23 de dezembro de 2016

10

Adam veste as luvas, mas não toca em mim.
— Alivie com ela, Roland. Assumo daqui.
A bota desaparece. Faço um esforço para levantar-me e olho fixamente para o nada. Não penso no horror que me aguarda. Alguém chuta a parte posterior de meus joelhos e eu quase tropeço no chão.
— Anda — uma voz rosna de trás. Levanto os olhos e percebo que Adam já está indo embora. Eu o devia estar seguindo.
Uma vez que estamos de volta à familiar cegueira dos corredores do hospício, ele, enfim, para de andar.
— Juliette. Uma palavra suave e minha articulações são feitas de ar.
Não lhe respondo.
— Pegue minha mão diz ele.
— Nunca — enfrento-o, entre tomadas entrecortadas de oxigênio. — Jamais.
Um suspiro carregado. Sinto-o deslocar-se na escuridão e logo seu corpo está muito perto, irresistivelmente perto do meu. Sua mão está na parte inferior das minhas costas e ele está me guiando pelos corredores em direção a um destino desconhecido. Cada centímetro de minha pele está enrubescendo. Tenho de me segurar ereta para evitar que caia para trás em seus braços.
A distância que estamos andando é muito maior do que eu esperava. Quando Adam finalmente fala, suspeito que estejamos perto do fim.
— Vamos para o lado de fora — diz ele no meu ouvido. Tenho de cerrar os punhos para controlar os frêmitos no coração. A sensação de sua voz me distrai tanto que quase não compreendo o significado do que ele está dizendo.
— Só achei que você devesse saber.
Uma audível tomada de ar é minha única resposta. Há quase um ano não piso do lado de fora. Estou dolorosamente excitada, mas há tanto tempo não sinto a luz natural sobre a pele que não sei se sou capaz de suportá-la. Não tenho escolha.
O ar é o primeiro a me alcançar.
Nossa atmosfera tem pouco do que se orgulhar, no entanto, depois de tantos meses em um recanto de concreto, mesmo o oxigênio desperdiçado da nossa Terra agonizante tem gosto de céu. Não posso inalar rápido o bastante. Encho meus pulmões com a sensação; avanço para o meio da leve brisa e agarro um punhado de vento conforme ele tece seu caminho por entre meus dedos.
Felicidade diferente de tudo que já conheci.
O ar é fresco. Um refrescante banho de nada tangível que faz arder meus olhos e rebenta em minha pele. O Sol está alto hoje, cegando ao refletir nas pequenas manchas de neve que mantêm a terra congelada. Meus olhos se comprimem ao peso da luz e eu não consigo ver senão através de duas fendas, mas os raios quentes banham minha pele como um casaco ajustado à minha forma física, como o abraço de algo maior que um ser humano. Poderia permanecer parada neste momento para sempre. Por um infinito segundo, sinto-me livre.
O toque de Adam me devolve à realidade. Quase pulo de medo e ele pega minha cintura. Tenho de implorar aos meus ossos para que parem de tremer.
— Você está bem? — Seus olhos causam-me surpresa. São os mesmos de que me recordo, azuis e insondáveis como a parte mais profunda do oceano. Suas mãos estão delicadas tão delicadas em volta de mim.
— Não quero que você toque em mim — minto.
— Você não tem escolha. — Ele não olha para mim.
— Sempre tenho uma escolha.
Ele passa uma mão pelo cabelo e engole o nada em sua garganta.
— Siga-me.
Estamos em um espaço em branco, um campo vazio cheio de folhas mortas e árvores agonizantes tomando pequenos tragos da neve derretida no solo. A paisagem foi destruída pela guerra e pelo esquecimento e, ainda assim, é a coisa mais bonita que vejo em muito tempo. Os soldados interrompem a marcha para observar Adam abrir a porta de um carro para mim.
Não é um carro. É um tanque.
Olho para a carcaça de metal maciço e tento escalar a lateral enquanto Adam está atrás de mim. Ele me eleva pela cintura e eu começo a ofegar enquanto ele me acomoda no assento.
Em pouco tempo estamos dirigindo em silêncio e não faço ideia de para onde estamos indo.
Estou fitando tudo através da janela.
Estou comendo e bebendo e absorvendo cada detalhe infinitesimal das ruínas, do horizonte, das casas abandonadas e entre os pedaços quebrados de metal e vidro espalhados pelo cenário. O mundo mostra-se nu, despido de vegetação e calor. Não há placas de rua, não há sinais de pare; não há necessidade delas. Não há transporte público. Todos sabem que os automóveis são agora fabricados por uma única empresa e vendidos a um preço absurdo.
Pouquíssimas pessoas possuem meios de fuga. Meus pais.
A população foi distribuída pelo que sobrou do país.
Edifícios industriais formam a espinha dorsal da paisagem: altas e retangulares caixas de metal entulhadas de maquinário. Maquinário destinado a fortalecer o exército, fortalecer O Restabelecimento, destruir grandes massas de civilização humana.
Carbono/Alcatrão/Aço
Cinza/Preto/Prata
Cores esfumaçadas sujam o horizonte, gotejando na lama que costumava ser neve. Lixo está amontoado por todos os lugares em pilhas irregulares, pedaços de grama amarelada espreitam, sob a devastação, o lado de fora.
