23 de dezembro de 2016

20

São oito horas da manhã e eu estou vestindo um vestido na cor de florestas mortas e latas velhas.
O ajuste é mais apertado que qualquer coisa que já vesti em minha vida, com corte moderno e angular, quase casual; o tecido é rígido e grosso, mas algum modo arejado. Olho para minhas pernas e me admiro que possua um par.
Sinto-me mais exposta do que já estive em toda a minha vida.
Por dezessete anos cuidei de cobrir cada centímetro de pele exposta e Warner está me forçando a descascar as camadas. Posso apenas supor que ele esteja fazendo isso de propósito. Meu corpo é uma flor carnívora, uma planta doméstica envenenada, uma arma carregada com um milhão de gatilhos e ele á mais que pronto a atirar.
Toque-me e sofra as consequências. Nunca houve exceções a essa regra.
Nunca, exceto Adam.
Ele me deixou em pé encharcada no chuveiro, absorvendo um aguaceiro torrencial de lágrimas quentes. Observei através do vidro embaçado enquanto ele se enxugava e entrava em seu uniforme.
Olhava enquanto ele saía furtivamente, perguntando-me a todo momento por que por que por quê.
Por que ele pode me tocar?
Por que ele me ajudaria?
Ele se lembra de mim?
Minha pele ainda está vaporosa.
Meus ossos estão enfaixados nas pregas apertadas deste estranho vestido, o zíper, a única coisa que me mantém coesa. Isso, e a esperança de algo com que sempre jamais ousei sonhar.
Meus lábios permanecerão eternamente costurados aos segredos desta manhã, mas meu coração está tão cheio de confiança e admiração e paz e possibilidade que está prestes a explodir, e eu me pergunto se isso rasgará o vestido.
A esperança está me abraçando, segurando-me em seus braços, enxugando minhas lágrimas e dizendo-me que hoje e amanhã e daqui a dois dias eu estarei bem e eu estou tão delirante que de fato me atrevo a acreditar nisso.
Estou sentada em um quarto azul.
As paredes são revestidas por tecido na cor de um perfeito céu de verão, o chão é coberto de um carpete de cinco centímetros de espessura, o quarto inteiro vazio exceto por duas cadeiras aveludadas expelidas de uma constelação delas. Todos os matizes variados são como uma ferida, como um belo engano, como um lembrete do que eles fizeram a Adam por minha causa.
Estou sentada sozinha em uma cadeira aveludada em um quarto azul com um vestido feito de olivas. Sinto que o peso do caderno em meu bolso é como equilibrar uma bola de boliche no joelho.
— Você está linda.
Warner move-se rapidamente dentro do quarto como se esmagasse ar para viver. Ele não está acompanhado.
Meus olhos involuntariamente espiam meus tênis e eu me pergunto se quebrei alguma regra ao evitar as pernas de pau em meu closet, sobre as quais estou certa de que não são para os pés. Levanto os olhos e ele está de pé bem na minha frente.
— Verde fica incrível em você — diz ele com um sorriso estúpido. — Ele realmente salienta a cor de seus olhos.
— Qual é a cor de meus olhos? — pergunto à parede.
Ele ri.
— Não brinca.
— Quantos anos você tem?
Ele para de rir.
— Isso importa?
— Estou curiosa.
Ele se senta ao meu lado.
— Não responderei às suas perguntas se não olhar para mim quando falo com você.
— Você quer que eu torture pessoas contra minha vontade. Você quer que eu seja uma arma em sua guerra. Você quer que me torne um monstro para você. — Faço uma pausa. — Olhar para você me deixa enjoada.
— Você é muito mais teimosa do que eu pensei que você fosse.
— Estou usando seu vestido. Comi sua comida. Estou aqui. — Levanto olhos para olhá-lo e ele já está olhando diretamente para mim. Estou momentaneamente surpreendida pelo poder de seu olhar.
— Você não fez nada disso para mim — diz ele calmamente.
Quase rio alto.
— Por que faria?
Seus olhos estão lutando com seus lábios pelo direito de falar. Desvio o olhar.
