15 de novembro de 2016

Introdução

A Terra Média nos Tempos Antigos

O caráter de Túrin era de um profundo significado para meu pai, que, com diálogos claros e diretos, conseguiu traçar um retrato pungente da sua meninice, essencial para o todo: a sua severidade e falta de alegria, a sua noção de justiça e a sua compaixão; de Húrin também, sagaz, alegre e otimista, e de Morwen, sua mãe, reservada, corajosa e altiva; e da vida da família na fria região de Dor-lómin nos anos, já impregnados de medo, após Morgoth ter rompido o Cerco de Angband, antes de Túrin nascer.
Mas tudo isto foi nos Tempos Antigos, na Primeira Era do mundo, um tempo inimaginavelmente remoto. A profundidade no tempo a que esta história remonta foi memoravelmente transmitida numa passagem de O Senhor dos Anéis. No grande conselho reunido em Rivendell, Elrond falou da última aliança de Homens e Elfos e da derrota de Sauron no fim da Segunda Era, mais de três mil anos antes.
Chegado a este ponto, Elrond fez uma pausa e suspirou.
— Lembro-me bem do esplendor das suas bandeiras — disse. — Recordou-me a glória dos Tempos Antigos e as hostes de Beleriand, tantos e tão grandes príncipes e chefes guerreiros estavam reunidos. No entanto, não eram tantos, nem tão belos, como quando Thangorodrim foi vencido e os Elfos julgaram que o mal terminara para sempre, mas não terminara.
— Lembra-se? — perguntou Frodo, dando voz ao seu pensamento, tão grande era o seu espanto. 
— Mas eu pensava... — gaguejou, quando Elrond se virou para ele. — Eu pensava que a queda de Gilgalad tinha sido uma há muito, muito tempo.
— E foi, realmente — respondeu Elrond, muito sério. — Mas a minha memória remonta até mesmo aos Tempos Antigos. Earendil foi o meu progenitor, nascido em Gondolin antes de esta cair; e a minha mãe foi Elwing, filha de Dior, filho de Lúthien de Doriath. Vi três eras no Ocidente do mundo, como muitas derrotas e muitas vitórias infrutíferas.
Cerca de seis mil e quinhentos anos antes de o Conselho de Elrond ter reunido em Rivendell, Túrin nasceu em Dor-lómin, “no Inverno do ano”, segundo consta dos Anais de Beleriand, “com presságios de infortúnio”.
Mas a tragédia da sua vida não está de modo algum apenas no retrato do caráter, pois ele foi condenado a viver prisioneiro de uma maldição de imenso e misterioso poder, a praga de ódio lançada por Morgoth sobre Húrin, Morwen e os seus filhos, porque Húrin o desafiou e recusou a sua vontade. E Morgoth, o Inimigo Negro, como veio a ser chamado, esteve na sua origem, como declarou a Húrin, trazido como cativo à sua presença: “Melkor, o primeiro e mais poderoso dos Valar, que existia antes do mundo.” Agora encarnado permanentemente com a forma de um rei gigantesco e majestoso, mas terrível, no noroeste da Terra Média, estava fisicamente presente na sua imensa fortaleza de Angband, nos Infernos de Ferro: o negro vapor fétido que se exalava dos cumes das montanhas de Thangorodrim, as montanhas que ele empilhara sobre Angband, podia ser visto de muito longe, manchando o céu setentrional. Consta dos Anais de Beleriand que “as portas de Morgoth ficavam apenas a cento e cinqüenta léguas de distância da ponte de Menegroth — longe e, contudo, demasiado perto”. Estas palavras referem-se à ponte que leva aos domínios do rei elfo Thingol, que acolhera Túrin como filho adotivo: chamavam-se Menegroth, as Mil Cavernas, bem a sul e a leste de Dor-lómin.
Mas, tendo encarnado, Morgoth passou a ter medo. O meu pai escreveu, a seu respeito: “Enquanto crescia em maldade, e emanava de si o mal que concebia em mentiras e criaturas perversas, o seu poder transferiu-se para elas e dispersou-se, enquanto ele próprio ficava cada vez mais preso à terra, sem vontade de sair das suas negras fortalezas.” Assim, quando Fingolfin, Rei Supremo dos Elfos de Noldorin, cavalgou sozinho para Angband a fim de desafiar Morgoth para combater, gritou às suas portas: “Mostra-te, rei covarde, para lutares com a tua própria mão! Habitante de cavernas, criador de escravidão, mentiroso e ardiloso, inimigo de Deuses e Elfos, sai! Pois quero ver o teu covarde rosto.” Então (diz-se), “Morgoth saiu. Pois não podia ignorar semelhante desafio perante os seus capitães.” Lutou com o grande martelo Grond, que a cada pancada abria uma enorme cova, e lançou Fingolfin por terra. Mas, ao morrer, ele cravou o grande pé de Morgoth no chão “e o sangue negro jorrou e encheu as covas abertas por Grond”. Desde então, Morgoth ficou para sempre coxo.” Diz-se também que quando Beren e Lúthien, sob as formas de um lobo e um morcego, abriram caminho até à sala mais interior de Angband, onde Morgoth estava sentado, Lúthien lançou sobre ele um encantamento: e, “de súbito, ele caiu como um monte arrastado por uma avalancha e, arremessado como um trovão do seu trono, estatelou-se de borco no chão do Inferno. “A coroa de ferro rolou, estrepitosamente, da sua cabeça.”
A maldição de semelhante ser, capaz de afirmar que “a sombra do meu desígnio se abate sobre Arda (a Terra) e tudo quanto há nela se curva, lenta e seguramente, perante a minha vontade”, é diferente das maldições ou imprecações de seres de muito menor poder. Morgoth não “invoca” o mal ou a calamidade sobre Húrin e os seus filhos, ele não “convida” um ser superior para ser o agente: pois ele, o “Senhor dos destinos de Arda”, como se identificou perante Húrin, tenciona provocar a ruína do seu inimigo pela força da sua própria vontade gigantesca. Assim, “concebe” o futuro daqueles a quem odeia, e por isso diz a Húrin: “O meu pensamento pesará como uma nuvem de Condenação sobre todos os que amas e mergulhá-los-á nas trevas e no desespero.”
O tormento que imaginava para Húrin era o de “ver com os olhos de Morgoth”. O meu pai definiu o que isto significava: se alguém fosse forçado a olhar nos olhos de Morgoth “veria” (ou receberia na sua mente, vinda da mente de Morgoth), uma imagem irresistivelmente convincente de acontecimentos distorcidos pelo insondável rancor de Morgoth. E se havia quem fosse capaz de recusar a ordem de Morgoth, isso não acontecia com Húrin. Segundo o meu pai, tal devia-se, em parte, ao seu amor pelos seus familiares e ao fato de a sua angustiada ansiedade por eles o levar a desejar saber tudo quanto pudesse a seu respeito, fosse qual fosse a fonte; e em parte ao orgulho, por acreditar que derrotara Morgoth no debate e poderia “sustentar o olhar” dele, ou pelo menos conservar o seu discernimento crítico e distinguir entre fato e malícia.
Ao longo da vida de Túrin, desde o momento da sua partida de Dor-lómin e da vida da sua irmã Niënor, que nunca viu o pai, este foi o destino de Húrin, sentado, imóvel, num lugar alto das montanhas Thangorodrim e possuído por uma crescente amargura inspirada pelo seu atormentador.
Na narrativa de Túrin, que se auto-intitulava Turambar “Mestre do Destino”, a maldição de Morgoth parece ser vista como um poder desencadeado para provocar o mal, perseguindo as suas vítimas; por isso se diz que o pr óprio Vala caído temia que Túrin “alcançasse tal poder que a maldição que sobre ele lançara se tornasse nula e ele escapasse ao cruel destino que lhe fora reservado” (p. 142). E depois, em Nargothrond, Túrin ocultou o seu verdadeiro nome, de modo que, quando Gwindor o revelou, se enfureceu: “Fizeste-me mal, amigo, denunciando o meu verdadeiro nome e atraindo sobre mim a minha maldição, da qual queria manter-me oculto.” Fora Gwindor quem falara a Túrin do rumor que corria por Angband, onde Gwindor estivera aprisionado, segundo o qual Morgoth lançara uma maldição sobre Húrin e toda a sua família. Mas Gwindor respondeu à ira de Túrin com as palavras: “A maldição está em ti, não no teu nome.”
Esta complexa concepção é tão essencial à história que meu pai chegou mesmo a propor um título alternativo: Narn e’Rach Morgoth, A Hist ória da Maldição de Morgoth. E a sua opinião a tal respeito reflete-se nas seguintes palavras: “Assim terminou o conto de Túrin, o Infortunado; o pior dos atos de Morgoth entre os Homens no mundo antigo”.
Quando Barbárvore atravessou a floresta de Fangorn transportando no côncavo de cada braço Merry e Pippin, falou-lhes, cantando, de lugares que conhecera em tempos remotos e das árvores que lá cresciam:

