23 de dezembro de 2016

30

— Você tem uma casa? — Estou chocada demais para boas maneiras.
Adam ri e se afasta do campo. O tanque é surpreendentemente rápido, surpreendentemente ligeiro e discreto. O motor aquietou-se em um zunido apaziguador, e eu me pergunto se é por isso que eles trocaram os tanques a gás pelos elétricos. É certamente menos chamativo desse modo.
— Não exatamente — responde ele. — Mas uma espécie de casa. Sim.
Quero perguntar e não quero perguntar e preciso perguntar e nunca quero perguntar. Tenho de perguntar. Tomo coragem.
—Seu pai...
— Já faz um tempo que ele morreu. — Adam não está mais sorrindo. O aperto em sua voz somente eu saberia reconhecer. Dor. Amargura. Raiva.
— Ah.
Viajamos em silêncio, cada um absorvido em seus pensamentos. Não me atrevo a perguntar o que veio a ser de sua mãe. Apenas me pergunto como ele se saiu tão bem apesar de ter um pai tão desprezível. E me pergunto por que ele entrou para o exército se ele o odeia tanto. Neste momento, sinto-me tímida demais para perguntar. Não quero ultrapassar suas fronteiras emocionais.
Deus sabe que eu mesma tenho um milhão delas. Espio para fora da janela e estico os olhos para ver pelo que estamos passando, mas não consigo discernir muito mais que as tristes extensões de terra deserta com que cresci acostumada. Não há civis onde estamos: estamos muito longe dos assentamentos restabelecidos e dos aglomerados civis. Reparo em outro tanque patrulhando a área a 30 metros de distância, mas não acho que ele nos veja. Adam está dirigindo sem faróis, presumidamente para atrair menos atenção possível para nós. Pergunto-me como ele é capaz de pilotar. A Lua é a única lâmpada a iluminar nosso caminho.
Está misteriosamente silencioso.
Por um momento permito que meus pensamentos sejam levados de volta para Warner, perguntando-me o que deve estar acontecendo neste momento, perguntando-me quantas pessoas devem estar procurando por mim, perguntando-me até onde ele irá para ter-me de volta. Ele quer Adam morto. Ele me quer viva. Ele não vai parar até que eu esteja presa ao lado dele.
Ele nunca nunca nunca pode saber que eu posso tocá-lo.
Só posso imaginar o que ele faria se tivesse acesso a meu corpo.
Tomo um só fôlego, rápido e vacilante, e considero dizer a Adam o que aconteceu. Não. Não. Não. Não. Fecho os olhos e avalio que posso ter julgado mal a situação. Ela foi caótica. Meu cérebro estava perturbado. Talvez eu tenha imaginado isso. Sim.
“Talvez eu tenha imaginado isso.”
É estranho o bastante que Adam possa me tocar. A probabilidade de havia duas pessoas neste mundo que sejam imunes ao meu toque não me parece possível. Na realidade, quanto mais penso nisso, mais fico determinada de que devo ter cometido um erro. Qualquer coisa poderia ter tocado minha pele. Talvez um pedaço do lençol que Adam abandonou depois de usá-lo para esmurrar a janela. Talvez um travesseiro que caíra da cama. Talvez as luvas de Warner caídas no chão. Sim.
Não havia como ele ter me tocado, porque, se o tivesse, ele teria gritado de agonia.
Assim como todos os outros.
As mãos de Adam escorregam silenciosamente até as minhas e eu agarro seus dedos com as duas mãos, subitamente desesperada para confirmar a mim mesma que ele é imune a mim. Fico ansiosa por beber cada gota de seu ser, por saborear cada momento que nunca conheci antes. Subitamente me preocupo de que haja uma data para este fenômeno expirar. Um relógio batendo à meia-noite. Uma carruagem de abóbora.
A possibilidade de perdê-lo.
A possibilidade de perdê-lo.
A possibilidade de perdê-lo é como 100 anos de solidão que não quero imaginar. Não quero que meus braços sintam falta de seu calor. Seu toque. Seus lábios, Deus, seus lábios, sua boca em meu pescoço, seu corpo envolto ao meu, ligando-me como a afirmar que minha existência na Terra não é em vão.
A compreensão é um pêndulo da dimensão da Lua. Ele não para de bater em mim.
— Juliette?
Engulo a bala em minha garganta.
— Por que você está chorando...? — Sua voz é quase tão gentil quanto sua mão conforme esta se liberta de meu domínio. Ele toca as lágrimas que me escorrem a face e eu me sinto tão humilhada que quase não sei o que dizer.
— Você pode tocar em mim — digo pela primeira vez, reconheço em voz alta pela primeira vez. Minhas palavras desvanecem em um sussurro. — Você pode tocar em mim. Você se importa e eu não sei por quê. Você é bondoso comigo e você não tem que ser. Minha própria mãe não se importava o suficiente para... para... — Minha voz fica presa e eu aperto meus lábios. Colo-os um no outro. Forço-me a ficar tranquila.
