23 de dezembro de 2016

27

Os olhos de Warner se fecham muito lentamente. Ele se afasta muito lentamente. Seus lábios se contorcem em um sorriso perigoso.
— Kent.
As mãos de Adam estão firmes, o cano de sua arma pressionado sobre a parte posterior do crânio de Warner.
— Você vai autorizar nossa saída daqui.
Warner verdadeiramente ri. Ele abre os olhos e retira uma arma de dentro do bolso para apontá-la diretamente na minha testa.
— Vou matá-la agora mesmo.
— Você não é tão estúpido — diz Adam.
— Se ela se mover um milímetro sequer, eu atiro. E então corto você em pedaços.
Adam se desloca rapidamente, batendo com a coronha de sua arma na cabeça de Warner. A arma de Warner erra o alvo e Adam pega seu braço e torce seu pulso até que seu controle vacila. Apanho a arma de sua mão frouxa e bato com a coronha em sua cara. Estou surpresa com meus próprios reflexos. Jamais segurei uma arma, mas suponho que exista a primeira vez para tudo.
Aponto a arma para os olhos de Warner.
— Não me subestime. — Grito para ele.
— Cacete. — Adam não se dá ao trabalho de esconder sua surpresa.
Warner tosse ao rir, firma-se, e tenta sorrir enquanto limpa o sangue do nariz.
— Nunca subestimo você — diz ele para mim. — Nunca subestimei.
Adam sacode a cabeça por menos de um segundo, antes de seu rosto cindir-se em um enorme sorriso. Ele está sorrindo de alegria para mim, ao passo que pressiona com mais força a arma no crânio de Warner.
— Vamos sair daqui.
Apanho as duas mochilas de acampamento arrumadas no armário e jogo uma para Adam. Havíamos arrumado as malas já fazia uma semana. Se ele quisesse tentar escapar mais cedo do que o esperado, eu não faria restrições.
A sorte de Warner é que fomos misericordiosos com ele.
Mas temos sorte porque o edifício todo fora evacuado. Ele não tem ninguém em quem confiar.
Warner limpa a garganta. Ele está olhando diretamente para mim quando fala.
— Posso lhe assegurar, soldado, que seu triunfo terá vida curta. Talvez você também pudesse me matar agora, porque, quando encontrá-lo, terei todo o prazer de destruir cada osso de seu corpo. Você é um tolo se pensa que pode ir longe com isso.
— Eu não sou seu soldado. — O rosto de Adam é de pedra. — Nunca fui. Você estava tão envolvido com os detalhes de suas próprias fantasias que falhou em perceber os perigos bem diante do seu nariz.
— Ainda não podemos matá-lo — acrescentei. — Você tem de nos tirar daqui.
— Você está cometendo um grande erro, Juliette — diz ele para mim. Sua voz realmente amolecida. — Você está jogando fora todo um futuro. — Ele suspira. — Como sabe que pode confiar nele?
Olho para Adam. Adam, o garoto que sempre me defendeu, até quando não tinha nada a ganhar. Sacudo a cabeça para deixar claro isso. Lembro a mim mesma que Warner é um mentiroso. Um lunático desvairado. Um assassino psicopata. Ele nunca tentaria me ajudar, penso eu.
— Vamos antes que seja tarde demais — digo para Adam. — Ele está apenas tentando nos atrasar até os soldados voltarem.
— Ele nem mesmo se importa com você! — explode Warner. Recuo à súbita e descontrolada intensidade em sua voz. — Ele só quer um jeito de sair daqui e está usando você! — Ele avança. — Eu poderia amá-la, Juliette... Eu a trataria como uma rainha...
Adam lhe dá uma rápida chave de braço e aponta a arma para sua têmpora.
— Você obviamente não entende o que está acontecendo aqui — diz ele muito cuidadosamente.
— Então me ensine, soldado — arqueja Warner. Seus olhos estão flamejantes; perigosos. — Diga-me o que estou deixando de entender.
— Adam — Sacudo a cabeça.
Ele encontra meus olhos. Faz que sim com a cabeça. Volta-se para Warner.
— Faça a ligação — diz ele, apertando seu pescoço um pouco mais firme. — Tire-nos daqui agora.
— Só o meu cadáver permitiria que ela saísse por aquela porta. — Warner cospe sangue no chão. — Você, eu mataria por prazer — diz para Adam. — Mas Juliette é a única que quero para sempre.
