16 de novembro de 2016

Capítulo XIV: A viagem de Morwen e Niënor para Nargothrond

Quando o inverno terrível findou, chegaram a Doriath notícias de Nargothrond. Pois alguns dos que escaparam ao saque e sobreviverem ao Inverno nos ermos procuraram finalmente refúgio junto de Thingol e os guardas das marcas conduziram-nos ao rei. Alguns disseram que todo o inimigo retirara para norte e outros que Glaurung ainda habitava nos salões de Felagund; e alguns afirmaram que Mormegil fora morto e outros que ele fora atingido por um feitiço do dragão e ainda lá residia, transformado em pedra. Mas todos declararam que fora conhecido em Nargothrond, antes do fim, que o espada negra não era outro senão Túrin, filho de Húrin de Dorlómin.
Grandes foram, então, o receio e o desgosto de Morwen e Niënor, e Morwen disse:
— Semelhante dúvida é, deveras, obra de Morgoth! Estaremos condenadas a não conhecer a verdade e a saber, com certeza, o pior que podemos suportar?
Ora, o próprio Thingol desejava muito saber mais a respeito do destino de Nargothrond e já andava a pensar no envio de alguns que pudessem lá ir, prudentemente, mas acreditava que Túrin fora de fato morto, ou se encontrava sem qualquer possibilidade de salvação, e temia a hora em que Morwen ficasse a sabê-lo sem margem para dúvida. Por isso, disse-lhe:
— Este assunto é perigoso, Senhora de Dor-lómin, e deve ser ponderado. Tal dúvida pode, na verdade, ser obra de Morgoth, para nos conduzir a alguma imprudência.
Mas, transtornada, Morwen exclamou:
— Imprudência, Senhor! Se o meu filho está escondido nas florestas, faminto, se está acorrentado ou o seu corpo jaz insepulto, então eu seria imprudente. Não perderia um instante e iria procurá-lo.
— Senhora de Dor-lómin — respondeu Thingol —, o filho de Húrin não desejaria por certo isso. Aqui vos considerará mais segura do que em qualquer outra terra que reste: à guarda de Melian. Em nome de Húrin e Túrin, não vos deixaria errar lá por fora, no perigo negro que caiu sobre estes tempos.
— Não defendestes Túrin do perigo, mas a mim impedir-me-eis de ir ter com ele — chorou Morwen. — À guarda de Melian! Sim, uma prisioneira da cerca! Durante muito tempo resisti, antes de entrar nela, e agora me arrependo.
— Se assim falais, Senhora de Dor-lómin — respondeu Thingol —, sabei o seguinte: A Cerca está aberta. Livre aqui chegastes, livre permanecereis... ou partireis.
Então, Melian, que se mantivera calada, falou:
— Não queirais ir, Melian. Uma coisa verdadeira dissestes: esta dúvida é obra de Morgoth. Se partirdes, estareis a fazer-lhe a vontade.
— O medo de Morgoth não me impedirá de responder ao apelo da minha família — respondeu Morwen. — Mas, se temeis por mim, Senhor, então cedei-me alguns dos vossos.
— A vós não dou ordens — respondeu Thingol. — Mas os meus a elas estão sujeitos.
Enviá-los-ei de acordo com o meu discernimento.
Morwen não disse mais nada, mas chorou; e deixou a presença do Rei. Thingol sentia o coração pesado, pois parecia-lhe que o estado de espírito de Morwen era infortunado e, por isso, perguntou a Melian se não a reteria com o seu poder.
— Contra a vinda do mal, muito posso fazer — respondeu ela. — Mas contra a saída daqueles que querem sair, nada posso. Isso compete-vos a v ós. Se ela deve ser mantida aqui, tereis de mantê-la pela força. No entanto, talvez assim mudeis a sua intenção.
Morwen foi ter com Niënor e disse-lhe:
— Adeus, filha de Húrin. Vou procurar o meu filho, ou notícias verdadeiras dele, já que ninguém aqui quer fazer nada a não ser adiar até ser tarde de mais. Aguarda aqui que eu regresse feliz.
Assustada e aflita, Niënor quis detê-la, mas Morwen não disse mais nada e foi para os seus aposentos. E, quando a manhã chegou, montara a cavalo e partira.
Thingol ordenara que ninguém a detivesse ou desse a impressão de querer impedi-la.
Mas, assim que ela partiu, reuniu um grupo dos seus mais destemidos e eficientes guardas das marcas e colocou-o sob o comando de Mablung.
— Segui-a agora céleres — recomendou —, mas cuidai para que não se aperceba de vós. No entanto, quando ela entrar nos ermos e, se houver ameaça de perigo, mostrai-vos; e se ela se recusar a regressar, então protegei-a como puderdes. Mas quereria que alguns de vós avançassem tanto quanto fosse possível e tomassem conhecimento do máximo que pudessem.
