29 de dezembro de 2016

12

Um dos homens do meu pai está me esperando do lado de fora da minha porta. Olho de relance em sua direção, mas não o suficiente para reconhecer suas feições.
— Diga qual o assunto, soldado.
— Senhor — ele diz —, recebi ordens para lhe informar que o comandante supremo solicita sua presença em seus alojamentos para o jantar às vinte horas.
— Considere sua mensagem recebida. — Dou um passo para abrir minha porta.
Ele dá um passo à frente, bloqueando minha passagem.
Viro o corpo para olhar para ele.
Ele está parado a alguns passos de distância de mim: um ato implícito de desrespeito; um nível de intimidade que nem mesmo Delalieu se permite. No entanto, ao contrário dos meus homens, os bajuladores que cercam meu pai se consideram especiais. Ser um membro da guarda de elite do comandante supremo é considerado um privilégio e uma honra. Eles se reportam diretamente a ele.
E nesse exato momento, esse soldado está tentando provar que é superior a mim.
Ele tem inveja de mim. Pensa que sou indigno de ser o filho do comandante supremo do Restabelecimento. Isso está praticamente escrito no rosto dele.
Tenho que segurar meu impulso de cair no riso quando encaro seus frios olhos cinza e o buraco negro que é sua alma. Ele tem as mangas enroladas na altura do cotovelo, suas tatuagens militares claramente definidas e à mostra. Os círculos concêntricos de tinta preta em volta dos seus braços são acentuados em vermelho, verde e azul, o único sinal para indicar que ele é um soldado de patente elevada. É um ritual doentio do qual sempre fiz questão de me recusar a participar.
O soldado ainda está me encarando.
Inclino minha cabeça em sua direção, ergo minhas sobrancelhas.
— Recebi ordens — ele declara — de esperar uma resposta oral aceitando esse convite.
Demoro um pouco, pensando nas minhas escolhas, mas não havia nenhuma.
Eu, como todos os fantoches desse mundo, sou completamente subserviente aos desejos do meu pai.
É verdade que sou forçado a lutar todos os dias: que nunca serei capaz de enfrentar o homem que tem seus punhos cerrados em volta da minha espinha vertebral.
Isso me faz odiar a mim mesmo.
Encaro os olhos do soldado e imagino, por um breve momento, qual o nome dele, antes de perceber que não me importo com isso.
— Considere-o aceito.
— Sim, s...
— E da próxima vez, soldado, não se aproxime a menos de um metro e meio de distância de mim, sem pedir permissão.
Ele pisca os olhos, confuso.
— Senhor, eu...
— Você está confuso — o interrompo. — Acredita que trabalhar com o comandante supremo lhe dá imunidade das regras que governam a vida dos outros soldados. Veja, você está errado.
Seu rosto se enrijece.
— Nunca se esqueça — digo baixinho agora — que se eu quisesse o seu emprego, eu o teria. E não se esqueça de que o homem que você serve tão ansiosamente é o mesmo homem que me ensinou a atirar com uma arma de fogo quando eu tinha apenas nove anos de idade.
Suas narinas se dilatam. Ele olha direto para frente.
— Entregue sua mensagem, soldado. E então relembre isso e nunca mais fale comigo novamente.
Os olhos dele agora estão presos num ponto diretamente atrás de mim, seus ombros rígidos.
Espero.
Seu maxilar ainda está rígido. Lentamente ele levanta sua mão em saudação.
— Está dispensado — digo.

Tranco a porta do meu quarto e me encosto nela. Preciso de apenas um momento. Pego o vidrinho que está na mesinha de cabeceira e tiro duas pílulas quadradas; as jogo na boca, fechando meus olhos enquanto se dissolvem.
A escuridão atrás das minhas pálpebras é um alívio reconfortante.
Até que a lembrança do rosto dela se impõe à minha percepção.
Me sento na cama e deixo a cabeça cair na minha mão. Não deveria estar pensando nela agora. Tenho horas de papelada para separar e o estresse da presença do meu pai para aguentar. Jantar com ele vai ser um espetáculo. Um espetáculo de arrasar a alma.
Fecho meus olhos com força e faço um pequeno esforço para construir as paredes que com certeza limpariam minha mente. Mas dessa vez elas não funcionam. O rosto dela insiste em surgir subitamente, seu diário me provocando lá no fundo do meu bolso.
E começo a perceber que tem uma pequena parte de mim que não deseja afastar os pensamentos dela.
Uma parte de mim gosta da tortura.
Essa garota está me destruindo.
Uma garota que passou o último ano internada num sanatório de loucos. Uma garota que tentou me matar porque eu a beijei. Uma garota que fugiu com outro homem só para se afastar de mim.
É claro que essa é a garota por quem eu iria me apaixonar.
Coloco a mão na boca.
Estou perdendo a cabeça.

