnnnkkllll Gente esse garoto é demais

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Boa leitura :)