29 de novembro de 2016

Um ano depois

— A SEGUIR EM A INVASÃO: UMA RETROSPECTIVA, ENTREVISTAREMOS... SSSHHH... OS corajosos membros da Décima Primeira Brigada Real da Austrália... ssshhh... que realizaram uma incursão ousada a uma nave de guerra mogadoriana no Dia VH. Mas, primeiro... ssshhh... os lorienos? Deuses? Heróis? Imigrantes ilegais? Nossos... ssshhh... convidados discutem...
Desligo a televisão. De toda forma, a recepção é péssima aqui em cima. Agora que o barulho se foi, posso voltar todo o meu foco a esfregar. Minha mão está um pouco dolorida de tanto segurar a escova, esfregando-a pela parede de pedra. Seria mais fácil usar a telecinesia, mas gosto de trabalhar. É bom usar as mãos, esfregar as manchas de tinta antigas até descascarem, ou até meus braços estarem cansados demais para continuar.
Nessa parede havia uma pintura de Oito atravessado por uma espada. Mas já se apagou. Foi a primeira que limpei. A única profecia restante é a pintura da Terra dividida ao meio, uma parte viva e a outra morta, com duas naves se aproximando do planeta a partir de lados opostos. É essa que estou apagando.
Na verdade, eu meio que gosto desta, então a deixei por último. Minha interpretação é a de que o pintor não sabia quem iria vencer a guerra. Foi por isso que a deixou tão vaga. Mesmo assim, tem que ser apagada. Estou tentando não pensar tanto no passado.
Quero que este lugar tenha a ver com o futuro.
Então, continuo esfregando.
— Acho que já está limpa, John.
A voz de Ella me tira do transe. Não sei por quanto tempo fiquei esfregando a parede. Horas, talvez. Os músculos do meu braço estão dormentes. Devo estar polindo a pedra há algum tempo, pois a pintura foi toda apagada.
— Estava com a cabeça longe — digo, meio sem graça.
— É, estou sentada aqui há uns dez minutos.
Ella me rastreou alguns meses atrás e está por aqui desde então. Ainda não sei muito bem como fez isso. Acho que ser telepata deve ter ajudado.
Pensei que o Himalaia seria um bom lugar para me esconder por um tempo, para colocar a cabeça no lugar. Marina e Seis é que me falaram sobre esta caverna. Na época em que a fuga as levou à Índia, esta câmara de profecias desmoronou em um ataque mog. Cheguei pretendendo escavar e ver se poderia recuperar alguma coisa, mas aqueles caras dos Oito Nacionalistas de Vishnu foram mais rápidos. Ao que parece, a caverna é um lugar sagrado para eles. Já tinham começado a escavá-la e permitiram que eu me juntasse aos seus esforços sem fazer perguntas. Hoje em dia, eles protegem a área, mantêm os eventuais alpinistas afastados e costumam me deixar em paz. Talvez um deles tenha passado minha localização para Ella, mas duvido.
Olhando para ela, ainda noto algo um pouco sobrenatural. A centelha que brilhava em seus olhos se apagou, embora, banhada pela luz azul-cobalto da caverna, eu veja algo de Legado nas pupilas. Quem sabe ela tenha visto meu projeto em uma de suas visões e decidido vir ajudar.
Não me importo em ter companhia.
Ella amadureceu muito ao longo dos últimos meses e entrou naquela fase desajeitada da adolescência da qual não sinto nenhuma falta. Seu rosto está bronzeado pelo sol lá de fora; os cabelos trançados, como o das locais. Ela vai à escola em uma pequena aldeia descendo a montanha, e os outros sete alunos da turma fingem que a garota não é nem um pouco diferente.
Ela se senta de pernas cruzadas na mesa maciça que instalei no centro da caverna – meu projeto – pegando um fio da lona de algodão que usei para cobri-la.
— Quer dizer que as paredes estão limpas — comenta Ella.
— É.
— Agora você não tem mais motivo para continuar adiando.
Desvio o olhar. Ela tem me amolado quase todos os dias para sair e encontrar os outros. Sempre pretendi fazer isso – o trabalho aqui em cima não é só para meu aproveitamento. Mas acho que parte de mim começou a gostar da solidão e do sentimento de estar enraizado nos Himalaias. Quando foi a última vez que fiquei em um só lugar sem ter que olhar toda hora por cima do ombro?
Além disso, estou um pouco nervoso com a ideia de rastrear todo mundo. Muita coisa pode mudar em um ano.
De trás de si, Ella pega a caixa de charutos na qual guardei a outra parte do meu projeto. Então a estende para mim.
— Tomei a liberdade de pegar isto para você — conta ela. — Pode partir agora mesmo.
Estreito os olhos.
— Eu gostaria que você não mexesse nas minhas coisas.
— Ah, deixa disso, John. Somos telepatas. Você sabe que os limites são difíceis.
Pego a caixa das mãos dela.
— Você só quer ver Nove outra vez.
Ella arregala os olhos.
— Ei! Quem anda bisbilhotando mesmo?
Mas ela está certa. Chegou a hora. Não dá mais para adiar.
Fora da caverna, há um pouco de neve na montanha. Desço correndo o caminho de pedras em direção ao dia ensolarado, sentindo o calor aumentar à medida que a altitude vai diminuindo. O ar é limpo e revigorante, e eu respiro fundo, querendo senti-lo, ou talvez querendo enrolar um pouco. Paro por um instante antes de alcançar o pequeno acampamento que abriga um grupo rotativo de soldados dos Oito Nacionalistas de Vishnu. Um deles me vê e acena. Retribuo o cumprimento.
Respiro fundo outra vez. Vou sentir falta da solidão.
Então, salto no ar.
Já faz algum tempo que não voo. Mesmo estando um pouco enferrujado, ainda estou melhor nisso do que há um ano. Enquanto voo através das nuvens, sentindo na pele a umidade fria, tenho que resistir ao impulso de gritar de alegria. É bom estar aqui fora; é bom exercitar meus Legados de um jeito que já não faço há algum tempo.
É uma sensação boa voar rumo a um encontro que não será mortal.
Bem, pelo menos espero que não.
É claro que, assim que penso isso, duas patas gigantes me atingem bem entre as escápulas e me lançam rodopiando em direção à Terra.
Grito quando me endireito. Assim que passo a flutuar em segurança, o grifo me ataca de novo. Eu me esquivo por entre as nuvens, evitando seu bico, suas garras... e rio o tempo todo.
— Desculpa por não ter me despedido de você! — grito para BK. — Você estava tomando sol em algum lugar, seu vira-lata preguiçoso!
O Chimæra parece aceitar meu pedido de desculpas, porque, em vez de partir para outro ataque, começa a voar a meu lado. Eu me seguro sob uma das enormes asas do meu velho amigo e deixo que me leve por um tempo, rindo e acariciando seu pelo.
Antes de deixarmos o espaço aéreo da Índia, BK se solta, dá um grito amigável e retorna.
— Voltarei para casa em breve, BK! — berro em meio ao vento.
Coloco os braços ao lado do corpo, mantenho as pernas fechadas, o queixo pressionado no peito. É minha postura mais aerodinâmica. Fico invisível e sigo em frente, minha mente se esvaziando, o mesmo que aconteceu enquanto eu esfregava as paredes da caverna. Acho que me tornei o tipo de cara que medita.
Será um longo voo.