— O que você está fazendo neste quarto?
— Ah. — Ele respira fundo. — Café da manhã. Então lhe dou sua programação.
Ele aperta um botão no braço da cadeira e, quase que instantaneamente, carrinhos e bandejas são trazidos para o quarto por homens e mulheres que, claramente, não são soldados. O rosto deles é duro e craquelado e magro demais para ser saudável.
Isso quebra meu coração bem ao meio.
— Costumo comer sozinho — continua Warner, sua voz como uma ponta de gelo penetrando a carne de minhas memórias. — Mas imaginei que você e eu devêssemos nos familiarizar. Especialmente porque passaremos bastante tempo juntos.
Os criados As pessoas-que-não-são-soldados saem e Warner me oferece algo em um prato.
— Não estou com fome.
— Isso não é uma opção.
Levanto os olhos e percebo que ele está seríssimo.
— Você não tem permissão para morrer de fome. Você não come o suficiente e eu preciso que você esteja saudável. Você não tem permissão para cometer suicídio. Você não tem permissão para fazer mal a si mesma. Você é muito valiosa para mim.
— Não sou seu brinquedo — quase cuspo.
Ele solta seu prato sobre o carrinho móvel e eu estou surpresa por não se quebrar em pedaços. Ele limpa a garganta e eu posso estar realmente assustada.
— Este processo seria muito mais fácil se você apenas cooperasse — diz ele, anunciando cada palavra.
Cinco cinco cinco cinco cinco batimentos do coração.
— O mundo está desgostoso com você — diz ele, seus lábios contorcendo-se em deboche. — Todo mundo que você conheceu detesta você. Correu de você. Abandonou você. Seus próprios pais desistiram de você e ofereceram, voluntariamente, sua existência às autoridades. Eles estavam desesperados para se livrar de você, para fazer de você problema de outro, para convencer a si mesmos de que a abominação que eles criaram não era, na realidade, filha deles.
Meu rosto foi esbofeteado por uma centena de mãos.
— E ainda... — Ele agora ri abertamente. — Você insiste em fazer de mim o cara mau. — Ele encontra meus olhos. — Estou tentando ajudá-la. Estou lhe dando uma chance que ninguém jamais ofereceria a você. Estou disposto a tratá-la como igual. Estou disposto a dar-lhe tudo o que você poderia querer e, acima de tudo, posso colocar poder em suas mãos. Posso fazê-los sofrer pelo que fizeram a você. — Ele se inclina apenas o suficiente. — Posso mudar seu mundo.
Ele está errado ele está muito errado ele está mais errado que um arco-íris de cabeça para baixo.
Mas tudo o que ele disse está certo.
— Não ouse me odiar tão prontamente — continua ele. — Você poderia desfrutar desta situação muito mais que o esperado. Para sua sorte, estou disposto a ser paciente. — Ele sorri. Inclina-se para trás. — Ainda que certamente não seja de todo mal a sua beleza alarmante.
Estou pingando tinta vermelha sobre o carpete.
Ele é um mentiroso e um horrível, horrível, horrível ser humano e eu não sei se me preocupo porque ele está certo, ou porque isso é tão errado, ou porque estou tão desesperada por alguma forma de reconhecimento neste mundo. Ninguém jamais disse para mim qualquer coisa desse tipo.
Isso me faz querer olhar-me no espelho.
— Você e eu não somos tão diferentes quanto você poderia esperar. — Seu sorriso é tão arrogante que quero torcê-lo com minhas mãos.
— Você e eu não somos tão parecidos quanto você poderia esperar.
Seu sorriso é tão largo que não tenho certeza de como reagir.
— Tenho 19, a propósito.
— Perdão?
— Tenho 19 anos — esclarece ele. — Sou um espécime bastante impressionante para minha idade, eu sei.
Apanho minha colher e cutuco a substância comestível em meu prato. Não sei mais que comida realmente é.
— Não tenho respeito por você.
— Você mudará de ideia — diz ele facilmente. — Agora se apresse e coma. Temos muito trabalho a fazer.

