29 de novembro de 2016

Prólogo

A GAROTA ESTÁ PARADA EM UM PRECIPÍCIO ROCHOSO, OS DEDOS DOS PÉS acompanhando a curva na beirada. Um abismo escuro se abre a sua frente, e algumas pedrinhas se deslocam sob seus pés e caem na escuridão, desaparecendo lá embaixo, bem no fundo das sombras. Costumava haver algo ali, uma torre ou um templo – a garota não consegue lembrar exatamente o quê. Ela olha para baixo, o buraco sem fundo que está a sua frente e, de alguma forma, sabe que esse lugar já foi importante. Um lugar seguro.
Um Santuário.
Ela quer dar um passo para trás da borda íngreme. É perigoso, ficar oscilando aqui na beira do nada. Mesmo assim, ela se encontra incapaz de se mover. Seus pés estão presos no chão. Ela sente o chão rochoso se movendo e desintegrando debaixo dela. O abismo está se espalhando. Logo a beirada em que ela se equilibra desaparecerá e ela cairá, sendo engolida pela escuridão.
Isso seria ruim?
A cabeça da garota dói. É uma dor distante, quase como se acontecesse com outra pessoa. É uma dor latejante que começa em sua testa, passa por suas têmporas e desce para a mandíbula. Ela imagina a própria cabeça como um ovo que começou a rachar, as trincas se espalhando pela superfície da casca. Ela esfrega as mãos no rosto e tenta focar.
Ela se lembra vagamente de ter sido atirada no chão rochoso. De novo e de novo, segurada pelo tornozelo por uma força muito poderosa para ser resistida, sua cabeça se chocando e fazendo barulhos nas pedras que não perdoavam. Porém, parece que isso aconteceu com outra pessoa, e não com ela. A memória, assim como a dor, parece tão distante.
Na escuridão, há paz. Ela não terá que se lembrar das batidas ou da dor que as seguiu ou do que perdeu quando aquele abismo sem fundo foi explodido terra abaixo. Ela seria capaz de ir, de uma vez por todas, se apenas deslizasse pelo resto da borda e caísse.
Alguma coisa a puxa para trás. Uma consciência, profundamente dentro dela, de que ela não deveria fugir da dor. Ela deveria lutar contra. Precisava continuar lutando.
Há um lampejo de azul cobalto na escuridão abaixo dela, uma brasa solitária de luz. Seu coração se acelera com a visão. Isso a faz lembrar do motivo pelo qual ela lutou e protegeu e porque ela está tão dolorida. A luz começa apenas como um pontinho, como se ela estivesse olhando para o céu noturno e sua única estrela solitária.
Logo se expande e começa a subir, um cometa vindo em sua direção. Ela balança na borda do abismo.
E então ele está flutuando na frente dela, incandescente da mesma forma como ela o vira pela última vez. Seu cabelo preto encaracolado numa bagunça perfeita, seus olhos verde-esmeralda fixos nos dela – ele é exatamente como ela se lembrava. Ele sorri aquele sorriso despreocupado e estica uma das mãos.
— Está tudo bem, Marina — ele diz. — Você não precisa mais lutar.
Seus músculos relaxam ao som da voz dele. A escuridão que se estende abaixo não parece mais tão ameaçadora. Ela permite que um dos pés paire sobre o abismo. A dor dentro dela parece ainda mais distante agora. Muito distante.
— Tudo bem — ele fala. — Venha para casa comigo.
Ela quase pega a sua mão. Entretanto, algo está errado. Ela olha além dos olhos dele, do seu sorriso, e vê a cicatriz. Uma cicatriz roxa e grossa que circula quase todo o seu pescoço. Ela puxa a mão de volta e quase tropeça na beirada.
— Isso não é real! — ela grita, encontrando sua voz. Ela mantém seus dois pés firmes no chão rochoso e se afasta da escuridão.
Ela observa enquanto o sorriso do garoto de cabelos escuros encaracolados hesita, se transformando em algo cruel e malévolo, numa expressão que ela nunca viu naquele rosto verdadeiro.
— Se não é real, por que você não consegue acordar? — ele pergunta.
Ela não sabe. Está presa aqui, na beirada, nesse lugar – com o garoto de cabelos escuros – que ela já amou uma vez, mas que agora não é realmente ele. É o homem que a prendeu aqui, que a atirou com tanta força contra o chão e que destruiu o lugar que ela amava. E agora ele está profanando suas memórias. Ela fixa seu olhar no dele.
— Ah, eu vou acordar, seu bastardo. E irei atrás de você.
Seus olhos lampejam, e ele tenta formar uma expressão de surpresa; mas ela pode dizer que ele está com raiva. Seu truque perverso não funcionou.
— Teria ido em paz, sua tolinha. Você poderia ter simplesmente se atirado na escuridão. Eu estava lhe oferecendo misericórdia.
Ele começa a retroceder abismo adentro, deixando-a sozinha naquele lugar. Suas palavras flutuam para ela.
— Agora tudo o que restou para você é mais dor.
— Então assim será — ela responde.