Estão construindo a Academia em um trecho isolado de floresta do outro lado da baía de São Francisco. Enquanto desço, vejo a ponte Golden Gate e a cidade depois dela.
Lá embaixo, dormitórios recém-construídos e salas de conferências se erguem em meio à mata, guindastes e caminhões de cimento estacionados nas proximidades, onde o trabalho ainda não está concluído. É como uma escola particular pitoresca, se você ignorar o que se esconde no perímetro florestal: uma cerca eletrificada, arame farpado e soldados fortemente armados patrulhando a única saída da Academia.
Ao que parece, tudo isso é para manter os Gardes humanos em segurança. Eu me pergunto, no entanto, o que aconteceria se um deles decidisse que já estudou o bastante e quisesse passear fora do campus. Será que os soldados que patrulham o portão permitiriam?
Não penso nisso por muito tempo. Não é a razão para eu estar aqui.
Apesar de toda a segurança, a Academia não está preparada para homens voadores invisíveis. Aterrisso no campus sem ser detectado.
O lugar foi construído como parte da Declaração de Governança Garde, um conjunto de leis adotado pelas Nações Unidas após o Dia da Vitória da Humanidade. Adolescentes do mundo inteiro serão trazidos até aqui para aprender a controlar seus poderes e um dia trabalhar para o bem da humanidade. Existem outras leis também – coisas sobre os lorienos e os mogs, regras sobre quando os Legados podem ser usados, esse tipo de coisa.
Para ser sincero, eu não cheguei a ler.
O campus está quase deserto no momento. Pelo que ouvi falar, os únicos alunos treinando são aqueles que não têm para onde ir. Aqueles que perderam suas famílias durante a invasão. Os outros só virão daqui a alguns meses, quando o local for de fato aberto.
Na entrada, há um cartaz ampliado de uma imagem que circulou por toda parte durante os esforços de limpeza que se seguiram à invasão. Nele, a filha do presidente está de pé entre os escombros em Nova York, usando sua superforça para levantar uma pilha de detritos a fim de libertar em segurança uma mãe e seus dois filhos pequenos. Ao fundo, tremula uma bandeira americana glamourosamente esfarrapada.
Os noticiários disseram que a família estava presa lá embaixo fazia uma semana, mas sempre achei que a coisa toda parecia encenada. Inspiradora, é claro. Mas encenada.
Na parte inferior do cartaz, o slogan diz: PACIFICADORES DA TERRA GARDE – VOCÊS SÃO O ADMIRÁVEL MUNDO NOVO.
Ainda invisível, caminho pelos corredores da Academia. Não demora muito para eu ouvir barulhos de treinamento. Sigo nessa direção, sabendo que é lá que ele estará.
Em um ginásio descomunal, um punhado de jovens pratica telecinesia entre si. Aos pares, atiram bolas de futebol para a frente e para trás sem usar as mãos, e, toda vez que soa um apito, acrescentam outra bola ao exercício. Quando a bola de uma dupla cai, eles deixam escapar um gemido coletivo e começam a correr em círculos pelo ginásio.
Nove observa tudo de uma plataforma no alto. Ele está vestido como um treinador de futebol – calça de moletom e agasalho com capuz. Uma das mangas está costurada por causa do braço ausente. O cabelo escuro está preso em um rabo de cavalo. Pensei que talvez o governo o obrigasse a cortar, mas não tivemos essa sorte.
— Professor Nove, por quanto tempo temos que continuar fazendo isso? — queixa-se um dos alunos, e me esforço para conter o riso.
— Até eu me cansar de ver você errando, McCarthy — berra Nove em resposta.
Flutuo até a passarela e aterrisso suavemente ao lado dele. Ele sente o movimento e vira a cabeça bem quando me torno visível.
— Olha só esse vendido, trabalhando para o go...
Uuff!
Nove quase me derruba da passarela com seu abraço de um braço só. Quando ele termina de me sufocar, me afasta um pouco, me observando como eu fiz em segredo com ele.
