16 de novembro de 2016

Capítulo XVI: A chegada de Glaurung

O poder e a maldade de Glaurung cresciam rapidamente, ele engordava, atraía Orcs para si, governava como um rei-dragão e tudo quanto fora o reino de Nargothrond estava sob o seu domínio. Antes de terminar o ano, o terceiro de Turambar entre os lenhadores, começou a atacar-lhes a terra que durante algum tempo tivera paz; pois, na verdade, Glaurung e o seu amo sabiam muito bem que em Brethil habitava um remanescente de homens livres, os derradeiros das três casas a desafiar o poder do norte. Ora isso era algo que não tolerariam, pois era intenção de Morgoth dominar Beleriand inteira e revistar todos os seus cantos, para que em nenhum buraco ou esconderijo vivesse alguém que não fosse seu escravo. Por isso, quer Glaurung imaginasse onde Túrin estava escondido, quer (como alguns acreditavam) ele tivesse, de fato, escapado por enquanto do olhar do mal que o perseguia, pouco importava. Pois no fim os conselhos de Brandir revelar-se-iam vãos e só restavam a Turambar duas escolhas: manter-se inativo onde estava até ser descoberto e acossado como uma ratazana, ou partir em breve para o combate e ser revelado.
Mas quando as primeiras notícias da vinda dos Orcs chegaram à Ephel Brandir, ele não avançou e cedeu aos rogos de Níniel. Que disse: “As nossas casas ainda não foram atacadas, como prometeste. Diz-se que os Orcs não são muitos. E Dorlas contou-me que, antes de tu chegares, tais incursões não eram raras e os lenhadores continham-nas.”
Mas os lenhadores não levaram a melhor, pois estes Orcs eram de uma raça terrível, violentos e astutos, e vinham, na realidade, com o objetivo de invadir a Floresta de Brethil e não, como anteriormente, de passar pelas suas margens a caminho de outras missões ou para caçar em pequenos bandos. Por isso, Dorlas e os seus homens foram repelidos com baixas e os Orcs atravessaram o Teiglin e penetraram fundo nas florestas. Dorlas foi ter com Turambar, mostrou-lhe os ferimentos e disse: “Reparai, Senhor, chegou o momento da nossa desgraça, depois de uma falsa paz, tal como eu previra. Não pedistes vós que vos contássemos como um dos nossos e não como um estranho? Não é este perigo também vosso? Pois as nossas casas não permanecerão ocultas se os Orcs penetrarem mais fundo na nossa terra.”
Por isso, Turambar ergueu-se, empunhou de novo a sua espada, Gurthang, e foi combater. Quando tal souberam, os lenhadores ficaram muito encorajados e juntaram-se a ele, até formarem uma força de muitas centenas. Depois embrenharam-se pela floresta e mataram todos os Orcs que lá se tinham infiltrado e dependuraram-nos nas árvores próximas dos vaus do Teiglin.
E quando uma nova hoste avançou contra eles, encurralaram-na e, surpreendidos com o número dos lenhadores e com o terror do espada negra, que regressara, os atacantes foram destroçados e chacinados em grande número. Depois os lenhadores ergueram grandes piras e queimaram os corpos amontoados dos soldados de Morgoth, e o fumo da sua vingança subiu, negro, no céu e o vento soprou-o para oeste. Mas os poucos que sobreviveram regressaram a Nargothrond com essas notícias.
Então Glaurung ficou deveras irado. No entanto, durante algum tempo, permaneceu imóvel e refletiu no que ouvira. O Inverno passou, assim, em paz e os homens disseram: “Poderoso é o espada negra de Brethil, pois todos os nossos inimigos foram subjugados.” E Níniel sentiu-se reconfortada e jubilosa como renome de Turambar. Ele, por ém, andava pensativo e dizia, no segredo do seu coração: “Os dados estão lançados. Agora virá a prova, na qual a minha glória será confirmada ou para sempre derrotada. Não mais fugirei. Turambar serei, deveras, e por minha própria vontade e valor superarei o meu destino ou cairei. Mas, caindo ou cavalgando, a Glaurung, pelo menos, matarei.”
Apesar disso, sentia-se intranqüilo e enviou homens destemidos como observadores, para muito longe. Pois a verdade é que, embora nenhuma palavra fosse dita, ele agora dirigia as coisas como entendia, como se fosse senhor de Brethil, e nenhum homem dava ouvidos a Brandir. A primavera chegou, esperançosa, e os homens cantavam enquanto trabalhavam.
