29 de dezembro de 2016

17

— Tem certeza de que não está com fome? — meu pai pergunta, ainda mastigando. — Isso está realmente muito bom.
Me mexo na cadeira. Me concentro nos vincos bem passados das calças que estou usando.
— Hum? — ele indaga. Posso vê-lo sorrindo.
Estou intensamente ciente dos soldados alinhados nas paredes desta sala. Ele sempre os mantém perto de si, e sempre em constante competição uns com os outros. Sua primeira tarefa era determinar qual era o elo mais fraco dentre os onze. Aquele com o argumento mais convincente poderia dispor do seu alvo.
Meu pai acha essas práticas divertidas.
— Receio não estar com muita fome. Os remédios — minto — acabam com meu apetite.
— Ah — ele replica. Ouço o barulho de seus talheres quando ele os deposita na mesa. — É claro. Que inconveniência.
Não digo nada.
— Podem se retirar.
Duas palavras e seus homens se dispersam em questão de segundos. A porta se fecha atrás deles.
— Olhe para mim — ele ordena.
Levanto o olhar, meus olhos cuidadosamente desprovidos de emoção. Odeio seu rosto. Não suporto olhar muito tempo para ele; não gosto da experiência de observar como ele é desumano. Ele não se tortura pelo que faz ou pelo modo que vive. Na verdade ele gosta disso. Ele adora a adrenalina do poder; ele se vê como uma entidade invencível.
E, de certo modo, não está errado.
Passei a crer que o homem mais perigoso do mundo é aquele que não sente remorso. Aquele que nunca se desculpa e, portanto, não procura o perdão. Porque no final, são nossas emoções que nos torna fracos, não nossas ações.
Viro o rosto.
— O que encontrou? — ele pergunta sem preâmbulos.
Minha mente vai imediatamente para o diário que está guardado no meu bolso, mas não faço nenhum comentário. Nem pisco. As pessoas raramente percebem que, na maioria das vezes, mentem com os lábios e dizem a verdade com os olhos. Coloque um homem num cômodo com algo que ele tenha escondido, e então pergunte onde ele a escondeu; ele vai dizer que não sabe; vai dizer que você pegou a pessoa errada; mas quase sempre ele vai olhar na direção certa. E agora meu pai está me examinando, esperando ver para onde vou olhar, o que direi a seguir.
Mantenho meus ombros relaxados e respiro devagar, imperceptivelmente, para amansar meu coração.
Não respondo. Finjo estar perdido em meus pensamentos.
— Filho?
Ergo o olhar. Finjo surpresa.
— Sim?
— O que achou? Quando revistou o quarto dela hoje?
Solto o ar. Sacudo a cabeça quando me recosto na cadeira.
— Vidros quebrados. Uma cama desarrumada. O armário dela, escancarado. Ela levou apenas alguns itens de higiene pessoal e algumas roupas extras e roupas de baixo. — Nada disso era sem sentido.
Nada disso era mentira.
Ouço quando ele suspira. Ele afasta seu prato.
Sinto o contorno do caderninho dela queimando minha perna.
— E você diz que não sabe para onde ela pode ter ido?
— Apenas sei que ela, Kent e Kishimoto devem estar juntos — explico a ele. — Delalieu diz que roubaram um carro, mas as pistas desapareceram na entrada de um enorme terreno baldio. Fizemos as tropas vasculharem aquela área durante dias, mas não encontramos nada.
— E onde — ele pergunta — planeja procurar a seguir? Você acha que eles cruzaram para outro setor? — A voz dele está estranha. Divertida.
Olho seu rosto sorridente.
Ele só está me fazendo essas perguntas para me testar. Ele tem suas próprias respostas, sua solução já preparada. Ele quer me ver falhar ao responder incorretamente. Está tentando provar que, sem ele, eu tomaria as decisões erradas.
Ele está se divertindo às minhas custas.
— Não — digo a ele, com a voz sólida e firme. — Não acho que vão fazer algo tão idiota como atravessar para outro setor. Eles não têm acesso, meios ou capacidade para isso. Ambos os homens estão severamente feridos, perdendo sangue rapidamente, e estão distantes de qualquer ajuda de emergência. Provavelmente estão mortos agora. A garota talvez seja a única sobrevivente, e ela não pode ter ido muito longe, pois não conhece como andar por aquelas áreas. Ela ficou isolada muito tempo; tudo nesse lugar é completamente estranho para ela. Além do que, ela não sabe dirigir, e se por acaso ela conseguisse dirigir um veículo, teríamos sido informados da propriedade roubada. Se levarmos em consideração seu estado geral de saúde, sua propensão a se esgotar fisicamente muito rápido, e a falta de acesso à comida, água e atenção médica, ela deve estar desmaiada num raio de dez quilômetros desse suposto terreno baldio. Temos que encontrá-la antes que morra congelada.
