23 de dezembro de 2016

22

Leva-se cinco anos para andar até o elevador. Mais 15 para subir. Tenho um milhão de anos no momento em que entro no meu quarto. Adam está imóvel, em silêncio, perfeitamente sincronizado e mecânico em seus movimentos. Não há nada em seus olhos, em seus membros, nos gestos de seu corpo, que expliquem que ele sequer sabe meu nome.
Observo-o mover-se rapidamente, ligeiramente, cuidadosamente ao redor do quarto, buscando os pequenos aparelhos que pretendiam monitorar meu comportamento e desativando-os um a um. Se alguém perguntar por que minhas câmeras não estão funcionando, Adam não entrará em apuros. Esta ordem veio de Warner. Isso a torna oficial.
Isso me torna possível ter alguma privacidade.
Pensei que precisaria de privacidade.
Sou uma tola.
Adam não é o garoto de que me lembro.

Estava na terceira série.
Acabara de me mudar para a cidade depois de ser expulsa convidada a sair da minha antiga escola. Meus pais estavam sempre se mudando, sempre fugindo das bagunças que eu fazia, das brincadeiras de criança que eu arruinava, das amizades que nunca tive. Ninguém sequer falou sobre meu “problema”, mas o mistério que envolve minha existência de algum modo piorou as coisas. A imaginação humana é muitas vezes desastrosa quando abandonada à própria sorte. Somente ouvia os fragmentos de seus sussurros.
— Aberração!
— Você ouviu o que ela fez...?
— Que perdedora.
— ... foi expulsa de sua antiga escola...
— Psicopata!
— Ela pegou algum tipo de doença...
Ninguém falava comigo. Todo mundo encarava. Era jovem o bastante para ainda chorar. Almoçava isolada por uma cerca de tela de arames e nunca olhava no espelho. Nunca quis ver o rosto que todo mundo tanto odiava.
As meninas costumavam me chutar e fugir. Os garotos costumavam jogar pedras em mim. Ainda tenho cicatrizes em alguns lugares.
Assistia ao mundo passar através daquelas cercas de tela de arames. Fitava os carros e os pais deixando seus filhos e os momentos dos quais nunca faria parte. Isso foi antes de as doenças se tornarem tão comuns e a morte ser parte natural das conversas. Isso foi antes de percebermos que as nuvens estavam na cor errada, antes de percebermos que todos os animais estavam morrendo ou infectados, antes de percebermos que todo mundo ia morrer de fome, e rápido. Isso foi na época em que ainda pensávamos que nossos problemas tinham solução. Naqueles tempos, Adam era o garoto que costumava ir a pé para a escola. Adam era o garoto que se sentava a três fileiras de mim. Suas roupas eram piores que as minhas, seu almoço, inexistente. Nunca o vi comer.
Certa manhã, ele chegou à escola em um carro.
Sei porque o vi sendo empurrado para fora dele. Seu pai estava bêbado e dirigindo, gritando e agitando as mãos por algum motivo. Adam permaneceu imóvel e encarou o chão como à espera de algo, preparando-se para o inevitável. Observei um pai esbofetear seu filho de oito anos na cara. Observei Adam cair no chão e ficar lá, imóvel, enquanto era chutado repetidamente nas costelas.
— É tudo culpa sua! É culpa sua, seu merda imprestável — gritou seu pai uma vez, outra, e mais outra vez, até que vomitei ali mesmo.
Adam não chorou. Ele ficou enrolado no chão até que seu pai desistiu, até que ele foi embora. Somente quando teve certeza de que todo mundo tinha ido embora, ele fez seu corpo romper em soluços arfantes, seu pequeno rosto manchado na sujeira, seus braços segurando o abdome machucado.
Não consegui tirar os olhos.
Jamais consegui tirar aquele som da cabeça, aquela cena da cabeça.
Foi quando comecei a prestar atenção em Adam Kent.