Mas nessa Primavera Níniel concebeu, e tornou-se pálida e lânguida, e toda a sua felicidade se ofuscou. E, pouco depois disso, chegaram estranhas novas dos homens que tinham partido para além do Teiglin, segundo as quais havia um grande fogo muito longe, nas florestas da planície que conduzia a Nargothrond, e os homens inquietavam-se sem saber do que poderia tratar-se.
Em breve chegaram, no entanto, mais novas: que os fogos avançavam sempre rumo ao norte e, na verdade, era o próprio
Glaurung que os atiçava. Pois deixara Nargothrond e encontrava-se de novo no exterior, com qualquer intento. Então os mais tolos, ou mais esperançosos, disseram: “O seu exército está destruído e agora, finalmente, tornou-se sensato e está a regressar para o lugar onde veio.” E outros desejavam: “Esperemos que passe por nós sem nos incomodar.”  Mas Turambar não acalentava tal esperança e sabia que Glaurung vinha à sua procura. Por isso, embora disfarçasse o que pensava por causa de Níniel, meditava dia e noite na atitude que devia tomar. E à primavera sucedeu o verão.
Um dia chegou em que dois homens regressaram aterrorizados à Ephel Brandir, pois tinham visto o próprio Grande Verme.
— Na verdade, Senhor — disseram —, ele está agora a aproximar-se do Teiglin e não se desvia do caminho. Encontra-se no meio de um grande fogo e as árvores fumegam à sua volta. O fedor que emana é quase insuportável. E, ao longo das muitas léguas de regresso a Nargothrond, o seu rasto pestilencial prossegue, parece-nos, numa linha que não muda de direção e aponta diretamente para nós. Que podemos fazer?
— Pouco — respondeu Turambar —, mas nesse pouco já pensei. As notícias que me trazeis, mais do que medo, dão-me esperança; pois se na verdade, como dizeis, ele vem a direito, e não se desvia, então tenho alguns conselhos para corações destemidos.
Os homens ficaram intrigados, pois ele não acrescentou mais nada nesse momento; mas a sua atitude firme deu-lhes alento.
O rio Teiglin corria agora assim: descia da Ered Wethrin rápido como o Narog, mas ao princípio entre margens baixas, até que, depois dos Vaus, recebendo força de outras correntes, abria caminho pelo meio dos sopés das terras altas sobre as quais se erguia a Floresta de Brethil.
Daí em diante, seguia por ravinas fundas, cujas grandes encostas eram como paredes de rocha, mas, contidas no fundo, as águas fluíam com grande força e barulho. E precisamente no caminho de Glaurung havia agora uma dessas gargantas, de modo algum a mais profunda, mas sim a mais estreita, logo a norte da foz do Celebros. Por isso, Turambar mandou três homens corajosos vigiar, a partir da margem, os movimentos do dragão; mas ele, pessoalmente, galopou para as quedas altas da Nen Girith, onde as notícias lhe podiam chegar céleres e de onde podia ver as terras até muito longe.
Mas primeiro reuniu os lenhadores na Ephel Brandir e falou-lhes, dizendo:
— Homens de Brethil, um perigo terrível avança para nós e só pode ser desviado com grande intrepidez. Mas, neste caso, os números pouco contarão, pois teremos de usar de astúcia e esperar que tenhamos sorte. Se nos levantarmos contra o Dragão com toda a nossa força, como um exército de Orcs, estaremos somente a oferecer-nos todos à morte, deixando assim as nossas mulheres e as nossas famílias indefesas. Por isso vos digo que fiqueis aqui e vos prepareis para fugir. Pois, se Glaurung vier, deveis abandonar este lugar e espalhar- vos por grandes distâncias, e assim alguns poderão escapar e viver. Porque, se puder, ele destruir á este lugar e tudo quanto espiar, mas depois não permanecerá aqui. Todo o seu tesouro se encontra em Nargothrond e aí estão os antros profundos onde pode viver em segurança e crescer.
Os homens ficaram assustados e completamente abatidos, pois confiavam em Turambar e tinham esperado palavras mais esperançosas. Mas ele disse:
— Atentai, isso é o pior. E não acontecerá se o meu raciocínio e a minha sorte forem bons. Pois não acredito que este dragão seja invencível, embora cresça em força e maldade com o passar dos anos. Sei alguma coisa a seu respeito. O seu poder reside mais no espírito maléfico que habita dentro dele do que na força do seu corpo, por grande que ela seja. Ouvi agora esta história que me contaram alguns que combateram no ano da Nirnaeth, quando eu e a maioria dos que me ouvem éramos crianças. Nessa batalha, os anões resistiram-lhe e Azaghâl de Belegost picou-o tão profundamente que ele fugiu para Angband. Mas aqui há um espinho mais aguçado e mais comprido do que a faca de Azaghâl.
