23 de dezembro de 2016

26

Adam me encontra encolhida no piso do chuveiro.
Estou chorando há tanto tempo que tenho certeza de que a água quente de nada é feita senão de minhas lágrimas. Minhas roupas estão grudadas à pele, molhadas e inúteis. Quero tirá-las. Quero afogar-me na ignorância. Quero ser estúpida, idiota, muda, completamente desprovida de cérebro. Quero decepar meus próprios membros. Quer livrar-me desta pele que pode matar e destas mãos que destroem e deste corpo que não sei sequer como compreender.
Tudo está desmoronando.
— Juliette... — Ele pressiona a mão contra o vidro. Mal consigo escutá-lo.
Como não respondo, ele abre a porta do chuveiro. Ele é atingido por chuviscos rebeldes e tira as botas antes de cair de joelhos no chão de ladrilhos. Ele chega a tocar meus braços e a sensação só me faz ficar mais desesperada por morrer. Ele suspira e me puxa para cima, apenas o suficiente para levantar minha cabeça. Suas mãos seguram meu rosto e seus olhos me perscrutam, perscrutam através de mim, até que desvio o olhar.
— Sei o que aconteceu — diz ele baixinho.
Minha garganta é um réptil, coberto de escamas.
— Alguém devia simplesmente me matar — pronuncio confusamente, fendendo-me a cada palavra.
Os braços de Adam me envolvem, até que ele me puxa para cima e eu estou com as pernas bambas e nós dois estamos de pé. Ele entra no chuveiro e fecha a porta atrás de si.
Meu peito arfa.
Ele me apoia contra a parede e eu não vejo nada senão sua camiseta branca encharcada, nada senão a água escorrendo dançante pelo seu rosto, nada senão seus olhos cheios de um mundo do qual estou morrendo para fazer parte.
— Isso não foi sua culpa — sussurra ele.
— Isso é o que eu sou — custo para respirar.
— Não. Warner está errado sobre você — diz Adam. — Ele quer que você seja alguém que você não é, e você não pode permitir que ele a corrompa. Não permita que ele entre em sua mente. Ele quer que você pense que é um monstro. Ele quer que você pense que não tem escolha a não ser se juntar a ele. Ele quer que você pense que nunca será capaz de viver uma vida normal.
— Mas eu não vou viver uma vida normal. — Engulo um soluço. — Nunca... eu nunca vou...
Adam está sacudindo a cabeça.
— Você vai. Vamos sair daqui. Não vou deixar isso acontecer com você.
— C-como você pode se importar com alguém... como eu? — Mal respiro, nervosa e petrificada, mas de algum modo fito seus lábios, estudando seu corpo, contando as gotas d’água despencando das colinas e vales de sua boca.
— Porque estou apaixonado por você.
Engulo meu estômago. Meus olhos se levantam bruscamente para o seu rosto, mas eu sou uma confusão de eletricidade, zunindo com vida relâmpago, quente e fria, e meu coração é errante. Estou tremendo em seus braços e meus lábios se apartaram por nenhuma razão.
Sua boca atenua-se em um sorriso. Meus ossos desapareceram.
Estou girando de desejo.
Seu nariz está tocando meu nariz, seus lábios a um suspiro de distância seus olhos já me devorando e eu sou uma poça d’água sem braços e pernas. Posso cheirá-lo por toda parte. Sinto cada ponto de sua figura pressionado contra a minha. Suas mãos na minha cintura, agarrando meus quadris, suas pernas ardendo contra as minhas, seu peito dominando-me com força, seu corpo edificado por tijolos de desejo. O gosto de suas palavras demora-se em meus lábios.
— Sério...? — Tenho um sussurro de incredulidade, um esforço consciência para acreditar no que nunca foi realizado. Sofro uma enxurrada de emoções e fico sem palavras.
Ele me olha com tanta emoção que quase racho ao meio.
— Deus, Juliette...
E ele está me beijando.
Uma, duas vezes, até que eu tenha tido a sensação do gosto e perceba nunca terei o bastante. Ele está por toda parte acima das minhas costas sobre os meus braços e de repente ele está me beijando com mais força, com mais intensidade, com uma necessidade urgente e fervorosa que jamais conheci. Ele interrompe para respirar somente para enterrar seus lábios no meu pescoço, ao longo de minha clavícula, acima de meu queixo e bochechas, e eu estou arfando por oxigênio e ele está me destruindo com suas mãos e nós estamos encharcados na água e na beleza e na euforia de um momento que nunca pensei que fosse possível.
Ele recua com um gemido em voz baixa e eu quero que ele tire a camisa.
Preciso ver o pássaro. Preciso contar a ele sobre o pássaro.
Meus dedos estão puxando a bainha de suas roupas molhadas e seus olhos arregalam-se por apenas um segundo antes de ele mesmo rasgar o tecido. Ele agarra minhas mãos e ergue meus braços sobre minha cabeça e me prende contra a parede, beijando-me até eu ter certeza de que estou sonhando, bebendo em meus lábios com os seus lábios e ele tem gosto de chuva e almíscar doce e eu estou prestes a explodir.