— Eu não sou seu querer. — Respiro com dificuldade. Estou ansiosa por sair daqui. Estou com raiva por ele não parar de falar, porém, por mais que eu adorasse quebrar sua cara, ele não nos seria útil inconsciente.
— Você poderia me amar, você sabe. — Ele sorri estranhamente. — Ninguém poderia nos deter. Mudaríamos o mundo. Eu poderia fazê-la feliz — diz ele para mim.
Adam parece que pode quebrar o pescoço de Warner. Seu rosto está tão firme, tão tenso, tão furioso. Nunca o vi assim antes.
— Você não tem nada a oferecer a ela, seu canalha doentio.
Warner fecha os olhos por um segundo, apertando-os.
— Juliette. Não seja apressada. Não tome uma decisão irrefletida. Fique comigo. Serei paciente com você. Darei tempo para que você se ajuste. Vou tomar conta de você...
— Você é louco. — Minhas mãos tremem, mas eu miro a arma novamente para seu rosto. Preciso tirá-lo da minha cabeça. Preciso me lembrar do que ele fez comigo. — Você quer que eu seja um monstro para você...
— Quero que você viva à altura de seu potencial!
— Deixe-me ir — digo calmamente. — Não quero ser sua criatura. Não quero ferir pessoas.
— O mundo já feriu você — rebate ele. — O mundo colocou você aqui. Você está aqui por causa deles! Acha que indo embora eles vão aceitar você? Acha que pode fugir e viver uma vida normal? Ninguém vai se importar com você. Ninguém chegará perto de você... você será uma excluída como sempre foi! Nada mudou! Você pertence a mim!
— Ela pertence a mim. — A voz de Adam poderia atravessar o aço.
Warner recua. Pela primeira vez ele parece estar entendendo o que achei que era óbvio. Seus olhos estão arregalados, chocados, incrédulos, fitando-me com um novo tipo de angústia.
— Não. — Um riso curto, enlouquecido. — Juliette. Por favor. Por favor. Não me diga que ele encheu sua cabeça com ideias românticas. Por favor, não me diga que você cedeu às suas falsas declarações...
Adam joga o joelho na coluna de Warner. Ele cai no chão com um estrondo abafado e uma tomada de fôlego acentuada. Adam dominou-o por completo.
Sinto como se devesse aplaudir.
Mas estou ansiosa demais. Estou suspensa demais na descrença. Estou insegura demais para estar confiante nas minhas próprias decisões.
Preciso me recompor.
— Adam...
— Eu te amo — diz ele para mim, seus olhos exatamente tão sinceros quanto me lembro deles, suas palavras exatamente tão urgentes quanto deveriam ser. — Não deixe ele confundir você...
— Você a ama? — Warner praticamente cospe. — Você nem sequer...
— Adam. — O quarto entra e sai de foco. Estou encarando a janela. Olho novamente para ele.
Ele fica perplexo.
— Você quer pular?
Faço que sim com a cabeça.
— Mas estamos no 15º andar...
— Que escolha temos se ele não coopera? — Olho para Warner. Inclino minha cabeça. — Não há “código sete”, não é?
Os lábios de Warner se contorcem. Ele não diz nada.
— Por que você fez isso? — pergunto a ele. — Por que você acionou um alarme falso?
— Por que você não pergunta ao soldado por quem se afeiçoou tão repente? — diz Warner rispidamente, indignado. — Por que você não pergunta a si mesma por que está confiando sua vida a alguém que não consegue sequer distinguir entre uma ameaça real e uma ameaça ilusória?
Adam pragueja em um sussurro.
Nossos olhares se cruzam e ele me joga sua arma.
Ele sacode a cabeça. Pragueja novamente. Abre e fechas as mãos.
— Era só um treino.
Warner agora ri de verdade.
Adam olha para a porta, para o relógio, para meu rosto.
— Não temos muito tempo.
Estou segurando a arma de Warner na mão esquerda e a arma de Adam na direita e apontando as duas para a testa de Warner, fazendo o possível para ignorar os olhos com que ele está me perfurando. Adam usa sua mão desocupada para vasculhar seu bolso em busca de algo. Ele retira um par de cordões de plástico com fecho e chuta Warner nas costas pouco antes de atar seus braços e pernas. As botas e as luvas de Warner estão inutilizadas no chão. Adam mantém um bota pressionada em seu estômago.
