23 de dezembro de 2016

12

Cinco minutos completos debaixo da água muito quente, duas barras de sabonete com cheiro de lavanda, um tubo de xampu destinado exclusivamente para meus cabelos e o toque de macias toalhas felpudas que ouso envolver em meu corpo e eu começo a entender.
Eles querem que eu esqueça.
Eles pensam que podem apagar minhas memórias, minhas lealdades, minhas prioridades com algumas refeições quentes e um quarto com vista para fora. Eles acham que sou muito fácil de ser comprada.
Warner parece não entender que eu cresci sem nada e que não tenho ódio por isso. Não queria ter roupas ou sapatos perfeitos ou qualquer coisa cara. Não queria ser envolta em seda. Tudo que sempre quis era estender a mão e tocar outro ser humano não apenas com minhas mãos, mas com meu coração. Via o mundo e sua falta de compaixão, seu julgamento duro e implacável e seus olhos frios e ressentidos. Via tudo isso a meu redor.
Tinha tanto tempo para escutar.
Olhar.
Estudar pessoas e lugares e possibilidades. Tudo o que tinha de fazer era abrir os olhos. Tudo o que tinha de fazer era abrir um livro para ver as histórias sangrando de página em página. Para ver as memórias gravadas sobre o papel.
Passei minha vida dobrada entre as páginas dos livros.
Na ausência de relacionamentos humanos, criei laços com as personagens de papel. Vivi amor e perda por meio das histórias enredadas na história; experimentei a adolescência por associação. Meu mundo é uma teia entrelaçada de palavras, amarrando membro a membro, osso a tendão, pensamentos e imagens todos juntos. Sou um ser composto de letras, uma personagem criada por frases, um produto da imaginação fabricado por meio da ficção.
Eles querem apagar todas as pontuações de minha vida nesta terra e eu não acho que posso deixar isso acontecer.
Coloco de volta as minhas roupas velhas e, na ponta dos pés, retorno para o quarto, apenas para encontrá-lo abandonado. Adam se foi ainda que tivesse dito que ficaria. Eu não o entendo eu não entendo suas ações eu não entendo minha decepção. Queria não ter amado o frescor de minha pele, a sensação de estar perfeitamente limpa depois de tanto tempo; não entendo por que ainda não me olhei no espelho, por que tenho medo do que vou ver, por que não tenho certeza se vou reconhecer o rosto que pode olhar-me de volta.
Abro o armário.
Ele está explodindo de vestidos e sapatos e camisas e calças e roupas de todos os tipos, de cores tão vivas que ferem meus olhos, de tecidos de que só ouvira falar, do tipo que quase tenho medo de tocar. Os tamanhos são perfeitos muito perfeitos.
“Eles estão à minha espera”.
O céu está chovendo tijolos direto sobre minha cabeça.
Fui desprezada abandonada banida e arrastada de minha casa. Fui empurrada espetada testada e jogada em uma cela. Fui estudada. Fui deixada passando fome. Fui encorajada à amizade somente para ser traída e aprisionada neste pesadelo pelo qual esperam que eu seja agradecida. Meus pais. Meus professores. Adam. Warner. O Restabelecimento. Sou dispensável para todos eles.
Eles pensam que sou uma boneca que eles podem vestir e retorcer em posição prostrada.
Mas eles estão errados.
— Warner está esperando você.
Viro-me e caio de costas contra o armário, fechando-o com uma batida durante a crise de pânico que me aperta o coração. Estabilizo-me e recolho o medo quando vejo Adam em pé à porta. Sua boca se mexe por um momento, mas ele nada diz. Finalmente, ele avança e avança mais até que esteja próximo o bastante para me tocar.
Ele chega a passar por mim para abrir de novo a porta que esconde as coisas de que estou envergonhada por saber que existem.
— Estes são todos para você — diz ele sem olhar para mim, seus dedos tocando a bainha de um vestido roxo, cor de uma ameixa boa o suficiente para se comer.
— Já tenho roupas. — Minhas mãos alisam as rugas em meu traje sujo e esfarrapado.
Ele finalmente decide olhar para mim, mas quando ele o faz suas sobrancelhas saltam, seus olhos piscam e congelam, seus lábios apartam-se em surpresa. Pergunto-me se do banho me saiu um novo rosto e enrubesço, esperando que ele não esteja enojado pelo que pode ver. Não sei por que me importo.
Ele baixa o olhar. Respira fundo.
— Vou esperar lá fora.
Encaro o vestido roxo com as pontas dos dedos de Adam.
Examino o interior do armário por apenas um momento antes de abandoná-lo. Passo os dedos ansiosos pelo cabelo molhado e me revisto de aço. Sou Juliette.
Sou uma garota.
Não sou propriedade de ninguém.
E não me importo com o que Warner quer que eu pareça.
Saio do quarto e Adam me encara por um breve segundo. Ele esfrega a nuca e nada diz. Ele sacode a cabeça. Ele começa a andar. Ele não toca em mim e eu não deveria reparar nisso, mas eu reparo. Não faço ideia do que esperar não faço ideia do que será de minha vida neste novo lugar e estou sendo cravada no estômago por todo enfeite delicado, todo acessório luxuoso, toda pintura, moldagem, iluminação e colorido supérfluos deste edifício. Espero que tudo pegue fogo.
