16 de novembro de 2016

Capítulo XV: Niënor em Brethil

Mas, quanto a Niënor, continuou a correr pela floresta, ouvindo os gritos de perseguição atrás de si; e arrancou o vestuário, deitando-o fora peça por peça enquanto fugia, até ficar nua; e durante todo esse dia continuou a fugir, como um animal perseguido, até rebentar o coração, e não ousou deter-se ou recuperar o fôlego. Mas ao anoitecer, subitamente, a loucura passou-lhe. Estacou um momento, como que pasmada, e depois, num desfalecimento de pura fadiga, caiu como se a tivessem abatido num fundo matagal de fetos. E aí, entre os fetos secos e as vigorosas frondes primaveris, se deitou e dormiu, alheia a tudo.
Quando acordou, de manhã, exultou com a luz, como se acabasse de despertar para a vida; e todas as coisas que via lhe pareciam novas e estranhas e não sabia os nomes delas. Atrás de si havia apenas uma escuridão vazia, através da qual lhe não chegava qualquer recordação de alguma coisa que jamais tivesse conhecido, nem qualquer eco ou qualquer palavra. Lembrava-se apenas de uma sombra de medo, o que a fazia ser cautelosa e procurar sempre esconderijos: trepava a árvores ou escondia-se em matagais cerrados, veloz como um esquilo ou uma raposa, se algum som ou sombra a assustavam. E daí espreitava, demoradamente, através das folhas, com olhos desconfiados, antes de se aventurar a prosseguir.
Assim, seguindo o mesmo caminho por onde primeiro correra, chegou ao rio Teiglin e saciou a sede; mas não encontrou qualquer alimento, nem soube como procurá-lo, e estava faminta e com frio. Como as árvores do outro lado da água pareciam mais cerradas e mais escuras (e de fato eram, pois tratava-se da orla da floresta de Brethil), acabou por atravessar e chegar, finalmente, a um cabeço verde, onde se deitou — pois estava extenuada e tinha a sensação de que o negrume que deixara para trás a estava a alcançar de novo e de que o sol escurecia.
Na realidade, tratava-se de uma negra tempestade que vinha do Sul, acompanhada de relâmpagos e chuva forte. Ficou encolhida, aterrorizada com a trovoada, e a chuva negra fustigou-lhe a nudez enquanto ela observava, emudecida, como um ser selvagem apanhado numa armadilha.
Quis o acaso que alguns dos lenhadores de Brethil passassem naquela hora, vindos de uma incursão contra os Orcs e dirigindo-se, apressados, pelos Vaus do Teiglin, para um abrigo próximo. Um grande relâmpago iluminou o Haudh-en-Elleth como uma flama branca. Então Turambar, que vinha à frente dos homens, recuou, cobriu os olhos e estremeceu, pois parecera-lhe ter visto o espectro de uma donzela morta, deitada na sepultura de Finduilas.
Mas um dos homens correu para o cabeço e gritou: “Aqui, Senhor! Está aqui deitada uma jovem, e está viva!” Turambar acercou-se e levantou-a. A água escorria-lhe dos cabelos encharcados, mas ela fechou os olhos, tremeu de frio e não se debateu mais. Então, estupefato por a encontrar assim nua, Turambar envolveu-a na sua capa e levou-a para o pavilhão dos caçadores, na floresta. Aí acenderam uma fogueira e envolveram-na em mantas, e ela abriu os olhos e olhou para eles. Quando o seu olhar se deteve em Turambar, uma luz iluminou-lhe o rosto e ela estendeu a mão para ele, pois parecia-lhe que encontrara, finalmente, algo que procurara na floresta, e sentia-se reconfortada. Mas Turambar pegou-lhe na mão, sorrindo, e perguntou-lhe: “Então, senhora, não quereis dizer-nos o vosso nome, de que família sois e que infortúnio se abateu sobre vós?” Niënor abanou a cabeça e não disse nada, mas começou a chorar. Não insistiram mais, até ela ter comido sofregamente dos alimentos que podiam dar-lhe. Depois de comer, suspirou e voltou a colocar a mão sobre a de Turambar, que disse:
— Conosco estais em segurança. Podeis repousar aqui esta noite e de manhã conduzir-vos-emos para nossas casas, lá em cima, na floresta. Mas desejaríamos saber o vosso nome e qual é a vossa família, para podermos encontrá-la, porventura, e dar-lhe notícias vossas. Não nos quereis dizer?