— Um milhão de alarmes vão disparar no minuto em que pularmos por aquela janela — diz ele para mim. — Teremos de correr, de tal modo que não podemos arriscar quebrar as pernas. Não podemos pular.
— Então o que fazemos?
Ele passa a mão pelo cabelo e morde o lábio inferior e, por um momento delirante, tudo o que quero fazer é prová-lo. Obrigo-me a voltar para o foco da situação.
— Eu tenho uma corda — diz ele. — Teremos de descer por ela. E rápido.
Ele começa a trabalhar tirando um rolo de cordas preso a um pequeno gancho em forma de garra. Perguntei-lhe um milhão de vezes por que raios ele precisaria disso, por que ele colocaria isso em sua mochila de fuga. Ele me disse que corda nunca é demais para uma pessoa. Agora, quase quero rir.
Ele se vira para mim.
— Vou descer primeiro, de modo que possa pegá-la do outro lado...
Warner ri alto, muito alto.
— Você não pode pegá-la, seu idiota. — Ele se contorce em suas algemas de plástico. — Ela não está usando quase nada. Ele vai se matar e matá-la na queda!
Meus olhos se lançam a Warner e a Adam. Não tenho tempo para cogitar as charadas de Warner nem mais um minuto. Tomo uma decisão rápida.
— Vai. Estarei logo atrás de você.
Warner parece louco, confuso.
— O que você está fazendo?
Eu o ignoro.
— Espere...
Eu o ignoro.
— Juliette.
Eu o ignoro.
— Juliette! — Sua voz é mais tensa, mais alta, atada com raiva e terror e recusa e traição. A compreensão é uma nova peça em sua mente confusa. — Ele pode tocar você?
Adam está enrolando a mão com o lençol.
— Maldição, Juliette, me responda! — Warner está se retorcendo no chão louco de um modo que nunca pensei ser possível. Ele parece desordenado seus olhos, incrédulos, horrorizados. — Ele tocou você?
Não consigo entender por que as paredes repentinamente estão no teto. Tudo está cambaleando para o lado.
— Juliette...
Adam quebra o vidro com uma pancada rápida, um soco firme, e num instante a sala inteira está ressoando o som da histeria como nenhum alarme que jamais escutei. O quarto está retumbando debaixo de meus pés, passos estão trovejando pelos corredores, e eu sei que estamos a cerca de um minuto de ser descobertos.
Adam joga a corda pela janela e atira seu fardo sobre as costas.
— Jogue sua mochila para mim! — grita ele e eu mal posso escutá-lo. Atiro minha mochila e ele a pega logo antes de escorregar pela janela. Corro para me juntar a ele.
Warner tenta agarrar minha perna.
Sua tentativa frustrada quase me derruba, mas eu consigo cambalear para a janela sem perder muito tempo. Olho para a porta atrás de mim e sinto meu coração disparar pelos meus ossos. O som dos soldados correndo e gritando está ficando mais ruidoso, mais próximo, mais claro a cada segundo.
— Corra! — Adam está me chamando.
— Juliette, por favor...
Warner tenta pegar minha perna novamente e meu sobressalto é tão ruidoso que quase o escuto através das sirenes que rompem meus tímpanos Não vou olhar para ele. Não vou olhar para ele. Não vou olhar para ele.
Passo uma perna pela janela e agarro-me à corda. Minhas pernas nuas vão fazer disso uma experiência dolorosa. Ambas as pernas atravessam a janela. Minhas mãos estão no lugar. Adam está me chamando lá de baixo, e não sei quão longe ele está. Warner está gritando meu nome e eu levanto os olhos, apesar de meus melhores esforços.
Seus olhos são dois disparos de verde atravessando a vidraça. Penetrando em mim.
Respiro fundo e espero que eu não morra.
Respiro fundo e desço lentamente a corda.
Respiro fundo e espero que Warner não perceba o que acabou de acontecer.
Espero que ele não saiba que ele acabou de tocar minha perna.
E nada aconteceu.

