23 de dezembro de 2016

17

Estou flutuando na luz do Sol.
Warner está segurando uma porta aberta que leva diretamente para o lado de fora e eu estou tão despreparada para a experiência que mal posso enxergar direito. Ele segura meu cotovelo para firmar meus passos e eu olho para ele.
— Estamos indo para o lado de fora. — Digo isso porque tenho de dizê-lo em voz alta. Porque o mundo do lado de fora é um convite que me é oferecido muito raramente. Porque não consigo descobrir se Warner está tentando ser legal novamente. Dele, meus olhos se dirigem para o que parece ser um pátio de concreto e novamente voltam para ele. — O que estamos fazendo do lado de fora?
— Temos de cuidar de alguns negócios. — Ele me puxa rumo ao centro deste novo universo e eu estou me libertando dele, estendendo a mão para tocar o céu à espera de que ele se lembre de mim. As nuvens são cinzentas como sempre foram, mas são poucas e despretensiosas. O Sol está alto alto alto, descansando contra um pano de fundo que sustenta seus raios e redireciona seu calor em nossa direção. Fico na ponta dos pés e tento tocá-lo. O vento me envolve nos braços e sorri ante minha pele.
O ar fresco e macio como a seda trança uma brisa suave por meus cabelos. Este pátio quadrangular poderia ser meu salão de bailes.
Quero dançar com os elementos.
Warner agarra minha mão. Dou meia-volta.
Ele está sorrindo.
— Isso — diz ele, fazendo um gesto para o mundo frio e cinzento debaixo de nossos pés — isso te faz feliz?
Olho em volta. Percebo que o pátio não é exatamente uma cobertura mas algum lugar entre dois edifícios. Avanço lentamente em direção à margem e posso ver a terra morta e as árvores nuas e aglomerados prédios dispersos estendendo-se por quilômetros.
— O ar frio tem aroma tão puro — digo a ele. — Fresco. Novo em folha. É o aroma mais formidável do mundo.
Seus olhos se mostram satisfeitos, perturbados, interessados e confusos, tudo de uma vez. Ele balança a cabeça. Revista seu casaco e alcança um bolso interno. Ele tira uma arma com um punho dourado que cintila à luz do sol.
Puxo um fôlego profundo.
Ele inspeciona a arma de um modo que não compreendo, supostamente para verificar se ela está ou não pronta para o disparo. Ele a escorrega a mão; seu dedo posicionado diretamente sobre o gatilho. Ele se vira e finalmente lê a expressão em meu rosto.
Ele quase ri.
— Não se preocupe. Não é para você.
— Por que você tem uma arma? — Engulo, em seco, segurando meus braços firmemente contra o peito. — O que estamos fazendo aqui?
Warner escorrega a arma de volta ao bolso e caminha até a extremidade oposta da margem. Ele faz sinal para que eu o acompanhe. Aproximo-me lentamente. Sigo seus olhos. Olho por sobre a barreira.
Todos os soldados do edifício estão a menos de quatro metros e meio abaixo de onde estamos.
Distingo quase 50 filas, cada uma perfeitamente reta, perfeitamente espaçada, tantos soldados em pé, em fila indiana, que perco a conta.
Gostaria de saber se Adam está no meio deles. Se ele pode me ver.
Gostaria de saber o que Adam pensa de mim agora.
Os soldados estão posicionados em um espaço quadrangular idêntico ao que Warner e eu ocupamos, mas eles são uma só massa organizada de preto: calças pretas, camisas pretas, botas de cano alto pretas; nem uma só arma à vista. Cada um está de pé com a mão esquerda pressionando ao coração. Congelados em sua posição.
Preto e cinza
e
preto e cinza
e
preto e cinza
e
triste.
De repente estou perfeitamente consciente da minha vestimenta prática. De repente o vento está insensível demais, frio demais, aflitivo demais conforme penetra através da multidão. Estremeço e isso nada tem haver com a temperatura. Procuro por Warner, mas ele já tomou seu lugar no limite do pátio; é óbvio que ele já fez isso muitas vezes antes. Ele puxa de seu bolso um pequeno quadrado de metal perfurado e prensa-o contra lábios; quando ele fala, sua voz percorre a multidão como se tivesse do amplificada.
— Setor 45.
Uma palavra. Um número.
Todo o grupo se move: mãos esquerdas liberadas, caídas de lado; mãos direitas plantadas no lugar do peito. Eles são uma máquina oleada, funcionando em colaboração perfeita uns com os outros. Se eu não estivesse tão apreensiva, penso que estaria impressionada.
— Temos dois assuntos a tratar esta manhã. — A voz de Warner penetra na atmosfera: nítida, clara, insuportavelmente confiante. — O primeiro está em pé ao meu lado.
Encolho.
Milhares de olhos erguem-se bruscamente na minha direção.