E Turambar desembainhou a Gurthang e manejou-a acima da cabeça, dando a impressão, àqueles que assistiam, de que uma chama lhe saltava da mão e subia muitos pés no ar.
Soltaram então um grande grito:
— O Espinho Negro de Brethil!
— Bem pode ele temer o Espinho Negro de Brethil — disse Turambar. — Pois sabei o seguinte: é destino deste dragão (e, diz-se, de toda a sua prole) que, por muito grande que alguma vez possa ser a sua carapaça de chifre, mais dura do que ferro, por baixo ele tem de se arrastar com a barriga de uma cobra. Por isso, homens de Brethil, vou agora procurar a barriga de Glaurung por todos os meios possíveis. Quem quer acompanhar-me? De poucos preciso, mas devem ter braços fortes e coração mais forte ainda.
Então Dorlas avançou e disse:
— Irei convosco, Senhor: pois prefiro sempre seguir em frente a esperar por um inimigo.
Mas nenhum dos outros foi tão lesto a responder ao apelo, pois tomava-os o pavor de Glaurung e a história dos batedores que o tinham visto difundira-se e crescera a cada vez que era repetida. Então Dorlas gritou:
— Escutai, Homens de Brethil, pois é agora claro que, para o mal dos nossos tempos, os conselhos de Brandir foram vãos. Ninguém escapa escondendo-se. Nenhum de vós toma o lugar do filho de Handir, para que a casa de Haleth não seja humilhada?
Deste modo, Brandir, que estava sentado no alto lugar do senhor da reunião, mas despercebido, foi humilhado e sentiu o coração amargurado; pois Turambar não repreendeu
Dorlas. Mas um tal Hunthor, parente de Brandir, levantou-se e disse:
— Mal procedeis, Dorlas, falando assim em detrimento do vosso senhor, cujos membros, por má sorte, não podem agir como o seu coração agiria. Acautelai-vos, não vá o contrário ser visto em vós em qualquer momento! E como pode dizer-se que os seus conselhos foram vãos, se nunca foram aceites? E vós, seu vassalo, sempre os reduzistes a nada. Digo-vos que Glaurung vem agora até nós, como antes a Nargothrond, porque os nossos atos nos atraiçoaram, como ele receava. Mas, como esta desgraça aí vem agora, eu, com vossa licença, filho de Handir, irei em nome da casa de Haleth.
Então Turambar disse:
— Três são suficientes! A vós dois levarei. Mas, Senhor, não vos desdenho. Entendei! Temos de ir com grande celeridade e a nossa missão exigirá membros fortes. Parece-me que o vosso lugar é com o vosso povo. Pois sois sagaz e um sarador, e pode acontecer que, dentro de pouco tempo, haja aqui grande necessidade de sageza e cura.
Estas palavras, porém, embora gentilmente ditas, serviram apenas para amargurar mais Brandir, que disse a Hunthor:
— Ide então, mas não com consentimento meu, pois paira sobre esse homem uma sombra que vos conduzirá ao infortúnio.
Turambar estava com pressa de partir, mas, quando procurou Níniel para se despedir, ela agarrou-se a ele, a chorar dolorosamente.
— Não vás, Turambar, suplico-te! Não desafies a sombra de que escapaste! Foge antes, foge e leva-me contigo para muito longe!
— Minha muito amada Níniel, não podemos fugir mais, tu e eu. Estamos cercados nesta terra. E, mesmo que o fizesse, abandonando as pessoas que nos acolheram com amizade, só poderia levar-te para os ermos desabitados, para a tua morte e para a morte do nosso filho. Cem léguas nos separam de qualquer terra que se encontre ainda fora do alcance da sombra. Mas tem coragem, Níniel, pois digo-te: nem tu nem eu seremos chacinados por este dragão, nem por quaisquer inimigos do norte.
Níniel deixou de chorar e ficou silenciosa, mas o seu beijo foi frio, quando se despediram.
