16 de novembro de 2016

Capítulo XVII: A morte de Glaurung

Finalmente, mesmo quando a noite se cerrava sobre a terra, Turambar e os seus companheiros chegaram a Cabed-en-Aras e ficaram felizes com o grande barulho da água; pois embora pressagiasse perigo lá em baixo, abafava todos os outros sons. Então Dorlas desviou-os um pouco para sul e desceram por uma fissura para o sopé do rochedo; mas aí desfaleceu-lhe a coragem, pois havia no rio muitas rochas e grandes pedras, à volta das quais a água corria, enfurecida, rangendo os dentes.
— Este é um caminho certo para a morte — disse Dorlas.
— É o único caminho, para a morte ou para a vida — respondeu Turambar. — E protelar não o tornará mais auspicioso. Sigam-me, pois!
Avançou à frente deles e, por perícia e temeridade, ou por vontade do destino, atravessou e, na densa escuridão, voltou-se para ver quem o seguia. Erguia-se a seu lado uma forma escura.
— Dorlas? — perguntou.
— Não. Sou eu — respondeu Hunthor. — Creio que Dorlas não conseguiu atravessar, pois um homem pode amar a guerra e, no entanto, temer muitas coisas. Suponho que ficou sentado a tremer na margem. Que a vergonha o castigue pelas palavras que proferiu contra os meus familiares.
Turambar e Hunthor descansaram um pouco, mas a noite não tardou a enregelá-los, pois estavam ambos encharcados, e começaram a procurar um caminho ao longo do rio, para o norte, na direção da morada de Glaurung. Aí o abismo tornou-se mais negro e mais estreito e, enquanto tateavam o caminho, viram um tremeluzir acima deles, como de um fogo lento, e ouviram o rosnar do Grande Verme no seu sono vigilante. Então procuraram um caminho a subir, para se aproximarem da beira do precipício, pois nisso residia toda a sua esperança de chegarem ao inimigo sem que ele desse conta. Mas o fedor era agora tão repulsivo que sentiam a cabeça à roda e escorregavam enquanto se arrastavam, tinham de se agarrar aos ramos das árvores e sentiam vômitos, esquecendo, na sua aflição, todo o medo além do de caírem nos dentes do Teiglin.
Então Turambar disse a Hunthor:
— Em vão consumimos as nossas fracas forças. Pois enquanto não soubermos com certeza por onde o dragão passará, será inútil subirmos.
— Mas, quando soubermos — lembrou Hunthor —, não teremos tempo de procurar um caminho para sairmos do precipício.
— Tens razão. Mas quando tudo depende do acaso, no acaso temos de confiar.
Por isso, pararam e esperaram e, da ravina escura, observaram uma estrela branca, lá muito no alto, movendo-se pela tênue nesga de céu; e então Turambar mergulhou pouco a pouco num sonho, no qual toda a sua vontade se concentrava em agarrar-se, embora uma maré negra puxasse e atormentasse as suas pernas.
De súbito, soou um grande barulho e as paredes do precipício estremeceram e ecoaram. Turambar despertou e disse a Hunthor:
— Ele está a mexer-se. É chegada a nossa hora. Ataca fundo, pois dois têm de atacar por três!
E assim iniciou Glaurung o seu ataque a Brethil, e tudo decorreu em grande medida como Turambar esperara. Pois agora o Dragão rastejava lentamente para a beira do penhasco e, em vez de se desviar, preparava-se para saltar por cima do abismo com as grandes patas dianteiras e depois arrastar todo o seu peso atrás. Trazia consigo o terror, porque não iniciou a passagem mesmo por cima, mas sim inclinando-se um pouco para norte, e os observadores em baixo puderam ver a enorme sombra da sua cabeça recortada contra as estrelas, e viram também que tinha a bocarra aberta e sete línguas de fogo. Soprou então uma baforada de tal força que toda a ravina se encheu de uma luz vermelha e de sombras voando entre os rochedos; mas as árvores à sua frente secaram e desfizeram-se em fumo e grandes pedras caíram estrondosamente no rio. E arremessou-se para diante e agarrou-se ao rochedo fronteiro com as possantes garras, e começou a impelir-se para o outro lado.