— Juliette.
Engulo a respiração e queria que minhas mãos não estivessem tremendo. Queria não ter olhos.
— Juliette — diz ele novamente, desta vez ainda mais suave e meu está em um liquidificador e eu sou feita de mingau. Meus ossos estão cobiçando cobiçando cobiçando seu calor.
Não vou me virar.
— Você sempre soube quem eu era — sussurro.
Ele não diz nada e fico subitamente desesperada por ver seus olhos. imediatamente preciso ver seus olhos. Viro-me para vê-lo de frente apesar de tudo, somente para ver que ele está encarando minhas mãos.
— Lamento — é tudo o que ele diz.
Recosto-me contra a parede e fecho as pálpebras. Tudo era uma encenação. Roubar minha cama. Perguntar meu nome. Perguntar sobre minha família. Ele estava encenando para Warner. Para os guardas. Para quem mais quer que estivesse assistindo. Nem mesmo sei mais no que acreditar.
Preciso dizer isso. Preciso botar isso para fora. Preciso abrir minhas feridas e sangrar para ele.
— É verdade — digo a ele. — Sobre o garotinho. — Minha voz está tremendo muito mais do que pensei que fosse. — Eu fiz aquilo.
Ele fica calado por muito tempo.
— Nunca entendi. Na primeira vez em que escutei sobre isso. Não compreendia até agora o que tinha acontecido.
— O quê? — Nunca soube que eu pudesse piscar tanto.
— Isso nunca fez sentido para mim — diz ele, e cada palavra chuta-me as vísceras. Ele levanta os olhos e parece mais angustiado que já quis que estivesse. — Quando escutei sobre isso. Todos nós escutamos sobre isso. A escola toda...
— Foi um acidente — digo a duras penas, cuidando para não desmoronar. — E... E-le caiu... e eu estava tentando ajudá-lo... e eu só... eu não... eu pensei...
— Eu sei.
— O quê? — Solto um arquejo tão alto que é como ter engolido o quarto inteiro em uma só respiração.
— Acredito em você — diz ele para mim.
— O quê... por quê? — Meus olhos estão piscando para conter as lágrimas, minhas mãos, hesitantes, meu coração, cheio de esperança nervosa.
Ele morde o lábio inferior. Desvia o olhar. Caminha até a parede. Abre e fecha a boca várias vezes antes de as palavras irromperem.
— Porque conheci você, Juliette... eu... Deus... eu só... — Ele cobre a boca com a mão, pousa os dedos no pescoço. Coça a testa, fecha os olhos, aperta os lábios. Força-os a abrir. — Era o dia em que eu ia falar com você. — Um estranho tipo de sorriso. Um estranho tipo de risada. Ele passa a mão pelos cabelos. Ergue os olhos para o teto. Dá as costas para mim. — Finalmente estava indo falar com você. Finalmente estava indo falar com você e eu... — Ele sacode a cabeça, insistentemente, e tenta outra risada penosa. — Deus, você não se lembra de mim.
Centenas de milhares de segundos passam e eu não consigo parar de morrer.
Quero rir e chorar e gritar e correr e não consigo escolher qual fazer primeiro.
Confesso.
— Claro que me lembro de você. — Minha voz é um sussurro estrangulado. Fecho os olhos. Lembro-me de você todos os dias, eternamente cada simples momento da minha vida. Você foi o único que olhou para mim como um ser humano.
Ele nunca falou comigo. Ele nunca falou uma só palavra para mim, mas ele foi o único que ousou se sentar perto de minha cerca. Ele foi único que sempre me apoiou, a única pessoa que brigava por mim, o único que esmurrara alguém no rosto por ter jogado uma pedra na minha cabeça. Nem mesmo sei como agradecer.
Ele foi a coisa mais próxima de um amigo que já tive.
Abro os olhos e ele está de pé bem na minha frente. Meu coração é um campo de lírios que florescem sob um painel de vidro, tamborilando à vida tal como na precipitação de gotas de chuva. Seu maxilar está tão rígido quanto seus olhos tão rígidos quanto seus punhos tão rígidos quanto a tensão de seus braços.
