29 de dezembro de 2016

13

Tínhamos lares. Antes.
De todos os tipos diferentes.
Casas térreas. Sobrados. Casas de três andares.
Comprávamos enfeites para o jardim e luzinhas pisca-pisca, aprendíamos a andar de bicicleta sem rodinhas. Adquirimos vidas confinadas em 1,2 e 3 andares já construídos, andares contidos em estruturas que não podíamos mudar.
Vivemos nesses andares por algum tempo.
Seguimos a história que nos era contada, o texto preso em cada metro do espaço que havíamos conquistado. Ficamos contentes com a mudança no enredo que redirecionou nossa vida. Assinamos nas linhas pontilhadas por coisas pelas quais não nos importávamos realmente. Comíamos coisas que não deveríamos, gastávamos dinheiro quando não podíamos, esquecíamos a Terra que tínhamos de habitar e desperdiçávamos desperdiçávamos desperdiçávamos tudo.
Comida. Água. Recursos.
Logo, os céus ficaram cinza com a poluição química, e as plantas e os animais ficaram doentes devido à modificação genética. E doenças se impregnaram no nosso ar, nas nossas refeições, nossos sangues e nossas casas. A comida desapareceu. As pessoas estavam morrendo. Nosso império estava caindo aos pedaços.
O Restabelecimento disse que nos ajudaria. Nos salvaria. Reconstruiria nossa sociedade.
Ao invés disso, eles nos destroçaram.