Impunha-se serem destemidos e rápidos, pois embora tivessem escapado à baforada, visto não se encontrarem diretamente no caminho de Glaurung, Turambar e Hunthor tinham de atacá-lo antes que ele conseguisse atravessar, caso contrário toda a esperança estava perdida. Alheio ao perigo, Turambar trepou ao longo do penhasco para se colocar por baixo dele; mas o calor e o mau cheiro eram aí tão horríveis que ele cambaleou e teria caído se Hunthor, que o seguia arrojadamente, não lhe tivesse agarrado o braço e o houvesse sustido.
— Indômito coração! — exclamou Turambar. — Feliz foi a escolha que fez de ti meu salvador!
Mas, no mesmo momento em que falava, uma grande pedra arremessada de cima atingiu Hunthor na cabeça e ele caiu na água e assim acabou: valente entre os mais valentes da casa de Haleth.
— Ai de mim! — gritou Turambar. — É perigoso caminhar na minha sombra! Por que procurei eu auxílio? Pois agora estás só, mestre do destino, como deverias ter sabido que estarias. Vence, pois, sozinho!
Chamou a si toda a sua vontade e todo o seu ódio pelo dragão e pelo seu senhor e pareceu-lhe, de súbito, ter encontrado uma força de ânimo e de corpo que não conhecera antes. E subiu o penhasco, de pedra em pedra e raiz em raiz, até se agarrar, por fim, a uma pequena árvore que se erguia sob o rebordo do abismo e, embora a sua copa estivesse destroçada, ainda se encontrava bem segura pelas raízes. Precisamente quando se firmava numa bifurcação dos seus ramos, o meio do corpo do dragão chegou acima dele e oscilou, bambo, com o seu peso quase sobre a cabeça de Túrin, antes que Glaurung tivesse tempo de o subir e esticar. Pálido e enrugado era o seu ventre, e todo molhado de viscoso muco cinzento ao qual se agarrava toda a espécie de imundície gotejante; e o fedor era de morte. Então Turambar desembainhou a espada negra de Beleg e deu uma estocada para cima com toda a força do seu braço e do seu ódio, e a lâmina mortífera, comprida e ávida, penetrou na barriga do monstro até aos punhos.
Sentindo a angústia da morte, Glaurung soltou um grito que fez estremecer todas as florestas e apavorou os vigilantes em Nen Girith. Turambar cambaleou, como se tivesse sido atingido por um golpe, escorregou e a espada soltou-lhe da mão e ficou cravada na barriga do dragão. Glaurung, num grande espasmo, retesou todo o corpo tremente e lançou-o sobre a ravina onde, na margem oposta, se contorceu, gritando, escoicinhando e enroscando-se em agonia, até ter destruído um grande espaço a toda a sua volta e, finalmente, destroçado e fumegante, ficar imóvel.
Turambar estava agarrado às raízes da árvore, atordoado e quase vencido. Mas lutou contra si mesmo e, obstinadamente, meio a escorregar, meio a trepar, desceu até ao rio e ousou de novo a perigosa travessia, arrastando-se apoiado nas mãos e nos pés, agarrando-se, cego pela espuma, até conseguir, por fim, subir cautelosamente pela fenda por onde tinham descido.
Assim chegou, finalmente, ao lugar onde se encontrava o dragão moribundo. Olhou sem piedade para o inimigo abatido e sentiu-se satisfeito. Ali jazia agora Glaurung, de mandíbulas escancaradas; mas todos os seus fogos estavam extintos e os seus olhos demoníacos fechados. Estava estendido ao comprido e rebolara sobre um lado, e os punhos da Gurthang sobressaíam do seu ventre. O coração de Turambar alegrou-se dentro dele e, embora o dragão ainda respirasse, decidiu recuperar a sua espada, a qual, se já antes prezara, considerava agora digna de todos os tesouros de Nargothrond.