— Juliette, por favor, venha até aqui. — Dois dedos dobram-se em duas posições para chamar-me para a frente.
Avanço devagar para colocar-me à vista de todos.
Warner desliza seu braço em volta de mim. Encolho-me de medo. Meu coração bate descontrolado. Estou amedrontada demais para afastar-me dele. Sua arma está próxima demais do meu corpo.
Os soldados parecem aturdidos por Warner estar disposto a me tocar.
— Jenkins, poderia dar um passo adiante, por favor?
Meus dedos estão correndo uma maratona por minha coxa. Não consigo ficar parada. Não consigo acalmar as palpitações que desestabilizam meu sistema nervoso. Jenkins sai da fila; localizo-o imediatamente.
Ele está bem.
Deus amado.
Ele está bem.
— Jenkins teve o prazer de conhecer Juliette noite passada — continua ele. A tensão entre os homens é quase tangível. Ninguém, ao que parece, sabe onde este discurso vai dar. E ninguém, pelo que parece, desconhece a história de Jenkins. Minha história. — Espero que todos vocês a recebam com a mesma gentileza — acrescenta Warner, seus lábios rindo-se sem som. — Ela ficará conosco por algum tempo, e será um trunfo muito valioso para nossos esforços. O Restabelecimento dá-lhe as boas-vindas. Eu dou-lhe as boas-vindas. Vocês devem dar-lhe as boas-vindas.
Os soldados baixam suas mãos de uma só vez, todos exatamente ao mesmo tempo.
Eles se movem em conjunto, cinco passos para trás, cinco passos para a frente, cinco passos fixos na posição. Eles levantam o braço esquerdo ao alto e fecham os dedos em um punho.
E caem de joelhos.
Corro até o beiral, desesperada por olhar mais de perto tal rotina estranhamente coreografada. Nunca vi algo assim.
Warner faz que fiquem desse jeito, tortos desse jeito, punhos erguidos no ar desse jeito. Ele não fala por pelo menos 30 segundos. E então o faz.
— Ótimo.
Os soldados levantam-se e pousam a mão direita novamente sobre o peito.
— O segundo assunto que se coloca é ainda mais agradável que o primeiro — continua ele, ainda que pareça não sentir nenhum prazer em dizer isso. Ele fixa seus olhos nos soldados, estilhaços de esmeralda cintilam sobre seus corpos. — Delalieu tem um relato para nós.
Ele passa uma eternidade simplesmente encarando os soldados, deixando suas poucas palavras agitarem suas mentes. Deixando que a imaginação os enlouqueça. Deixando os culpados entre eles tremerem de angústia.
Warner nada diz durante muito tempo.
Ninguém se move durante muito tempo.
Começo a temer por minha vida, apesar de ele ter me tranquilizado anteriormente. Começo a me perguntar se talvez eu seja a única culpada. Se talvez a arma em seu bolso seja destinada para mim. Finalmente ouso me virar em sua direção. Ele me olha pela primeira vez e eu não faço ideia de como interpretá-lo.
Seu rosto são 10 mil possibilidades olhando diretamente através de mim.
— Delalieu — diz ele, ainda olhando para mim. — Um passo à frente.
Um tipo de homem magro e com queda de cabelo, em uma vestimenta mais decorada, sai bem da frente das cinquenta fileiras. Ele não se mostra inteiramente estável. Ele baixa um pouco a cabeça. Sua voz chilreia quando ele fala.
— Senhor.
Warner finalmente liberta-se de meus olhos e acena a cabeça, quase imperceptivelmente, na direção do homem cuja calvície progride.
Delalieu relata:
— Temos uma acusação contra o Soldado Raso 45B-76423. Fletcher, Seamus.
Os soldados estão todos congelados em fila, congelados de alívio, congelados de medo, congelados de ansiedade. Nada se move. Nada respira.
Mesmo o vento teme fazer um som.
— Fletcher. — Uma palavra vinda de Warner e várias centenas de pescoços estalam na mesma direção.
Fletcher sai da fila.
Ele parece um homem gengibre. Cabelo cor gengibre. Sardas cor gengibre. Lábios quase artificialmente vermelhos. Seu rosto é vazio de toda e qualquer emoção possível.
Jamais em minha vida senti tanto medo por um estranho.
Delalieu fala novamente.
— O soldado raso Fletcher foi encontrado em territórios irregulares, confraternizando com civis que se acredita serem membros do partido dos rebeldes. Ele havia roubado comida e suprimentos das unidades de armazenamento dedicadas aos residentes do setor 45. Não se sabe se ele divulgou informações confidenciais.
Warner mira seus olhos para o homem gengibre.
— Você nega essas acusações, soldado?
As narinas de Fletcher dilatam-se. Seu maxilar tensiona-se. Sua voz falha quando ele fala.
— Não, senhor.
Warner acena com a cabeça. Toma uma fôlego breve. Lambe os lábios.
E atira-lhe na testa.

