23 de dezembro de 2016

14

O teto entra e sai de foco.
Minha cabeça está pesada, minha visão está embaçada, meu coração está estremecido. Há um marcante sabor de pânico alojado em algum lugar debaixo de minha língua e estou lutando para lembrar-me de onde ele veio.
Tento sentar-me e não consigo lembrar-me porque estava deitada.
As mãos de alguém estão em meus ombros.
— Como você está se sentindo? — Warner está me perscrutando.
De repente minhas memórias estão queimando em meus olhos e o rosto de Jenkins está boiando em minha consciência e eu estou balançando meus punhos e gritando para que Warner fique longe de mim e esforçando-me para esquivar-me de seu domínio, mas ele apenas sorri. Ri um pouco. Acaricia-me as mãos ao lado de meu torso.
— Bem, pelo menos você está acordada — suspira ele. — Por um momento você me preocupou.
Tento controlar meus membros trêmulos.
— Tire suas mãos de mim.
Ele gesticula seus dedos revestidos diante de meu rosto.
— Estou todo coberto. Não se preocupe.
— Eu odeio você.
— Quanta paixão. — Ele ri novamente. Ele parece tão calmo, tão genuinamente satisfeito. Ele olha para mim com olhos mais brandos do que jamais esperei que fossem.
Desvio o olhar.
Ele se levanta. Toma pouco fôlego.
— Aqui — diz ele, estendendo o braço até uma bandeja sobre uma mesa. — Trouxe comida para você.
Aproveitei o momento para endireitar-me e olhar em volta. Estou deitada em uma cama guarnecida com ouro damasco e vermelho Burgundy, a mais escura tonalidade de sangue. O chão é coberto com grosso e rico carpete na cor de um sol poente de verão. Está quente no quarto. Ele é do mesmo tamanho daquele que ocupo, seu mobiliário segue padrão básico: cama, armário, mesas laterais, lustre cintilando do teto. A única diferença é que há uma porta a mais neste quarto e há uma vela grossa queimando calmamente sobre uma mesinha de canto. Há tanto não via o fogo que já perdi a conta. Tenho de conter um impulso de estender a mão e tocar a chama.
Apoio-me nos travesseiros e tento fingir que não estou confortável.
— Onde estou?
Warner vira-se segurando um prato que contém pão e queijo. Sua outra mão segura um copo d’água. Ele olha em volta do quarto como se o visse pela primeira vez.
— Este é o meu quarto.
Se minha cabeça não estivesse se esfacelando em pedaços, eu estaria tentada a correr.
— Leve-me para o meu quarto. Não quero ficar aqui.
— E, ainda assim, eis você aqui. — Ele senta-se ao pé da cama, a poucos centímetros de distância. Empurra o prato na minha frente. — Você está com sede?
Não sei se é porque não consigo pensar direito ou se é porque estou verdadeiramente confusa, mas estou me esforçando para reconciliar as personalidades polarizadas de Warner. Eis ele aqui, oferecendo-me um copo d’água depois de forçar-me a torturar outra pessoa. Ergo as mãos e estudo meus dedos como se nunca os tivesse visto antes.
— Não entendo.
Ele inclina a cabeça, inspecionando-me como se eu pudesse ter me ferido seriamente.
— Só perguntei se estava com sede. Isso não devia ser difícil de entender. — Uma pausa. — Tome isto.
Pego o copo. Encaro-o. Encaro Warner. Encaro as paredes.
Devo estar louca.
Warner suspira.
— Não tenho certeza, mas acho que você desmaiou. E acho que você devia comer alguma coisa, embora eu não esteja totalmente certo sobre isso também. — Ele faz uma pausa. — Você provavelmente fez esforço demais para o seu primeiro dia aqui. Falha minha.
— Por que você está sendo legal comigo?
A surpresa em seu rosto surpreende-me ainda mais.
— Porque me preocupo com você — diz ele simplesmente.
— Você se preocupa comigo? — O entorpecimento no corpo está começando a dissipar-se. Minha pressão sanguínea está subindo e a raiva está se colocando em primeiro plano na minha consciência. — Eu quase matei Jenkins por sua causa!
— Você não matou...
— Seus soldados me bateram! Você me mantém aqui como uma prisioneira! Você me ameaça! Você ameaça me matar! Você não me dá nenhuma liberdade e ainda diz que se preocupa comigo? — Quase lhe jogo o copo d’água na cara. — Você é um monstro!
Warner vira o rosto para o lado, de tal modo que fito seu perfil. Ele junta as mãos. Muda de ideia. Toca os lábios.
— Só estou tentando ajudá-la.
— Mentiroso!
Ele parece considerar isso. Assente com a cabeça, apenas uma vez.
— Sim. Na maior parte do tempo, sim.
— Não quero ficar aqui. Não quero ser seu experimento. Deixe-me ir.
— Não. — Ele se levanta. — Receio que eu não possa fazer isso.
— Por que não?
— Porque não posso. Eu apenas... — Ele puxa os dedos. Limpa a garganta. Seus olhos tocam o teto por um breve momento. — Porque eu preciso de você.
— Você precisa de mim para matar pessoas!
Ele não responde imediatamente. Ele caminha até a vela. Retira uma luva. Brinca com a chama usando seus dedos nus.
— Você sabe, sou bastante capaz de matar pessoas por conta própria, Juliette. Na verdade, sou muito bom nisso.
— Isso é repulsivo.
Ele encolhe os ombros.
— De que outra forma você acha que alguém na minha idade seria capaz de controlar tantos soldados? Por que mais meu pai permitiria que eu assumisse o comando de um setor inteiro?
— Seu pai? — Endireito-me, subitamente curiosa, mesmo contra a vontade.
Ele ignora minha pergunta.
— A mecânica do medo é simples o bastante. As pessoas são intimidadas por mim, então elas ouvem quando eu falo. — Ele gesticula com uma mão. — Ameaças vazias valem muito pouco hoje em dia.
Aperto os olhos.
— Então você mata as pessoas em busca de poder.
— Como você.
— Como ousa...
Ele ri, em voz alta.
— Você é livre para mentir para si mesma, se isso faz você se sentir melhor.
— Não estou mentindo...
— Por que demorou tanto para você quebrar a conexão com Jenkins?
Minha boca congela, imóvel.
— Por que você não se defendeu na mesma hora? Por que permitiu que ele a tocasse por todo o tempo que a tocou?
Minhas mãos começaram a tremer e eu as contive, duramente.
— Você não sabe nada sobre mim.
— E mesmo assim você afirma me conhecer tão bem.
Tensiono o rosto, sem confiança em mim mesma para falar.
— Pelo menos sou honesto — acrescenta ele.
— Você acabou de concordar que é um mentiroso!
Ele ergue as sobrancelhas.
— Pelo menos sou honesto sobre ser um mentiroso.
Bato o copo d’água sobre a mesa lateral e pendo a cabeça em minhas mãos. Tento manter a calma. Respiro com firmeza.
— Bem — digo com voz áspera —, por que você precisa de mim então? Se você já é um excelente assassino?
Um sorriso cintila e desvanece em seu rosto.
— Um dia vou apresentá-la à resposta a essa pergunta.
Tento protestar, mas ele me interrompe com uma mão. Pega um pedaço de pão do prato. Segura-o sob meu nariz.
— Você quase não comeu nada no jantar. Isso não pode ser saudável.
Não me movo.
Ele pousa o pão no prato e pousa o prato ao lado da água. Volta-se para mim. Estuda meus olhos com tanta intensidade que fico momentaneamente desarmada. Há tantas coisas que quero dizer e gritar, mas de algum modo esqueço todas as palavras que aguardam, impacientes, na minha boca. Não consigo desviar o olhar.
— Coma algo. — Seus olhos me abandonam. — Então vá dormir. Voltarei pela manhã.
— Por que não posso dormir no meu quarto?
Ele se levanta. Espana o pó de suas calças sem nenhuma razão prática.
— Porque quero que você fique aqui.
— Mas por quê?
Ele solta uma risada.
— Tantas perguntas.
— Ora, se você me desse uma resposta franca...
— Boa noite, Juliette.
— Você vai me soltar? — pergunto, dessa vez calmamente, dessa vez timidamente.
— Não. Ele dá seis passos até o canto onde está a vela. — E também não vou prometer facilitar as coisas para você. Não há arrependimento, nem remorso, nem compaixão em sua voz. Ele poderia estar falando sobre o clima.
— Você poderia estar mentindo.
— Sim, poderia. — Ele faz que sim com a cabeça, como para si mesmo. Apaga a vela.
E desaparece.
Tento lutar contra isso.
Tento ficar acordada.
Tento colocar a cabeça no lugar, mas não consigo.
De tão exausta sofro um colapso.