— Johnny, o grande herói! Não acredito! — Nove balança a cabeça. — Você está aqui.
— Estou aqui.
Notando a falta de movimento dos garotos lá embaixo, Nove vira-se para eles. Seu grupo de Gardes órfãos parou de treinar para olhar para a gente. Para mim, em particular.
— Estão olhando o quê? — grita ele. — De volta ao trabalho, seus vermes!
Relutantes, os jovens fazem o que ele ordena. Não consigo deixar de rir do controle que Nove tem sobre eles. Ele vira de volta para mim e aperta minha bochecha, onde percebo que tenho uma barba irregular crescendo. Já deve fazer alguns meses que não me barbeio.
— Essa penugem deveria servir de disfarce? — pergunta Nove. — Não está funcionando.
— Professor Nove, hein? — respondo, sorrindo.
— Pois é — diz ele, estufando o peito.
— Você nem terminou o ensino médio, cara.
— É um título honorário — responde ele com um sorriso diabólico. — Olha para você, com esse ar de eremita das montanhas. Por onde andou? Sabe, não foi legal você fugir de nós depois que o aleijado aqui passou uma semana cuidando de você.
Eu bufo, com deboche.
— Você não estava cuidando de mim. Estava deitado na cama ao lado.
— É, dando um apoio emocional importante.
Sei que Nove está brincando, mas há um pouco de verdade no que diz. Depois do que houve em West Virginia, assim que me senti bem o bastante, abandonei os outros.
Esfrego a nuca.
— Eu me sinto mal por isso. Precisava colocar a cabeça no lugar depois...
— Ah, deixa disso — interrompe Nove, me dando tapinhas no ombro. — Você está de volta agora.
Ele aponta com a cabeça para os garotos lá embaixo, muitos dos quais ainda olham de relance para nós, prejudicando seus lançamentos telecinéticos e, assim, tendo que dar várias voltas no ginásio.
— Quer dizer algumas palavras para a próxima geração? Eles iam adorar. São meus favoritos. Os mais problemáticos. Eles me fazem lembrar de nós.
Eu me afasto da grade da passarela e balanço a cabeça.
— Não estou pronto para algo assim — digo a ele. De trás de mim, tiro a pequena caixa que venho carregando desde o Himalaia. — Na verdade, vim aqui para lhe dar algo. Para Lexa também, se ela estiver por aí...
Nove levanta uma sobrancelha.
— Sim, vamos dar um oi para ela. Tem uma coisa que eu quero que você veja.
Nove dispensa a turma e me leva a um escritório no terceiro andar do prédio. O lugar dá vista para o enorme campus, ou vai dar, assim que as janelas forem colocadas – no momento, só há um monte de lonas azuis cobrindo os espaços abertos na parede. Lexa está sentada atrás de uma mesa, olhando para um computador com vários monitores. Como Nove, veste roupas casuais e parece à vontade. Ela abre um sorriso quando me reconhece e na mesma hora sai de trás das telas para me dar um abraço.
— Então, você também é professora? — pergunto a ela.
Lexa faz um som de deboche.
— Não, Nove tomou a dianteira. Estou de volta ao meu papel favorito: o de hacker benevolente. — Ela faz sinal para eu dar a volta na mesa. — Dá uma olhada.
De relance, é difícil absorver toda a informação que flui pelas telas de Lexa. Há mapas-múndi com pequenos pontos azuis, múltiplos search-bots vasculhando a Internet, fóruns darknet e boxes de dados criptografados passando por processos que não entendo.
— Então, o que estou vendo?
— Estou de olho nos Gardes — explica ela. — Apagando informações que vêm a público. Mantendo suas famílias em sigilo. Mesmo quando estão sob a proteção da Academia, todo cuidado é pouco. Isso sem falar que alguns governos ainda não estão muito felizes com toda esta iniciativa.
— Isso é necessário?
— É melhor prevenir do que remediar — responde ela. — Lawson e o restante do pessoal Terra Garde têm sido bons conosco, mas...
— Mas aí aparecem umas merdas assim que fazem você ter dúvidas — se intromete Nove, me entregando um papel que parece ser do governo. Dou uma lida rápida.

