29 de dezembro de 2016

21

É só engolir as lágrimas com bastante frequência que elas vão começar a parecer ácido escorrendo pela sua garganta. É aquele momento terrível quando você está sentada quieta tão quieta porque você não quer que a vejam chorar você não quer chorar, mas seus lábios não param de tremer e seus olhos estão cheios até a borda com súplica e eu imploro e por favor e me desculpe e tenha piedade e talvez dessa vez será diferente mas é sempre igual. Não tem onde se esconder. Ninguém ao seu lado.
Acenda uma vela para mim, eu costumava murmurar para o nada.
Alguém
Qualquer um
Se você está aí fora
Por favor me diga que pode sentir esse fogo.

É o dia cinco das nossas patrulhas, e nada ainda.
Lidero o grupo todas as noites, marchando em silêncio nessas paisagens frias de inverno. Procuramos por passagens escondidas, bueiros camuflados — qualquer indicação de que possa existir outro mundo sob nossos pés.
E toda noite retornamos para a base sem nada.
A futilidade desses últimos dias me atinge, amortecendo meus sentidos, me deixando numa espécie de torpor do qual não consigo me livrar. Todo dia acordo procurando uma solução para os problemas que eu mesmo provoquei, mas não tenho ideia de como consertar isso.
Se ela está lá fora, iremos encontrá-la. E ele a matará.
Só para me ensinar uma lição.
Minha única esperança é encontrá-la primeiro. Talvez possa escondê-la. Ou dizer a ela para fugir. Ou fingir que ela já está morta. Ou talvez convencê-lo que ela é diferente, melhor que os outros; que vale a pena deixá-la viver.
Pareço um idiota patético e desesperado.
Sou uma criança novamente, me escondendo nos cantos escuros e rezando para ele não me encontrar. Esperando que ele esteja de bom humor hoje. Que talvez tudo dê certo. Que talvez minha mãe não vá estar gritando dessa vez.
Incrível como eu rapidamente me reverto para outra versão de mim mesmo na presença dele.
Fico entorpecido.
Tenho realizado minhas tarefas mecanicamente; isso exige apenas um esforço mínimo. Andar é simples. Comer é algo ao qual me acostumei.
Não consigo parar de ler seu diário.
Meu coração sofre, de certo modo, mas não consigo deixar de virar as páginas. Sinto como se estivesse batendo num muro invisível, como se meu rosto estivesse envolto em plástico e eu não pudesse respirar, não pudesse ver, nem ouvir qualquer som a não ser as batidas do meu próprio coração pulsando nos meus ouvidos.
Quis poucas coisas nessa vida.
Não pedi nada a ninguém.
E, agora, tudo que estou pedindo é outra chance. Uma oportunidade de vê-la novamente. Mas a menos que descubra um jeito de impedi-lo, essas palavras são as únicas coisas que restarão dela.
Esses parágrafos e essas sentenças. Essas cartas.
Fiquei obcecado. Carrego esse caderninho comigo para todos os lugares por onde vou, passo todo meu tempo livre tentando decifrar as palavras que ela rabiscou nas margens, criando histórias para acompanhar os números que ela escreveu.
Também notei que a última página está faltando. Arrancada.
Não consigo imaginar por que. Procurei uma centena de vezes no livro todo, procurando nas outras seções onde essa página poderia estar, mas não achei nada. E de certa forma me sinto enganado, sabendo que tem um trecho que não vi. Não é nem mesmo o meu diário; não tenho nada a ver com isso, mas li as palavras dela tantas vezes que sinto que agora elas são minhas. Posso praticamente recitá-las de cor.
É estranho saber o que se passa na cabeça dela e não poder vê-la. Sinto que ela está aqui, bem na minha frente. Sinto que a conheço tão intimamente, tão secretamente. Fico seguro na companhia dos seus pensamentos; de certo modo me sinto acolhido. Compreendido. Tanto que às vezes eu esqueço que foi ela quem colocou esse buraco de bala no meu braço.
Quase esqueço que ela ainda me odeia, apesar de eu ter me apaixonado tão intensamente por ela.
E me apaixonei.
Perdidamente.
Fui até o fundo do poço. Até o fim. Nunca me senti assim na minha vida. Nada parecido. Senti vergonha e covardia, fraqueza e força. Conheci o terror e a indiferença, ódio de mim mesmo e repugnância geral. Vi coisas que não podem ser vistas.
E ainda assim nunca havia experimentado esse sentimento terrível, horrível e paralisante. Me sinto aleijado. Desesperado e fora de controle. E está ficando pior. Todos os dias me sinto doente. Vazio e ferido por dentro.
O amor é um cretino perverso e sem coração.
Estou ficando louco.

Caio de costas na cama, completamente vestido. Casaco, botas, luvas. Estou cansado demais para tirar a roupa. Essas rondas noturnas têm me deixado pouco tempo para dormir. Parece que estou em constante estado de exaustão.
Minha cabeça cai no travesseiro e pisco uma vez. Duas.
Desmaio.

5 comentários:

  1. "O amor é um cretino perverso e sem coração."

    ResponderExcluir
  2. Essa relação dele com o pai me lembra a relação do Quatro de Divergente com o Pai dele. Não vejo a hora do Warner encontrar a Juju

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. VDD. E lembre...o Quatro era um amor... talvez o Warner alem de meio doidinho também seja

      Excluir
  3. Que talvez minha mãe não vá estar gritando dessa vez. Alguma coisa o pai dele deve ter feito com a mãe dele

    ResponderExcluir
  4. O fato dele ter sido tratado de forma tão covarde pelo pai a vida toda não apaga o que ele fez, todas as mortes a sangue frio. O Warner é doente. Esse jeito que todos estão vendo ele está mais para Síndrome de Estocolmo.

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)