Meus joelhos estão batendo um contra o outro e meu coração tão rápido que não entendo como ele ainda funciona. Ele está me beijando e com os beijos fazendo passar a dor, a ferida, os anos de autodepreciação, as inseguranças, as esperanças frustradas por um futuro que sempre pintei obsoleto. Ele está me iluminando no fogo, extinguindo nas chamas a tortura dos jogos de Warner, a angústia que me envenena a cada dia. A intensidade de nossos corpos poderia estilhaçar estas paredes de vidro.
Quase o faz.
Por um momento, estamos apenas encarando um ao outro, respirando com dificuldade até que vou enrubescendo, até ele fechar os olhos e tomar um fôlego irregular que se vai firmando, e eu coloco minha mão sobre seu peito. Atrevo-me a traçar o contorno do pássaro que paira em sua pele, atrevo-me a dedilhar a extensão de seu abdome.
— Você é meu pássaro — digo a ele. — Você é meu pássaro e vai me ajudar a voar para longe.
Adam já se foi quando saio do chuveiro.
Ele arrancou suas roupas e secou-se e saiu para que eu tivesse privacidade para me trocar. Privacidade com a qual não sei se me importo mais. Toco dois dedos em meus lábios e sinto seu gosto por toda parte. Mas, quando entro no quarto, ele não está mais em nenhum lugar. Ele tinha de se apresentar no andar de baixo.
Encaro as roupas no meu closet.
Sempre escolho um vestido com bolsos porque não sei mais onde guardar meu caderno. Ele não carrega qualquer informação incriminatória, e o único pedaço de papel que usava a caligrafia de Adam já foi destruído e mandado embora pelo vaso sanitário, mas eu gosto de mantê-lo próximo de mim. Ele representa muito mais do que algumas palavras rabiscadas no papel. Ele é um pequeno símbolo de minha resistência.
Enfio o caderno em um bolso e decido finalmente que estou pronta para ficar frente a frente comigo mesma. Respiro fundo, afasto dos olhos as mechas molhadas de cabelo e entro no banheiro. O vapor do chuveiro nublou o espelho. Estendo a mão em uma tentativa de fazer um pequeno círculo no vidro embaçado. Apenas grande o suficiente.
Um rosto assustado me devolve o olhar.
Toco minhas bochechas e estudo a superfície refletida, estudo a imagem de uma jovem que é ao mesmo tempo estranha e familiar para mim. Meu rosto é mais magro, mais pálido, as maçãs do rosto mais altas do que me lembro, minhas sobrancelhas soerguidas acima de dois olhos arregalados nem azuis nem verdes, mas algo entre essas duas cores. Minha pele esta corada de calor e algo chamado Adam. Meus lábios estão muito rosa. Meus dentes estão extraordinariamente alinhados. Meu dedo traça a extensão de meu nariz, seguindo a forma de meu queixo, quando vejo um movimento pelo canto do olho.
— Você é tão linda — diz ele para mim.
Estou rosa e vermelha e marrom, tudo de uma vez. Baixo a cabeça e tiro os olhos do espelho apenas para que ele me tome em seus braços.
— Tinha esquecido meu próprio rosto — sussurro.
— Apenas não esqueça quem você é — diz ele.
— Eu não sei mesmo.
— Sim, você sabe. — Ele ergue meu rosto. — Eu sei.
Fito a força de seu rosto, de seus olhos, de seu corpo. Tento compreender a confiança que ele tem em quem ele acha que eu sou e percebo que seu que seu apoio é a única coisa que me impede de mergulhar no lago de minha própria loucura. Ele sempre acreditou em mim. Mesmo furtivamente, em silêncio, lutou por mim. Sempre.
Ele é meu único amigo.
Ele toma minha mão e a detém em meus lábios.
— Eu sempre amei você — digo a ele.
O Sol nasce, descansa, brilha em seu rosto, e ele quase sorri, quase não segue enfrentar meus olhos. Seus músculos relaxam, seus ombros encontram alívio no peso de um novo tipo de milagre e ele solta o ar dos pulmões. Ele toca meu rosto, toca meus lábios, toca a ponta de meu queixo e eu pisco e ele está me beijando, ele está me puxando para seus braços e para o ar e de um modo estamos na cama e enroscados um no outro e estou entorpecida de emoção, entorpecida por todo o momento de ternura. Seus dedos deslizam em meu ombro, traçam minha silhueta, descansam em meus quadris. Ele me puxa para mais perto, sussurra meu nome, derrama beijos por minha garganta e luta com o grosso tecido de meu vestido. Suas mãos tremem muito levemente, seus olhos estão cheios de sentimento, seu coração vibra de dor e afeto e eu quero ficar aqui, em seus braços, em seus olhos, pelo resto de minha vida.
Deslizo minhas mãos sob sua camisa e ele engasga com um gemido que se transforma em um beijo que necessita de mim e quer a mim e tem de me possuir tão desesperadamente que é ele a mais aguda forma de tortura. Seu peso está pressionado ao meu, em cima do meu, pontos infinitos de sentimento por todas as terminações nervosas de meu corpo e sua mão direita está atrás de meu pescoço e sua mão esquerda está me atraindo e seus lábios estão descendo minha blusa e eu não entendo por que ainda preciso usar roupas e eu sou uma nuvem carregada de trovões e relâmpagos e a possibilidade de explodir em lágrimas a qualquer momento inoportuno. Êxtase êxtase êxtase está batendo em meu peito.