Então Turambar, juntamente com Dorlas e Hunthor, partiram, céleres, para Nen Girith e, quando lá chegaram, o Sol punha-se e as sombras eram longas, e os dois batedores que restavam esperavam-nos.
— Ainda bem que não tardastes mais, Senhor — disseram. — Pois o dragão avançou e, quando partimos, j á ele chegara à margem do Teiglin e o seu olhar feroz estendia-se para lá da água. Desloca-se sempre durante a noite e por isso podemos contar com algum ataque antes do alvorecer de amanhã.
Turambar olhou, ao longe, as quedas do Celebros e viu o Sol afundar-se para o seu poente e colunas de fumo negro subirem junto das margens do no.
— Não há tempo a perder — declarou. — No entanto, essas notícias são boas, pois temia que ele andasse por aí à procura e, nesse caso, se seguisse para norte e chegasse aos vaus, e assim à estrada antiga das terras baixas, a esperança estaria perdida. Mas agora algum frenesi de orgulho e maldade está a impeli-lo a avançar precipitadamente.
Mas, ao mesmo tempo que dizia estas palavras, meditava e perguntava a si mesmo: “Ou dar-se-á o caso de um ser tão diabólico e cruel evitar os vaus, como os Orcs? Haudh-en-Elleth? Encontrar-se-á ainda Finduilas entre mim e o meu destino?”
Voltou-se então para os seus companheiros e disse-lhes:
— Esta tarefa nos espera agora. Temos de aguardar ainda um pouco, pois demasiado cedo seria, neste caso, tão perigoso como demasiado tarde. Quando o crepúsculo cair, devemos dirigir-nos o mais furtivamente possível para o Teiglin. Mas acautelai-vos! Pois os ouvidos de Glaurung são tão apurados quanto os seus olhos, e terríveis. Se alcançarmos o rio sem sermos notados, então devemos descer para a ravina e atravessar a água, e assim chegaremos ao caminho que ele tomará quando despertar.
— Mas como pode ele avançar assim? — perguntou Dorlas. — Apesar de ágil, é também um grande dragão, e como descerá por uma ravina e subirá por outra quando uma parte deve estar ainda a subir antes de a retaguarda ter descido? E, se ele puder fazê-lo, de que nos valerá estarmos na água revolta, em baixo?
— Talvez consiga fazê-lo — admitiu Turambar — e, se tal acontecer, as coisas correrão mal para nós. Mas, pelo que soubemos dele, e pelo lugar onde agora se encontra, tenho esperança de que os seus desígnios sejam outros. Chegou à beira da Cabed-en-Aras, sobre a qual, como dizeis, um gamo saltou, uma vez, e escapou aos caçadores de Haleth. Tão grande se tornou agora que, penso, procurará atravessar por aí. Nisso consiste toda a nossa esperança e nela devemos confiar.
Estas palavras desanimaram o coração de Dorlas, pois conhecia melhor do que ninguém toda a terra de Brethil e Cabed-en-Aras era, deveras, um lugar terrível. No lado leste, havia uma falésia abrupta com alguns quarenta pés de altura, desnuda mas com árvores na crista; no outro lado, havia um talude um tanto ou quanto íngreme, mas menos alto, envolto por árvores e arbustos pendentes, mas, entre eles, a água corria furiosamente pelo meio de rochas e, embora um homem ousado e de passo firme pudesse vadeá-la durante o dia, era perigoso arriscar-se a isso de noite. No entanto, essa era a decisão de Turambar e seria inútil contradizê-lo.
Puseram-se, pois, a caminho ao lusco-fusco, mas não seguiram diretamente ao encontro do Dragão e enveredaram primeiro pelo caminho que conduzia aos vaus. Depois, antes de lá chegarem, viraram para sul, por um carreiro estreito, e penetraram no crepúsculo das florestas sobranceiras ao Teiglin. E, ao aproximarem-se, passo a passo, de Cabed-en-Aras, detendo-se amiúde para escutarem, chegou até eles o horrível cheiro a queimado e um fedor que os nauseou. Mas reinava em tudo um silêncio profundo e nem o ar bulia. As primeiras estrelas brilhavam a oriente, à frente deles, e tênues espirais de fumo subiam a direito e sem vacilar para a última claridade do ocidente.
Quando Turambar partira, Níniel ficara silenciosa como uma pedra; mas Brandir procurou-a e disse-lhe:
— Níniel, não temas o pior enquanto não tiver de ser. Mas não te aconselhei eu que esperasses?