Tiro minhas botas. Me enfio na cama e deixo a cabeça cair nos travesseiros.
Ela dormiu aqui, penso. Ela dormiu na minha cama. Ela acordou na minha cama. Ela estava aqui e deixei que ela escapasse.
Falhei.
Perdi.
Nem percebo que tirei o diário dela do bolso e o estou segurando em frente do rosto. Olhando para ele. Estudando sua capa desbotada numa tentativa de entender onde ela pode ter adquirido isso. Ela deve ter roubado de algum lugar, embora não consiga imaginar onde.
Há tantas coisas que eu gostaria de perguntar a ela. Tantas coisas que gostaria de lhe dizer.
Ao invés disso, abro seu diário e leio.

Às vezes fecho meus olhos e pinto essas paredes com cores diferentes.
Imagino que estou usando meias quentinhas e estou sentada perto do fogo. Imagino que alguém me deu um livro para ler, uma história para me levar para longe da tortura da minha própria mente. Quero ser alguém em algum outro lugar com alguma outra coisa a ocupar minha cabeça. Quero correr, quero sentir o vento batendo nos cabelos. Quero fingir que isso é simplesmente uma história dentro de outra história. Que essa cela é apenas um cenário, que essas mãos não me pertencem, que essa janela dá para um lugar lindo, se pelo menos eu conseguisse abri-la. Finjo que essa fronha é limpa, finjo que a cama é macia. Finjo e finjo e finjo até que o mundo fica maravilhoso por trás dos meus olhos e já não consigo mais contê-lo. Mas então meus olhos se abrem e sou agarrada pela garganta por um par de mãos que não param de me sufocar sufocar sufocar...
Meus pensamentos, acho, logo serão ouvidos.
Minha mente, espero, logo será descoberta.

O diário cai da minha mão e bate no meu peito. Passo a mão pelo rosto, pelo meu cabelo. Massageio o pescoço e me puxo com força para cima a ponto de bater a cabeça na cabeceira da cama, e na verdade fico grato a isso. Me demoro um pouco sentindo a dor.
E viro a página.

Imagino o que eles estão pensando. Meus pais. Imagino onde estão. penso se eles estão bem agora, se estão felizes agora, se eles finalmente conseguiram o que queriam. Imagino se minha mãe vai querer ter outro filho. Imagino se alguém vai ter a bondade de me matar, e imagino se o inferno não é melhor do que aqui. Imagino como está meu rosto agora. Imagino se algum dia vou poder respirar o ar fresco novamente.
Imagino tantas outras coisas.
Às vezes fico acordada durante dias simplesmente contando tudo que encontro. Conto as paredes, as rachaduras na parede, meus dedos dos pés e das mãos. Conto as molas da cama, os fios do cobertor, quantos passos para ir para frente e para trás no meu quarto. Conto meus dentes e cada fio de cabelo na minha cabeça e o número de segundos em que consigo prender minha respiração.
Mas às vezes fico tão cansada que esqueço que não tenho mais permissão para desejar mais nada, e me descubro desejando a única coisa que sempre quis. A única coisa com a qual sempre sonhei.
Sempre desejei ter um amigo.
Sonho com isso. Imagino como seria. Sorrir e receber um sorriso de volta. Ter alguém em quem confiar que não iria jogar as coisas em mim, nem colocar minhas mãos no fogo ou me bater por ter nascido. Alguém que iria saber que fui colocada para fora de casa e tentaria me achar, que nunca teria medo de mim.
Alguém que soubesse que eu nunca o machucaria.
Me vejo num canto desse quarto e enfio a cabeça nos meus joelhos e me balanço para frente e para trás para frente e para trás para frente e para trás e desejo e desejo e desejo coisas impossíveis até cair no sono de tanto chorar.
Imagino como seria ter um amigo.
E então imagino quem mais está preso neste hospício. Imagino de onde estão vindo os outros gritos.
Imagino se estão vindo de mim.