Foi assim que Thingol enviou um grupo maior do que inicialmente tencionara e do qual faziam parte dez cavaleiros com cavalos de reserva. Seguiram Morwen, que se dirigia para sul pela Region e chegara assim às margens do Sirion, acima dos lagos do crepúsculo; e lá se detivera, pois o Sirion corria largo e rápido e ela não conhecia o caminho. Foi aí que os guardas tiveram de revelar a sua presença, e Morwen perguntou-lhes:
— Irá Thingol deter-me? Ou tardiamente me envia a ajuda que me negou?
— Ambas as coisas — respondeu Mablung. — Não regressareis?
— Não.
— Nesse caso, terei de vos ajudar, ainda que contra a minha própria vontade. Largo e fundo é aqui o Sirion, e perigoso para animais ou homens atravessá-lo a nado.
— Conduzi-me, então, por qualquer caminho que o povo élfico esteja habituado a atravessar. Caso contrário, tentarei ir a nado.
Por isso, Mablung conduziu-a aos Lagos do Crepúsculo. Aí, entre enseadas e juncais, existiam passagens ocultas e guardadas na margem oriental; pois por esse caminho iam e vinham mensageiros entre Thingol e os seus familiares em Nargothrond. Esperaram, pois, que a noite estrelada avançasse e, então, atravessaram para as neblinas brancas, antes do alvorecer. E quando o sol nascia, vermelho, para lá das Montanhas Azuis, e um forte vento matinal soprava e dispersava as névoas, os guardas subiram para a margem ocidental e deixaram para trás a cerca de Melian. Eram Elfos Altos de Doriath, vestidos de cinzento e com capas sobre as cotas de malha.
Do molhe, Morwen viu-os passar silenciosamente e, de súbito, soltou um grito e apontou para o último do grupo que passava.
— De onde veio ele? — perguntou. — Em número de três dezenas chegastes até mim e três dezenas e mais um desembarcastes!
Então os outros voltaram-se e viram que o sol brilhava numa cabeça dourada: pois tratava-se de Niënor, cujo capuz o vento atirara para tr ás. Ficou assim revelado que ela seguira o grupo e se lhe juntara no escuro, antes de atravessarem o rio. Sentiram-se consternados, mas nenhum mais do que Morwen.
— Voltai para trás! Voltai para trás! Ordeno-vos! — gritou Morwen.
— Se a mulher de Húrin pode agir contra todos os conselhos e obedecendo ao ditame do sangue, então a filha de Húrin também pode fazê-lo — respondeu Niënor. — Luto me chamastes, mas não chorarei sozinha por pai, irmão ou mãe. De todos estes só a vós conheci e acima de todos amo. E nada do que não temeis eu temo.
Na verdade, pouco temor se descortinava no seu rosto ou no seu porte. Alta e forte parecia, pois de grande estatura eram os da casa de Hador, e assim vestida, de traje élfico, condizia bem com os guardas, sendo mais baixa apenas do que os maiores de entre eles.
— Que quereis fazer? — perguntou Morwen.
— Ir aonde fordes — respondeu Niënor. — Uma escolha ofereço. Levai-me para trás e deixai-me em segurança à guarda de Melian, pois não é sensato recusar o seu conselho. Ou sabei que enfrentarei o perigo, se vós o enfrentardes. — Pois a verdade é que Niënor viera mais com a esperança de que, por medo e amor por ela, a sua mãe voltasse para trás; e o espírito de Morwen estava deveras dividido.
— Uma coisa é recusar um conselho — respondeu. — Outra é recusar a ordem de uma mãe. Regressai já!
— Não. Há muito tempo que não sou uma criança. Tenho vontade e discernimento próprios, ainda que até agora não tenham contrariado os vossos. Irei convosco. De preferência para Doriath, por respeito para com aqueles que a governam; caso contrário, seguirei para ocidente. Na realidade, se alguma de nós deve prosseguir, serei eu, que estou na plenitude da minha força.
Morwen viu nos olhos cinzentos de Niënor a firmeza de Húrin. Hesitou, mas, incapaz de vencer o seu orgulho, e não querendo (apesar das agradáveis palavras) parecer que era assim levada para trás pela filha, como alguém idoso e senil, propôs:
— Prosseguirei, como decidi. Podeis vir também, mas contra a minha vontade o fareis.
— Que assim seja — concordou Niënor. Então, Mablung disse aos seus homens:
— Na verdade, é por falta de siso, e não de coragem, que a família de Húrin traz atribulações a outros! O mesmo acontece com Túrin; ainda que não com os seus antepassados. Mas agora mostram-se fatalistas, e isso não me agrada. Temo mais este encargo do rei do que do que a perseguição ao lobo. Que devemos fazer?
Mas Morwen, que se aproximara, ouviu as últimas palavras.