Eu, abaixo assinado, afirmo que sou um ser humano nascido naturalmente na Terra e um cidadão cumpridor de leis de uma das nações da Terra Garde. Com minha assinatura, faço um juramento à Terra Garde, uma divisão plenamente sancionada de manutenção da paz criada pelas Nações Unidas e administrada pelos Estados Unidos. Juro solenemente defender o planeta e os interesses da minha nação e seus aliados contra todos os inimigos, terrestres e extraterrestres; ser leal à Terra Garde; só usar meus Legados a serviço do meu planeta; e obedecer às ordens do Alto Comando da Terra Garde, nomeado conjuntamente, de acordo com os regulamentos e com o Código Uniforme de Justiça Militar.

Olho para Nove, um pouco perplexo.
— Isso é legal?
— Eu não sei, John. Sou professor, não advogado.
— Lawson nos assegurou de que é só uma formalidade — afirma Lexa. — Mas estamos de olhos abertos, em todo caso.
— Bem, se algum dia parecer que não estão jogando limpo... — começo a dizer, em seguida mostro aos dois o que trouxe comigo.


Em Nova York, a reconstrução ainda está em andamento. Um ano se passou e eles ainda estão removendo os destroços do bombardeio mogadoriano. Nos lugares em que já terminaram a limpeza, equipes de construção se preparam para reconstruir a cidade. Um processo semelhante está acontecendo nas principais cidades do mundo.
O Dia VH não passou sem danos ou vítimas.
Flutuo acima de um canteiro de obras, sorrindo ao notar um clarão familiar de energia prateada. Em uma cratera em que um dia haverá um arranha-céu, Daniela usa sua visão de pedra para reforçar uma parte rachada da fundação.
— Droga — resmunga um sujeito com capacete de segurança. — Se continuar fazendo isso, vou perder o emprego, gatinha.
— Não sou nenhuma gatinha, cara — responde Daniela, e abre caminho em meio a uma multidão de operários.
Pela forma como a observam se afastar dali toda confiante, enquanto sorriem e trocam olhares, acho que deve ser uma cena bem comum.
Daniela vai para a calçada, onde é abordada por uma mulher de meia-idade que anda com uma bengala. A senhora abraça Daniela, que se curva para acariciar o golden retriever que a mulher traz na coleira. A mulher parece familiar, e levo um minuto para descobrir por quê.
— Você esqueceu seu almoço, querida — diz ela.
— Obrigada, mãe — responde Daniela.


Nem toda cena que encontro na minha volta ao mundo é doce assim. Alguns finais não são tão felizes.
É noite, em Montreal, quando encontro Karen Walker. Ela caminha pelo estacionamento quase deserto de um aeroporto, o casaco grande bem fechado para protegê-la do ar frio da noite, um jornal debaixo do braço, os saltos fazendo barulho.
Há apenas uma outra pessoa no estacionamento – um homem pálido, de meia-idade, com o cabelo penteado para o lado a fim de disfarçar a calvície, arrastando uma pesada mala de rodinhas.
Um dos postes de iluminação do estacionamento está apagado, deixando uma pequena fileira de carros banhada pelas sombras. Quando o homem chega àquela seção, Walker grita para ele.
— Com licença! — chama ela, acenando com o jornal. — Excusez-moi! Você deixou cair seu jornal!
O homem se vira, intrigado.
— Hã? Isso não é...
Tift-tift.
Dois tiros da arma com silenciador escondida no jornal, um no peito e outro na cabeça. O homem não esperava. Ele cai, e Walker o pega de imediato. Ela começa a arrastar o corpo para o espaço escuro entre dois carros.
Eu a ajudo com telecinesia, aparecendo a alguns metros de distância. Ela leva um susto, aponta a arma para mim, em seguida a abaixa depressa e finge que não ficou surpresa.
— John.
— Karen. Espero que tenha uma boa razão para isso.
— Eu tenho — responde ela.
Walker abre a mala do morto e joga para o lado uma pilha de roupas. Revira as coisas dele até encontrar um exemplar da Bíblia com a capa meio amassada. Quando abre o livro, revela que há um buraco aberto bem no meio, para esconder algo.
Ali há três frascos do óleo negro. Minha pele se arrepia ao ver.
— Quanto disso ainda há por aí? — pergunto.
— Não sei — diz Walker. — Mas, para mim, qualquer quantidade já é demais.
Walker pega um frasco no casaco. Pelo cheiro de ovo podre, acho que é ácido sulfúrico. Com cuidado, ela coloca um pouco em cada frasco mogadoriano, destruindo o conteúdo.
— Quem era esse homem? — pergunto.
— Só um nome em uma lista — responde ela, olhando nos meus olhos. — Uma lista bem longa. Sabe, uma ajuda seria bem-vinda.
Pego minha caixa de charutos e abro.
— Podemos falar sobre isso em breve.