Tento me concentrar, dizendo a mim mesmo que são palavras vazias, mas estou mentindo. Porque, de algum modo, simplesmente ler essas palavras é demais; e pensar nela sofrendo está me deixando agoniado.
Saber que ela vivenciou isso.
Ela foi colocada nesse inferno pelos próprios pais, abandonada e maltratada a vida inteira. Empatia é uma emoção que eu não conhecia, mas agora toma conta de mim, me levando para um mundo que eu não sabia que podia penetrar. E embora sempre tenha acreditado que ela e eu tivéssemos muita coisa em comum, não sabia que podia sentir isso com tanta profundidade.
Isso está me matando.
Fico em pé. Começo a andar pelo quarto até acalmar meus nervos para continuar a leitura. Então respiro fundo.
E viro a página.

Tem alguma coisa fervilhando dentro de mim.
Algo que nunca ousei descobrir, algo que tenho medo de saber. Tem uma parte de mim lutando para se libertar da jaula onde estou presa, batendo nas portas do meu coração, suplicando para ser libertada.
Suplicando para ir embora.
Todos os dias sinto que revivo o mesmo pesadelo. Abro a boca para gritar, para lutar, para girar meus punhos, mas minhas cordas vocais estão cortadas, meus braços estão pesados e densos como se estivessem presos no cimento molhado e eu estou gritando mas ninguém me ouve, ninguém se aproxima e estou enjaulada. E isso está acabando comigo.
Sempre tive de bancar a submissa, subserviente, um pano de chão suplicante e passivo que fazia todo mundo se sentir seguro e confortável. Minha existência se tornou uma luta para provar que eu era inofensiva, não uma ameaça, que eu era capaz de viver entre outros seres humanos sem feri-los.
E estou tão cansada tão cansada tão cansada e às vezes chego a ficar com raiva.
Não sei o que está acontecendo comigo.

— Meu Deus, Juliette. — Suspiro.
E caio de joelhos.

— Chame o transporte imediatamente. — Preciso sair. Preciso sair daqui agora.
— Senhor? Isso é, sim, senhor, é claro... mas onde...
— Tenho que visitar os complexos — digo. — Tenho que fazer minhas rondas antes do meu compromisso dessa noite. — Isso é tanto verdade quanto mentira. Porém agora estou disposto a fazer qualquer coisa que me afaste desse diário.
— Ah, certamente, senhor. Gostaria que o acompanhasse?
— Isso não será necessário, tenente, mas obrigado pela oferta.
— Eu... se-senhor — ele gagueja. — É claro, é u-uma honra servi-lo, senhor, ajudá-lo...
Deus do céu, onde estou com a cabeça. Eu nunca digo obrigado a Delalieu. É muito provável que o pobre homem vá ter um infarto agora.
— Estarei pronto para sair em dez minutos — interrompo.
Ele começa a gaguejar, mas para. Então diz:
— Sim, senhor. Obrigado, senhor.
Estou pressionando a boca com o punho quando a ligação é desconectada.

7 comentários:

  1. Essa garota está me destruindo.
    "Uma garota que passou o último ano internada num sanatório de loucos. Uma garota que tentou me matar porque eu a beijei. Uma garota que fugiu com outro homem só para se afastar de mim.
    É claro que essa é a garota por quem eu iria me apaixonar."
    O que dizer dessa frase?

    ResponderExcluir
  2. Acho que ele está começando a amolecer.

    ResponderExcluir
  3. Ele tá tão obcecado por ela, tão desesperado pra que eles tenham algo em comum, que tá dando pena do cara...

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Pena por quê o.o? Ele se apaixonou por ela de tal forma que a dor dela passou a ser a dele *-* Ele fica com tanta raiva que mataria as pessoas que fizeram isso com ela. Independente do que ele sofreu, ele não aceita o que fizeran com o amor da vida dele, dói muito saber pelo que ela passou.

      Excluir
  4. Eu espero q ele vá para o lado dos rebeldes manuu aahh ta muito bom

    ResponderExcluir
  5. Uma garota que passou o último ano internada num sanatório de loucos. Uma garota que tentou me matar porque eu a beijei. Uma garota que fugiu com outro homem só para se afastar de mim.
    É claro que essa é a garota por quem eu iria me apaixonar.
    Lembrei do Maxon, os dois apaixonados por uma garota q nao quer nada com eles e q aparentemente ama outro

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)