23 de dezembro de 2016

11

Estou tão preparada para o horror inimaginável que a realidade é quase pior.
Dinheiro sujo está pingando das paredes, um ano de fornecimento de alimentos desperdiçado em pisos de mármore, centenas de milhares de dólares em assistência médica derramadas em mobiliários extravagantes e tapetes persas. Sinto o calor artificial emanando por saídas de ar e penso em crianças gritando por água limpa. Aperto o olhar através de lustres de cristal e escuto mães implorando por compaixão. Vejo um mundo superficial existindo em meio a uma realidade aterradora e não consigo me mover.
Não consigo respirar.
Tantas pessoas devem ter morrido para sustentar este luxo. Tantas pessoas tiveram de perder suas casas e seus filhos e seus últimos cinco dólares no banco por causa de promessas promessas promessas, tantas promessas para salvá-los de si mesmos. Eles nos prometeram. O Restabelecimento nos prometeu esperança de um futuro melhor. Eles disseram que consertariam as coisas, eles disseram que nos ajudariam a voltar ao mundo que conhecíamos, o mundo com encontros no cinema e casamentos primaveris e banhos de bebê. Eles disseram que nos devolveriam nossa casa, nossa saúde, nosso futuro sustentável.
Mas eles roubaram tudo.
Eles tomaram tudo. Minha vida. Meu futuro. Minha lucidez. Minha liberdade.
Eles encheram nosso mundo de armas apontadas para nossa testa e sorriram enquanto atiravam nos projetos de nosso futuro. Eles mataram os fortes o bastante para se opor e aprisionaram os malucos que não conseguiram fazer jus a suas expectativas utópicas. Pessoas como eu.
Aqui está a prova de sua corrupção.
Minha pele está suando frio, meus dedos tremem de repulsa, minhas pernas são incapazes de suportar o esbanjamento o esbanjamento o esbanjamento o esbanjamento egoísta nestas quatro paredes. Vejo vermelho por toda parte. O sangue dos corpos respingados na janela, espalhados pelos tapetes, pingando dos candelabros.
— Juliette...
Interrompo-me.
Estou de joelhos, meu corpo rachando da dor que engoli em seco por tantas vezes, agitando-se com soluços que não consigo mais segurar, minha dignidade dissolvendo-se em lágrimas, a agonia desta última semana rasgando minha pele em tiras.
Não consigo sequer respirar.
Não consigo capturar o oxigênio à minha volta e estou com vontade de vomitar na minha camisa e escuto vozes e vejo rostos que não reconheço, fios de palavras evaporados pela confusão, pensamentos tantas vezes embaralhados que não sei sequer se ainda estou consciente.
Não sei se, oficialmente, enlouqueci.
Estou no ar. Sou um saco de penas em seus braços e ele está abrindo caminho entre os soldados que se aglomeram em volta para uma espiadela na comoção e, por um momento, não quero me importar com o fato de que eu não deveria querer tanto isso. Quero esquecer que deveria odiá-lo, que ele me traiu, que ele está trabalhando para as mesmas pessoas que estão tentando destruir o pouquíssimo que resta de humanidade e meu rosto está enterrado no suave tecido de sua camisa e minha bochecha está pressionada contra seu peito e ele cheira a força e coragem e o mundo afogando-se em chuva. Não quero que ele solte meu corpo nunca nunca nunca nunca. Desejo tocar sua pele, desejo que não haja barreiras entre nós.
A realidade esbofeteia-me na cara.
A mortificação bagunça meu cérebro, humilhação desesperada turva meu julgamento; o vermelho pinta meu rosto, sangra pela minha pele. Agarro-me com força à sua camisa.
— Você pode me matar — digo a ele. — Você tem armas... — estou livrando-me de seus braços e ele enrijece em volta de minha cintura. Seu rosto não demonstra emoção nenhuma fora uma súbita pressão no maxilar, uma inequívoca tensão nos braços.
— Você pode simplesmente me matar — eu imploro.
— Juliette. — Sua voz é sólida, com uma ponta de desespero. — Por favor.
Estou novamente paralisada. Novamente impotente. Derretendo por dentro, a vida escoando-me do corpo.
Estamos de pé em frente a uma porta.
Adam pega um cartão magnético e o desliza em um painel de vidro preto instalado ao lado da maçaneta, e a porta de aço inoxidável abre-se facilmente. Damos um passo para dentro.
Estamos sozinhos em uma nova sala.
— Por favor, não se solte de mim me destrua — digo a ele.
Há uma cama grande no meio do ambiente, um tapete exuberante adornando o chão, um armário nivelado à parede, luminárias reluzindo do teto. A beleza é tão corrompida que não posso suportar sua visão. Adam me acalma sobre o colchão macio e dá um passo para trás.
— Você ficará aqui por enquanto, penso eu — é tudo o que ele diz.
Fecho os olhos em aperto. Não quero pensar sobre a tortura inevitável que espera por mim.
— Por favor — digo-lhe. — Quero ficar sozinha.
Um profundo suspiro.
— Isso não é exatamente uma opção.
— O que você quer dizer? — viro-me.
— Tenho de observá-la, Juliette. — Ele diz meu nome como em sussurro. Meu coração meu coração meu coração — Warner quer que você compreenda o que ele está oferecendo a você, mas você ainda é... uma ameaça. Ele fez de você uma atribuição minha. Não posso sair.
Não sei se fico entusiasmada ou amedrontada. Fico amedrontada.
— Você tem que morar comigo?
— Moro no alojamento na extremidade oposta deste edifício. Com os outros soldados. Mas, sim. — Ele limpa a garganta. Ele não está olhando para mim. — Vou me mudar.
Há uma dor na boca do estômago que está me roendo os nervos. Quero odiá-lo e sentenciá-lo e gritar para sempre, mas estou falhando porque tudo o que vejo é um garoto de oito anos que não se lembra de que costumava ser a pessoa mais bondosa que já conheci.
Não quero acreditar que isso esteja acontecendo.
Fecho os olhos e coloco a cabeça nos joelhos.
— Você tem que se vestir — diz ele depois de um momento.
Ergo a cabeça. Olho para ele como quem não entende o que ele está dizendo.
— Eu estou vestida.
Ele limpa a garganta novamente, mas tenta ficar calado sobre o assunto.
— Tem um banheiro por ali — aponta ele. Vejo um uma porta conectada a uma sala e estou repentinamente curiosa. Já ouvi histórias sobre pessoas com banheiros em seus quartos. Suponho que eles não estejam exatamente no quarto, mas próximos o bastante. Escorrego da cama e sigo seu dedo. Assim que abro a porta, ele recomeça a falar. — Você pode tomar banho e se trocar ali. O banheiro... é o único lugar onde não há câmeras — adiciona ele, sua voz diminuindo.
“Há câmeras no meu quarto.”
É claro.
— Você pode encontrar roupas ali. — Ele acena com a cabeça para o armário. Ele se mostra subitamente desconfortável.
— E você não pode sair? — pergunto.
Ele esfrega a testa e senta-se na cama. Suspira.
— Você tem que se aprontar. Warner vai esperá-la para jantar.
— Jantar? — Meus olhos são do tamanho da Lua.
Ele parece amargo.
— Sim.
— Ele não vai me machucar? — Tenho vergonha do alívio em minha voz, da tensão inesperada que liberei, do medo que não sabia que estava abrigando. — Ele vai me dar um jantar? — Estou morrendo de fome meu estômago é um buraco atormentado de fome estou tão faminta tão faminta tão faminta. Não consigo nem imaginar que gosto deve ter comida de verdade.
O rosto de Adam está novamente impenetrável.
— Deve se apressar. Posso mostrar para você como tudo funciona.
Não tenho tempo para protestar antes que ele esteja no banheiro e eu o tenha acompanhado. A porta ainda está aberta e ele está em pé no meio do pequeno espaço, de costas para mim, e eu não consigo entender por quê.
— Já sei como usar o banheiro — digo a ele. Costumava viver em uma casa normal. Costumava ter uma família.
Ele dá meia-volta muito, muito vagarosamente e eu começo a entrar em pânico. Ele finalmente levanta a cabeça, mas seus olhos estão se lançando em todas as direções. Quando ele lança para mim seus olhos se encolhem, sua testa está franzida. Sua mão direita enrola-se em um punho e sua mão esquerda ergue um dedo até seus lábios. Ele está me dizendo para ficar quieta. Todos os órgãos de meu corpo caem no chão.
Sabia que algo estava vindo, mas não sabia que seria Adam. Não achei que ele seria o único a ferir-me, torturar-me, fazer-me desejar pela morte mais do que jamais desejei. Nem mesmo percebi que estava chorando até ouvir a lamúria e sentir as lágrimas silenciosas escorrerem-me pelo rosto e tenho vergonha tanta vergonha tanta vergonha de minha fraqueza, mas uma parte de mim não se importa. Estou tentada a implorar, a pedir por misericórdia, a roubar sua arma e atirar primeiro em mim. Dignidade é a única coisa que me resta.
Ele parece registrar minha súbita histeria, porque seus olhos se arregalam.
— Não, Deus, Juliette... eu não vou... — Ele jura baixinho para que ninguém mais escute. Ele bate o punho contra a testa e vira-se, suspirando pesado, andando passo a passo o comprimento do pequeno espaço. Ele jura novamente.
Ele sai pela porta e não olha para trás.

