23 de dezembro de 2016

15

“Por que você não se mata?”, perguntou certa vez alguém na escola.
Penso que era tipo de pergunta destinada a ser cruel, mas era a primeira vez que cogitava a possibilidade. Não sabia o que dizer. Talvez estivesse louca ao considerar isso, mas sempre tive a esperança de que, se fosse uma garota forte o suficiente, se fizesse tudo direito, se dissesse as coisas certas ou nada dissesse de nenhuma maneira... pensei que meus pais mudariam de ideia. Pensei que eles finalmente escutariam quando eu tentasse conversar. Pensei que me dariam uma chance. Pensei que poderiam, finalmente, me amar.
Sempre tive essa estúpida esperança.

— Bom dia.
Meus olhos abrem-se rapidamente. Jamais tive um sono tão pesado.
Warner está me encarando, sentado ao pé da própria cama, trajando casaco limpo e botas perfeitamente lustradas. Tudo nele é meticuloso. Incólume. Seu hálito é frio e fresco no revigorante ar da manhã. Posso senti-lo em meu rosto.
Leva um tempo para que eu perceba que estou enrolada nos mesmos lençóis em que Warner dorme. Meu rosto está repentinamente pegando fogo e estou remexendo-me para me libertar. Quase caio da cama.
Não o reconheço.
— Dormiu bem? — pergunta ele.
Levanto a cabeça. Seus olhos são de um estranho tom de verde: brilhantes, cristalinos, agudos do modo mais alarmante. Seu cabelo é grosso, do mais vivo ouro; seu corpo é magro e despretensioso, mas suas mãos são fortes sem fazer esforço. Reparo pela primeira vez que ele usa um anel de jade no dedo mínimo esquerdo.
Ele me surpreende encarando-o e levanta-se. Junta as mãos atrás das costas.
— Está na hora de você voltar para seu quarto.
Pisco. Faço que sim com a cabeça. Levanto-me e quase caio. Agarro-me ao lado da cama e tento firmar minha cabeça vertiginosa. Escuto Warner suspirar.
— Você não comeu a comida que lhe deixei ontem à noite.
Apanho a água com mãos trêmulas e obrigo-me a comer um pouco do pão. Meu corpo ficou tão acostumado à fome que não sei mais como reconhecê-la.
Logo que recupero a firmeza, Warner me conduz para fora do quarto.
Ainda estou segurando um pedaço de queijo na mão.
Quase o derrubo quando piso além da porta.
Há ainda mais soldados aqui do que no meu andar. Cada um está equipado com, pelo menos, quatro tipos diferentes de arma, algumas penduradas no pescoço, outras amarradas ao cinto. Todos eles denunciam um olhar de terror quando veem meu rosto. Esse olhar aparece e desaparece de suas feições tão rapidamente que eu poderia tê-lo perdido, mas ele é óbvio o bastante: todos apertam um pouco mais firme suas armas enquanto passo por eles.
Warner parece satisfeito.
— O medo deles trabalhará em nosso favor — sussurra ele ao meu ouvido. Minha humanidade está estilhaçada em um milhão de pedaços sobre o chão acarpetado.
— Nunca quis que tivessem medo de mim.
— Deveria. — Ele para. Seus olhos estão me chamando de idiota. — Se eles não a temem, perseguirão você.
— As pessoas perseguem as coisas que elas temem o tempo todo.
— Ao menos agora eles sabem o que estão enfrentando. — Ele volta a caminhar pelo corredor, mas meus pés estão pregados no chão.
A compreensão é uma água gelada e ela está me escorrendo pelo pescoço.
— Você me fez fazer aquilo... o que eu fiz... com Jenkins? De propósito?
Warner já está três passos à frente, mas posso ver o sorriso em seu rosto.
— Tudo o que faço é de propósito.
— Você quis fazer de mim um espetáculo. — Meu coração está disparando em meu punho, pulsando em meus dedos.
— Estava tentando protegê-la.
— De seus próprios soldados? — Agora estou correndo para alcançá-lo, do de indignação. — À custa da vida de um homem...
— Entre. — Warner chegou ao elevador. Ele está segurando as portas para mim.
Acompanho-o.
Ele aperta os botões apropriados.
A porta se fecha.
Viro-me para falar.
Ele me encurrala.
Sou impelida à quina mais remota deste receptáculo de vidro e estou subitamente nervosa. Suas mãos estão segurando meus braços e seus lábios estão perigosamente próximos do meu rosto. Seu olhar está perdido no meu, seus olhos piscando; perigosos. Ele diz uma palavra:
— Sim.
Levo um tempo até encontrar minha voz.
— Sim, o quê?
— Sim, de meus próprios soldados. Sim, à custa da vida de um homem. — Ele trinca a mandíbula. Fala entredentes. — Você conhece muito pouco do meu mundo, Juliette.
— Estou tentando entender...
— Não você não está — fala ele rispidamente. Seus cílios são como fios de ouro flamejantes. Quase quero tocá-los. — Você não entende que poder e domínio podem escorregar de nossas mãos a qualquer momento, mesmo quando você pensa estar mais preparado. Essas são duas coisas que não são fáceis de conseguir. E são ainda mais difíceis de manter. — Tento falar, mas ele me corta. — Você acha que eu não sei quantos de meus próprios soldados me odeiam? Você acha que não sei que eles gostariam de me ver cair? Você acha que não existem outros que adorariam ter a posição que trabalho duro para ter...
— Não se iluda...
Ele rompe a barreira dos poucos centímetros que ainda nos separam e minhas palavras caem no chão. Não consigo respirar. A tensão em todo o seu corpo é tão intensa que é quase palpável e acho que meus músculos começaram a congelar.
— Você é ingênua — ele diz para mim, sua voz severa, em tom baixo, um sussurro áspero contra minha pele. — Não percebe que você é uma ameaça para todos neste edifício? Eles têm toda a razão para fazer mal a você. Você não vê que estou tentando ajudá-la...
— Me machucando! — explodo. — Machucando os outros!
Seu riso é frio, melancólico. Ele se afasta de mim, subitamente aborrecido. O elevador se abre, mas ele não sai. Posso ver minha porta daqui.
— Volte para seu quarto. Lave-se. Troque-se. Há vestidos em seu armário.
— Não gosto de vestidos.
— Também não acho que você goste de ver aquilo — diz ele inclinando a cabeça. Sigo seu olhar para ver uma sombra volumosa contra minha porta. Viro-me para que me explique, mas ele nada diz. Ele está repentinamente controlado, suas feições limpas de emoções. Ele toma minha mão, aperta meus dedos, diz: — Voltarei para buscá-la exatamente em uma hora — e fecha as portas do elevador antes que eu tenha a chance de protestar. Começo a me perguntar se é coincidência que a única pessoa que menos tem medo de me tocar seja ela mesma um monstro.
Avanço e atrevo-me a olhar mais de perto o soldado de pé na escuridão.
Adam.
Ah, Adam.
Adam, que agora sabe exatamente do que sou capaz.
Meu coração é um balão de água explodindo em meu peito. Meus pulmões estão balançando em minha caixa torácica. Sinto-me como se todos os punhos do mundo decidissem socar-me no estômago. Não deveria me importar tanto, mas me importo.
Ele agora me odiará para sempre. Ele nem sequer olhará para mim.
Espero que ele abra minha porta, mas ele não se move.
— Adam? — arrisco-me, hesitante. Preciso de seu cartão para abrir.
Observo-o engolir em seco e tomar pouco fôlego e imediatamente sinto que algo está errado. Aproximo-me e uma rápida e firme sacudida de cabeça diz para eu não seguir. Eu não quero tocar pessoas eu não chego perto de pessoas eu sou um monstro. Ele não me quer perto dele. É claro que ele não quer. Eu nunca deveria esquecer meu lugar.
Ele abre minha porta com enorme dificuldade e eu percebo que alguém o feriu onde eu não posso ver. As palavras de Warner retornam a mim e eu reconheço seu delicado adeus como um aviso. Um aviso que corta todas as terminações nervosas de meu corpo.
Adam será punido pelos meus erros. Pela minha desobediência.
Quero inundar de lágrimas um balde de arrependimento.
Atravesso a porta e passo os olhos uma última vez em Adam, incapaz de sentir qualquer espécie de triunfo em sua dor. Apesar de tudo que ele me fez, não sei se sou capaz de odiá-lo. Não Adam. Não o garoto que eu conhecia.
— O vestido roxo — diz ele, sua voz entrecortada e um pouco ofegante, como se lhe doesse inalar. Tenho de entrelaçar as mãos para evitar sair correndo para ele. — Use o vestido roxo. — Ele tosse. — Juliette.
Serei a modelo perfeita.