Meu pai pigarreia.
— Sim — ele diz —, são teorias interessantes. E, talvez, sob outras circunstâncias, elas poderiam até ser verdadeiras. Mas você está se esquecendo de me falar do detalhe mais importante.
Olho nos olhos dele.
— Ela não é normal — ele conclui, recostado à sua cadeira. — E ela não é a única da sua espécie.
Meu coração acelera. Pisco rápido demais.
— Ah, vamos lá, você não suspeitou de nada? Não criou nenhuma hipótese? — Ele ri. — Parece impossível, estatisticamente, que ela seja a única desse tipo que foi produzida pelo nosso mundo. Você sabia disso, mas não quis acreditar. E eu vim aqui para lhe dizer que é verdade. — Ele curva a cabeça ligeiramente em minha direção. Dá um sorriso largo e vibrante. — Existem muitos deles. E eles a recrutaram.
— Não. — Solto o ar.
— Eles se infiltraram em suas tropas. Vivem no seu meio em segredo. E agora roubaram seu brinquedinho e fugiram com ele. Só Deus sabe como esperam manipulá-la em seu próprio benefício.
— Como pode ter tanta certeza? — indago. — Como sabe que eles conseguiram levá-la com eles? Kent estava meio morto quando o deixei...
— Preste atenção, filho. Estou lhe afirmando que eles não são normais. Eles não seguem suas regras; não há nenhuma lógica que os oriente. Você não tem ideia das esquisitices de que são capazes. — Uma pausa. — Além do mais, tenho conhecimento já há algum tempo, de um grupo deles que vive disfarçado nessa área. Mas durante todo esse tempo eles sempre se mantiveram afastados. Eles não interferem em meus métodos, e achei melhor deixá-los morrer sozinhos sem causar um pânico desnecessário na nossa população civil. Você entende, é claro — ele diz. — Afinal de contas, é muito difícil conter pelo menos um deles. Eles são a coisa mais bizarra de se ver.
— Você sabia? — Estou de pé agora. Tentando ficar calmo. — Você sabia da existência deles, durante todo esse tempo, e assim mesmo não fez nada? Não disse nada?
— Não julguei necessário.
— E agora? — exijo.
— Agora parece pertinente.
— Inacreditável! — Levanto as mãos para o alto. — Que você escondesse de mim tal informação! Quando sabia dos meus planos para ela... quando sabia o sacrifício que foi trazê-la aqui...
— Acalme-se — ele pede. Ele estica as pernas; apoia o tornozelo de uma perna no joelho da outra. — Vamos encontrá-los. Esse terreno abandonado que Delalieu mencionou – a área onde o carro deixou de ser rastreado? Esse é o nosso ponto de partida. Eles devem estar escondidos nos subterrâneos. Devemos encontrar a entrada e os destruir em silêncio, por dentro. Então os teremos punido, e evitamos que o resto se revolte e inspire a rebelião no nosso povo.
Ele se inclina para frente.
— Os civis escutam tudo. E, no momento, estão vibrando com um novo tipo de energia. Estão se sentindo motivados ao perceberem que um deles conseguiu escapar e que você saiu ferido no processo. Isso faz nossas defesas parecerem fracas e fáceis de serem penetradas. Precisamos destruir essa percepção reequilibrando a balança. O medo irá retornar tudo para seu devido lugar.
— Mas eles estão procurando — digo a ele. — Meus homens. Eles vasculham a área todos os dias e ainda não encontraram nada. Como pode ter certeza que iremos descobrir alguma coisa, afinal de contas?
— Porque — ele explica — você vai liderá-los. Todas as noites. Depois do toque de recolher, enquanto os civis dormem. Você não vai interromper as buscas durante o dia; não vai dar a eles motivo para terem o que falar. Aja em silêncio, meu filho. Não mostre suas jogadas. Vou permanecer na base e supervisionar suas responsabilidades com meus homens; vou dar ordens a Delalieu se for necessário. E nesse ínterim, você irá encontrá-los, para que eu possa destruí-los o mais rápido possível. Essa loucura já está durando tempo demais — ele diz — e eu não estou mais a fim de ser generoso.

5 comentários:

  1. Meu Zeus '-' Ele se acha generoso 😱

    Tadinhovdo Warner ;-;

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  2. Com um pai bosta desse como o menino podia ser normal?

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  3. "você irá encontrá-los, para que eu possa destruí-los o mais rápido possível." imagino q ele ta incluindo Juliette ai nesse meio...
    Haha... e Warner não vai permitir isso, e finalmete vai enfrentar o pai... vai dar treta das boas isso

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  4. Se rebele em silêncio Warner!!!
    Quero que vc fique do lado da Juliette

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Boa leitura :)