Verdadeiras se provavam as palavras ditas quando fora forjada, segundo as quais coisa alguma, grande ou pequena, sobreviveria se por ela fosse mordida. Por isso, aproximando-se do inimigo, apoiou o pé na sua barriga e, segurando os punhos da Gurthang, recorreu a todas as suas forças para a retirar. E, tro çando das palavras de Glaurung em Nargothrond, gritou: “Salve, Verme de Morgoth! Alegra-me voltar a encontrar-te! Agora morre e que as trevas te engulam! Assim fica vingado Túrin, filho de Húrin.” Puxou então a espada e, no mesmo momento, irrompeu um jorro de sangue negro que caiu sobre a sua mão e cujo veneno lhe queimou a carne, fazendo-o gritar alto, de dor. Glaurung estremeceu, abriu os olhos sinistros e olhou para Turambar com tanta malvadez que ele teve a sensação de ter sido atingido por uma flecha. E, por via disso, e pela dor na sua mão, apoderou-se dele um desfalecimento e caiu como morto ao lado do Dragão, com a espada debaixo dele.
Os gritos de Glaurung foram ouvidos pelas pessoas em Nen Girith, que ficaram aterrorizadas. E quando os vigias distinguiram, de longe, os destroços e o fogo que o dragão fizera na sua agonia, convenceram-se de que estava a espezinhar e a destruir aqueles que o tinham atacado. Desejaram então que fossem mais as milhas que ficavam de permeio. Mas não ousaram abandonar o ponto alto onde se tinham reunido, pois lembravam-se das palavras de Turambar, segundo as quais, se Glaurung vencesse, iria primeiro para a Ephel Brandir. Por isso, ficaram atentos a qualquer sinal dos movimentos dele, mas nenhum se sentiu destemido ao ponto de descer e ir procurar notícias no local do combate. Níniel estava sentada, sem se poder mexer, embora tremesse e não conseguisse imobilizar as pernas, pois, quando ouviu a voz de Glaurung, o coração morreu dentro dela e sentiu a escuridão invadi-la de novo.
Assim a encontrou Brandir, que chegara por fim à ponte sobre o Celebros, lenta e cautelosamente. Percorrera toda a longa distância sozinho e a coxear, apoiado na muleta: cinco léguas, pelo menos, a partir da sua casa. O temor por Níniel dera-lhe forças e, agora, as notícias que ouvia não eram piores do que receara.
— O dragão atravessou o rio — disseram-lhe os homens — e o espada negra está por certo morto e, com ele, aqueles que o acompanharam.
Brandir parou junto de Níniel, imaginou o seu sofrimento e compadeceu-se dela, mas isso não o impediu de pensar: “O espada negra está morto e Níniel vive.” Estremeceu, pois pareceu-lhe subitamente que estava frio junto das águas de Nen Girith. Envolveu Níniel na sua capa. Mas não encontrou palavras para dizer e ela também não falou.
O tempo foi passando e Brandir continuou silencioso ao lado dela, de olhos fixos na noite e ouvidos atentos; mas não conseguia ver nada nem ouvir qualquer som além do das queda das águas da Nen Girith, e pensou: “Certamente Glaurung já partiu e entrou em Brethil.” Mas já deixara de se compadecer do seu povo, tolos que tinham menosprezado os seus conselhos e escarnecido dele. “Esperemos que o Dragão vá para o Amon Obel e, então, haverá tempo para fugir e levar Níniel daqui.” Para onde, porém, mal sabia, pois nunca viajara para além de Brethil.
Por fim, inclinou-se, tocou no braço e Níniel e disse-lhe:
— O tempo passa, Níniel! Vem. Chegou o momento de partir. Se mo permitires, conduzir-te-ei.