Casas tradicionais de nosso velho mundo foram abandonadas, janelas estilhaçadas, telhados estão desmoronando, tintas vermelha, verde e azul, esfregadas até atingirem tons atenuados que melhor se harmonizam com nosso futuro. Agora vejo os complexos negligentemente construídos sobre a terra devastada e começo a me lembrar. Lembro-me de que estes deviam ser temporários. Lembro-me de que, alguns meses antes, eu estava encarcerada quando eles começaram a construí-los. Estes pequenos e frios quartéis seriam suficientes só até que todos os detalhes de seu novo plano fossem determinados, é o que O Restabelecimento dissera. Só até que todos fossem subjugados. Só até que as pessoas parassem de protestar e entendessem que esta mudança era para o bem delas, para o bem de suas crianças, para o bem de seu futuro.
Lembro-me de que havia regras.
Sem mais imaginações perigosas, sem mais remédios controlados. Uma nova geração composta apenas por indivíduos saudáveis iria nos sustentar. Os doentes devem ser trancafiados. Os velhos devem ser descartados. Os problemáticos devem ser abandonados em manicômios. Apenas os fortes devem sobreviver.
Sim.
Claro.
Sem mais línguas estúpidas e histórias estúpidas e quadros estúpidos colocados sobre a lareira. Sem mais Natal, sem mais Hanukkah, sem mais Ramadã e Diwali. Não falar sobre religião, crença, convicções pessoais. As convicções pessoais foram o que quase nos matou, era o que eles diziam.
Convicções, prioridades, preferências, preconceitos e ideologia dividiram- nos. Iludiram-nos. Destruíram-nos.
Necessidades egoístas, vontades e desejos precisavam ser apagados. Ambição, excessos e gula tinham de ser expurgados do comportamento humano. A solução estava no autocontrole, no minimalismo, nas condições parcas de vida. Uma linguagem simples e um dicionário novo em folha repleto de palavras que todo mundo entenderia.
Essas coisas poderiam nos salvar, salvar nossas crianças, salvar a raça humana, era o que eles diziam.
Restabelecer a igualdade, restabelecer a humanidade. Restabelecer a esperança, a cura e a felicidade.
SALVE-NOS!
JUNTE-SE A NÓS!
RESTABELEÇA A SOCIEDADE!
Os cartazes ainda estão afixados nas paredes.
O vento açoita os restos desgastados deles, mas suas marcas estão decididamente fixadas, agitando-se diante do aço e das estruturas de concreto aos quais se prendem. Alguns ainda estão colados em postes que brotam diretamente do chão, alto-falantes agora afixados bem no topo.
Alto-falantes que alertam as pessoas, sem dúvida, dos perigos iminentes que as cercam.
Mas o mundo está assustadoramente calmo.
Pedestres passam, caminhando vagarosamente no tempo frio e gélido para trabalhar nas fábricas e encontrar comida para suas famílias. A esperança neste mundo sangra do cano de uma arma.
Ninguém mais se importa realmente com o conceito.
As pessoas costumavam querer esperança. Elas queriam pensar que as coisas poderiam melhorar. Elas queriam acreditar que poderiam voltar a preocupar-se com fofocas e feriados e ir às festas nas noites de sábado. Então O Restabelecimento prometeu um futuro perfeito demais para ser possível e a sociedade estava desesperada demais para não acreditar. Elas nunca perceberam que estavam vendendo suas almas a um grupo que planejava tirar vantagem de sua ignorância. Seu medo.
A maioria dos civis está petrificada demais para protestar, mas há outros que estão mais fortes. Há outros que estão aguardando o momento certo. Há outros que já começaram a revidar.
Espero que não seja tarde demais para revidar.
Estudo cada ramo que se agita ao vento, cada soldado imponente, cada janela que consigo contar. Meus olhos são dois batedores de carteira profissionais, roubando tudo para armazenar na minha mente.
Perco a noção dos minutos que atropelamos.
Paramos em frente a uma estrutura pelo menos dez vezes maior que o manicômio e aparentemente central para a civilização. Do lado de fora, parece um edifício sem graça, discreto em todos os sentidos, exceto em seu tamanho, placas de aço cinza abrangendo quatro paredes planas, janelas rachadas e fechadas com força nos 15 andares. É lúgubre e não tem qualquer marcação, símbolo, evidência de sua verdadeira identidade.
Centro de comando político camuflado entre as massas.
O interior do tanque é uma intrincada bagunça de botões e alavancas que fico confusa em operar, e Adam está abrindo minha porta antes que eu tenha a chance de identificar as peças. Suas mãos estão envoltas em minha cintura e meus pés agora estão firmemente no chão, mas meu coração está batendo tão rápido que estou certa de que ele pode escutá-lo. Ele não me soltou.
Levanto o olhar.
Seus olhos estão apertados, sua testa franzida, seus lábios seus lábios seus lábios são dois pedaços de frustração forjados em um só.
Dou um passo para trás e dez mil minúsculas partículas se estilhaçam entre nós. Ele baixa os olhos. Ele se afasta. Ele aspira e cinco dedos em uma mão formam um punho instável.
— Por aqui.
Ele acena com a cabeça na direção do edifício.
Sigo-o para dentro.