Nos prados de Tasarinan passeei na Primavera.
Ah, o espetáculo e o perfume da Primavera em Nan-tasa-rion!
E disse que era bom.
Vagueei no Verão pelas florestas de olmos de Ossiriand.
Ah, a luz e a música no Verão junto aos Sete Rios de Ossir!
E pensei que era melhor.
As faias de Neldoreth fui vê-las no Outono.
Ah, o ouro e o vermelho e o suspiro das folhas no Outono, em Taurna-
Neldor!
Foi superior ao meu desejo.
Aos pinhais das terras altas de Dorthonion subi no Inverno.
Ah, o vento, a brancura e os ramos pretos do Inverno em Orod-na-
Thôn!
A minha voz ergueu-se e cantou no céu.
E agora todas essas terras estão submersas
E eu caminho por Ambarona, Tauremorna e Aldalómë,
Na minha própria terra, no país de Fangorn,
Onde as raízes são compridas
E os anos se sobrepõem mais densos do que as folhas
Em Tauremornalómë.

A memória de Barbárvore, “Ent, o nascido da terra, velho como as montanhas”, era deveras longa. Ele recordava as florestas antigas do grande país de Beleriand, destruído nos tumultos da Grande Batalha no fim dos Tempos Antigos. O Grande Mar avançou e inundou todas as terras a oeste das Montanhas Azuis, chamadas Ered Luin e Ered Lindon: de modo que o mapa que acompanha O Silmarillion termina no leste com essa cadeia de montanhas, enquanto que o mapa que acompanha O Senhor dos Anéis termina no oeste com a mesma cordilheira; e as terras costeiras para além das montanhas, chamadas nesse mapa Forlindon e Harlindon (Lindon Setentrional e Lindon Meridional) eram tudo quanto restava na Terceira Era do país chamado tanto Ossiriand, Terra dos Sete Rios, como Lindon, em cujas matas de ulmeiros Barbárvore outrora caminhara.
Caminhara também entre os grandes pinhais das terras altas de Dorthonion (“Terra de Pinheiros”), que depois veio a chamar-se Taur-nu-Fuin, “a Floresta sob a Noite”, quando Morgoth a transformou numa “região de pavor e negro encantamento, de vagueação e desespero” (p. 148). E chegara a Neldoreth, a floresta setentrional de Doriath, reino de Thingol.
Foi em Beleriand e nas terras a norte que o terrível destino de Túrin se desenrolou; e, na verdade, tanto Dorthonion como Doriah, por onde Barbárvore caminhou, foram cruciais na sua vida. Ele nasceu num mundo de guerra, embora fosse ainda criança quando a última e maior batalha das guerras de Beleriand foi travada. Um esboço muito breve de como isto aconteceu responderá a perguntas que surgem e a referências feitas no decorrer da narrativa.
À norte, as fronteiras de Beleriand parecem ter sido formadas pelas Ered Wethrin, as Montanhas da Sombra, para lá das quais fica a região de Húrin, Dor-lómin, uma parte de Hithlun, enquanto que a leste Beleriand se estendia até ao sopé das Montanhas Azuis. Mais para leste ficam terras que quase não constam da história dos Tempos Antigos, mas os povos que constituíram essa história vieram de leste pelos desfiladeiros das Montanhas Azuis.
Os Elfos apareceram na Terra muito longe, no distante leste, ao lado de um lago a que foi dado o nome de Cuiviénen, Água do Despertar; e daí foram convocados pelos Valar para deixarem a Terra Média e, passando pelo Grande Mar, chegarem ao “Reino Abençoado” de Aman, no ocidente do mundo, a terra dos Deuses. Aqueles que aceitaram a convocação foram conduzidos numa grande marcha através da Terra Média, a partir de Cuivi énen, pelo Vala Oromë, o Caçador, e todos têm o nome de Eldar, os Elfos da Grande Viagem, os Elfos Superiores: distinguindo-se assim daqueles que, recusando o chamamento, escolheram a Terra Média como sua terra e seu destino.
São os “Elfos Inferiores”, chamados Avari, os Relutantes. Mas, apesar de terem atravessado as Montanhas Azuis, nem todos os Eldar partiram pelo Mar. E aqueles que permaneceram em Beleriand chamam-se Sindar, os Elfos Cinzentos. O seu rei supremo era Thingol (que significa “Capa Cinzenta”), o qual reinou a partir de Menegroth, as Mil Cavernas, em Doriath. E nem todos os Eldar que atravessaram o Grande Mar permaneceram na terra dos Valar, pois um dos seus grandes ramos, os Noldor (os “Mestres da Tradição”), regressaram à Terra Média e passou a chamar-se os Exilados. O principal instigador da sua rebelião contra os Valar foi Fëanor, “Espírito do Fogo”: era o filho mais velho de Finwë, que conduzira a hoste dos Noldor a partir de Cuivi énen, mas, entretanto, morrera. Este acontecimento fundamental da história dos Elfos foi brevemente exposto por meu pai no Apêndice A de O Senhor dos Anéis: Fëanor foi o maior dos Eldar nas artes e na tradição, mas também o mais orgulhoso e obstinado. Fez as Três Gemas, os Silmarilli, e dotou-as com a radiância das Duas Árvores, Telperion e Laurelin, que deram luz à terra dos Valar.