Não lembro o que significa respirar.
Eu nunca
jamais
jamais
soube
o que significava sentir.
Um alarme está martelando através das paredes.
O quarto dispara um sinal sonoro barulhento e Adam endurece, recua; seu rosto entra em colapso.
— Este é um “código sete”. Todos os soldados devem se apresentar ao Quadrante imediatamente. Este é um “código sete”. Todos os soldados devem se apresentar ao Quadrante imediatamente. Este é um “código sete”. Todos os soldados devem se apresentar ao Quadra...
Adam está de pé e me puxando para cima e a voz ainda está gritando ordens por meio de um sistema de alto-falantes instalado no edifício.
— Houve uma violação — diz ele, sua voz quebrada e em sopro, seus olhos lançando-se entre mim e a porta. — Jesus, não posso simplesmente deixá-la aqui...
— Vá... — digo a ele. — Você tem de ir... ficarei bem...
Passos retumbam pelos corredores e os soldados gritam tão alto uns com os outros que posso ouvi-los através das paredes. Adam ainda está em serviço. Ele tem de representar. Ele tem de manter as aparências até que consigamos sair. Eu sei disso.
Ele me puxa para perto.
— Isso não é uma piada, Juliette... não sei o que está acontecendo... pode ser qualquer coisa...
Um dique metálico. Uma chave mecânica. A porta se abre deslizando e Adam e eu nos afastamos três metros em um pulo.
Adam corre para a saída ao mesmo tempo que Warner está entrando.
Ambos congelam.
— Tenho absoluta certeza de que esse alarme está disparando há pelo menos um minuto, soldado.
— Sim, senhor. Não estava certo do que fazer com ela. — Ele, de repente, está contido, uma estátua perfeita. Ele acena com a cabeça para mim como se eu fosse algo secundário, mas eu sei que ele está apenas um pouco mais rígido nos ombros. Respirando apenas um batimento mais rápido.
— Sorte sua, estou aqui para cuidar disso. Você pode se apresentar ao seu comandante.
— Senhor. — Adam concorda com a cabeça, vira-se em um só salto e sai pela porta. Espero que Warner não tenha reparado nessa hesitação.
Warner se vira para mim com um sorriso tão calmo e casual que eu começo a perguntar se o edifício está de fato em desordem. Ele estuda meu rosto. Meu cabelo. Olha para os lençóis amarrotados atrás de mim e eu sinto o se tivesse engolido uma aranha.
— Você tirou uma soneca?
— Não consegui dormir noite passada.
— Você rasgou seu vestido.
— O que você está fazendo aqui? — Preciso que ele pare de me encarar, preciso que ele pare de se absorver dos detalhes de minha existência.
— Se você não gosta do vestido, pode sempre escolher um diferente, você sabe. Eu mesmo o escolhi.
— Está tudo bem. O vestido é bonito. — Olho sem razão nenhuma para o relógio. São quase 4h30min da tarde. — Por que você não me diz o que está havendo?
Ele está próximo demais. Ele está tão próximo e olhando para mim e seus pulmões não estão conseguindo se expandir.
— Você realmente devia se trocar.
— Eu não quero me trocar. — Não sei por que estou tão nervosa. Por que ele está me deixando tão nervosa. Por que o espaço entre nós está se estreitando tão rapidamente.
Ele engancha um dedo no rasgo próximo à cintura baixa de meu vestido e eu contenho um grito.
— Isso é inaceitável.
— Está bem...
Ele dá um puxão tão forte no rasgo que o tecido se abre e cria-se uma fenda do lado de minha perna.
— Assim está um pouco melhor.
— O que você está fazendo...
Suas mãos serpenteiam-me cintura acima e prendem meus braços no lugar e sei que preciso me defender, mas estou congelada e quero gritar, mas minha voz está quebrada quebrada quebrada. Sou um sopro entrecortado de desespero.
— Tenho uma pergunta — diz ele, e eu tento chutá-lo de dentro deste vestido desprezível e ele apenas me aperta contra a parede, o peso de seu corpo me pressionando, cada centímetro dele coberto de roupa, uma camada protetora entre nós. — Eu disse que tenho uma pergunta, Juliette.
Sua mão escorrega para dentro de meu bolso tão rapidamente que levo um instante para perceber o que ele fez. Estou ofegante contra a parede, tremendo e tentando recobrar o raciocínio.
— Estou curioso — diz ele. — O que é isto?
Ele está segurando meu caderno entre dois dedos.
Ah, Deus.
Este vestido é apertado demais para esconder o contorno do caderno e eu estava ocupada demais olhando meu rosto para conferir meu vestido no espelho. É tudo culpa minha tudo culpa minha tudo culpa minha. Não posso acreditar nisso. É tudo culpa minha. Eu já devia saber.
Não digo nada.
Ele inclina a cabeça.
— Não me recordo de ter lhe dado um caderno. Certamente também não me lembro de ter lhe dado permissão para possuir qualquer bem.
— Eu trouxe isso comigo — minha voz trava.
— Agora você está mentindo.
— O que você quer de mim? — entro em pânico.
— Que pergunta estúpida, Juliette.
O suave som de metal polido deslizando. Alguém abriu a porta.
Clique.
— Tire suas mãos dela antes que eu enterre uma bala na sua cabeça.