Ver aquela gosma me faz reviver a última batalha com Setrákus Ra. Tudo o que aconteceu depois que fiquei preso com ele é como um sonho. Lembro que meu corpo estava todo quebrado, destruído, e me lembro de uma visão de Sarah, uma alucinação curvando-se para me beijar, para me fazer persistir.
Lembro-me de voar. Para o alto, para fora, deixando aquele calor para trás, escapando daquele cheiro de morte. Lembro-me do pelo macio de Bernie Kosar junto ao meu rosto abatido.
Lembro-me de ouvir alguém chorando, e me lembro de pararmos de repente, ainda na montanha. Lembro-me de abrir os olhos apenas o suficiente para ver uma criatura de pelo cinzento – parte lobo, mas com pernas de aranha, coberta de sangue seco, imóvel. Um Chimæra congelado em sua última forma.
E me lembro de Adam se aninhando em Dust, chorando no pelo do seu pescoço.
— Ele me puxou... Ele me salvou... — disse Adam, delirante, para Seis, ele mesmo quase morto.
Em seguida, fechei os olhos por um bom tempo. Não podia suportar ver mais nada.
Só depois eu saberia o que aconteceu. Que Dust mergulhou atrás de Adam, assumiu uma forma que lhe permitiria sair do abismo e o arrastou o máximo que pôde para tirá-lo das cavernas. Ele teve que morder Adam para carregá-lo até um lugar seguro, e, após sua morte, uma de suas presas ficou cravada no ombro dele.
Adam usa a presa em volta do pescoço, amarrada a uma corrente de couro. É um dos poucos confortos que lhe permitem, aqui no Alasca.
Quando o encontro, Adam está de pé na frente de uma pequena fogueira, as mãos enfiadas em um casaco puído de inverno. Está congelando. O cabelo escuro, maior do que antes, sai por baixo de uma touca de lã. Mesmo agasalhado, ele treme. A neve sopra. É o meio da tarde, e não há nenhuma luz do sol. Esta parte do Alasca – oitenta quilômetros ao norte da cidade mais próxima – não recebe muita luz nesta época do ano.
Este campo de prisioneiros foi especialmente construído pela ONU para receber os mogadorianos que se renderam. Os que foram capturados. Os mogs nascidos artificialmente lutaram até o fim; não sabiam o que mais fazer. Alguns dos nascidos naturalmente, no entanto, foram tomados por um instinto de autopreservação, ainda mais depois que Setrákus Ra foi morto.
Uma dúzia de barracos com aquecimento irregular, comida despejada de aviões que sobrevoam o local e nada mais. Uma aldeia de mogadorianos no meio do nada – vigiada por soldados da ONU em número nunca menor do que vinte vezes a quantidade de mogs sobreviventes. Há mísseis voltados para lá o tempo todo. Drones projetados para suportar as intempéries voam no alto.
Falou-se sobre executar todos eles. Ainda se fala nisso, às vezes. Por enquanto, os mogs capturados vivem ali e esperam.
— Eu renuncio aos ensinamentos do Grande Mentiroso! — grita um mog com cicatrizes na cabeça calva, deixadas pelas tatuagens removidas.
Ele atira uma cópia do Grande Livro na fogueira, e um pequeno grupo de mogs, Adam e Rex entre eles, aproxima-se para abraçá-lo e parabenizá-lo.
Talvez haja esperança de reabilitação.
Outro grupo de mogs, bem maior, observa aqueles que queimam os livros. Não há nada além de malícia em seus olhos. Um deles se destaca. É uma garota de cabelos escuros, alguns anos mais jovem do que Adam, com as mesmas feições marcantes. Parece que o que essa garota e seu grupo mais querem é matar os seguidores de Adam, e, a julgar pelos arranhões e hematomas nos rostos de alguns dos que estão do lado do meu amigo, já houve tentativas.
Adam olha de volta para os mogs descontentes que o observam, o queixo erguido em desafio.
Uma sirene dispara. Um aviso de que os mogs precisam se dispersar. Uma das regras aqui é que eles não podem se reunir em grandes grupos.
Quando os mogs punidos começam a voltar para suas beliches, flutuo até Adam.
— Acho que não seria bom eu ser visto aqui, né? — sussurro para ele, sem ficar visível.
A sirene está alta o suficiente para encobrir minha voz.
Adam fica com o corpo tenso, cerra os punhos e, por um instante, acho que vai tentar me acertar. Ele está estressado e com medo de ser pego desprevenido.
— Calma — digo. — Sou eu.
Adam logo recupera a compostura. Ele se ajoelha na neve e finge amarrar a bota.
Os outros mogs do grupo caminham cabisbaixos para o barraco, nos dando espaço para conversar.
— John — diz Adam em voz baixa, a sombra de um sorriso no rosto. — É bom ver... ou melhor, é bom ouvir sua voz.
Colo a mão no ombro de Adam sem deixá-lo invisível também. Acendo um pouco meu Lúmen, irradiando algum calor.
— Você vai me deixar mal-acostumado — comenta ele com um suspiro.
— Eu poderia tirar você daqui agora — fala. — Ninguém saberia.
— Meu povo notaria quando não houvesse ninguém aqui para defendê-lo — responde ele com tristeza. — Além disso, tecnicamente, posso sair a qualquer momento.
É verdade. Devido ao seu papel na luta contra a invasão mogadoriana, Adam recebeu o perdão do próprio general Lawson. Mas optou por não usá-lo. Quando os mogs capturados começaram a ser enviados para o Alasca, Adam estava esperando por eles.
— Vi uma garota no meio da multidão que se parecia com você — digo de um jeito meio tímido, sem saber se devia me intrometer.
— Minha irmã — responde Adam, em tom melancólico. — Ela amava o nosso pai. Acho que me odeia agora, mas talvez um dia...
— E sua mãe? — pergunto.
Adam balança a cabeça.
— Desapareceu. Talvez tenha morrido na invasão, talvez esteja escondida. Parte de mim espera que ela apareça aqui algum dia, e outra parte, que não.
— Você não quer que ela tenha que morar aqui — digo.
— Fico mais preocupado por não saber que lado ela escolheria — explica Adam. — É desolador, John, mas este é meu dever agora. Estou sendo mais útil aqui do que seria em qualquer outro lugar.
Tento digerir a informação. Odeio ver meu amigo ali, amontoado com o restante deles, então não quero concordar. Mas ele pode estar certo.
Pego a mão de Adam e coloco nela um objeto de minha caixa de madeira. Ele olha para baixo, assustado com o brilho azul-cobalto que irradia. Rapidamente, esconde o que lhe dei embaixo da camisa.
— Para quando você estiver pronto.