Ela levantou-se, silenciosamente, deu-lhe a mão e atravessaram a ponte e desceram o caminho que conduzia aos vaus do Teiglin. Mas quem os via avançar como sombras na escuridão não sabia quem eram, e tão pouco se importava. E quando tinham percorrido alguma distância, pouca, entre as árvores silenciosas, a lua subiu para lá do Amon Obel e uma luz cinzenta pairou sobre as clareiras da floresta. Então Níniel parou e perguntou a Brandir:
— É este o caminho? E ele respondeu:
— Quem sabe qual é o caminho? Pois toda a nossa esperança em Brethil morreu.
Não nos resta nenhum caminho a não ser o de escapar ao dragão e fugir para longe dele enquanto é tempo.
Níniel olhou-o, surpreendida, e disse:
— Não te ofereceste para me conduzir até ele? Ou querer ás iludir-me? O espada negra era o meu amado e o meu marido, e só para o encontrar parti. Que outra coisa podias ter pensado? Agora procede como entenderes, mas eu tenho de apressar-me.
E, enquanto Brandir estacava um momento, surpreso, ela afastou-se apressadamente, e ele gritou-lhe:
— Espera, Níniel! Não partas sozinha! Não sabes o que encontrarás. Irei contigo!
Mas ela não lhe deu ouvidos e prosseguiu como se o seu sangue a incendiasse, sangue que antes estivera frio. E, embora ele a seguisse o melhor que podia, não tardou a perdê-la de vista. Amaldiçoou então o seu destino e a sua fraqueza, mas não voltou para trás.
A lua subia, branca, no céu, e quase no plenilúnio e, enquanto Níniel descia das terras altas na direção da terra próxima do rio, pareceu-lhe que se recordava dela e temeu-a. Pois chegara aos Vaus do Teiglin e o Haudh-en-Elleth erguia-se à sua frente, pálido sob o luar e com uma sombra negra projetada nele em diagonal. E do monte emanava um grande pavor. Voltou-se, então, com um grito e correu para sul, ao longo do rio. Enquanto corria, largou a capa, sob a qual estava toda vestida de branco, e o seu vulto brilhou ao luar, por entre as árvores. Foi assim que Brandir, que se encontrava em cima, na encosta do monte, a viu e se voltou para se atravessar no caminho dela, se pudesse. E encontrando, por acaso, o caminho estreito que Turambar utilizara, pois deixava para trás a estrada mais batida e descia acentuadamente na direção do sul, para o rio, voltou de novo a aproximar-se de Níniel. Mas, embora a chamasse, ela não fez caso, ou não ouviu, e em breve aumentou de novo a distância. Assim se aproximaram das florestas ao lado da Cabed-en-Aras e do lugar da agonia de Glaurung.
A Lua seguia agora para sul, descoberta, e a luz era fria e clara. Ao chegar à beira das ruínas que Glaurung causara, Níniel viu o seu corpo caído e a sua barriga cinzenta na luminosidade lunar. Mas ao lado dele jazia um homem. Ignorando o medo, correu por entre os destroços fumegantes e chegou junto de Turambar. Estava caído de lado, com a espada debaixo dele, mas o seu rosto tinha a lividez da morte, à luz branca. Lançou-se para o chão, ao lado dele, chorando e beijando-o. Pareceu-lhe que respirava, mas julgou tratar-se de uma partida da falsa esperança, pois estava frio e imóvel, além de não lhe responder. Quando o acariciava, descobriu que a mão dele estava enegrecida, como se tivesse sido queimada, e lavou-a com as suas lágrimas.
Rasgou uma tira do vestido e ligou-lhe com ela. Mas ele continuou sem reagir ao seu contato e ela tornou a beijá-lo e disse, alto: “Turambar, Turambar, volta! Ouve-me! Acorda! E a Nniel. O dragão está morto, morto, e encontro-me aqui sozinha ao teu lado.” Mas ele não respondeu. Brandir, porém, ouviu o seu grito, pois chegara ao início dos destroços. Mas, no momento em que avançava, deteve-se e ficou imóvel. Pois, ouvindo os gritos de Níniel, Glaurung agitara-se pela última vez e um estremecimento percorreu-lhe o corpo todo. Os seus olhos sinistros entreabriram-se numa pequena fresta, na qual o luar brilhou, enquanto falava, ofegante:
— Salve, Níniel, filha de Húrin. Voltamos a encontrar-nos antes do fim. Dou-te a alegria de teres encontrado, finalmente, o teu irmão. E agora conhecê-lo-ás: um homem que apunhala no escuro, traiçoeiro para com os seus inimigos, infiel aos seus amigos e uma maldição para os do seu sangue, Túrin, filho de Húrin! Mas o pior de todos os seus atos senti-lo-ás em ti mesma.
