29 de dezembro de 2016

15

De volta à base, sigo direto em frente.
Ignoro os soldados e suas continências por onde passo, sem prestar atenção à mistura de curiosidade e desconfiança em seus olhos. Nem tinha percebido que havia tomado esse caminho ao chegar à base; mas meu corpo parece saber mais do que minha mente, do que precisa agora. Meus passos são pesados; regulares, o som das minhas botas ecoa ao longo do piso de pedras conforme chego aos andares de baixo.
Não venho aqui há quase duas semanas.
O quarto fora reformado desde a última vez em que estive aqui; o painel de vidro e a parede de concreto foram substituídos. E pelo que sei ela foi a última pessoa a usar esse quarto.
Eu mesma a havia trazido aqui.
Empurro as duas portas giratórias do vestiário que fica na sala adjacente ao deque de simulação. Minha mão procura no escuro pelo interruptor; as luzes piscam uma vez antes de se acenderem. Um zumbido monótono de eletricidade vibra nesses cômodos vastos. Tudo está quieto, abandonado.
Exatamente como eu gosto.
Tiro minhas roupas o mais rápido que consigo, devido aos ferimentos. Ainda tenho duas horas antes do esperado jantar com meu pai, então eu não deveria estar tão ansioso assim, mas meus nervos não estão ajudando. Tudo parece estar vindo para cima de mim de uma vez só. Meus fracassos. Minha covardia. Minha estupidez.
Às vezes fico tão cansado dessa vida.
Estou em pé, descalço no concreto, só usando a tipoia no meu braço, detestando como esse ferimento me deixa constantemente para baixo. Pego o shorts guardado no meu armário e o visto o mais rapidamente possível, me encostando à parede para me apoiar. Quando finalmente fico ereto, fecho a porta do armário e entro no cômodo ao lado.
Aperto mais um interruptor, e o sistema operacional principal começa a funcionar. Os computadores emitem um sinal sonoro e uns flashes se acendem enquanto o programa se prepara; passo os dedos pelo teclado.
Costumamos usar esses cômodos para simulações.
Manipulamos a tecnologia para criar lugares e experiências que existem apenas na mente humana. Não apenas somos capazes de criar o cenário, mas também podemos controlar os mínimos detalhes. Sons, cheiros, falsa segurança, paranoia. O programa foi originalmente criado para ajudar soldados em missões específicas, e também para ajudá-los a superar medos que, do contrário, iria incapacitá-los no campo de batalha.
Eu o uso para meus próprios fins.
Costumava vir aqui todos os dias antes de ela chegar à base. Aqui era meu porto seguro; minha única fuga do mundo. Apenas gostaria que não precisasse de um uniforme. Esse short é engomado e desconfortável, o poliéster coça e irrita a pele. Mas é forrado com uma química especial que reage com a minha pele e alimenta o sensor com informações; me ajudam a me situar na experiência e me permitirá correr por quilômetros sem precisar correr de verdade, muros físicos no meu ambiente real. E para que o processo seja o mais eficiente possível, tenho que vestir quase nada. As câmeras são hipersensíveis ao calor do corpo, e funcionam melhor quando não entra em contato com materiais sintéticos.
Espero que esse detalhe fique anotado para a próxima geração do programa.
A central me solicita dados; rapidamente entro com o código de acesso que me garante permissão para levantar o histórico das últimas simulações. Olho para o alto por sobre meu ombro enquanto o computador processa os dados; olho de relance pelo recém-consertado espelho de duas faces que vê o cômodo principal. Ainda não acredito que ela quebrou uma parede inteira de vidro e concreto e continuou a caminhar sem um arranhão.
Inacreditável.
A máquina bipa duas vezes; me viro novamente. Os programas que solicitei estão carregados e prontos para serem executados.
O arquivo dela é o primeiro da lista.
Respiro fundo; tento afastar as lembranças. Não me arrependo de tê-la feito passar por uma experiência tão horrível. Não sei se ao final ela teria se permitido perder o controle — finalmente habitar seu próprio corpo — se eu não tivesse encontrado um modo eficiente de provocá-la.
Ultimamente realmente acredito que isso a ajudou, exatamente como eu pretendia. Mas eu desejaria que ela não tivesse apontado uma arma na minha cara e saltado pela janela logo depois.
Suspiro devagar mais uma vez, acalmando minha respiração.
E seleciono a simulação que me motivou a vir até aqui.

2 comentários:

  1. Quero saber qual a simulação o.o

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  2. ''Às vezes fico tão cansado dessa vida.'' Cala essa boca Warner

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Boa leitura :)