Gosto de visitar os complexos.
É um lugar estranho para se buscar refúgio, mas sinto alguma coisa ao ver tantos civis num espaço tão vasto e aberto que me faz lembrar da minha missão. Fico tanto tempo preso nos limites dos muros do quartel-general do Setor 45, que frequentemente me esqueço dos rostos daqueles por quem lutamos e daqueles com quem estamos lutando.
Gosto de me lembrar.
Geralmente, visito cada aglomerado dos complexos; cumprimento os moradores e pergunto sobre suas condições de vida. Não consigo deixar de ficar curioso em saber como é a vida deles agora.
Porque enquanto o mundo se transformou inteiramente para eles, meu mundo continuou o mesmo.
Disciplinado. Isolado. Desolador.
Houve um tempo quando as coisas foram melhores, quando meu pai não era tão irritado. Eu tinha cerca de 4 anos. Ele costumava me fazer sentar em seu colo e brincar com seus bolsos. Eu podia pegar o que quisesse, desde que meu argumento fosse bem convincente. Era seu jeito de brincar.
Mas tudo isso foi antes.
Aperto meu casaco no corpo, sentindo o tecido se encostar nas minhas costas. Vacilo sem querer.
A vida que tenho agora é a única que importa. O sufoco, o luxo, as noites mal dormidas, e os corpos dos mortos. Sempre me ensinaram a me concentrar no poder e na dor, em ganhar e infligir.
Não lamento nada.
Aceito tudo.
É o único modo que encontrei de continuar vivendo nesse corpo maltratado. Esvazio minha mente das coisas que me infestam e sobrecarregam minha alma, e aceito o que puder dos pequenos prazeres que aparecem à minha frente. Não sei o que é ter uma vida normal; não sei como simpatizar com os cidadãos que perderam suas casas. Não faço ideia de como era a vida deles antes de o Restabelecimento tomar o poder.
Por isso gosto de passear pelos complexos.
Gosto de ver como as outras pessoas vivem; gosto de ter o poder de fazer com que respondam às minhas perguntas. Do contrário não teria como saber.
Mas o momento é errado.
Não prestei muita atenção ao relógio quando saí da base, e não percebi que o sol estava se pondo. A maioria dos civis está voltando para casa para descansar à noite, seus corpos curvados, encolhidos pelo frio enquanto se encaminhavam em direção aos aglomerados de metal que dividem com pelo menos outras três famílias.
As casas improvisadas são construídas com containers de navios de doze metros quadrados; eles são empilhados lado a lado e um em cima do outro, agrupados em grupos de cinco ou seis. Cada container foi isolado; equipado com duas janelas e uma porta. Escadas para o andar superior foram colocadas de cada lado de fora da estrutura. Os tetos são alinhados com painéis solares que fornecem eletricidade gratuita para cada grupo.
É algo do qual muito me orgulho.
Porque foi minha ideia.
Quando estávamos procurando por abrigos temporários para os civis, sugeri reformar os velhos containers de carga que ocupavam as docas de todos os portos do mundo. Não apenas eram baratos, facilmente reaproveitados, e altamente adaptáveis, mas podiam ser empilhados, eram portáteis e construídos independentemente do clima do lugar. Eles exigiam o mínimo de construção e, com a equipe certa, milhares de unidades habitacionais poderiam estar prontas em alguns dias.
Dei essa ideia para meu pai, pensando que essa seria a opção mais eficiente; uma solução temporária que seria menos desumana do que barracas; algo que ofereceria um abrigo real e confiável. Mas o resultado foi tão eficiente que o Restabelecimento não viu necessidade de renovação. Aqui, num terreno que costumava ser um lixão, assentamos milhares de containers; aglomerados de cubos retangulares e desbotados que são fáceis de monitorar e vigiar.
As pessoas ainda acreditam que essa é uma solução temporária. Que um dia voltarão para as lembranças de suas antigas vidas e as coisas serão lindas e brilhantes novamente. Mas tudo isso é mentira.
O Restabelecimento não tem planos de mudá-los de onde estão.
Os civis devem permanecer nessas áreas regulamentadas; esses containers se tornaram suas prisões.
Tudo foi numerado. As pessoas, suas casas, seu grau de importância para o Restabelecimento.
Aqui, eles se tornaram parte de um enorme experimento. Um mundo no qual trabalham para manter as necessidades de um regime que faz promessas que nunca serão cumpridas.
Essa é a minha vida.
Esse triste mundo.
Na maior parte do tempo, me sinto como um civil; e é provavelmente por isso que vim até aqui. É como se estivesse indo de uma prisão para outra; numa existência onde não há escape, não há refúgio. Quando até mesmo minha mente me trai.
Eu deveria ser mais forte do que isso.
Tenho treinado há mais de uma década. Tenho trabalhado todos os dias para aprimorar minhas forças física e mental. Tenho 1 metro e 79 de altura e 77 quilos de músculos. Fui preparado para sobreviver, para maximizar a resistência e a energia, e fico perfeitamente à vontade segurando uma arma. Posso desmontar, limpar, recarregar, desarmar e remontar mais de 150 tipos de armas de fogo. Posso atirar no centro de um alvo, de praticamente qualquer distância. Posso quebrar o pescoço de uma pessoa com a lateral da mão. Posso paralisar temporariamente um homem com apenas os nós dos meus dedos.
No campo de batalha, sou capaz de me desconectar dos movimentos que aprendi a memorizar. Criei a reputação de ser alguém frio, um monstro que não teme nada nem ninguém.
Mas tudo isso é ilusório.
Porque a verdade é que não passo de um covarde.

9 comentários:

  1. Estou gostando de conhecer esse lado dele. Faz ele parecer mais humano.

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  2. Ele é vítima daquele pai dele! Tadinho do bichinho. Podia trazer pra minha casa! Hahaha. ...
    Bianca

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  3. Aí você lê. Vê que ele é humano. E vira fã. Não. Não quero isso. Já era.
    Ass.:D. Pevensie

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  4. Assim n vai dar! Vou acabar gostando dele

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  5. Acho que se eu continuar a ler livros que tenham a vida da pessoa narrada por quem observa e a mesma vou acaba me tornando psicologa.

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  6. Imagino oq ele estava pensando quando a juju foi embora :(

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    1. Ele pode ter ficado triste e decepcionado consigo mesmo pelo fato de ter "fracassado"

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  7. Sempre me ensinaram a me concentrar no poder e na dor, em ganhar e infligir.

    Seria ganhar poder e inflingir dor? Porque pelo pouco que vi me parece mais inflingir poder e ganhar dor

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Boa leitura :)