15 comentários:

  1. Desperdício parace o caius de crepusculo e ele msm q fala isso ne ? Ou e o arus sla

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  2. Gt esse livro poderia facilmente ser o começo da história do livro a seleção. A forma como o mundo ficou da forma como ficou.

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  3. parece muito com o livro a princesa e tambem tem alguns pontos em comum com bruxos e bruxas

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  4. Nossa mano, eu não consigo odiar o Adam, ele é tão...tão...ah sei lá, só sei q eu gosto dele ele gosta dela heuheu

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  5. não consigo odiar o Adam!

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  6. tem gente dizendo que não consegue odiar o adam, mas eu não consigo é odiar o menino lá loiro

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  7. Sei la, ainda to achando a trama meio fraca, não sei também se é porque acabei de ler império dá tempestade e fiquei com depressão pós livro kkk

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    1. A trilogia é ótima, o último livro é o melhor, vc não vai se arrepender...AI MDS EU LI IMPÉRIO DE TEMPESTADES ASSIM Q A KARINA POSTOU E EU AINDA ESTOU SEM CHÃO, VAMO SE ABRAÇAR MIGA E CHOREMOS, MAS SÉRIO DPS D LER EOS ESTOU EM DEPRESSÃO LITERÁRIA E SÓ DE LEMBRAR TENHO VONTADE DE CHORAR :'(

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  8. Yesubai, a filha do vilão9 de abril de 2017 16:59

    sobre o Adam, eu faço a Glória Pires "Não sou capaz de opinar!"

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    1. Kkkk essa foi boa!
      Lendo seu nome lembrei do meu Ren...😍

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Boa leitura :)