Sigo Adam por um longo corredor atapetado até um elevador feito inteiramente de vidro. Ele passa o mesmo cartão magnético que usou para abrir minha porta e entramos. Nem sequer percebi que tomáramos um elevador para subir tantos andares. Percebo que eu devo ter feito uma cena horrível quando cheguei e estou quase feliz.
Espero desapontar Warner de todos os modos possíveis.
A sala de jantar é grande o bastante para alimentar milhares de órfãos. Em vez disso, há sete mesas de banquete arranjadas pela sala, seda azul escorregando do topo da mesa, vasos de cristal prestes a rebentar de orquídeas e lírios stargazer, tigelas de vidro cheias de gardênias. É encantador. Pergunto-me onde conseguiram as flores.
Warner está posicionado à mesa logo do centro, sentado à cabeceira. Assim que me avista Adam, ele se levanta. A sala inteira fica em volta.
Percebo quase imediatamente que há um assento vazio em ambos os lados dele e não pretendo parar de me mover, mas paro. Faço um inventário rápido dos presentes e não consigo contar nenhuma outra mulher.
Adam toca de leve minhas costas com três pontas de dedo e estou extremamente assustada. Apresso-me adiante e Warner sorri para mim. Ele tira a cadeira à sua esquerda e faz um gesto para que me sente. Sento-me.
Tento não olhar para Adam quando ele se senta na minha frente.
— Você sabe... há roupas em seu armário, minha querida. — Warner senta-se a meu lado; a sala senta-se novamente e retoma um fluxo constante de tagarelice. Ele está voltado quase inteiramente em minha direção, mas, de algum modo, a única presença de que tomo consciência está imediatamente à minha frente. Concentro-me no prato vazio a poucos centímetros dos meus dedos. Desço as mãos ao meu colo. — E você não tem mais de vestir aqueles tênis imundos — continua Warner, furtando-me outro olhar antes de entornar algo em meu copo. Parece água.
Estou com tanta sede que poderia beber uma cachoeira.
Odeio seu sorriso.
O ódio se assemelha exatamente ao que sinto por todos os outros, até que cada qual sorria. Até que cada qual se volte e minta com seus lábios e dentes entalhados no semblante de algo dócil demais para socar.
— Juliette?
Aspiro com bastante rapidez. Uma tosse reprimida está inflando minha garganta.
Seus olhos verdes vítreos cintilam na minha direção.
— Não está faminta? — As palavras mergulham no açúcar. Sua mão trajando luva toca meu pulso e, na afobação, quase o desloco para distanciar-me dele.
Poderia comer todas as pessoas nesta sala.
— Não, obrigada.
Ele lambe o lábio inferior em sorriso.
— Não confunda estupidez com bravura, amor. Sei que você não come nada há dias.
Algo em minha paciência estoura.
— Realmente preferia morrer a comer sua comida e escutá-lo me chamando de “amor” — digo a ele. Travo meu maxilar.
Adam derruba seu garfo.
Warner dispensa-lhe um olhar ligeiro e, quando ele olha novamente para mim, seus olhos endureceram. Ele retém meu olhar por alguns infinitamente longos segundos antes de puxar uma arma do bolso de seu casaco. Ele dispara.
A sala inteira grita e para.
Meu coração está batendo asas contra minha garganta.
Viro a cabeça muito, muito lentamente para seguir a direção tomada pela arma de Warner somente para ver que ele deu um tiro que atravessou direto o osso de um tipo de carne. A bandeja de comida está fumegando levemente pela sala, a comida amontoada a menos de trinta centímetros dos convidados. Ele atirou sem nem mesmo olhar. Podia ter matado alguém.
Emprego toda a minha energia para manter-me muito, muito tranquila.
Warner larga a arma sobre meu prato. Dá-se ao silêncio espaço para dar a volta ao mundo e retornar.
— Seja sábia na escolha das palavras, Juliette. Uma palavra minha e sua vida aqui não será tão fácil.
Pisco.
Adam empurra um prato de comida na minha frente; a força de seu olhar é como uma pá incandescente prensada contra minha pele. Levanto os olhos e ele inclina a cabeça o mais ínfimo milímetro. Seus olhos estão dizendo “por favor”.
Pego meu garfo.
Warner não perde nada. Ele limpa a garganta um tanto ruidosamente. Ele ri um riso sem humor enquanto corta a carne no prato.
— Tenho de convencer Adam a fazer todo o trabalho por mim?
— Perdão?
— Parece que ele é o único que você escuta. — Seu tom é alegre, mas sua mandíbula está, sem sombra de dúvida, travada. Ele se volta para Adam. — Estou surpreso por você não ter dito a ela para mudar de roupa, como lhe pedi.
Adam endireita-se na cadeira.
— Eu disse, senhor.
— Gosto das minhas roupas — digo-lhe. Gostaria de dar-lhe um soco no olho — é o que não lhe digo.
O sorriso de Warner volta suavemente ao lugar.
— Ninguém perguntou do que você gosta, amor. Agora coma. Preciso que você mostre seu melhor quando estiver ao meu lado.

