25 de novembro de 2016

Prólogo

Londres, Inglaterra

J. Rutherford Pierce observou a rainha da Inglaterra cuidadosamente enquanto seguia pela fila sem fim da recepção. Primeiro foi o primeiro-ministro da Austrália, depois uma estrela pop britânica, agora uma atriz francesa... A rainha sorriu, assentiu, apertou mãos e teve uma conversa curta com cada um deles, sem parar enquanto os fotógrafos registravam cada gesto. Pierce esperou por seu momento, a sua vez no centro das atenções.
É claro, como o dono da Founders Media, ele controlava a maior parte dos jornais e das estações de TV, de modo que se certificava de que sua turnê estivesse nas notícias do topo todos os dias. Mas ele tinha que dar aos repórteres algo para noticiar, e essa era a parte divertida. Era aí que tinha que ser criativo. Ele podia parecer qualquer magnata charmoso e em forma fazendo turnê pela Europa antes de anunciar sua candidatura à presidência dos Estados Unidos, mas seu sorriso de estrela de cinema impedia as massas de enxergarem a verdade: a cada olhar, ele estava plantando as sementes de sua obra-prima – a guerra mundial.
Com sua esposa, Debbi Ann, ao seu lado – a doce, calma, cabelo de capacete Debi Ann – ele tinha conseguido alienar todos os líderes europeus que conhecera.
Até agora.
Quando ele e Debi Ann finalmente chegaram na frente da fila, a rainha sorriu e assentiu para ele, assim como tinha feito para todos os outros. Debbi Ann se iluminou como uma criança no Natal e fez à rainha uma reverência profunda.
Maldita Debi Ann. Ele a instruíra claramente a não fazer uma reverência. Súditos britânicos eram obrigados a se curvar diante da rainha, mas os americanos não – apesar de que fazer uma reverência era incentivado e todas as outras mulheres na recepção fizeram isso.  O plano era Debi Ann recusar desafiadoramente a fazer uma reverência a um monarca.
Mas ela não conseguia nem lidar com essa instrução simples.
Vinte minutos mais tarde, a pompa e a circunstância tinham acabado e ele e Debbi Ann estavam sentados em uma mesa de chá com a rainha. Ele pegou sua xícara. Era tão delicada, feita de porcelana fina, branca com detalhes em ouro, dos anos 1700. Inestimável, ele pensou. Sua mente não conseguia evitar de calcular o valor de tudo ao seu redor.
E então, mais uma vez, ele se deu conta do estranho e irritante tremor. Seus dedos tremiam ainda que levemente, e ele não conseguia controlá-los. Era pior do que da última vez, na Espanha, quando sua perna esquerda tremeu visivelmente, o bastante para que ele tivesse que se sentar para encobrir, convenientemente insultando o rei espanhol.
O tremor sacudiu sua mão e ele deixou cair a xícara de porcelana inestimável. Plaft! Chá espirrou sobre o tapete antigo e a xícara quebrou contra a perna da cadeira da rainha.
Algumas gotas de chá pontilharam seu sapato de seda azul pálido.
Ao som de problemas, os fotógrafos invadiram. Eles tiraram fotos de Pierce, da xícara quebrada, do tapete manchado, da expressão irritada da rainha. Apareceu em seu rosto apenas por um instante, mas eles pegaram. Ele a tinha perturbado, quebrado sua compostura praticada.
Poderia ter sido um desastre. Mas a mente rápida de Pierce calculou uma maneira de transformar esse contratempo ao seu favor.
Hoje em dia, tudo parecia ir a seu favor. Engraçado como funcionava.
— Desculpa aí, senhora — Pierce disse, imitando um sotaque americano rude.
— Não se preocupe, está tudo bem — a rainha o assegurou friamente.
Pierce foi abordado por repórteres ao deixar o palácio.
— O que aconteceu com a xícara de chá?
— A rainha ficou irritada por você ter quebrado a porcelana dela?
— Isso afetará as relações americanas com os britânicos?
— A rainha não parecia feliz, parecia? — Pierce brincou com a impressa. — Bem, sinto muito se uma das mulheres mais ricas do mundo estava irritada com uma pequena xícara de chá, mas se me perguntarem, eu fiz um favor a ela. Vocês viram quão velha aquela porcelana era? Penso que está na hora de ela conseguir umas louças novas.
A piada atingiu sua meta. Os repórteres riram, e naquela noite a piada de Pierce estava em todos os noticiários internacionais. Empresário Americano Fala As Coisas Como São, dizia uma manchete. J. Rutherford Pierce Mostra Seu Passado De Classe Trabalhadora, dizia outra.
Aquele “passado de classe trabalhadora” era completamente inventado, é claro. Pierce tinha expandido a empresa jornalística de seu pai em um conglomerado global, mas não começara exatamente com nada.
— Lá nas Américas, os apoiantes do Sr. Pierce estão assistindo esta turnê europeia e o aplaudindo — um âncora relatou. A imagem mostrava um grupo de americanos vestindo chapéus de três pontas, carregando cartazes que diziam PATRIOTAS POR PIERCE e NÓS NÃO PRECISAMOS DE CHÁ FEDIDO!
Era tudo um monte de ruído de fundo, uma cortina de fumaça para encobrir a sua verdadeira meta: ser o homem mais poderoso do mundo.
Os tremores o preocupavam, sim. Mas ele encontraria uma maneira de corrigi-los. Apenas uma coisa realmente ficava em seu caminho. Ou, em outras palavras, duas crianças. Amy e Dan Cahill.
Eles não poderiam detê-lo. Ninguém podia. Mas Pierce não era um homem que gostava de pontas soltas.
Os Cahill são meus obstáculos finais, ele pensou. Mas não por muito tempo. Porque em breve eles estarão mortos.

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