17 comentários:

  1. Prevejo tretas das grandes vindo por aí... Aliás, desde o momento que os pombinhos começaram o "romance secreto" tava na cara que ia dar MERDA né??!!!

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    1. Concordo plenamente!

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    2. Aaaah scrr! Pois é.. Desde o momento do primeiro beijo. Eu n acho que ele vá atirar.. ele vai?

      * Lanna *

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  2. Naaaaaaaao....isso não está acontecendo! Adam se vc machucar o Warner...Eu acabo com vc!

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  3. Se for Adam eu mato ele, desse jeito ele quer morrer, poderia ficar calado?? Assim, ele vira um cara morto!!!

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  4. Isso aí! Gosto assim. Muita tensão

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  5. Vai Adam acaba com o warner

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  6. Senti alívio quando a sirene tocou e os interrompeu antes q eles passassem da etapa dos beijos -_- ADAM SEU FDP LINDO E SEDUZENTE SE VC MACHUCAR O WARNER, EU TE ESTRANGULO, SAI FORA QUE O WARNER NÃO PODE MORRER Ò.Ó

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  7. Quase que ela faz igual a Celaena. ... " FIA. ...ESPERA UM PPOUCO. .. PRECISA BEIJAR E DAR TUDO NO MESMO DIA NÃO"... hahaha

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    1. MDS MURRI KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK também pensei na Cel, no primeiro beijo entre ela e o Chaol, ela já foi dando kkkkk

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  8. Só eu que não consigo shippar Adam e Juliette? Acho tão sem graça...

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  9. Se vcs matarem o adam vcs morrem viu morrem

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  10. Essa coisa dele ficar tocando nela me da nojo,credo

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Boa leitura :)