— Você sempre soube? — Três palavras sussurradas e ele quebrou minha represa, arrombou meus lábios e roubou meu coração mais uma vez. Mal consigo sentir as lágrimas escorrendo pelo meu rosto.
— Adam. — Tento rir e meus lábios erram em um soluço abafado. — Reconheceria seus olhos em qualquer lugar do mundo.
E é isso.
Desta vez não há autocontrole.
Desta vez estou em seus braços e contra a parede e estou tremendo por toda parte e ele é tão gentil, tão cuidadoso, tocando-me como se eu fosse de porcelana e eu quero me estilhaçar.
Ele está passando as mãos pelo meu corpo, passando os olhos em meu rosto, dando voltas com seu coração e eu estou correndo maratonas com minha mente.
Tudo está pegando fogo. Minhas bochechas minhas mãos o buraco de meu mago e eu estou afogando-me em ondas de emoção e uma tempestade de raiva fresca e tudo o que sinto é a força de sua silhueta contra a minha e eu nunca jamais jamais jamais quero esquecer este momento. Quero estampá-lo na minha pele e guardá-lo para sempre.
Ele toma minha mão e a aperta em seu rosto e eu sei que eu nunca entendi a beleza do sentimento humano antes disso. Sei que ainda estou chorando quando meus olhos tremulam cerrados.
Sussurro seu nome.
E ele está respirando mais forte do que eu e de repente seus lábios estão no meu pescoço e estou arfando e morrendo e agarrando-me em seus braços e ele está me tocando me tocando me tocando e eu sou trovão e relâmpago e estou me perguntando quando vou acordar.
Uma, duas, uma centena de vezes seus lábios provam da minha nuca e eu me pergunto se é possível morrer de euforia. Ele encontra meus olhos apenas para tomar meu rosto com as mãos em concha e eu estou corando de prazer e dor e impossibilidade através destas paredes.
— Há tanto tempo quero beijá-la. — Sua voz é rouca, irregular, profunda meu ouvido.
Estou congelada por antecipação pela expectativa e estou tão preocupada com o fato de que ele vai me beijar, tão preocupada com o fato de que ele não vai. Estou fitando seus lábios e não percebo quão próximos estamos até nos separarmos.
Três nítidos gritos eletrônicos reverberam por todo o quarto e Adam olha para cima de mim como se por um momento não soubesse onde está. Ele pisca. E corre em direção a um interfone para apertar os botões. Reparo que ele ainda está respirando com dificuldade.
Estou tremendo.
— Nome e número — pede a voz do interfone.
— Kent, Adam. 45B-86659.
Uma pausa.
— Soldado, você está ciente de que as câmeras em seu quarto foram desativadas?
— Sim, senhor. Tive ordens diretas para desmontar os aparelhos.
— Quem autorizou esta ordem?
— Warner, senhor.
Uma pausa mais longa.
— Vamos verificar e confirmar. Mexer sem autorização em aparelhos de segurança pode resultar em dispensa imediata e desonrosa, soldado. Espero que esteja ciente disso.
— Sim, senhor.
A linha fica em silêncio.
Adam desaba contra a parede, seu peito arfando. Não tenho certeza, mas poderia jurar que seus lábios se contorciam no menor dos sorrisos. Ele fecha os olhos e expira.
Não tenho certeza do que fazer com o alívio caindo em minhas mãos.
— Venha cá — diz ele, seus olhos ainda fechados.
Avanço na ponta dos pés e ele me puxa para seus braços. Inala o perfume de meus cabelos e beija minha cabeça. Nunca senti algo tão incrível na minha vida. Nem mais sou humana. Sou muito mais. O Sol e a Lua fundiram-se e a Terra virou de cabeça para baixo. Sinto que posso ser exatamente quem quero ser em seus braços.
Ele me faz esquecer o terror de que sou capaz.
— Juliette — sussurra em meu ouvido. — Precisamos dar o fora daqui.