18 comentários:

  1. Valha-me Chessus! Minha nossa! Warner é sensacional... Tudo de que uma garota entediada com a vida, como eu, precisa. Quero um Warner para mim! *u*

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    1. Assim colega n e só vc que quer esse gostosão T-T

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    2. Assim colega n e só vc que quer esse gostosão

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    3. WHAT ? Um cara cruel desses ?

      Tão tá né...

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    4. Sim *-* O Warner é perfeito <3

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    5. quero mata-lo aff

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  2. Okay.... Warner é o melhor vilão do mundo.... Quero ele para mim!

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  3. Pensei que só eu gostava dos vilões kkkkk warner lindão

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  4. As frases dele são épicas!

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  5. Amo as ironias do Warner. Amo o Warner! Não sei porque, mas acho que ele pode ser dúbio bom e mau ao mesmo tempo e pra mim o lindinho do Adam tá é sofrendo de amor

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    1. Talvez ele seja bipolar..

      * Lanna *

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    2. O Adam e paranóico e vc vai ver depois?,e vc tem razão a respeito do warner
      ASS:Leticia

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  6. cm assim ta td mundo gostando no Warner? O cara é cruel pra caramba,n entendo

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  7. Isso tá tão A Seleção *_*

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  8. To xonada no Warner!!MEU DEUS.....HOMÃO DA PORRA!!GATO, GOSTOSO, DELÍCIA, SABOROSO!!!!!!!!!!UJHGTTHYTHI9WSJHI9J<3

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  9. Gente eu quero o ADAM!!! Ahhhhh!!!

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  10. Nao acredito que alguém goste desse Warner😒 to com vontade de estrangular ele

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Boa leitura :)