17 comentários:

  1. eu acho que o Adam está tramando alguma!

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  2. Meu Deus...a mina tá apavorada...coitada

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    1. Rosana Schereave Forever 731 de maio de 2017 15:41

      Mano seu debiloide mental!A mina já tá assustada o suficiente!PS:Mostra que gosta dela e não fax nada contra a propia!Acho que o Warner deve ser menos debiloide!

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  4. Acho que ela tem muito a aprender nesse mundo. Superar esse medo todo. Ela não pode ficar apavorada com qualquer coisa que apareça.

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  5. E eu tô lendo ouvindo evanescence só pra dar aquela depressão

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  6. Na verdade é um pouco confuso, e é quase só por isso que ainda estou lendo.

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  7. Não sei... Não gosto desse Adam... detesto personagens que são falsos, nunca consigo confiar neles depois.

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  8. Não gosto desse Adam, ele comprometeu meu futuro shipp por ser falso... Agora vou ver ele sempre fingido e ficar paranóica quanto a lealdade dele ... Depois que li todos os livros lançado de trono de vidro e corte de espinhos e rosas tô meio sem esperança de algum dia achar uma série tão boa quanto .

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    1. Todo mundo pode trair todo mundo.
      Não consigo confiar no Adam de jeito nenhum!

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    2. "Todo mundo pode trair todo mundo".
      Leu A Rainha Vermelha? <3

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    3. Hahahah amooo rainha vermelha S2

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  9. S3
    Melhor livro❤❤❤❤

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  10. De onde saiu a palavra debiloide?

    Ass: Marcella

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  11. Selecionada,audaciosa,divergente,bico negro...20 de junho de 2017 20:55

    Ola, estou aqui para reler o livro, entao meus comentarios a repeito do mozão dela(quem ja leu sabe), podem se desconsiderados, entao n liguem para os comentarios a seguir ou aos anteriores

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Boa leitura :)