As gemas foram cobiçadas por Morgoth, o Inimigo, que as roubou e, depois de destruir as Árvores, as levou para a Terra Média e as guardou na sua grande fortaleza de Thangorodrim (as montanhas acima de Angband). Contra a vontade dos Valar, Fëanor abandonou o Reino Abençoado e exilou-se na Terra Média, para onde levou consigo grande parte do seu povo, pois, orgulhoso, propunha-se reaver pela força as Gemas roubadas por Morgoth. Seguiu-se a guerra sem esperança dos Eldar e dos Edain contra Thangorodrim, na qual acabaram por ser completamente derrotados.
Fëanor foi morto em combate, pouco depois do regresso dos Noldor à Terra Média, e os seus sete filhos ocuparam vastas terras no leste de Beleriand, entre Dorthonion (Taur-nu-Fuin) e as Montanhas Azuis; mas o seu poder foi destruído na terrível Batalha das Lágrimas Inumeráveis, descrita em Os Filhos de Húrin, e a partir daí “os Filhos de Fëanor vaguearam como folhas sopradas pelo vento” (p. 57).
O segundo filho de Finwë foi Fingolfin (meio-irmão de Fëanor), tido como senhor de todos os Noldor; e ele e o seu filho Fingon dominaram Hithlum, que ficava a norte e a oeste da grande cordilheira de Ered Wethrin, as Montanhas da Sombra. Fingolfin viveu em Mithrim, junto do grande lago do mesmo nome, enquanto Fingon dominava Dor-lómin, no sul de Hithlum. A sua principal fortaleza era Barad Eithel (a Torre do Poço), em Eithel Sirion (Poço de Sirion), onde o rio Sirion subia na face leste das Montanhas da Sombra: Sador, o velho criado coxo de Húrin e Morwen, serviu ali como soldado durante muitos anos, conforme contou a Túrin (p. 38-39). Depois da morte de Fingolfin em combate singular com Morgoth, Fingon tornou-se Rei Supremo dos Noldor no seu lugar. Túrin viu-o uma vez, quando ele “e muitos dos seus senhores tinham atravessado Dor-lómin e passado pela ponte do Nen Lalaith, cintilantes de prata e branco”, (p. 37).
O segundo filho de Fingolfin foi Turgon. Ao princípio, após o regresso dos Noldor, viveu na casa chamada Vinyamar, perto do mar na regi ão de Nevrast, a oeste de Dor-lómin; mas construiu em segredo a cidade oculta de Gondolin, que se erguia numa colina no meio da planície chamada Tumladen, totalmente cercada pelas Montanhas Circundantes, a leste do rio Sirion.
Quando Gondolin foi construída, após muitos anos de trabalho, Turgon saiu de Vinyamar e residiu com o seu povo, tanto Noldor como Sindar, em Gondolin; e, durante s éculos, este reduto élfico de grande beleza foi guardado no mais profundo segredo, com a única entrada impossível de encontrar e fortemente guardada, para que nenhum desconhecido jamais lá entrasse; e Morgoth foi incapaz de descobrir onde ela ficava. Só por altura da Batalha das Lágrimas Inumeráveis, decorridos mais de trezentos e cinqüenta anos desde que saíra de Vinyamar, Turgon saiu de Gondolin com o seu grande exército.
O terceiro filho de Finwë, irmão de Fingolfin e meio-irmão de Fëanor, foi Finarfin. Não regressou à Terra Média, mas os seus filhos e filha vieram com as hostes de Fingolfin e dos seus filhos. O filho mais velho de Finarfin era Finrod, o qual, inspirado pela magnificência e beleza de Menegroth, em Doriath, fundou a cidade-fortaleza subterrânea de Nargothrond, pelo que passaram a chamar-lhe Felagund, interpretado como significando “Senhor das Cavernas” ou “Escavador de Cavernas” na língua dos Anões. As portas de Nargothrond abriam-se para os desfiladeiros do rio Narog, na Beleriand Ocidental, onde esse rio passava pelos montes altos chamados Taur-en-Faroth, ou Alto Faroth. Mas o reino de Finrod expandia-se vastamente, a leste até ao rio Sirion e a oeste até ao rio Nenning, que desembocava no mar no porto de Eglarest. Finrod foi, no entanto, assassinado nas masmorras de Sauron, principal servidor de Morgoth, e Orodreth, o segundo filho de Finarfin, herdou a coroa de Nargothrond: isto ocorreu no ano que se seguiu ao do nascimento de Túrin, em Dor-lómin.