Sou uma pedra. Uma estátua. Um movimento congelado no tempo. Gelo não sente absolutamente nada.
Adam não responde, não diz uma única palavra até ele ir para a margem da estrada e entrar em uma antiga garagem subterrânea. Entendo que chegamos a alguma aparente civilização, mas o subsolo é escuro como o breu. Não consigo enxergar nada próximo e mais uma vez admiro a forma como Adam está dirigindo. Meus olhos pousam sobre a tela iluminada em seu painel apenas para me dar conta de que o tanque tem visão noturna. É claro.
Adam desliga o motor. Eu o escuto suspirar. Mal consigo distinguir sua silhueta antes de sentir sua mão na minha coxa, sua outra mão subindo meu corpo para encontrar meu rosto. O calor se espalha pelos meus membros tal lava derretida. As pontas dos dedos de meus pés e mãos estão formigando e eu tenho de conter o arrepio que faz questão de estremecer meu corpo.
— Juliette — sussurra ele, e eu percebo o quão próximo ele está. Não estou certa do porquê de eu não ter evaporado. — Tem sido sempre eu e você contra o mundo — diz ele. — Sempre foi desse jeito. A culpa é minha por ter levado tanto tempo para fazer algo sobre isso.
— Não. — Sacudo a cabeça. — Não é sua culpa...
— É sim. Eu me apaixonei por você muito tempo atrás. Só não tive a coragem de agir motivado por isso.
— Porque eu poderia ter matado você.
Ele ri tranquilamente.
— Porque eu não achava que merecia você.
Sou um pedaço de assombro forjado em ser.
— O quê?
Ele toca seu nariz no meu. Recosta-se no meu pescoço. Enrola uma porção de meu cabelo em volta dos dedos e eu não consigo não consigo não consigo respirar.
— Você é... demais — sussurra ele.
— Mas minhas mãos...
— Nunca fizeram nada para machucar alguém.
Estou prestes a protestar quando ele se corrige.
— Não de propósito.
Ele se inclina para trás. Mal posso vê-lo esfregar a lateral de seu pescoço.
— Você nunca revidou — diz ele depois de um momento. — Sempre me perguntava por quê. Você nunca gritou ou ficou brava ou tentou dizer qualquer coisa para quem quer que fosse — diz ele, e eu sei que nós dois estamos de volta à terceira quarta quinta sexta sétima oitava nona série mais uma vez. — Mas, caramba, você deve ter lido um milhão de livros. — Sei que ele está sorrindo quando diz isso. Uma pausa. — Você não aborrecia ninguém, mas todos os dias você era um alvo ambulante. Você poderia ter revidado. Você poderia ter ferido todos se quisesse.
— Não quero ferir ninguém. — Minha voz é menos que um sussurro. Não consigo tirar de minha mente a imagem do Adam aos oito anos. Deitado no chão. Arruinado. Abandonado. Chorando em meio à sujeira.
As coisas que as pessoas fazem por poder.
É por isso que você nunca será o que Warner quer que você seja.
Estou fitando um ponto na escuridão, minha mente torturada por possibilidades.
— Como pode ter certeza?
Seus lábios estão muito próximos aos meus.
— Porque você ainda se preocupa com o mundo.
Sobressalto-me e ele está me beijando, profundo e poderoso e irrefreável. Seus braços envolvem minhas costas, curvando meu corpo até que estou praticamente na posição horizontal e não me importo. Minha cabeça está no assento, seu corpo pairando sobre o meu, suas mãos segurando meus quadris por debaixo de meu vestido surrado e eu sou lambida por um milhão de labaredas de desejo tão desesperado que mal consigo inalar. Ele é um banho quente, uma falta de ar, cinco dias de verão calcados em cinco dedos que escrevem histórias em meu corpo. Sou uma constrangedora confusão de nervos indo de encontro a ele, controlados por uma corrente de eletricidade que flui através de meu íntimo. Sua essência está assaltando meus sentidos.
Seus olhos
Suas mãos
Seu peito
Seus lábios
estão ao meu ouvido quando ele fala.
— Estamos aqui, por sinal. — Ele está respirando com mais dificuldade agora do que quando ele estava correndo por sua vida. Sinto seu coração batendo contra minhas costelas. Suas palavras são um sussurro entrecortado. — A gente talvez devesse ir lá para dentro. É mais seguro. — Mas ele não se move.
Quase não entendo sobre o que ele está falando. Só concordo com a cabeça, balançando-a no pescoço, até que lembro que ele não pode me ver. Tento lembrar como se fala, mas estou concentrada demais nos dedos que ele está descendo por minhas coxas para ser capaz de formular frases. Existe algo na escuridão absoluta, em não ser capaz de ver o que está acontecendo que me deixa embriagada de uma vertigem deliciosa.