19 comentários:

  1. eu fico pensando... talvez o motivo q eles não sintam nada é pq eles sofreram/tiveram traumas quando eram crianças. o motivo q talvez seja pq eles 'gostam' dela é muito meloso e pra eu sequer considerar, mas realmente, não vejo um motivo racional pra isso. a mão dela teve contato com ela até ela parar de engatinhar (até onde eu lembro de ter lido) já dava para ter morrido muitas vezes nesse meio tempo, considerando que a mãe dela provavelmente a amamentava e trocava as fraldas dela, então ou a Ju 'desenvolveu' isso depois ou a mãe dela (e o pai) ficaram 'intolerantes' ao toque dela. realmente, isso não faz muito sentido pra mim

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    1. Sim... são duas opções. Pode ser tbm. Q qm toca nela são pessoas em que ela se sente de alguma forma amada! O Warner quer o poder dela e o Adam gostava dela, ja as outras pessoas só a repeliam

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    2. Interessante essa teoria... sobre o toque ser indiferente a quem sofreu um trauma...mas não sei

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  2. Agora a história vai ficar mais interessante!

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  3. E agora? Como é que isso vai se desenrolar? Vixe

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  4. cara eu acho que o mais provavel é alguem que sente algo por ela "amor" o adam ama ela e o warner tambem do jeito dele mas ele a ama e estou feliz por ele nao se machucar com o toque dela, espero que ele perceba isso e que um dia em um dos livros "capt" ela fique com ele....
    ps: mimi

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  5. NÃO ACREDITO, AFFS MANO, TÔ COM RAIVA DO ADAM GOST*** ELE MACHUCOU MEU WARNER, EU SABIA EU SABIA EU SABIIIIIIAAAAAAA (ou pelo menos desconfiava) QUE O WARNER PODIA TOCAR NELA *0*
    #TeamJuliner

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  6. Acho que é o" amor" que eles sentem por ela que permite que eles a toquem!
    Bianca

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  7. A ideia de ser amor acho que pode até ser certa, mas isso significaria que os pais dela deixaram de amá-la antes mesmo de saber do que ela era capaz

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  8. No início estava meio parado, agr é um tiro atrás de outro.
    Eu não sei as verdadeiras intenções do Warner, não sei em quem confiar no Adam ou Warner

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  9. "Adam joga o joelho na coluna de Warner. Ele cai no chão com um estrondo abafado e uma tomada de fôlego acentuada. Adam dominou-o por completo.
    Sinto como se devesse aplaudir."
    EU AMOOOOOOR esse humor q o livro usa MARAVILHOSOOO

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  10. Agr que o Warner vai ficar loção. Se ele perceber que tocou ela é n aconteceu nada ele vai surtar muito hahaha

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  11. Pois eu espero que ele saiba *-*' Eu gostei do Adam... Mas amei o Warner :3

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  12. — Não. — Um riso curto, enlouquecido. — Juliette. Por favor. Por favor. Não me diga que ele encheu sua cabeça com ideias românticas. Por favor, não me diga que você cedeu às suas falsas declarações...

    Entendi tudo errado nessa parte, realmente achei que o Adam era dumaw :|

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  13. Me veio tanta ideia com esse capitulo tipo: sera que as mães de Adam e Warner tem algum parentesco já que ninguem conhece elas e eles são imunes ao toque da juliette; será que o warne tem o mesmo poder de juliette por isso ele conseguiu tocala ,sempre apareciia coberto com luvas e varias camadas de tecido e tinha obseção por ela.

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  14. eu acho que quem pode toca-la é somente que ela ama e confia. AScho que ela se apaixonou pelo warner

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  15. Com tudo que o Warner disse neste capítulo fico ainda mais desconfiada do Adam...Cogito a ideia de que eles sejam como ela...Por isso possam tocá-la... De verdade não consigo entender o motivo de poderem tocar nela... Até que enfim um pouco de ação!

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  16. Com tudo que o Warner disse fico ainda mais desconfiada do Adam... Cogito a ideia de que eles sejam como ela, por isso possam tocá-la! Por enquanto posso dizer que isso é realmente um enigma... Até que enfim uma pouco de ação!!!

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Boa leitura :)