29 de dezembro de 2016

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O sol está se pondo.
Logo vou ter que retornar à base, onde vou me sentar quieto e ouvir meu pai falar, em vez de mandar bala na sua boca aberta.
Então tento ganhar tempo.
Fico parado e ouço barulhos vindos de longe e observo as crianças correrem, enquanto seus pais as levam para casa. Penso se um dia eles vão crescer o bastante para sacar que os cartões do Registro do Restabelecimento na verdade estão rastreando todos seus movimentos. Que o dinheiro que seus pais recebem pelo trabalho em alguma das muitas fábricas existentes ali é monitorado de perto. Essas crianças crescerão e finalmente entenderão que tudo que elas fazem está gravado, cada conversa é dissecada para se descobrir murmúrios de rebeliões. Eles não sabem que estão sendo criados perfis para cada cidadão, e que cada arquivo é bem grosso com documentação das suas amizades, relacionamentos, e hábitos de trabalho; até mesmo como gostam de passar seu tempo livre.
Sabemos tudo sobre todo mundo.
Demais.
Tanto é verdade que raramente me lembro que estamos lidando com gente de verdade, seres vivos, até vê-los nos complexos. Sei de cor o nome de quase todos os cidadãos do Setor 45. Gosto de saber quem vive na minha jurisdição, não importa se são soldados ou civis.
Foi assim que tomei conhecimento, por exemplo, que o soldado Seamus Fletcher, 45B-76423, batia na esposa e nos filhos todas as noites.
Eu sabia que ele estava gastando todo seu dinheiro em bebidas; sabia que ele estava deixando sua família passar fome. Monitorei os dólares REST que ele gastava nas nossas centrais de abastecimento e observei atentamente a família dele no complexo. Sabia que seus três filhos tinham menos de 10 anos e não comiam há semanas; sabia que eles haviam estado inúmeras vezes no posto médico do complexo para tratar de ossos quebrados e levar pontos em machucados. Fiquei sabendo que ele deu um soco na boca de sua filha de 9 anos e cortou o lábio dela, fraturou o maxilar e quebrou dois de seus dentes da frente; e soube que sua esposa estava grávida. Também fiquei sabendo que certa noite ele bateu nela com tanta força que ela perdeu a criança na manhã seguinte.
Eu sei por que estava lá.
Eu estava parando em cada residência, visitando os civis, fazendo perguntas sobre sua saúde e como estavam suas vidas. Queria saber de suas condições de trabalho e se algum membro de suas famílias precisaria estar de quarentena.
Ela estava em casa naquele dia. A esposa de Fletcher. Seu nariz estava quebrado e seus olhos estavam tão inchados que ela nem conseguia abri-los direito. Seu corpo era tão magro e frágil, sua pele tão pálida, que achei que ela iria se quebrar em duas ao sentar-se. Quando lhe perguntei sobre os machucados, ela evitou meus olhos. Disse que tinha caído; que por causa da sua queda ela havia perdido a criança que carregava e conseguiu também quebrar o nariz no acidente.
Acenei com a cabeça. Agradeci por sua cooperação ao responder minhas perguntas.
E então convoquei uma reunião.
Estou ciente que a maioria dos meus soldados rouba dos armazéns dos nossos complexos. Analiso os relatórios cuidadosamente e sei que tem suprimentos desaparecendo o tempo todo. Mas permito essas pequenas infrações porque elas não perturbam o sistema. Alguns pães ou pedaços de sabão a mais deixam meus soldados mais animados; eles trabalham mais se estiverem saudáveis, e a maioria deles mantém esposa, filhos e parentes. Então essa é uma concessão que faço.
Mas algumas coisas não posso perdoar.
Não me considero um moralista. Não filosofo sobre a vida ou me importo com as leis e princípios que governam a vida das pessoas. Não pretendo saber a diferença entre o certo e o errado. Mas procuro viver sob certo código de vida. E às vezes, eu acho, tenho que aprender a atirar antes.
Seamus Fletcher estava matando sua família. E eu lhe dei um tiro na testa porque achei que assim seria menos doloroso do que destroçá-lo com minhas próprias mãos.
Mas meu pai completou o trabalho que Fletcher havia começado. Meu pai mandou matar os três filhos dele e sua mulher, tudo por causa de um bêbado cretino que deveria ter cuidado deles. Ele era o pai deles, o marido dela, e a razão de eles terem tido uma morte tão brutal e inesperada.
E alguns dias eu imagino por que insisto em continuar vivendo.