— Sim — é tudo o que falo.
Ele ajuda a me sentar novamente, recosta sua testa na minha.
— Desculpa — diz ele. — É tão difícil me segurar. — Sua voz está perigosamente rouca; suas palavras vibram sobre minha pele.
Permito que minhas mãos deslizem sob sua camisa e sinto-o firmar-se, engolir. Traço as linhas perfeitamente esculpidas de seu corpo. Ele não é nada senão músculo, massa magra.
— Você não tem que se segurar — digo a ele.
Seu coração está batendo tão rápido que não consigo distingui-lo do meu.
O ar entre nós está em 5.000 graus. Seus dedos estão na curva logo abaixo do osso de meu quadril, provocando o pedacinho de pano que me mantém, até certo ponto, decente.
— Juliette...
— Adam?
Meu pescoço se ergue bruscamente em surpresa. Medo. Ansiedade. Adam para de se mover, congelado na minha frente. Não sei se ele está respirando. Olho em volta, mas não consigo encontrar um rosto para comparar com a voz que chamou por seu nome e começo a entrar em pânico antes que Adam esteja abrindo a porta com força, voando para fora antes que eu escute seu nome de novo.
— Adam... é você?
É um garoto.
— James!
O som abafado de impacto, dois corpos colidindo, duas vozes felizes demais para ser perigosas.
— Não posso acreditar que é mesmo você! Digo, bem, achei que você porque pensei ter escutado alguma coisa e de início imaginei que não era nada, mas então decidi que talvez devesse verificar só para ter certeza porque se fosse você e... — Ele faz uma pausa. — Espera... o que você está fazendo aqui?
— Estou em casa. — Adam ri um pouco.
— Sério? — James grita. — Está em casa para sempre?
— Sim. — Ele suspira. — Caramba, como é bom ver você.
— Senti sua falta — diz James, de repente tranquilo.
Uma respiração profunda.
— Eu também, garoto. Eu também.
— Ei, então, você já comeu alguma coisa? Benny acabou de entregar meu jantar, e eu poderia dividir um pouco com vo...
— James?
Ele interrompe.
— Sim?
— Tem alguém que quero que você conheça.
Minhas palmas estão suadas. Meu coração está na garganta. Escuto Adam andar de volta até o tanque e não percebo que ele enfiou a cabeça ali dentro até que ele acione um botão. Uma fraca luz de emergência ilumina a cabine.
Pisco algumas vezes e vejo um jovem garoto em pé, a cerca de um metro e meio de distância, cabelos loiros imundos emoldurando um rosto redondo com olhos azuis que parecem bastante familiares. Ele apertou os lábios para se concentrar. Ele está me encarando.
Adam está abrindo minha porta. Ele me ajuda a ficar de pé, mal capaz de controlar o sorriso no rosto e eu fico chocada com o nível de meu próprio nervosismo. Não sei por que estou tão nervosa, mas, Deus, estou nervosa. Este garoto é, sem sombra de dúvidas, importante para Adam. Não sei por que, mas também sinto que este momento é importante. Estou tão preocupada que eu possa estragar tudo. Tento arrumar as pregas rasgadas de meu vestido, tento suavizar as rugas no pano. Passo os dedos ao acaso pelos cabelos. É inútil.
A pobre criança está paralisada.
Adam me conduz adiante. James está um punhado de dedos abaixo da minha altura, mas é óbvio em seu rosto que ele é jovem, imaculado, intocado pelas mais duras realidades do mundo. Quero me deleitar com a beleza de sua inocência.
— James? Esta é Juliette. — Adam olha para mim. — Juliette, este é meu irmão, James.

6 comentários:

  1. James parece sem um fofo. OWNT!

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  2. AINDA BEM QUE O JAMES CHEGOU E ATRAPALHOU O CASALSINHO, JUJU TE SAI DO ADAM PQ O AMOR DA SUA VIDA É O WARNER Ò.Ó
    já percebi que beleza é d família pq o James é lindo e parece ser um fofo *-*
    #TeamWarner

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  3. — Você não tem que se segurar — digo a ele.

    '-'mds veio que é isso...

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  4. Em um triangulo, não sei porquê, mas sempre penso que um deles vai morrer.. T.T Ela não pode ficar com os dois certo? Dá um pra mim! Assim podemos evitar uma ( talvez ) morte..

    * Lanna *

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    1. Bem, aparentemente a Ju é bem indecisa, então iria ser legal se o Adam por exemplo morresse mais pro final e a Ju ficar com o Warner :v

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  5. Me parece que Adam é algum rebelde infiltrado no exército de Warner.

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Boa leitura :)