— É verdade, aconselhaste. Contudo, de que me valeria isso agora? Pois o amor pode existir e sofrer sem sermos casados.
— Bem o sei. No entanto, o casamento não é em vão.
— Não, pois agora estou grávida de dois meses. Não creio, porém, que o meu medo da perda seja o mais custoso de suportar. Não te compreendo.
— Eu tão pouco. E, no entanto, tenho medo.
— Que grande reconfortador me saíste! — exclamou ela. — Mas Brandir, meu amigo: casada ou solteira, mãe ou donzela, o meu medo transcende o suportável. O senhor do destino foi desafiar a sua sorte muito longe, e como poderei eu ficar aqui e esperar pela demorada vinda de notícias, boas ou más? Esta noite, quem sabe, ele poderá encontrar-se com o dragão, e como poderei ficar quieta ou sossegada, ou passar as terríveis horas?
— Não sei, mas de alguma maneira as horas passarão, para ti e para as esposas daqueles que com ele foram.
— Elas que procedam como os seus corações lhes mandarem! — gritou. — Eu, porém, partirei. As milhas não se interporão entre mim e o perigo do meu senhor. Irei ao encontro das notícias!
As suas palavras aumentaram os receios de Brandir, que gritou:
— Tal não farás, se eu puder evitá-lo. Pois assim porás em risco toda a razão. As milhas que estão de permeio poderão dar tempo para te salvares, se as coisas correrem mal.
— Se as coisas correrem mal, não desejarei salvar-me — replicou ela. — E agora os teus conselhos são vãos e não me impedirás.
Avançou para as pessoas que ainda estavam reunidas no espaço aberto da Ephel e gritou:
— Homens de Brethil! Eu não esperarei aqui. Se o meu senhor for derrotado, então toda a esperança será falsa. A vossa terra e as vossas florestas arderão totalmente, todas as vossas casas serão reduzidas a cinzas e nada, mas nada, escapará. Por isso, para quê permanecer aqui? Por mim, vou ao encontro de notícias e seja do que for que o destino possa enviar. Que todos os que pensam como eu venham comigo!
Muitos se mostraram, então, dispostos a ir com ela: as mulheres de Dorlas e Hunthor porque aqueles a quem amavam tinham ido com Turambar; outros, por pena de Níniel e desejo de a protegerem, e muitos mais atraídos pela própria idéia do dragão, pensando, na sua intrepidez ou na sua insânia (por pouco saberem do mal), que iam testemunhar grandes e gloriosos feitos. Pois, em verdade, o espada negra tornara-se tão grande na sua imaginação que poucos conseguiam acreditar que até mesmo Glaurung o derrotasse. Por isso, partiram sem perda de tempo e apressados, num grande grupo, ao encontro de um perigo que não compreendiam. E, pouco tendo repousado, estavam exaustos quando chegaram, finalmente, mesmo ao cair da noite, a Nen Girith, mas pouco tempo depois de Turambar ter partido. A noite, porém, é severa conselheira e muitos se sentiram então estupefatos com a própria temeridade; e quando souberam, pelos batedores que ali permaneciam, quão perto Glaurung já chegara, e da desesperada decisão de Turambar, os seus corações gelaram e eles não se atreveram a ir mais longe. Alguns olharam, com olhos ansiosos, na direção de Cabed-en-Aras, mas nada conseguiram ver e nada ouviram além da voz fria das quedas de água. E Níniel afastou-se, sacudida por grande tremor.
Quando Níniel e o seu grupo tinham partido, Brandir disse aos que ficaram:
— Vede como sou escarnecido e todas as minhas opiniões são desdenhadas! Escolhei outro para vos guiar, pois aqui renuncio tanto a senhorio como a povo. Que Turambar seja o vosso senhor de fato, já que se apoderou de toda a minha autoridade. Que nenhum volte jamais a pedir-me conselho ou cura!
E quebrou o seu bordão, enquanto pensava: “Agora nada me resta a não ser apenas o meu amor por Níniel. Por isso, para onde ela for, levada pela sensatez ou pela insensatez, assim irei eu também. Nesta hora negra nada pode ser previsto; mas é possível acontecer que até eu consiga afastar dela qualquer perigo, se me encontrar perto.”
Muniu-se, por isso, de uma espada curta, como raramente antes fizera, apoiou-se na sua muleta e, com a rapidez de que foi capaz, transpôs a porta da Ephel, coxeando atrás dos outros pelo longo caminho que conduzia à marca ocidental de Brethil.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!