O garoto caolho está sentado com as costas apoiadas contra a parede acolchoada de sua cela. Ele se abraça – não por escolha própria; seus braços estão presos numa camisa de força. Seu único olho encara diretamente as paredes brancas, todas almofadadas e macias. A porta não possui maçaneta, não há como escapar. Seu nariz coça, e ele enterra o rosto nos ombros para coçá-lo.
Quando olha para cima, há uma sombra na parede. Alguém está parado junto a ele. O garoto caolho se encolhe quando duas mãos poderosas pousam em seus ombros e os apertam gentilmente. A voz profunda soa diretamente em seus ouvidos.
— Eu poderia perdoá-lo — o visitante diz. — Suas falhas, sua insubordinação. Foi, de certa forma, minha culpa. Para começo de conversa, eu não deveria tê-lo enviado para viver com aquelas pessoas. Ter pedido que se infiltrasse entre eles. Era natural que você desenvolvesse certa... simpatia.
— Adorado Líder — diz o garoto caolho, com um tom de zombaria na voz. Ele faz um esforço dentro da camisa de força. — Você veio me salvar.
— Está certo — o homem diz com uma voz parecida com a de um pai orgulhoso, ignorando o tom sarcástico do garoto. — Poderia ser como era antes. Como eu sempre te prometi. Poderíamos reinar juntos. Olhe para o que eles fizeram com você, como o trataram. Alguém com seus poderes, e você permitiu que o trancassem como se fosse algum tipo de animal...
— Eu caí no sono, não é? — o garoto caolho pergunta. — Isso é um sonho.
— Sim. Mas nossa reconciliação, ela sim será real, meu garoto — as mãos poderosas descem de seus ombros e começam a desatar a camisa de força. — Há apenas uma coisa que quero em troca. Uma demonstração de sua lealdade. Simplesmente quero que me diga onde eu posso encontrá-los. Onde posso encontrá-lo. Meu povo – nosso povo – estará lá antes mesmo de você acordar. Eles o libertarão e reconstituirão sua honra.
O garoto caolho não escuta com vontade a proposta do homem.
Ele sente a camisa de força se alargar enquanto as fivelas são desatadas. Ele se concentra e se lembra que isso é um sonho.
— Você me jogou fora como se eu fosse lixo. Por que eu? Por que agora?
— Eu percebi que o que fiz foi um erro — o homem diz através de seus dentes. É a primeira vez que o garoto caolho ouve o homem se desculpar. — Você é minha mão direita. Você é forte.
O garoto caolho grunhe. Ele sabe que é uma mentira. O homem veio porque acha que o garoto é fraco. Ele manipula. Explora as fraquezas.
Mas isso é apenas um sonho. O sonho do garoto caolho. O que significa que ele é quem manda.
— O que você diz? — o homem pergunta, sua respiração quente atingindo a orelha do garoto caolho. — Para onde eles o levaram?
— Eu não sei — o garoto responde honestamente. Ele não sabe onde essa cela especial está localizada. Os outros garantiram que ele não visse. — Como se... como foi que você chamou? Reconciliação? Eu tenho uma contraoferta, velho.
Ele imagina sua arma favorita, a lâmina afiada presa ao seu pulso, e simplesmente assim ela passa a existir. Ele a saca, a ponta mortal rasgando a camisa de força, e se vira para atingir diretamente o coração do homem.
Mas o homem já se foi. O garoto caolho grunhe amargamente, desapontado pelo lapso de satisfação. Demora um momento até esticar os braços. Quando acordar, estará nesse mesmo local, com a exceção de que suas mãos estarão presas novamente. Ele não se importa com a cela especial. Está confortável, e não há ninguém para incomodá-lo. Ele poderia ficar ali por mais algum tempo, pelo menos. Fazer alguma coisa. Tentar se entender.
Quando estiver pronto, o garoto caolho irá se libertar.