21 comentários:

  1. Aaai Deus, não acredito que estou começando a simpatizar com o cara

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    1. Estou começando a entender que ele até não é assim taaaaão mau, mas continua sendo um louco!!! Esquece um pouco esta fixação pela Juliete cara!! Apesar de toda frieza dele, ele é um bom lider, pois se preocupa com o seu povo!! Quem dera que na realidade muitos líderes se preocupassem com o seu povo... aos poucos ele está conseguindo chegar ao meu coração!! Estou começando a ter uma pequeeeeeena empatia por ele.😊😊😊
      Anna!!!

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  2. Ele não é tão malvado, afinal. Mas, como Juliette, ele maluco. Doido.

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  3. Ta dane-se o adam quero o walner msm

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  4. ahhhhhhhhhh , qual é , ele nao é mau , pelo menos nao muito , pena que ele nao mostrou esse seu lado verdadeiro pra Juliette . Imagino o quanto ele tbm sofre

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  5. Ja tinha uma ponta d simpatia pelo warner mas agora acho q gosto dele

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  6. Estou gostando muito dele estou começando a querer ele com a Juliette porque o Adam está um mala no inicio do proximo livro espero que ele melhore

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  7. Ainda prefiro o Adam

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  8. Fofo. Triste. Como a Juliette. Preso. Só. Vou pôr em um potinho, abraçar e falar que vai ficar tudo bem.
    Ass.:D. Pevensie

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  9. Agora to começando a entender como funciona a cabeça desse cara.
    Ele não exatamente mal, ele tenta fazer as coisas certas com base no que ele aprendeu, com base na forma em que foi criado.
    Ele tenta de certa forma agradar o pai, mas não deixou que o pai destruísse completamente a sua humanidade.
    To começando a simpatizar com ele, mas pra ele ficar com a Juju acho que ainda tem que melhorar muito.
    Tenho esperança de que ele ainda se torne uma pessoa completamente boa.

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  10. Não me faça te amar mais Warner. Não me faça te amar mais...
    Ele é do tipo: Os fins justificam os meios. Esses personagens maus com o coração bom tornam a trama muito mais instigante porque nós nunca sabemos o que esperar deles e isso é tão bom

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  11. Nossa!!! Ele tem caráter!!! Pena que tenha que usar uma máscara. Por causa do pai que tem....

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  12. Explicado o caso do soldado morto!
    Mãe e o bebê na sala de treinamento?
    Amo o Warner, mas quero que ele mude mais pra ficar com a Ju .Talvez enfrentar o pai?😕

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    1. Ele explicou, em um capitulo anterior, que era uma simulação que ele fazia com os soldados, só não avisou a Juliette pq queria ver uma reação real dela, e ele foi subestimado. Ele ia contar pra ela quando a encontrou para fugir :/

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  13. Quer saber? Foda-se! Warner vc é meu novo marido literário.

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  14. bem esclarecedor essa cap .

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  15. Só sei que nessa saga os pais dos personagens são tudo uns monstros.

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  16. Tinha achado que ele era um monstro, com esse livro tô começando a gostar dele. Fico triste por ele ter que fazer as coisas ruins que faz

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  17. E alguns dias eu imagino por que insisto em continuar vivendo.

    Senti uma pontada de desejo suicida nessa frase.Que triste.Sei como é sentir-se assim.

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Boa leitura :)