Os outros filhos de Finarfin, Angrod e Aegnor, vassalos do seu irmão Finrod, habitavam em Dorthonion, virado para norte sobre a vasta planície de Ard-galen. Galadriel, irmã de Finrod, viveu muito tempo em Doriath com Melian, a rainha. Melian era uma maia, um espírito de grande poder que assumiu a forma humana e habitou nas florestas de Beleriand com o rei Thingol: era a mãe de Lúthien e antepassada de Elrond. Não muito antes do regresso dos Noldor de Aman, quando grandes exércitos oriundos de Angband vieram para sul e entraram em Beleriand, Melian (segundo as palavras de O Silmarillion), “serviu-se dos seus poderes e cercou todo o domínio (as florestas de Neldoreth e Region) com uma parede invisível de sombra e confusão, a Cerca de Melian, que ninguém jamais conseguiu transpor contra a vontade dela ou a vontade do rei Thingol, a não ser que possuísse um poder maior do que o de Melian, a maia”. Daí em diante, a terra chamou-se Doriath, “Terra da Cerca”.
No sexagésimo ano após o regresso dos Noldor, pondo fim a muitos anos de paz, uma grande hoste de Orcs desceu de Angband, mas foi completamente derrotada e destruída pelos Noldor. A isso se chamou Dagor Aglareb, a Batalha Gloriosa; mas os senhores élficos tomaram-na como um aviso e desencadearam o Cerco de Angband, que durou quase quatrocentos anos.
Diz-se que os Homens (a quem os Elfos chamavam Atani, “o Segundo”, e Hildor, “os Seguintes”) surgiram muito para leste da Terra Média, perto do fim dos Tempos Antigos. Mas, do início da sua história, os Homens que entraram em Beleriand no tempo da Longa Paz, quando Angband foi cercada e as suas portas fechadas, nunca falavam. O chefe desses primeiros homens que atravessaram as Montanhas Azuis chamava-se Beor, o Velho, o qual declarou a Finrod Felagund, rei de Nargothrond, que os encontrou: “Existe um negrume atrás de nós, e viramos-lhe as costas e não desejamos lá voltar, nem sequer em pensamento”. Para ocidente se voltaram os nossos corações e cremos que lá encontraremos a luz”. Sador, o velho criado de Húrin, falou de igual modo a Túrin na sua infância (p. 40). Mas diz-se que, quando soube do surgimento dos homens, Morgoth deixou Angband pela última vez e foi para o Leste, e que os primeiros homens que entraram em Beleriand “se tinham se arrependido e rebelado contra o Poder Negro e foram cruelmente perseguidos e oprimidos por aqueles que o adoravam e pelos seus servos”.
Estes homens pertenciam a três casas, conhecidas como a Casa de Beor, a Casa de Hador e a Casa de Haleth. O pai de Húrin, Galdor, o Alto, pertencia à Casa de Hador, de quem era filho, mas a sua mãe era da Casa de Haleth. Enquanto Morwen, a sua mulher, era da Casa de Beor e aparentada com Beren.
Os povos das Três Casas eram agora os Edain (forma sindarin de Atani) e chamavam-lhes os Amigos dos Elfos. Hador vivia em Hithlun e o rei Fingolfin concedeu-lhe o senhorio de Dorlómin; o povo de Beor instalou-se em Dorthonion, e o povo de Haleth vivia nesse tempo na Floresta de Brethil. Após o fim do Cerco de Angband, vieram pelas montanhas Homens de uma espécie muito diferente, muitos deles referidos como Easterlings, alguns dos quais desempenharam um papel importante na história de Túrin.
O Cerco de Angband terminou de forma terrivelmente inesperada (ainda que preparada durante muito tempo) numa noite de meados do Inverno, 395 anos depois de ter começado. Morgoth soltou rios de fogo que desceram das Thangorodrim e a grande planície relvada de Ard-galen, que ficava a norte das terras altas de Dorthonion, transformou-se num seco e árido ermo, que a partir de ent ão passou a ser conhecido por um nome diferente, Anfauglith, a Poeira Sufocante.
Este ataque catastrófico recebeu o nome de Dagor Bragollach, a Batalha da Chama Súbita. Glaurung, pai de Dragões, emergiu de Angband, pela primeira vez, com todo o seu poderio; imensos exércitos de Orcs precipitaram-se para sul; os Senhores Élficos de Dorthonion foram chacinados, assim como uma grande parte dos guerreiros do povo de Beor. O Rei Fingolfin e o seu filho, Fingon, foram rechaçados com os guerreiros de Hithlum para a fortaleza de Eithel Sirion, na face oriental das Montanhas da Sombra, e Hador Cabeça Dourada foi morto na sua defesa. Então, Galdor, pai de H úrin, tornou-se senhor de Dor-lómin, pois as torrentes de fogo foram detidas pela barreira das Montanhas da Sombra e Hithlum e Dor-lómin permaneceram invictas. Foi um ano depois da Bragollach que Fingolfin, desesperado pela fúria, cavalgou para Angband e desafiou Morgoth. Dois anos volvidos, Húrin e Huor foram para Gondolin.
Passados mais quatro anos, num novo ataque a Hithlum, Galdor, pai de H úrin, foi morto na fortaleza de Eithel Sirion: Sador estava lá, como disse a Túrin (p. 39), e viu Húrin (então um jovem de vinte e um anos) “assumir o seu domínio e o seu comando”.
Todas estas coisas estavam frescas na memória em Dor-lómin quando Túrin nasceu nove anos depois da Batalha da Chama Súbita.


