23 de dezembro de 2016

16

Assim que estou no quarto, abro o armário e tiro o vestido roxo do cabide antes de lembrar que estou sendo vigiada. As câmeras. Fico me perguntando se Adam também foi punido por me contar sobre elas. Fico me perguntando se ele correu quaisquer outros riscos comigo. Fico me perguntando por que ele o faria.
Toco o firme e moderno tecido do vestido cor de ameixa e meus dedos chegam à bainha, da mesma forma como Adam fez ontem. Não posso evitar de me perguntar por que ele gosta tanto deste vestido. Por que tem de ser este. Por que ainda tenho de vestir um vestido.
Não sou uma boneca.
Minha mão pousa sobre uma prateleira de madeira debaixo das roupas penduradas e uma textura desconhecida resvala minha pele. Ela é áspera e estranha, mas familiar ao mesmo tempo. Chego mais perto do armário e escondo-me entre as portas. Meus dedos contornam a superfície e uma onda de claridade corre pelo meu estômago até eu ter certeza de que estou explodindo de esperança e emoção e de uma felicidade estúpida tão poderosa que estou surpresa por não haver lágrimas escorrendo pelo meu rosto.
Meu caderno.
Ele salvou meu caderno. Adam salvou a única coisa que me pertence.
Apanho o vestido roxo e enfio o bloco de papel em suas pregas, antes de sair furtivamente para o banheiro.
O banheiro em que não há câmeras.
O banheiro em que não há câmeras.
O banheiro em que não há câmeras.
Ele estava tentando me contar, dou-me conta. Antes, no banheiro. Ele estava tentando me contar alguma coisa e eu estava assustada demais. Eu o afugentei.
“Eu o afugentei.”
Fecho a porta atrás de mim e minhas mãos estão tremendo enquanto desenrolo os íntimos papéis unidos pela cola velha. Folheio as páginas para ter certeza de que todas estão ali e meus olhos pousam sobre meu mais recente registro. Há uma mudança bem ao pé da página. Uma frase nova, não escrita na minha caligrafia.
Uma frase nova que deve ter vindo dele.
“Não é o que você pensa.”
Permaneço perfeitamente imóvel.
Cada centímetro da minha pele está esticado de tensão, carregado de emoção, e a pressão está aumentando em meu peito, esmagando-o mais ruidosamente e mais rapidamente e mais fortemente, compensando com excesso minha imobilidade. Não tremo quando estou congelada no tempo. Tento respirar mais devagar, conto coisas que não existem, invento cifras que não possuo, finjo que o tempo é uma ampulheta quebrada que escoa segundos através da areia. Ouso acreditar.
Ouso ter a esperança de que Adam está tentando se comunicar comigo. Sou doida o bastante para considerar a possibilidade.
Rasgo a página do caderninho e agarro-a contra mim, aplicadamente engolindo a histeria que excita todos os impulsos entrecortados em minha mente.
Escondo o caderno em um bolso do vestido roxo. O bolso dentro do qual Adam deve ter enfiado o caderno. O bolso do qual ele deve ter caído. O bolso do vestido roxo. O bolso do vestido roxo.
A esperança é um bolso de possibilidades.
Estou segurando-a em minha mão.
Warner não está atrasado.
Ele também não bate.
Estou colocando os sapatos quando ele entra sem uma única palavra, sem mesmo um esforço para fazer sua presença conhecida. Seus olhos descem por todo o meu corpo. Minha mandíbula enrijece por conta própria.
— Você o machucou — pego-me dizendo.
— Você não devia se importar — diz ele com uma inclinação de cabeça, fazendo um gesto para meu vestido. — Mas é óbvio que você se importa.
Cerro meus lábios e agradeço por minhas mãos não estarem tremendo tanto. Não sei onde Adam está. Não sei o quanto ele está ferido. Não sei o que Warner fará, o quão longe ele irá na busca do que quer, mas a perspectiva de que Adam sofra de dor é como uma mão fria apertando meu esôfago. Não consigo recuperar meu fôlego. Sinto-me como se estivesse lutando para engolir um palito de dente. Se Adam está tentando me ajudar, isso poderia custar-lhe a vida.
Apalpo o pedaço de papel enfiado em meu bolso.
Respiro.
Os olhos de Warner estão em minha janela.
Respiro.
— É hora de ir — diz ele.
— Aonde vamos?
Ele não responde.
Atravessamos a porta. Olho ao redor. O corredor está abandonado; vazio.
— Onde está Adam todo mundo?
— Gosto mesmo desse vestido — diz Warner enquanto desliza um braço em volta da minha cintura. Desvencilho-me de modo abrupto, mas ele me puxa, guiando-me em direção ao elevador. — O caimento é espetacular. Ajuda a me distrair de todas as suas perguntas.
— Pobre de sua mãe.
Warner quase tropeça nos próprios pés. Seus olhos estão surpresos, alarmados. Ele para a apenas alguns centímetros de nosso objetivo. Vira-se.
— O que quer dizer?
Meu estômago embrulha.
O olhar em seu rosto: a tensão desarmada, o medo hesitante, a súbita apreensão em suas feições.
Eu estava tentando fazer uma piada — é o que não lhe digo. Lamento sua pobre mãe, é o que ia lhe dizer, por ela ter de lidar com um filho tão miserável e patético. Mas não digo nada disso.
Ele agarra minhas mãos, concentra-se em meus olhos. Urgência pulsa em suas têmporas.
— O que quer dizer? — insiste.
— N-nada — gaguejo. Minha voz parte-se ao meio. — Eu não quis... era só uma piada...
Warner solta minhas mãos como se elas o tivessem queimado. Ele desvia o olhar. Apressa-se rumo ao elevador e não espera por mim. Pergunto-me o que ele não está me dizendo.
Apenas quando descemos vários andares e estamos seguindo por um desconhecido corredor rumo a uma saída desconhecida, ele finalmente olha para mim. Ele me oferece quatro palavras.
— Bem-vinda ao seu futuro.

9 comentários:

  1. " Tento respirar mais devagar, conto coisas que não existem, invento cifras que não possuo, finjo que o tempo é uma ampulheta quebrada que escoa segundos através da areia. Ouso acreditar. " *-*

    Bem.. Que capitulo curto.

    * Lanna *

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  2. Yesubai, a filha do vilão9 de abril de 2017 17:57

    não consigo shippar nem Adam+Jullie nem Jullie+Warnner

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  3. Sinto ainda que cada capitulo não avança praticamente nada!

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  4. Q piada de pessimo gosto hein julie.
    Relendo pela tercira vez.
    Meu warner sempre perfeito😍😍😍

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  5. Q piada de pessimo gosto hein julie.
    Relendo pela tercira vez.
    Meu warner sempre perfeito������

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Boa leitura :)