29 de dezembro de 2016

10

Nem eu mesmo sei como consigo voltar tão depressa para meu quarto. Tudo que sei é que tranquei a porta do quarto, destranquei a porta do escritório só para me trancar lá dentro, e agora estou sentado aqui na minha mesa, pilhas de papel e material sigiloso são colocadas de lado, e fico olhando para aquela capa esfarrapada de algo que tenho muito medo de ler. Existe algo pessoal nesse diário; parece que contém sentimentos de solidão, os momentos mais vulneráveis da vida de alguém. Ela escreveu o que está nessas páginas no momento mais lúgubre de sua vida de 17 anos, e estou prestes a conseguir exatamente o que sempre quis.
Um olhar na sua mente.
E embora essa espera esteja acabando comigo, também estou terrivelmente ciente de como isso pode ter um resultado negativo. De repente não tenho mais certeza se realmente quero saber. No entanto, sei que quero. Definitivamente sim.
Então, abro o livro, e viro para a página seguinte. Dia três.

Hoje começo o dia gritando.

E aquelas quatro palavras me atingem mais fundo do que qualquer dor física.
Meu peito está subindo e descendo, minha respiração resfolegante. Tenho que me forçar a continuar a ler.
Logo percebo que as páginas estão fora de ordem. Parece que ela voltou para o começo depois que chegou ao final do diário, e percebeu que não tinha mais espaço. Ela escreveu nas margens, sobre os parágrafos, com letras minúsculas e quase ilegíveis. Existem números rabiscados por cima de tudo, às vezes o mesmo número se repete várias e várias vezes. Algumas vezes a mesma palavra é escrita e reescrita, circulada e sublinhada. E quase todas as páginas têm sentenças e parágrafos quase que inteiramente riscados.
É um completo caos.
Meu coração se contrai ao perceber isso, com essa prova do que ela deve ter passado. Havia imaginado como ela deve ter sofrido durante todo esse tempo, trancada em condições sombrias e pavorosas. Mas ver isso pessoalmente — queria não estar certo.
E agora, mesmo quando tento ler em ordem cronológica, descubro que sou incapaz de acompanhar o método que ela usou para numerar tudo; o sistema que ela criou nessas páginas é algo que só ela seria capaz de decifrar. Posso apenas folhear o material e procurar trechos que estão escritos com  mais coerência.
Meus olhos ficam presos a uma passagem em particular.

É uma coisa estranha, não conhecer a paz. Saber que não importa onde você for, não existe um santuário. Que a ameaça da dor estará sempre ali bem perto. Não estou protegida dentro dessas quatro paredes, nunca me senti protegida ao sair de minha casa, e nunca consegui estar segura nos catorze anos que vivi dentro de casa. O hospício mata pessoas todos os dias, o mundo já aprendeu a me temer, e meu lar é o mesmo lugar onde meu pai me prendia no quarto todas as noites e minha mãe gritava comigo por ser a aberração que ela foi forçada a criar.
Ele sempre disse que era meu rosto.
Havia alguma coisa no meu rosto, minha mãe dizia, que ela não conseguia suportar. Algo nos meus olhos, no modo como eu olhava para ela, o simples fato de eu existir. Ela sempre dizia para eu parar de olhar para ela. Ela costumava gritar isso para mim. Como se eu fosse atacá-la. Pare de me olhar, ela gritava. Você pare de olhar para mim, ela gritava.
Uma vez ela colocou minha mão no fogo.
Só para ver se iria queimar, ela disse. Só para verificar se era uma mão comum, ela dizia.
Eu tinha 6 anos então.
Me lembro disso, pois era meu aniversário.

Joguei o caderno no chão.
Me levanto num instante, tentando acalmar meu coração. Passo a mão pelos cabelos, meus dedos seguram as raízes. Essas palavras me tocam, me são tão familiares. A história de uma criança maltratada pelos pais. Trancada e jogada fora. É algo que eu entendo bem.
Nunca li nada parecido antes. Nunca havia lido nada que tocasse direto no meu coração. E eu sei que não deveria. Sei que de algum modo isso não vai ajudar, não vai me ensinar nada, não vai me dar nenhuma pista sobre onde ela pode ter ido. Já sei que ler tudo isso vai me enlouquecer.
Mas não consigo deixar de pegar o diário dela mais uma vez.
Abro-o novamente.

Será que já estou louca?
Será que isso já aconteceu?
Como saberei um dia?

Meu interfone toca tão repentinamente que quase caio da cadeira, e tenho que me segurar na parede por trás da minha mesa. Minhas mãos não param de tremer; minha testa está coberta de suor. Meu braço ferido começa a queimar, e minhas pernas de repente estão fracas demais para me aguentar de pé. Tenho que focar toda a minha energia em parecer normal quando receber a mensagem.
— O quê? — pergunto.
— Senhor, estava pensando, se o senhor ainda estava... bem, a reunião, senhor, a menos é claro que eu entendi o horário errado. Desculpe, não deveria tê-lo incomodado...
— Oh, pelo amor de Deus, Delalieu. — Tento afastar o tremor da minha voz. — Pare de se desculpar. Estou a caminho.
— Sim, senhor — ele diz. — Obrigado, senhor.
Desligo o aparelho.
E então seguro o caderno, o enfio no meu bolso e vou em direção à porta.

11 comentários:

  1. doido que nem ela, eu meio que shippo, mas não tenho certeza

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  2. Deu maior dó dele agora u.ú

    Carla

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  3. Gente, morrendo de dó da Julliette, tadinha olha o q ela passou 😢.
    Sempre amei o Warner, sabia q tinha mais coisa atrás daquela fachada toda.

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  4. Os pais da Juju só podem ser parente do sogrão pq pqp mano, eles eram cruéis igual ao Anderson -_-''''''

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  5. Definitivamente esses personagens literários não tem sorte com pais, tios, irmãos e etc, mas já dizia o grande pensador contemporâneo presidente Snow: "São as coisas que mais amamos que nos destroem" E qnt + eu leio + eu shippo Warnette

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  6. Quero desesperadamente saber o nome desse cara affs!!!

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  7. q mae mais fdp do carai aff q odio desses pais retardados aberraçoes sao eles...

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  8. Até agora não decidi se shippo a Juliette com o Warner ou com o Adam.

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Boa leitura :)