É o início do inverno, e o rapaz atravessa um campo de futebol. A grama, marrom e quebradiça, estala sob os pés dele. À esquerda e à direita, as arquibancadas de metal estão vazias. O ar cheira a fogo, e uma rajada de vento sopra cinzas em seu rosto.
Ele olha para o placar à frente, no alto. As luzes alaranjadas piscam, como se a eletricidade estivesse falhando.
Atrás do placar, o garoto vê o colégio, ou pelo menos o que sobrou dele.
O telhado desabou, atingido por um míssil. Todas as janelas estão quebradas. Há algumas carteiras destruídas mais à frente, arremessadas pela força que destruiu a escola, qualquer que tenha sido, os tampos plásticos encravados no chão como lápides.
Ele a vê no horizonte, pairando sobre a cidade. A nave de guerra. Um imenso escaravelho feito de metal cinza e frio à espreita.
O garoto sente apenas resignação. Tem algumas boas lembranças daquele lugar, daquela escola, daquela cidade. Foi palco de momentos felizes por um tempo, antes de tudo ir pelos ares. Já não se importa mais com o que acontecerá por ali.
Ele baixa os olhos e percebe que está segurando uma página arrancada de um anuário. A foto dela. Cabelo liso e louro, maçãs do rosto perfeitas, aqueles olhos azuis. Um sorriso que parece uma piada interna. Ele sente um nó no estômago ao se lembrar do que aconteceu.
— Não tem que ser assim.
O rapaz se vira ao ouvir a voz – melódica e tranquilizadora, não combina com aquele cenário devastado. Um homem caminha pelo campo em sua direção.
Está vestido de maneira despretensiosa, suéter, blazer marrom, calça cáqui e mocassins. Poderia ser um professor de matemática, não fosse o ar suntuoso em sua postura.
— Quem é você? — pergunta o garoto, alarmado.
O homem para a poucos metros de distância. Ele ergue as mãos, demonstrando que não quer problemas.
— É minha nave lá em cima — diz o homem, calmo.
O garoto cerra o punho. O homem não se parece com o monstro que ele viu de relance no México, mas ali, no sonho, sabe que a informação é verdadeira.
Então, ele corre. Quantas vezes correu naquele gramado em direção a um jogador do time adversário? A emoção de correr pela grama morta melhora o ânimo do garoto. Ele dá um soco no homem, com força, bem no queixo, e em seguida o acerta com o ombro.
O homem cai de costas no chão. O garoto está de pé junto a ele, o punho ainda fechado, a outra mão segurando a foto.
Ele não sabe o que fazer. Esperava uma luta mais intensa.
— Eu mereci — diz o homem, encarando o garoto com olhos cheios de lágrimas. — Sei o que aconteceu com sua amiga, e... sinto muito.
O garoto dá um passo para trás.
— Você... você a matou — dispara ele. — E agora diz que sente muito?
— Nunca foi minha intenção! — suplica o homem. — Não fui eu que a coloquei em perigo. Mas, mesmo assim, sinto muito que ela tenha se ferido.
— Ela está morta — sussurra o garoto. — Não está ferida. Está morta.
— O que você chama de morta e o que eu chamo de morta... são duas coisas muito diferentes.
A atenção do garoto foi capturada.
— Como assim?
— Toda essa maldade, toda essa dor só acontece se continuarmos lutando. Não é meu estilo. Não é o que eu quero. Já parou para pensar no que eu quero? Que pode não ser tão ruim assim?
O homem não havia tentado se levantar. O garoto se sente no controle. Ele gosta disso. E então nota que a grama está mudando. Está voltando à vida, o verde-esmeralda se espalhando a partir do homem. Na verdade, o garoto tem a impressão de que até o sol está brilhando um pouco mais forte.
— Quero que nossa vida, a de todos nós, melhore. Quero que deixemos para trás esses mal-entendidos mesquinhos — diz o homem. — Acima de tudo, sou um erudito. Passei a vida estudando os milagres do universo. Com certeza você já conhece fatos sobre mim. Mentiras, principalmente, mas é verdade que estou vivo há séculos. O que é a morte para um homem como eu? Apenas um inconveniente temporário.
Sem perceber, o rapaz começou a esfregar o papel entre seus dedos em um gesto nervoso. O polegar roça o queixo da menina. O homem sorri e acena para a página do anuário.
— Por que... por que eu confiaria em você? — pergunta o garoto de luto.
— Se pararmos de lutar, se me escutar um pouco, você vai ver — responde ele, parecendo sincero. — Nós teremos paz. E você vai tê-la de volta.
— Tê-la de volta? — retruca o garoto, atordoado, a esperança crescendo em seu peito.
— Posso reanimá-la — diz o homem. — O mesmo poder que trouxe sua amiga Ella de volta à vida agora é meu. Não quero mais lutar, meu jovem amigo. Deixe-me trazê-la de volta. Deixe-me mostrar a todos que eu mudei.
O garoto olha para a foto em sua mão e percebe que ela mudou. Está se movendo. A garota loura esmurra a fotografia como se estivesse presa lá dentro. O garoto lê seus lábios. Ela está pedindo socorro.
O homem estende a mão. Ele quer que o garoto o ajude a se levantar.
— O que me diz? Vamos pôr um fim a isso juntos?

8 comentários:

  1. Karine você é demais, estou muitooooooo agradecido, eu contei cada segundo por esse momento, hã já falei que estou muito agradecido.... Deusa dos Livros.

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  2. to arrepiada de emoção , que inicio hein !!!!

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  3. Finalmenteeeee!
    Todo dia vinha aqui ver se já tinha postado. Agora sim!
    Valeu, Karina!

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  4. karina obrigaaaaaaaaaaaaaaaaaadoooooooooooooooooooo vc é 10



    DEUSA DOS LIVROS!!!!!!!!!!!!!!

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    1. Kkkkkkk ❤
      Obrigada, e boa leitura! Demorou, tomara que tenha valido a pena :P

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  5. Finalmente chegou a hr de sabermos o final tava super ansioso vlw Karina

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  6. Finalmente karina.
    Deixa esse suspense no começo é mt bom
    Será q John e o nº 5 vão aceitar a proposta de Sétrakus Ra???????????

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