Já me desviei muito, visitando o Alasca antes de meu próximo destino. É a última parada na América do Norte. Eu já a adiei por muito tempo.
Não voltei a Paradise desde que Sam e eu entramos escondidos na cidade para procurar o abrigo secreto do pai dele. Quase fui morto naquela noite, mas tinha que tentar ver Sarah.
Começo a suar frio assim que a cidadezinha surge no meu campo de visão. Meus olhos são atraídos para a casa dos James. O telhado cedeu, as laterais ainda estão pretas e queimadas. Eles não a reconstruíram após o incêndio na festa de Mark, quando fui pego pulando da janela.
Nunca me dei bem com Mark. Nós nunca gostamos um do outro. Mas ele fez o máximo para nos ajudar e não merecia morrer de uma forma tão horrível. Em todas as retrospectivas que mostram na televisão, ninguém fala de Mark James.
Acho que eu gostaria de encontrar o pai dele algum dia. Fiz uma pesquisa rápida na internet, mas só descobri que ele deixou o trabalho de xerife e foi embora de Paradise. Eu gostaria de contar o que aconteceu com Mark e o que fez por nós antes de morrer, mesmo que talvez ele não queira ouvir.
Há certas coisas para as quais não estou preparado. Essa é uma delas. A outra está aqui também.
Aterrisso no quintal da família Goode, feliz por ver Malcolm trabalhando no jardim. Levo um minuto para perceber por que o pedaço de terra que ele está cuidando parece tão estranho – é onde seu abrigo ficava. Parece que Malcolm e a Sra. Goode decidiram destruir o velho poço que levava até a câmara secreta. No solo fresco, plantaram flores de todas as cores imagináveis. Imagino que o corpo de Pittacus Lore ainda esteja enterrado lá embaixo, e creio que ele ficaria satisfeito em ter aquele lugar para seu repouso final.
Malcolm me dá um longo abraço quando o surpreendo. Meus olhos se enchem de lágrimas. É o lugar. Não posso deixar de pensar em tudo o que aconteceu aqui. Não posso deixar de imaginar, por apenas um segundo, que Malcolm é Henri.
Depois de receber o mesmo presente que dei aos outros, Malcolm tenta me fazer ficar para jantar.
— Não posso — digo a ele. — Ainda tenho muito a fazer.
Ele balança a cabeça, triste.
— Ainda salvando o mundo por aí, não é?
— Nada tão sério — respondo. — Vou visitar Sam.
— Diga para ele ligar para a mãe! — pede Malcolm, balançando a cabeça. — E diga que uma hora ele precisa voltar para casa e terminar o ensino médio ou nunca vai entrar para uma boa faculdade. Um jovem não pode ficar de férias para sempre, não importa quantos planetas tenha ajudado a salvar.
Rindo, prometo dizer tudo isso a Sam. Então, saio voando do quintal de Malcolm, volto a ficar invisível e aterrisso algumas casas depois.
A casa de Sarah Hart.
Fico parado na calçada, sem me tornar visível, sem me mover. É exatamente como eu lembrava. Lembro que corria até a entrada e tocava a campainha, animado para vê-la, o coração acelerado. Ela me convidava para entrar, e sua casa tinha um cheiro incrível, como sempre, e nós...
Não há nenhum movimento pelas janelas. A casa está escura. Há uma placa de VENDE-SE no jardim.
Imaginei isso centenas de vezes ao longo do último ano. Que eu iria até ali e tocaria a campainha, como nos velhos tempos. Que veria os pais de Sarah e lhes diria como amava sua filha, quanto ela significava para mim, quanto ela representou para o mundo, mesmo que poucas pessoas soubessem, e como eu me arrependia por tê-la arrastado para tudo o que aconteceu. Eu diria que sinto falta dela todos os dias. E pediria o perdão deles.
Imaginei isso muitas vezes, mas não consigo fazer. Não posso subir aqueles degraus.
Estou com muito medo. Não quero olhar nos olhos deles. Não quero ver a dor que causei.
Talvez um dia eu esteja pronto.
Hoje, não.