Niënor ficou como que atordoada, mas Glaurung morreu. E, com a sua morte, o véu da sua perversidade abandonou-a e toda a sua memória surgiu, mais nítida, aos olhos dela, de dia para dia, e tão pouco esqueceu nenhuma das coisas que lhe tinham acontecido desde que estivera no Haudh-en-Elleth. Todo o seu corpo estremeceu de horror e angústia. Mas Brandir, que tudo ouvira, ficou abalado e encostou-se a uma árvore.
De súbito, Niënor levantou-se de um salto, pálida como um espectro ao luar, olhou para Túrin e gritou:
— Adeus, ó duas vezes amado! A Túrin Turambar turún’am-bartanen: senhor do destino pelo destino dominado! Ó feliz por estares morto!
Depois, transtornada pela desgraça e pelo horror que a avassalavam, afastou-se desvairadamente dali, e Brandir correu a tropeçar atrás dela, gritando:
— Espera! Espera, Níniel!
Ela parou um momento e olhou para trás com olhos fixos.
— Esperar? — gritou. — Esperar? Esse foi sempre o teu conselho. Quem me dera tê-lo seguido! Mas agora é demasiado tarde e mais não esperarei sobre a Terra Média. — E desatou a correr à frente dele.
Chegou velozmente à beira de Cabed-en-Aras e aí parou e olhou para as águas tumultuosas, gritando:
— Água, água! Recebe agora Níniel Niënor, filha de Húrin; Luto, filha enlutada de Morwen! Recebe-me e leva-me para o mar!
E, com tais palavras, lançou-se sobre a beira: um relâmpago branco engolido pelo escuro abismo, um grito perdido no estridor do rio.
As águas do Teiglin continuaram a correr, mas Cabed-en-Aras deixou de existir: Cabed Naeramarth, o Salto do Terrível Destino, passou a ser chamado pelos homens, pois nenhum gamo por ali voltaria jamais a saltar, todas as coisas vivas o evitariam e nenhum homem jamais caminharia pela sua margem. O último dos homens a olhar o seu negrume foi Brandir, filho de Handir; e ele afastou-se horrorizado, pois o seu coração vacilava e, embora detestasse agora a sua vida, não era capaz de aceitar a morte que desejava. Então os seus pensamentos voltaram-se para
Túrin Turambar, e gritou:
— Detesto-te ou compadeço-me de ti? Mas est ás morto. Não te devo agradecimento algum, usurpador de tudo o que eu tinha ou deveria ter. Mas o meu povo tem uma dívida para contigo e é justo que por mim fique a sabê-lo.
E assim começou a manquejar de regresso a Nen Girith, evitando, com um calafrio, o lugar onde o Dragão jazia. Quando voltava a subir o caminho íngreme, encontrou um homem que espreitava entre as árvores e, ao vê-lo, recuou. Mas Brandir vira-lhe o rosto no brilho da lua a empalidecer.
— Dorlas! — gritou. — Que notícias me podes dar? Como sobreviveste? E o que aconteceu ao meu familiar?
— Não sei — respondeu Dorlas, brusco.
— Então isso é estranho — comentou Brandir.
— Se queres saber — continuou Dorlas —, o espada negra mandou-nos vadear as correntes do Teiglin, na escuridão. Achas estranho que eu não tenha podido fazê-lo? Com um machado, sou melhor homem do que alguns, mas não tenho pés de cabra.
