29 de dezembro de 2016

1

Delalieu está parado aos pés da minha cama com uma prancheta na mão.
Sua visita é a segunda que recebo esta manhã. A primeira foi dos meus médicos, que confirmaram que correu tudo bem na cirurgia. De acordo com eles, se eu ficar em repouso esta semana, as novas medicações que me deram devem acelerar o processo de cura. Também disseram que eu poderia retornar às minhas atividades diárias em breve, mas iria precisar usar uma tipoia por um mês, no mínimo.
Disse a eles que era uma teoria interessante.
— Minhas calças, Delalieu. — Estou sentado, tentando estabilizar minha cabeça devido aos enjoos provocados pelos remédios. Meu braço direito não serve para nada agora.
Ergo meus olhos. Delalieu está me encarando sem piscar. Seu pomo de adão está se movendo para cima e para baixo.
Seguro um suspiro.
— O que é? — Uso meu braço esquerdo para me apoiar no colchão e me obrigo a me endireitar. Reúno toda a energia que me sobrou e consigo me segurar na beirada da cama. Faço um sinal com a mão para afastar Delalieu e evitar que ele venha me ajudar; fecho os olhos para não sentir a dor e a tontura. — Conte o que aconteceu — digo a ele. — Não faz sentido prolongar as más notícias.
Sua voz hesita ao declarar:
— O soldado Adam Kent escapou, senhor.
Meus olhos piscam e fica tudo branco sob minhas pálpebras.
Respiro fundo e tento passar a mão boa pelos meus cabelos. Eles estão ásperos e cobertos pelo que parece ser terra misturada com meu próprio sangue. Fico tentado a dar um soco na parede com o punho que me restou.
Ao invés disso, faço uma pausa para me recompor.
De repente percebo com mais nitidez tudo o que se passa à minha volta, os cheiros, os pequenos ruídos e os passos do lado de fora da porta. Detesto essas calças de algodão áspero que colocaram em mim. Detesto não estar usando meias. Quero tomar um banho. Quero me trocar.
Quero colocar uma bala na coluna vertebral de Adam Kent.
— Pistas — exijo. Vou em direção ao banheiro e estremeço só em sentir o ar gelado em contato com minha pele; ainda estou sem camisa. Tento me manter calmo. — Não me diga que me trouxe essa informação sem fornecer nenhuma pista.
Minha mente parece um armário onde estão, cuidadosamente, organizadas as emoções humanas.
Quase posso ver meu cérebro funcionando, armazenando pensamentos e imagens. Ponho de lado as coisas que não me são úteis. Me concentro apenas no que precisa ser feito: os componentes básicos de sobrevivência e a infinidade de coisas que preciso fazer durante o dia.
— É claro — Delalieu responde. O medo em sua voz me incomoda um pouco; tento deixar isso de lado. — Sim, senhor — ele diz —, nós acreditamos saber para onde ele deve ter ido e temos motivo para acreditar que o soldado Kent e a – e a garota – bem, como o soldado Kishimoto também fugiu – temos razão para acreditar que eles estão juntos, senhor.
Os compartimentos do meu cérebro estão rangendo para se abrir. Lembranças. Teorias. Sussurros e sensações.
Empurro tudo para longe.
— Claro que sim. — Sacudo a cabeça. Me arrependo. Fecho meus olhos novamente para evitar a tontura repentina. — Não me dê uma informação que eu mesmo já deduzi — consigo dizer. — Quero algo concreto. Me dê uma pista real, tenente, ou só me procure quando tiver uma.
— Um carro — ele completa rapidamente. — Notificaram o roubo de um carro, senhor, e conseguimos rastreá-lo a um local desconhecido, mas então ele desapareceu do radar. Foi como se tivesse deixado de existir, senhor.
Ergo os olhos. Estou atento ao que ele diz.
— Seguimos as pistas que ele deixou no nosso radar — ele diz, falando com mais calma agora — e elas nos levaram a um trecho isolado, a um enorme terreno baldio. Vasculhamos a área e não encontramos nada.
— É alguma coisa, pelo menos. — Massageio o pescoço, lutando contra a fraqueza que sinto dentro dos meus ossos. — Encontro você na Sala L em uma hora.
— Mas, senhor — ele comenta, os olhos presos no meu braço —, o senhor vai precisar de assistência médica – está em tratamento – vai precisar de ajuda para se recuperar...
— Está dispensado.
Ele hesita.
Então concorda:
— Sim, senhor.

7 comentários:

  1. eu meio que shippo o Warner com o Delalieu, mas dá dó pq o Warner é mal com ele </3

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    1. Warner com o Delalieu...é piada?Porque eu estou rindo muito aqui.Também acho as palavras do Warner exageradamente ríspidas.A posição que ele ocupa exige firmeza mas,o tratamento a quem ele julga ser inferior é horrível.

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  2. Meu Deus que emoção, eu estava doida pra lê esse livro <3

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  3. O Warner é muito controlado. Ele deveria relaxar mais.

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  4. Sdds do Warner quando eu nao sabia oq ele pensava neh...

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Boa leitura :)