Mas, uma vez mais, ela não respondeu. E chorou.
— Não vos inquieteis! — pediu Turambar. — Talvez a história seja demasiado triste para ser contada já. Mas vou dar-vos um nome e chamar-vos-ei Níniel, a donzela das lágrimas.
Ao ouvir este nome, ela ergueu o olhar e abanou a cabeça, mas repetiu: “Níniel”. E essa foi a primeira palavra que pronunciou depois das suas trevas e, desde então, passou a ser o seu nome entre os lenhadores.
De manhã conduziram Níniel na direção da Ephel Brandir. A estrada subia acentuadamente até chegar a um lugar onde tinha de atravessar a corrente tumultuosa do Celebros. Fora aí construída uma ponte de madeira, por baixo da qual a corrente passava sobre uma saliência de pedra desgastada e se despenhava, depois, por muitos socalcos espumejantes, numa bacia rochosa, muito ao fundo. O ar estava todo impregnado de gotículas, como chuva. Havia um grande relvado verde no cimo das quedas de água, à volta do qual cresciam vidoeiros, mas da ponte desfrutava-se de uma extensa vista na direção das ravinas do Teiglin, cerca de duas milhas a oeste. Aí o ar era sempre frio e os viajantes de Verão descansavam e dessedentavam-se com a água fresca. Dimrost, a escada chuvosa, era o nome das quedas de água, mas depois daquele dia passaram a chamar-se Nen Girith, a água trêmula, pois Turambar e os seus homens pararam lá, mas, assim que Níniel chegou, encheu-se de frio e tremeu, e não conseguiram fazer nada que a aquecesse ou confortasse. Apressaram-se, por isso, no caminho, mas, antes de chegarem a Ephel Brandir, Níniel estava a delirar de febre.
Demorada foi a sua doença. Brandir recorreu a todo o seu saber para a sarar e as mulheres dos lenhadores velaram por ela de noite e de dia. Mas só quando Turambar estava perto descansava em paz ou dormia sem gemer. E de uma coisa todos quantos velavam por ela se aperceberam: durante toda a febre, apesar de muito agitada, jamais murmurou uma palavra em qualquer língua de elfos ou de homens. E quando a saúde regressou lentamente e ela despertou e recomeçou a comer, as mulheres de Brethil tiveram de a ensinar a falar, palavra por palavra, como se fosse uma criança. Mas foi célere a aprender, e fê-lo com grande satisfação, como alguém que reencontra tesouros, grandes e pequenos, que se tinham extraviado; e quando, finalmente, aprendera o suficiente para falar com os amigos, dizia-lhes: “Como se chama esta coisa? Pois na minha escuridão esqueci-lhe o nome.” E quando pôde movimentar-se de novo procurava a casa de
Brandir, porque estava ansiosa por aprender os nomes de todas as coisas vivas e ele era muito entendido nesses assuntos. E caminhavam juntos, nos jardins e nas clareiras das florestas.
Então Brandir passou a amá-la; e, quando ela se tornou forte, oferecia-lhe o braço, para o ajudar na sua claudicação, e chamava-lhe seu irmão. Mas o coração, esse, deu-o a Turambar e só quando ele vinha ela sorria, e só quando ele falava alegremente ela se ria. Num anoitecer do dourado Outono, estavam sentados juntos. O sol afogueava a encosta do monte e as casas de Ephel Brandir e reinava uma profunda quietude. Então Níniel disselhe:
— De todas as coisas perguntei já o nome, menos o teu. Como te chamas?
— Turambar — respondeu ele.
Ficou uns momentos calada, como se escutasse algum eco, e depois disse:
— E o que quer isso dizer? Ou trata-se de um nome apenas para ti?
— Quer dizer Mestre da Sombra Negra, pois também eu, Níniel, tive a minha escuridão, na qual coisas queridas se perderam; mas agora creio ter ultrapassado isso.