35 comentários:

  1. A proposito, Karina amooo o seu blog. já li uns 10 livros aq.

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  2. esse é o momento em que eu saio por um tempo pra me recuperar dessa dose de melado de açúcar

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  3. Se misturar uma Adam, um Daniel, um Jesse e um patch vc não prescisa de mais nada. Meu. Deus. Ti apaixonada.

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    1. Daniel de Fallen saca? É impossível não ter ouvido falar daquela perfeição...

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    2. E o Jace e o Simon tbm <3

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    3. Se vc achar algo como isso esconda de mim e de todas Há Há e adicione um Dimitri
      Fabiana Santos

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    4. Lembrei do Maxon tbm assim só de relance

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    5. Por favor, não esqueça o carinho, a beleza e o incrível humor e sarcasmo do Will.
      Jace, Will, Patch, Dimitri e Adam. Meu conceito de perfeição.

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    6. Will? de que serie?não encontro.

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    7. põe um Damon ai tbm!!

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  4. A pessoa passa a noite sem dormir, são 04:47 da manhã e eu tô lendo esse capítulo maravilhoso só pra ter certeza de que não vou mais dormir

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  5. Ainda não entendo...Essa mina passa a vida inteira nessa autodepreciação, sendo SEMPRE uma vítima, bancando a coitadinha e o melodrama chato do tipo "ninguem me ama", "ninguem me entende", "nunca posso tocar ninguem" "sou um monstro" e tals (Eu posso até entender que é um porre mesmo). Mas sério ela NUNCA vai reagir??? Sabe, não precisar ser como Warner quer mas tbm não precisar ser essa barata tonta chorona, as vezes, ligar o FODA-SE faz bem pra saúde querida #sóumadica!!!!
    Eai pra completar, eis que aparece uma pessoa que ela pode FINALMENTE tocar (uma pessoa gostosa por sinal!!!), que não por acaso, é apaixonado nela desde a infância, e ela fica aí brochando??? AMIGAAAAA APROVEITA, BEIJA LOGO ESSE BOY MAGIA AÍ!!! (Eu tenho uma raiva dessas protagonistas mulheres que sempre, SEMPRE espera o cara beijar primeiro, como se fosse falta de educação a mulher tomar a iniciativa ...aff)

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    1. Acho que estamos acompanhando a mudança dela passo a passo. Espero que ela se torne essa grande mulher que estamos esperando.

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  6. PQQQQQQQQQ PQQQQQQQQQ PQ N BEIJO MDS PRAQ FAZER ISSO COMIGO TO A + DE 20 CAPÍTULOS ESPERANDO PF BEIJA LOGO

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  7. Não entendi! Pq vc não beijou ele! Querida! Isso não é um conto de fadas, para de ser princesa!

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  8. Menina! TOMA VERGONHA NA CARA E BEIJA ESSE BOY ANTES QUE ELE ESCAPE DA SUA FALTA DE ATITUDE!

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  9. Ai meu coraçãozinho... heart attack em ação...

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  10. AI MEU CORAÇÃO o.O QUE CAPÍTULO FOI ESSE 100OR??? FOI TÃO FOFO E QUENTE *-* MDS PQ CARALHOS VCS Ñ SE BEIJARAM??? -_- AGARRAVA ELE JU E TASCAVA O BEIJO. Ai tô dividida, eu quero shippar JuliDam, mas ao mesmo tempo não quero*^*

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  11. Kkkkkkkkkkk esse povo mais Juliette beixa logo por eu quero ele pra mim kkkkkkk

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  12. Eu escrevi errado kkkkkkk é beija logo Juliette

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  13. Aiiii meuu coracaaaaooo...
    Vou te um infarto logo logoooo.

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  14. Juliette é lerda.. Que nem eu! XD


    * Lanna *

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  15. O fato dela nunca ter sido tocada deve tornar esses "toques" do Adam bem intensos ashuahsya

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    1. kkkkkkkkkkkk mds , olha no q vc foi pensar

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  16. EU TO MORTA FEAT ENTERRADA
    MANAS,QUE CAPITULO FOI ESSE?
    PORQUE ESSA GAROTA NÃO BEIJOU ELE? SOCORRO.EU TO APAIXONADA PELO ADAM,ALGUÉM ME AJUDA,MAS UM CRUSH NA MINHA VIDA

    Desta vez estou em seus braços e contra a parede e estou tremendo por toda parte e ele é tão gentil, tão cuidadoso, tocando-me como se eu fosse de porcelana e eu quero me estilhaçar.

    #morta

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  17. O waner me lembra o demon, cruel por fora mais despedaçado por dentro.

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  18. Tatah/UMA_LEITORA_QUALQUER_S220 de novembro de 2017 18:45

    Esse é o momento em que eu paro e penso: Porra, até ela tem o chamado ``Amor Da Sua Vida`` Hihi ^^

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  19. — Adam. — Tento rir e meus lábios erram em um soluço abafado. — Reconheceria seus olhos em qualquer lugar do mundo.❤❤❤❤❤❤❤❤❤

    ESSE CAPITOLO FOI TÃO LINDO meuu deus estou morta de paixão


    ME LEMBROU Á PARTE NO LIVRO FALLEN QUE A LUCINDA ACARICIA AS ASSAS DO DANIEL E ELE FICA MORRENDO DE PRAZER kkkkkkks


    QUEM LEU LEMBRA♡

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Boa leitura :)