20 comentários:

  1. Não consigo parar de ler!!!!!

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  2. q issooo!!!! é muita maldade

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  3. Perdi toda paixonite pelo Warner depois dessa =/

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    1. Quer dizer, o cara é completamente louco ! Como ninguém viu isso antes ?!

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  4. Eu odeio o Warner, ele está errado, mas tenho a leve impressão de que ele será aqueles personagens com a história de quebrar o coração. E sabe, eu até entendo ele, se ele não matasse o homem, como provavelmente sugere a "lei" as pessoas mudariam sua opinião sobre ele, umas poderiam achar que ele é piedoso, mas tambem poderiam achar que ele é fraco

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  5. cara o warner é foda.... apesar de ser "mau" ele so fez o necessario e ta na cara que a historia dele é muito triste eu acho que ele pode mudar de lado e mais se apaixonar pela julli....

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  6. Dá vontade de odiar o Warner, mas eu não consigo. Não dá. E eu tbm acho que ele não fez isso por pura maldade, mas para demonstrar quem tem o poder ali se eles vissem qualquer sinal de fraqueza nele ele logo seria derrubado e acredito que Warner tem suas fraquezas e quero muito descobri-las

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  7. Cara esse Warner é completamente louco, mas não consigo odiar ele, tenho problemas mentais so pode '-'

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  8. "O Sol está alto alto alto" Só eu me irrito quando ela repete as palavras?

    Que cruel -.- Que maldade..

    Não sei porque, me lembra o livro "Água para elefantes"..

    *Lanna*

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  9. Ñ consigo falar Dalalieu so Dalileu .-.

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  10. "Nossa que cruel" Apenas mais um vilão, o que mais poderiamos esperar de um vilão?
    Apenas maldades, oras.

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  11. O livro n ta avançando em nd...

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  12. apesar de td eu gosto desse vilao kkkk tipo a autora deixa pistas de q nem td e oq parece, e as vz em algus momentos ele parece gostar dela nao como uma arma.

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Boa leitura :)