NOTA SOBRE A PRONÚNCIA

A nota seguinte destina-se a esclarecer algumas características principais da pronúncia dos nomes.

Consoantes

tem sempre o valor de k, nunca o de s. Assim, Celebros é “Kelebros” e não “Selebros”.

CH tem sempre o valor de ch como na palavra escocesa loch ou na alemã buch, e nunca o de ch da palavra inglesa church. Exemplos: Anach, Narn i Chîn Húrin.

DH é sempre usado para representar o som de um th sonoro (“suave”) em inglês, que é o th de then e não o th de thin. Exemplos: Glóredhel, Eledhwen, Maedhros.

tem sempre o som do g inglês em get; assim, Region não se pronuncia como a palavra inglesa region e a primeira sílaba de Ginglith pronuncia-se como a palavra inglesa begin e não com gin.


Vogais

AI tem o som da palavra inglesa eye; assim, a segunda sílaba de Edain pronuncia-se como a palavra inglesa dine e não como Dane.

AU tem o valor do inglês ow em town; assim, a primeira vogal de Sauron pronunciasse como a palavra inglesa sour e não como sore.

EI como em Teiglin, tem o som da palavra inglesa grey.

IE não deve ser pronunciado como na palavra inglesa piece, mas como cada vogal, i e e, soam. Assim, pronuncia-se Ni-enor e não “Neenor”.

AE como em Aegnor, Nirnaetb é uma combinação das vogais individuais a-e, mas deve ser pronunciada do mesmo modo que AI.

EA e EO não se pronunciam juntas, mas constituem duas sílabas. Estas combinações ortografam-se ëa e ëo, como em Bëor ou no início de nomes como Ëa, Ëo: Eärendil.

Ú em nomes como Húrin e Túrin devem pronunciar-se como oo. Assim, lê-se “Toorin” e não “Tyoorin”.

IR, UR antes de uma consoante (como em Círdan, Gurthang) não devem pronunciar-se como em inglês fir, fur, mas como eer, oor

No fim de palavras é sempre pronunciado como uma vogai distinta, e nessa posição escreve-se ë. É sempre pronunciada no meio de palavras como Celebros, Menegroth.

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