De passeio pela Europa, Seis e Sam estão em Montenegro quando os encontro. Estão acampados em uma parte isolada da praia de Jaz. Mesmo à noite, a água é reluzente como cristal, as elevações arroxeadas das colinas ao redor fazendo um contraste impressionante. Estou feliz por eles – a forma como viajam, quanta coisa já viram em um ano – e, ao mesmo tempo, meu coração dói porque não sou eu.
Na praia, encontro a fogueira e a barraca, mas não Seis ou Sam. Não, para isso preciso seguir a trilha de roupas em direção à água. Eu os vejo ao longe, silhuetas ao luar, entrelaçados na água.
Rio baixinho e desvio o olhar.
Não vou segurar vela, mesmo que sinta muita saudade deles. Também ainda não falei com Seis desde... bem, desde que ela salvou minha vida. Uma vida que eu estava mais do que disposto a jogar fora. Como com a família de Sarah, não sei bem o que dizer a ela. Por enquanto, é melhor não falar nada.
Da minha caixa de madeira, tiro dois pingentes. Foram esculpidos em pedra de loralite que eu retirei da rocha principal, no Himalaia. Esculpido nos dois está o símbolo lórico de Unidade. Deixo os pingentes nos sacos de dormir e procuro um pedaço de papel para deixar um bilhete. Explico como os pingentes funcionam, que eles só precisam visualizar o Himalaia e serão levados até a câmara que montei, aquela de onde apaguei o passado e que preparei para o futuro.
Escrevo que espero vê-los em breve. E falo sério.


Marina é a mais difícil de encontrar. Se não fosse por seus telefonemas esporádicos para Ella ao longo dos últimos meses, eu poderia ter levado semanas para localizá-la.
Quando eu perguntava sobre Marina, Ella sempre ficava quieta. E dizia que Marina não parecia ela mesma. Que parecia paranoica. Irritada.
Eu a encontro em uma lancha entre ilhas desertas no sul do Pacífico. Seu rosto está bronzeado; o cabelo ondulado, crespo pelo acúmulo de água salgada; e há olheiras profundas sob os olhos. Tenho a sensação de que está sozinha há algum tempo – reconheço os sinais; já os vi em mim mesmo. Seus lábios se movem quando ela não está falando, as mãos tremem, os olhos nem sempre permanecem focados.
Fomos criados para a guerra, e agora... estamos livres. E cada um está lidando com isso de uma forma.
Quando apareço, ela não se assusta tanto quanto os outros.
— Você está mesmo aí, ou eu enlouqueci de vez? — pergunta ela.
— Estou aqui, Marina.
Ela abre aquele sorriso gentil e paciente. Fico feliz em vê-lo.
— Graças a Deus — diz ela. — Você apareceu em boa hora.
Não pergunto aonde estamos indo. Ela pilota o barco decidida, como se já tivesse feito aquela viagem antes. Eu me reclino e deixo a água que espirra fazer cócegas no meu rosto, sentindo o sol nos ombros e no pescoço.
Uma hora, Marina me entrega um telefone celular. Nossos dedos se tocam, e noto que ela está gelada.
— Vi isso na internet, e eu... não podia deixar pra lá — conta ela.
Ela dá play em um vídeo que baixou do YouTube. Claro que eu reconheço o lugar.
É a montanha em West Virginia, ou o que sobrou dela: uma cratera cheia de escombros carbonizados, o resultado do nosso bombardeio àquele lugar hediondo. O vídeo foi feito uma semana depois da última batalha, quando várias agências governamentais começaram a examinar as ruínas.
Quando uma equipe afasta parte das rochas, algo os lança para trás. Um vulto sai voando dos detritos como um míssil e desaparece no céu. A câmera tenta segui-lo, mas não é rápida o bastante.
— Aquela quarta cicatriz nunca apareceu, John — fala Marina, a voz um pouco trêmula.
— Talvez o encantamento tenha sido quebrado — sugiro.
— Foi o que pensei por um tempo. Tentei me convencer... — Ela balança a cabeça. — Conheço os lugares de que ele gosta. Lembro quando... ele nos falou sobre si mesmo. Quentes e tropicais. Isolados.
— E?
— Eu o encontrei semana passada.
Marina desliga o motor do barco quando nos aproximamos de uma pequena ilha. É provável que em menos de uma hora dê para percorrer todo o perímetro. Só areias brancas e algumas palmeiras. Nós nos aproximamos, as ondas nos puxando para perto.
O cara que está na praia com uma vara de pescar de madeira nas mãos parece assustadoramente magro. De onde estamos, vejo o contorno das costelas e da coluna. Vejo a pele flácida dos braços e da barriga de quem perdeu peso muito rápido. Mais desconcertante do que isso são as manchas escuras na pele, como tumores, como obsidiana endurecida, que fazem do corpo uma colcha de retalhos. Talvez tenha sido o efeito de se afogar no lago de lodo de Setrákus Ra. Outra desfiguração permanente, além da falta do olho.
Com certeza é Cinco parado ali. É impossível que ele não tenha nos visto. Não há nenhum outro barco até onde a vista alcança. Ele deve ter nos ouvido chegar a quilômetros de distância.
— Quando o vi morrer, John, eu só pensava em como aquilo era horrível. Morrer daquela forma... — Marina começa, hesitante, olhando para Cinco além das águas rasas. — Mas também senti... e não tenho orgulho em admitir... também senti que houve justiça. Que ele tinha enfim recebido o que merecia.
Marina abraça a si mesma. Mesmo sob o sol, uma fina camada de gelo se forma em sua pele.
— Eu tenho orado, John. Tenho... tentado superar, como muitos dos outros já fizeram. Mas as mortes me assombram. Não só a de Oito, mas as de Sarah e Mark, de Adelina e Crayton, de todas aquelas pessoas que vimos na montanha, dos milhões de mortos nos bombardeios. E eu penso... como se pode apenas seguir em frente? Como? Se ainda existem pessoas como ele no mundo? Se não há justiça?
Engulo em seco.
— Eu não sei, Marina.
— Tenho vindo aqui há uma semana. Fico sentada observando. Ele sabe que estamos aqui, é óbvio, mesmo que não diga nada. É como... se ele estivesse me desafiando. Ou me pedindo. Ele quer que eu acabe com seu sofrimento.
Olhando para a água, Cinco parece mesmo estar bem mal. Deixado ali à própria sorte, não sei bem por quanto tempo mais ele vai durar.
— Você me disse, John, que caberia a mim o que aconteceria com ele. Depois, você disse. Mas não quero essa responsabilidade. Não quero continuar carregando esse fardo... ele, a guerra, tudo isso. É demais para suportar sozinha.
Abraço Marina. Ela está fria ao toque, então acendo meu Lúmen, neutralizando o frio. Ela chora, soluça, depois cobre a boca com a mão. Marina tenta se controlar, sabendo que Cinco talvez ouça.
— Vamos sair daqui — digo, pegando o último dos pingentes. — Deixe-me levá-la para um lugar onde podemos descobrir o que fazer. Juntos.
Marina hesita, olhando para Cinco.
— E quanto a ele?
— Ele é um fantasma — respondo. — Nós, não.


