29 de dezembro de 2016

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Consigo tomar banho sem desmaiar.
Foi um banho de gato, com a esponja, mas mesmo assim me sinto melhor. Tenho uma tolerância extremamente baixa para a desordem; ela ofende meu ser. Tomo banho diariamente. Faço seis refeições ao dia. Dedico duas horas todos os dias para treinamento e exercícios físicos. E detesto andar descalço.
No entanto, estou aqui parado agora, nu, faminto, cansado e descalço no meu closet. Isso não é nada bom.
Meu closet é separado em várias seções. Camisas, gravatas, calças, blazers, e botas. Meias, luvas, cachecóis e casacos. Tudo arrumado de acordo com a cor, e depois com os tons de cada cor. Cada peça de roupa guardada aqui foi escolhida meticulosamente, e feita sob medida para servir perfeitamente no meu corpo. Não me sinto eu mesmo até estar completamente vestido; faz parte de quem eu sou e de como começo o dia.
Agora não tenho a mínima ideia do que devo vestir.
Minhas mãos tremem ao pegar um vidrinho azul que me deram essa manhã. Coloco duas das pílulas quadradas na minha língua e as deixo dissolver. Não tenho certeza para que elas servem; só sei que ajudam a recuperar o sangue que perdi. Me encosto na parede até minha cabeça clarear e sentir mais força nos pés.
Isso, uma tarefa tão simples. Está sendo um obstáculo que eu não esperava.
Primeiro coloco as meias; um prazer simples que exige mais esforço do que atirar num homem. Por um instante penso no que os paramédicos fizeram com as minhas roupas. As roupas, digo a mim mesmo, apenas roupas; estou me concentrando apenas nas roupas agora.
Nada mais. Nenhum outro detalhe.
Botas. Meias. CalçasSuéter. Meu casaco militar com tantos botões.
Tantos botões que ela arrancou.
É um pequeno lembrete, mas o suficiente para me atingir.
Tento afastar essas lembranças, mas elas não querem ir embora, e quanto mais eu tento ignorá-las, mais elas se multiplicam num monstro que não pode ser subjugado. Não percebo que caí de encontro à parede, até sentir a friagem subindo pela minha pele; estou respirando com dificuldade e apertando os olhos com força para afastar a repentina onda de humilhação.
Eu sabia que ela estava assustada, até mesmo apavorada, mas nunca pensei que esses sentimentos fossem relacionados diretamente a mim. Eu tinha acompanhado sua evolução durante aquele tempo que passamos juntos; à medida que as semanas passavam ela parecia cada vez mais à vontade. Mais feliz. Tranquila.
Tinha chegado a pensar que ela havia vislumbrado um futuro para nós dois; que ela desejava estar ao meu lado, mas simplesmente achava isso impossível.
Nunca tinha suspeitado que o motivo por trás de sua recém-descoberta felicidade estivesse relacionado a Kent.
Passei a mão na ferida do meu rosto; cobri minha boca. As coisas que eu havia dito a ela.
Uma respiração entrecortada.
O modo como a toquei.
Meu rosto enrijece.
Se fosse apenas uma atração sexual, tenho certeza que não sentiria uma humilhação tão insuportável.
Mas eu queria muito mais do que apenas seu corpo.
De repente imploro para minha mente se concentrar apenas nas paredes. Paredes. Paredes brancas. Blocos de concreto. Cômodos vazios. Espaços abertos.
Construo paredes até que elas começam a desmoronar, e então me forço a construir outras para ocuparem seu lugar. Construo e construo e fico sem me mover até minha mente estar limpa, desinfetada, não contendo nada mais que um pequeno cômodo branco. Uma única lâmpada pendurada no teto.
Limpo. Intocado. Intacto.
Pisco para afastar a avalanche que está prestes a inundar o pequeno mundo que construí; engulo com força o medo que sobe pela minha garganta. Empurro as paredes criando mais espaço no cômodo, para poder respirar com mais facilidade. Até ser capaz de ficar em pé.
Às vezes desejo sair por uns instantes do meu corpo. Quero poder deixar para trás esse corpo cansado, mas minhas correntes são tantas, a carga pesada demais. Essa vida é tudo o que me sobrou.
E eu sei que não serei capaz de me olhar no espelho pelo resto do dia.
Subitamente fico revoltado comigo mesmo. Tenho que sair daqui o mais rápido possível, ou meus pensamentos irão se rebelar contra mim. Tomo uma decisão apressada pela primeira vez, presto pouca atenção ao que estou vestindo. Coloco um par de calças limpas e saio sem camisa. Enfio meu braço sadio na manga de um blazer e deixo o outro ombro cobrir a tipoia que segura meu braço ferido. Estou ridículo vestido assim, mas amanhã encontrarei uma solução.
Antes tenho que sair desse quarto.

14 comentários:

  1. Tenho que me lembrar de não ter esperança, não ter esperança, ele pode não ficar melhor, é mais provável que ele nunca melhore

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  2. Que pecado de homem é esse??WARNNER

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    1. kkkkkkkkk melhor perssonagem

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  3. ele é gato demais, mas prefiro o kent rsrssr amo o kent.

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  4. ai meu Deus o warnner é um pedaço de mau caminho,rrsrrsr acho que ele nao é mau por essencia ele para bom em alguns momento, e em outros é tao psicopata.

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  5. Acho que ele deve ter sofrido algum trauma para ser assim :/

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  6. Eu quero um homem desse pra mim ;-;

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  7. Acho que ele sofreu alguma coisa com relação a família.

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  8. Eu gosto do Warnner e gosto do Adam não consigo decidir😓 o warnner tem seu lado escuro mais gosto dele mesmo assim

    ~MIRELLE

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Boa leitura :)