23 comentários:

  1. Espero desapontar Warner de todos os modos possíveis.
    adoro essa Julliet

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  2. |Gostei dessa frase "Espero que tudo pegue fogo". É o que eu penso quando alguém fica se exibindo com algo na minha frente só pra me fazer inveja. kkkkkkkkkkk

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  3. "— Realmente preferia
    morrer a comer sua comida e
    escutá-lo me chamando de
    “amor” — digo a ele. Travo meu
    maxilar.
    Adam derruba seu garfo.
    "
    MDS AMEI ESSA GAROTA KKKKK IMAGINO A EXPRESSÃO DO ADAM KKKKK mano será q só eu gostei desse Warner? heuheu

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    1. minha querida
      todo mundo ama o Warner.

      *-* :P

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    2. Eu não sou sua querida...

      DESCULPA, Ñ RESISTI KKKKK

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    3. Já gostei da garota ela parece América

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    4. eu não gosto, nem dele e nem do Adam ...

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  4. " — Realmente preferia morrer a comer sua comida e escutá-lo me chamando de “amor” — digo a ele. Travo meu maxilar.
    Adam derruba seu garfo. " OMG Cofcof Esquece Cof a Cof ameaça CofCof.

    "— Gosto das minhas roupas — digo-lhe. Gostaria de dar-lhe um soco no olho — é o que não lhe digo." Adivinha? Eu também!

    * Lanna *

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  5. Mdss Já amo o Warner *--*

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    1. Kkkk
      Não tem como não amar...
      Rs
      Na verdade acho q vc ainda vai amar muito mais...
      Warner <3

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  6. "Gostaria de dar-lhe um soco no olho"
    Cara q orgulho dessa menina <3

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  7. Aaaah esse ódio ainda vira amor viu 😂😂😂

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    1. Kkkkk
      Néh!!!
      Praticamente já li todos os livros...
      Amoo deeeemaaaais o Warner!!
      Um dos melhores personagens!
      <3 <3 <3

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  8. Yesubai, a filha do vilão9 de abril de 2017 17:16

    Na ausência de relacionamentos humanos, criei laços com as personagens de papel. Vivi amor e perda por meio das histórias enredadas na história; experimentei a adolescência por associação. Meu mundo é uma teia entrelaçada de palavras, amarrando membro a membro, osso a tendão, pensamentos e imagens todos juntos. Sou um ser composto de letras, uma personagem criada por frases, um produto da imaginação fabricado por meio da ficção.

    É assim que me defino

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  9. Eu amo tanto o Adam como o Warner szszsz AAAAAAAAAH AMOOOO!

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  10. Oxi, que cara chato!

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  11. Oba! Juliette tá criando personalidade! Amando essa coragem dela.

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  12. O Warner super me lembra o Klaus SCR cmmccmfk

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  13. Devoradora de livros3 de julho de 2017 14:18

    Gostaria de dar-lhe um soco no olho, eu te ajudo

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  14. Poderia comer todas as pessoas dessa sala kkkkkkk

    Kkkk essa é das minhas kkkk

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Boa leitura :)