15 de novembro de 2016

Prefácio

É inegável que há um grande número de leitores de O Senhor dos Anéis para quem as lendas dos Tempos Antigos (como anteriormente editadas sob v árias formas em O Silmarillion, Contos Inacabados e The History of Middle-earth) são totalmente desconhecidas, a não ser pela fama de estranhas e inacessíveis em forma e estilo. Por esse motivo, h á muito me tem parecido existir uma boa justificação para apresentar a versão extensa da lenda de Os Filhos de Húrin de meu pai como obra independente, entre as suas próprias páginas, com um mínimo de presença editorial e, sobretudo, numa narrativa  contínua, sem hiatos ou interrupções, se tal pudesse ser feito sem distorção ou invenção, apesar do estado inacabado em que ele deixou algumas partes da narrativa.
Pareceu-me que se a narrativa do destino de Túrin e Niënor, os filhos de Húrin e Morwen, pudesse ser apresentada desta maneira, se abriria, porventura, uma janela para um cenário e uma história situados numa desconhecida Terra Média que são intensos e imediatos, apesar de concebidos como oriundos de eras remotas: as terras inundadas do ocidente, para lá das Montanhas Azuis, onde Barbárvore caminhou na juventude, e a vida de Túrin Turambar em Dorlómin, Doriath, Nargothrond e na Floresta de Brethil.
Este livro é, pois, essencialmente destinado aos leitores que talvez ainda se lembrem de que a pele de Shelob era tão horrendamente dura que não podia ser trespassada por qualquer “força de homens”, nem “que elfo ou anão forjassem o aço da espada ou a mão de Beren ou Túrin a empunhasse”, ou de que Elrond mencionou Túrin a Frodo, em Rivendell, como “um dos poderosos amigos dos Elfos de antigamente”, mas que nada mais sabem dele.
Quando o meu pai era jovem, durante os anos da Primeira Guerra Mundial e muito antes de haver indício das histórias que haveriam de constituir a narrativa de O Hobbit ou O Senhor dos Anéis, começou a escrever uma série de contos a que chamou The Book of Lost Tales. Essa foi a sua primeira obra de literatura imaginativa, e de vulto, pois, embora tivesse ficado inacabada, catorze contos estão completos. Foi em The Book of Lost Tales que apareceram pela primeira vez numa narrativa os Deuses, ou Valar; Elfos e Homens como Filhos de Il úvatar (o Criador); Melkor-Morgoth, o grande inimigo; Balrogs e Orcs; e as terras em que os Contos decorrem, Valinor, “terra dos Deuses”, para lá do oceano ocidental, e as “Grandes Terras” (depois chamadas “Terra Média”, entre os mares de leste e oeste).
Entre os Lost Tales, três eram de muito maior extensão e amplitude, e todos os três se relacionam com Homens como com Elfos: são eles The Tale of Tinúviel (que aparece em forma reduzida em O Senhor dos Anéis como a história de Beren e Lúthien que Aragorn contou aos hobbits no Cume do Tempo, e que meu pai escreveu em 1917); Turambar and the Foalókë (Túrin Turambar e o Dragão, com certeza já existente em 1919, se não antes), e The Fall of Gondolin (1916-17). Numa passagem frequentemente citada de uma longa carta descrevendo a sua obra, escrita em 1951, três anos antes da publicação de A Irmandade do Anel, meu pai falou da sua ambição inicial: “há muito, muito tempo (a minha crista já baixou, desde aí), era minha intenção criar um corpus de lendas mais ou menos relacionadas, indo do grande e cosmogônico até ao nível do conto de fadas romântico — as maiores baseadas nas menores em contado com a Terra, as menores indo buscar o esplendor aos vastos panos de fundo [...] traçaria alguns dos contos maiores em amplitude e deixaria muitos apenas colocados no plano, e esboçados.”
Compreende-se desta reminiscência que há muito fazia parte da sua concepção do que veio a chamar-se O Silmarillion que alguns dos “Contos” seriam contados de forma muito mais extensa e, de fato, nessa mesma carta de 1951, ele referia-se expressamente a esses três contos que mencionei acima como sendo de longe os mais extensos em The Book of Lost Tales. Aí ele chamou ao conto de Beren e Lúthien “o principal conto de O Silmarillion”, e disse a seu respeito: “a história é (em minha opinião) um belo e intenso romance heroico e de fadas, aceitável em si mesmo apenas com um conhecimento geral muito vago dos antecedentes. Mas é também um elo fundamental do ciclo, privado do seu pleno significado quando dele é retirado.” “Há outros contos quase igualmente plenos no tratamento”, continuou, “e igualmente independentes, e, não obstante, ligados à história geral”: estes são Os Filhos de Húrin e A Queda de Gondolin.
Parece, pois, inquestionável, de acordo com as próprias palavras de meu pai, que se ele conseguisse elaborar narrativas finais e definitivas na escala que desejava, consideraria os três “Grandes Contos” dos Tempos Antigos (Beren e Lúthien, Os Filhos de Húrin e a Queda de Gondolin) obras suficientemente completas em si mesmas para prescindirem do conhecimento do grande corpo de lendas conhecido por O Silmarillion. Por outro lado, como ele próprio observou no mesmo contexto, o conto de Os Filhos de Húrin integra a história dos Elfos e dos Homens nos Tempos Antigos e há necessariamente muitas referências a acontecimentos e circunstâncias nessa história mais ampla.
Seria em absoluto contrário à concepção deste livro sobrecarregar a sua leitura com uma abundância de notas com informações acerca de pessoas e acontecimentos que, de qualquer modo, raras vezes têm verdadeira importância para a narrativa imediata. No entanto, aqui e ali, poderá ser útil algum auxílio e, por isso, fiz na Introdução um esboço muito breve de Beleriand e dos seus povos perto do fim dos Tempos Antigos, quando Túrin e Niënor nasceram; e, além de um mapa de Beleriand e das terras do norte, incluí uma lista de todos os nomes constantes do texto com indicações muito concisas a respeito de cada um e genealogias simplificadas.
No fim do livro há um apêndice em duas partes: a primeira, respeitante às tentativas de meu pai para conseguir uma forma final para os três contos; a segunda, relacionada com a composição do texto deste livro, que difere em muitos aspectos da dos Contos Inacabados.

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