24 comentários:

  1. MDS to quase chorando aq. e to tipo mt confusa, to entendendo nd... mas da mó dó...

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  2. genteeee!!só eu que não to entendendo muita coisa??

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    1. To achando ,que tudo não passa de um terrivel pesadelo

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  3. "E mesmo assim você afirma me conhecer tão bem.
    Tensiono o rosto, sem confiança em mim mesma para falar.
    — Pelo menos sou honesto — acrescenta ele.
    — Você acabou de concordar que é um mentiroso!
    Ele ergue as sobrancelhas.
    — Pelo menos sou honesto sobre ser um mentiroso."
    Porque eu ri tanto com isso?

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  4. gente podem me chamar de louca mas to querendo que ela de um beijo nesse weren e no kent... sera que se ela beijar ela tambem "mata"

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  5. Uma hora eu torço para ela ficar com o Kent, outra com o Weren, nunca fiquei tão indecisa na minha vida, costumo ler e saber qual casal eu shippo, mas assim não dá, vou continuar a ler e ver no que dar, né?? *-*

    Ass:Liliana(ou Lily)

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    1. To igual a voce
      ass:leTicia

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  6. Esse Warner é cruel...mas tô apaixonada por ele e pelo Adam *-* posso está louca, mas prevejo um triângulo amoroso, guenta coração hehe

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  7. Eu chorei nisso aki "Um dia vou apresentá-la à resposta a essa pergunta." Porque é a segunda vez que tô lendo essa série


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  8. Essa cara tem o "poder" do fogo, é isso?

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  9. Tento deixar o romance de lado, espero que esse não tenha muito.

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  10. Bom saber que não sou a unica confusa com essa historia

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  11. N to entendendo nada.Pra mim ta claro q o Adam gosta dela,mas n demonstra,ódio disso
    Warner tbm me deixou confusa com essa preocupação toda

    Meu deus

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  12. Minha teoria: ele quer ele como noiva porealmente causa dos poderes dela para que as pessoas a temam e o temam mais ainda,só acho :/

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  13. nossa sofrido d+ afffff

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  14. Wtf...??
    Socorro,ta muito bom!!

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  15. Mds, depois desse capítulo, não se porque, estou amando o Warner <3 esse demônio

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  16. Tatah/UMA_LEITORA_QUALQUER_S220 de novembro de 2017 17:23

    Ele me lembra o Cam- Fallen. E, também, o Damon-T.V.D.

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Boa leitura :)