— Queres dizer que eles prosseguiram sem ti ao encontro do Drag ão? Mas o que aconteceu, quando ele atravessou? Pelo menos devias estar perto e ter visto o que se passou.
Mas Dorlas não respondeu e limitou-se a fitar Brandir com os olhos cheios de ódio. Então Brandir compreendeu, percebeu de súbito que aquele homem tinha abandonado os seus companheiros e, desmoralizado pela desonra, escondera-se nas florestas.
— Que vergonha, Dorlas! És o causador das nossas desgraças: incitaste o espada negra, trouxeste o Dragão ao nosso encontro, escarneceste de mim, arrastaste Hunthor para a morte e depois fugiste e ficaste amuado nas florestas! — Enquanto falava, acudiu-lhe outro pensamento e acrescentou, muito irado: — Porque não trouxeste notícias? Era a mínima penitência que poderias fazer. Se o tivesses feito, a Senhora Níniel não teria tido necessidade de ir procurá-las pessoalmente. Não precisaria, nunca, de ter visto o Dragão. Poderia ter vivido. Odeiote, Dorlas!
— Fica com o teu ódio! E tão fraco como todas as tuas decisões. Se não fosse eu, os Orcs teriam vindo e ter-te-iam dependurado como um espantalho no teu jardim. Guarda para ti o apodo de poltrão!
E com essas palavras, e sendo, para vergonha sua, o mais rápido a enfurecer-se, desferiu com o grande punho um murro em Brandir e terminou assim a sua vida, antes que a expressão de espanto se apagasse dos seus olhos: pois Brandir desembainhou a espada e deu-lhe um golpe de morte. Brandir ficou um momento a tremer, agoniado com a visão do sangue, e depois largou a espada, voltou-se e seguiu o seu caminho, curvado sobre a muleta.
Quando chegou a Nen Girith, a pálida Lua afundara-se e a noite desvanecia; a manhã despontava no oriente. As pessoas que ainda ali estavam, assustadas, junto da ponte, viram-no aproximar-se como uma sombra cinzenta na alvorada, e algumas perguntaram-lhe, surpresas:
— Onde estiveste? Viste-a? Pois a Senhora Níniel desapareceu.
— Sim — respondeu Brandir —, desapareceu. Desapareceu para nunca mais voltar! Mas eu vim para vos trazer notícias. Escutai agora, povo de Brethil, e dizei-me se jamais houve alguma história como a que vos trago! O dragão está morto, mas morto está igualmente Turambar, ao seu lado. E isto são boas notícias: sim, são ambas boas notícias.
Então as pessoas murmuraram, surpreendidas com as suas palavras, e algumas disseram que tinha enlouquecido; mas Brandir gritou:
— Ouvi-me até ao fim! Níniel também está morta, Níniel, a bela a quem amastes e a quem eu amava mais do que a ninguém. Atirou-se do rebordo do salto do gamo e os dentes do Teiglin fecharam-se sobre ela. Partiu, odiando a luz do dia. Pois isto ficou a saber antes de fugir: filhos de Húrin ambos eram, irmã e irmão. Mormegil lhe chamavam a ele, Turambar a si mesmo se chamava, ocultando o seu passado: Túrin, filho de Húrin. Níniel lhe chamávamos a ela, desconhecendo o seu passado: Niënor era, filha de Húrin. Para Brethil trouxeram a sombra do seu negro destino. Aqui o seu destino se cumpriu e da m ágoa jamais esta terra voltará a libertar-se.
Deixai de chamar-lhe Brethil, pois não é a terra dos Halethrim, mas sim Sarchnia Chîn Húrin, sepultura dos filhos de Húrin! Então, embora ainda não soubessem como tal tragédia pudera acontecer, as pessoas choraram, ali paradas, e algumas disseram:
Uma sepultura há no Teiglin para Níniel, a adorada, uma sepultura deverá haver para Turambar, o mais corajoso dos homens. O nosso libertador não deve ser abandonado debaixo do céu. Vamos buscá-lo.

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