24 comentários:

  1. Tendi muito a cena do banheiro n alguém explica por favor

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. n entendi tb mas to tendo um ataque cardiaco aq. essa cena foi linda...shipooooooooooooooo mt

      Excluir
    2. o Adam e a Ju foram ao banheiro (não tem câmeras), ela viu que ele ta cheio de machucados, se culpa por isso, mostra o papel q ele tinha escrito, depois ela queria falar algo, mas aparentemente tem microfones, então o Adam liga o chuveiro, leva ela lá e fala no ouvido dela para que os microfones não peguem, ele diz que descobriu que podia tocar nela quando estavam presos juntos, ele tira a camisa, ela vê a tatuagem do pássaro que ela sempre sonhava, ele diz que vai tirar ela desse lugar
      pelo menos é o que eu entendi/lembro

      Excluir
    3. - Pelo que li. Só ele consegue tocar ela. Ele só não explicou o por quê . Kkkk

      Excluir
    4. A linguagem da menina é mto poética, além de ela ficar querendo é aumentar as coisas como elas são,porque ele simplesmente ele liga o chuveiro chegar perto do ouvido dela e fala que consegue tocar ela e dar um abraço nela e depois tira camisa e ela fica toda apaixonadinha

      Excluir
    5. Ah, eu gostei, é uma linguagem diferente dos outros livros, achei interessante ^^

      Excluir
    6. Eu amei a linguagem, é bem poética. O fato dela repetir palavras mostra o quanto elá está perturbada pelos anos de reclusão e o fato dela riscar as palavras mostra o que ela realmente sente,mas prefere riscar o que dói mais que é a verdade. E é bom ler palavras mais difíceis pra variar, falamos melhor quando lemos melhor.😊

      Excluir
    7. além de ter ligado o chuveiro para abafar o que eles falam, o vapor da agua quente embaça as câmeras.

      Excluir
  2. Quero que um Warner da vida chegue pra mim e diga que vai me dar poder, que vai mudar minha vida... Morri!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Mds guria, apaga esse fogo aí KKKKKKKKKKKKKKK

      Excluir
  3. Ta td mt confuso ainda mas to amando

    By:Deysi

    ResponderExcluir
  4. Gente o que é isso?! É muito apaixonante!!!

    ResponderExcluir
  5. só 19??? pensei q ele tivesse bem mais

    ResponderExcluir
  6. Warner...Vem ser meu! Por favor! Seja meu...Se ela não te quer, eu quero!

    ResponderExcluir
  7. "Tenho 19 anos — esclarece ele. — Sou um espécime bastante impressionante para minha idade, eu sei."
    Gente, não aguento essas frases dele.

    ResponderExcluir
  8. genteee eu pegaria esse warner apesar dele ser extremamente convencido

    ResponderExcluir
  9. "Tenho 19 anos —
    esclarece ele. — Sou um
    espécime bastante
    impressionante para
    minha idade, eu sei."
    QUE CARA CONVENCIDO, KIRIDO SEJA MENOS...Ñ MENTIRA, SEJA MAIS, TÔ XONADA NELE, AS RESPOSTAS DELE SÃO DEMAIS, CARA VEM AQUI QUE EU TE MOSTRO OQ FAZER COM ESSA LÍNGUA AFIADA HEUHEU ta, parei, kkkkk será que só gosto dele? kkkkk

    ResponderExcluir
  10. O MODO DELE DE FALAR E ELE SER TÃO CRUEL É MT LOCO PARA A POUCA IDADE

    ResponderExcluir
  11. Quando o Warner falou o "tenho 19 anos..." eu lembrei foi de trono de vidro, quando a Cel tava se gabando pro Chaol da idade dela e tudo que tinha feito nesse tempo (espero que isso seja um indicativo de que ainda vou gostar muito desse peronagem). Karina, amo o seu blog. Seu trabalho é ótimo, e acho suas traduções muito bem feitas 😊😘

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Agradeço, apesar de eu não ser responsável pela maior parte das traduções por aqui. Espero que esteja gostando da trilogia!

      Excluir
  12. "Olho para minhas pernas e me admiro que possua um par."

    ??????

    ResponderExcluir
  13. — Tenho 19 anos — esclarece ele. — Sou um espécime bastante impressionante para minha idade, eu sei.
    MOZÃO!!!GENTE ELE É MT THUG LIFE!!TE AMO<3
    CASA COMIGO!!!!!!!!

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)