Marina volta para o Himalaia comigo. Quando vê o que eu fiz com a caverna, com a caverna de Oito, ela passa as mãos pelos lugares onde as profecias estavam gravadas, sentindo como a pedra está lisa, pensando nas possibilidades de uma tela em branco.
Por fim, se permite chorar.
Depois, Marina fica bem na minha frente. Estende os braços e segura meu rosto.
— Obrigada, John — diz, a voz calma.
As lágrimas ainda não secaram nas bochechas. Eu limpo uma delas.
Ela me beija. Eu não sei o que isso significa.
Talvez nada.
Marina fica vermelha, sorri para mim e se afasta devagar. Eu sorrio de volta.
Aquela caverna no Himalaia de repente me parece bem mais confortável.
Talvez signifique algo.
No meio da caverna, puxo a lona para mostrar a Marina meu trabalho do último ano: uma mesa com base de pedra de loralite, esculpida de árvores que derrubei da encosta da montanha. É enorme e circular, e foi modelada a partir das minhas lembranças da mesa no centro do Conselho dos Anciões em Lorien. Como com os pingentes, usei meu Lúmen para gravar na madeira o símbolo lórico de Unidade.
Uma hora, os outros virão. Alguns apenas para uma visita, outros para uma estadia mais prolongada. Um dia, espero que este se torne um lugar onde grandes ideias serão trocadas. Um lugar mantido a salvo da corrupção e da mesquinharia dos governos. Onde a segurança da Terra e a felicidade do seu povo estejam asseguradas.
Este planeta ainda enfrentará ameaças – que exigirão uma frente unida de lorienos, humanos e até mesmo mogs. Nós nos reuniremos aqui para resolver esses problemas: nós, a Garde, nossos velhos aliados e alguns que ainda não conhecemos.
Nesse meio-tempo, temos muitas coisas para tentar entender, juntos e separados. Encontrar nossos lugares neste novo mundo, fazer as pazes com aqueles que ferimos, aproveitar nosso potencial ao máximo... essas são as coisas que me assustam de verdade.
Há uma diferença entre a mesa que eu construí e aquela usada pelos Anciões. Não esculpi nove espaços específicos na madeira. Não há um lugar para Loridas ou Setrákus ou Pittacus. Não há sequer nove cadeiras. Haverá tantas quantas precisarmos; espaço mais do que suficiente. E, se ficar muito cheio, podemos nos espremer.
Estou farto de números.

5 comentários:

  1. jhon e Marina? fogo e gelo ? quem diria .
    na vdd ainda tava na torcida de seis e quatro , mais nao pra ter tudo neh , tirando isso foi um otimo final

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  2. Um final muito louco. Não sei, acho que teria sido melhor se Cinco tivesse morrido. Gostaria que John falasse com o pai de Mark e os pais da Sarah, mas, pensando bem, mesma eu não teria essa coragem, então... Há aquele gostinho de quero mais; é só comigo? Ouvi dizer que poderia haver continuação, mas não sei, esse final me parece satisfatório, até, o que contradiz ao que falei antes. Apesar de todos os defeitos que enxerguei na série, não posso negar de que teve muita adrenalina, e que de certa forma, gostei.
    Espero que John fique com a Marina. Oh, e Marina ficando meio louca? Acho adequado, depois de tudo o que passaram. Pelo menos Seis tem Sam, e Marina.... acho que ela pode ter o John, não sei. Quase esqueci do Adam. Eita, que destino final triste o dele. Gostaria de saber sobre a mãe dele, mas, fazer o que?
    Hum... Mark. Morto. De forma terrível. Acho que não tem o que dizer sobre isso. Não sei nem mesmo dizer se achei adequado, ou não; justo ou injusto.
    Eu por algum motivo não gostava da Sarah. Ela, sei lá, me parecia perfeita demais. De qualquer forma, a morte dela... deu um toque no John. Acho que prefiro assim.
    Mas claro, isto é apenas a minha opinião.

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  3. O livro perde parte da graça sem os comentários. Vou dar um tempo e voltar pra reler do jeito legal.

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