— E também fugiste dela, correndo, até chegares a estas belas florestas? E quando te libertaste, Turambar?
— Sim. Fugi durante muitos anos. E libertei-me quando tu te libertaste. Pois estava escuro quando chegaste, Níniel, mas desde então houve luz. É como se tivesse vindo a mim aquilo que durante muito tempo em vão procurei.
E enquanto regressava a casa, ao crepúsculo, ele disse para consigo: “Haudh-en-Elleth! Do cabeço verde veio ela. Trata-se de um sinal, e como devo interpretá-lo?”
Aquele ano dourado ensombreceu, deu lugar a um brando inverno e depois chegou outro ano luminoso. Havia paz em Brethil e os lenhadores mantinham-se tranquilos e não se afastavam, de modo que não tinham notícias das terras que os cercavam. Pois os Orcs, que naquele tempo desciam para sul, para o reino negro de Glaurung, ou eram mandados espiar as fronteiras de Doriath, evitavam os Vaus do Teiglin e rumavam para oeste, muito para além do rio.
Níniel estava agora completamente curada e tornara-se bela e forte, e Turambar não se conteve mais e pediu-a em casamento. Níniel ficou feliz, mas, quando Brandir soube a notícia, o coração doeu-lhe no peito e ele disse-lhe:
— Não te apresses! Não me julgues indelicado, se te aconselho a esperar.
— Nada do que fazes é feito com indelicadeza. No entanto, porque me dás semelhante conselho, sensato irmão?
— Sensato irmão? Diz antes irmão aleijado, não amado e sem atrativos. Francamente, mal sei porquê o disse. No entanto, paira uma sombra sobre esse homem e eu tenho receio.
— Pairou uma sombra — respondeu Níniel —, pois tal ele me disse. Mas libertou-se dela, assim como eu da minha. E não é ele digno de ser amado? Embora se mantenha agora em paz, não foi, em tempos, o maior capitão, do qual todos os nossos inimigos fugiam, quando o viam?
— Quem te disse isso? — perguntou Brandir.
— Dorlas. Não falou verdade?
— Falou, sim — confirmou Brandir, mas estava desagradado, pois Dorlas era o cabecilha do grupo que desejava a guerra contra os Orcs.
Apesar disso, continuava a procurar razões para deter Níniel, o que o levou a acrescentar:
— É verdade, mas não toda a verdade; pois ele foi capitão de Nargothrond e antes disso veio do norte e, diz-se, era filho de Húrin de Dor-lómin, da aguerrida casa de Hador.
Vendo a sombra que passou pelo rosto dela ao ouvir tal nome, Brandir interpretou-a mal e mais disse:
— Na verdade, Níniel, bem podes pensar que uma pessoa assim será capaz de voltar para a guerra antes de muito tempo, talvez para longe desta terra. E, se assim for, quanto tempo suportarás? Tem cuidado, pois prevejo que, se Turambar voltar para o combate, então não será ele, mas sim a sombra, que dominará.
— Eu suportá-lo-ia, mas não melhor solteira do que casada. E uma esposa talvez pudesse detê-lo com mais facilidade e afastar a sombra.
No entanto, as palavras de Brandir tinham-na perturbado e ela pediu a Turambar que esperasse um pouco mais. Ele admirou-se e ficou abalado. Mas ao saber, por Níniel, que fora Brandir quem a aconselhara a esperar, sentiu-se desagradado.
Quando a Primavera seguinte chegou, disse a Níniel:
— O tempo passa. Esperámos e agora eu não esperarei mais. Faz o que o coração te mandar, Níniel, minha muito amada, mas pensa nisto: esta é a escolha que tenho de fazer. Ou volto para a guerra nos ermos ou caso contigo e nunca mais irei para a guerra. A não ser para te defender, se alguma calamidade se abater sobre a nossa casa.
Ela ficou muito satisfeita e deu a sua palavra, e em meados do Ver ão casaram. Os lenhadores fizeram um grande banquete e deram-lhes uma bonita casa que tinham construído para eles no Amon Obel. Aí viveram felizes, mas Brandir estava inquieto e a sombra no seu coração adensava-se.

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