— Fazei aquilo de que o Rei vos incumbiu — disse-lhe. — Procurai notícias de Nargothrond e de Túrin. Com esse fim estamos todos reunidos.
— E um caminho longo e perigoso — avisou Mablung. — Se fordes mais além, devereis ambas ir a cavalo e entre os cavaleiros, dos quais não vos devereis afastar.
Foi assim que, em pleno dia, se puseram a caminho, saíram lenta e cautelosamente da região de juncais e salgueiros baixos e chegaram às florestas cinzentas que cobriam grande parte da planície meridional, antes de Nargothrond. O dia inteiro seguiram para oeste e nada mais viram do que desolação, e também nada ouviram; pois as terras estavam silenciosas e parecia a Mablung que um medo presente pairava sobre eles. Aquele mesmo caminho trilhara Beren anos antes, e então as florestas estavam cheias com os olhos ocultos dos caçadores; mas agora todo o povo de Narog partira e, ao que parecia, os Orcs ainda não tinham chegado tanto a sul. Nessa noite acamparam na floresta cinzenta, sem lume nem luz.
Prosseguiram nos dois dias seguintes e, ao anoitecer do terceiro dia após a partida do Sirion, tinham atravessado a planície e aproximavam-se das margens orientais do Narog. Depois apoderou-se de Mablung um desassossego tão grande que ele rogou a Morwen que não fosse mais longe. Mas ela riu-se e respondeu:
— Em breve vos sentireis grato por estardes livre de nós, como é muito provável que suceda. Mas tereis de aturar-nos um pouco mais. Chegamos já demasiado perto para que o medo nos faça voltar para trás.
Então Mablung gritou:
— Fatalistas sois ambas, e imprudentes. Não ajudais nada e só dificultais qualquer recolha de notícias. Ouvi-me, agora! Foi-me ordenado que não vos sustivesse pela força, mas foi-me igualmente ordenado que vos protegesse como pudesse. Nesta conjuntura, só uma dessas coisas posso fazer. E proteger-vos-ei. Amanhã conduzir-vos-ei a Amon Ethir, o monte espião, que fica perto, e lá permanecereis sob guarda e não prosseguireis mais enquanto eu aqui mandar. 
Amon Ethir era um cabeço tão grande como um monte, que há muito tempo Felagund mandara construir com grande labor na planície que antecedia as suas portas, uma légua a leste do Narog. Estava arborizado, exceto no cume, de onde se podia abarcar uma grande distância em todos os sentidos das estradas circundantes. A esse cabeço chegaram manhã alta e subiram do lado leste. Então, olhando na direção do Alto Faroth, castanho e desnudo para lá do rio, Mablung viu, com visão élfica, os socalcos de Nargothrond na íngreme margem ocidental e, como um pequeno buraco negro na encosta do monte, as escancaradas Portas de Felagund. Mas não ouviu qualquer som nem vislumbrou sinal algum de qualquer inimigo, e tão pouco qualquer indício do Dragão, a não ser os sinais de fogo perto das Portas que ele forjara no dia da pilhagem.
Reinava um silêncio total sob o sol pálido.
Por isso, como dissera, ordenou aos seus dez cavaleiros que guardassem Morwen e Niënor no cume do cabeço e de lá não saíssem até ele regressar, a não ser que surgisse algum grande perigo: se tal acontecesse, os cavaleiros deveriam colocar Morwen e Niënor no meio deles e fugir o mais rapidamente que pudessem para leste, na direção de Doriath, enviando um à frente para levar notícias e procurar ajuda.
Então Mablung reuniu os restantes vinte homens do grupo e desceram com cuidado do cabeço. Depois, passando para os campos a oeste, onde as árvores eram poucas, dispersaram e seguiu cada qual pelo seu caminho, ousada, mas furtivamente, para as margens do Narog. Mablung meteu pelo caminho do meio, na direção da ponte, e chegou assim ao seu extremo mais próximo, encontrando-a toda arrasada; e o rio profundamente escavado, correndo alteroso depois das chuvas muito para norte, espumava e rugia entre as pedras caídas.
Mas Glaurung encontrava-se lá, na sombra da grande passagem que conduzia das portas arruinadas para o interior, e havia muito dera pela presença dos espiões, embora poucos outros olhos da Terra Média fossem capazes de os discernir. Mas o olhar dos seus terríveis olhos era mais penetrante do que o das águias e ultrapassava a longa visão dos elfos. E, na verdade, ele também sabia que alguns tinham ficado para trás, no cume desnudo do Amon Ethir.
Assim, precisamente quando Mablung se movia silenciosamente entre as rochas, à procura de um ponto de onde pudesse vadear o rio alteroso sobre as pedras caídas da ponte, Glaurung avançou com um grande clarão de fogo e rastejou para a corrente. No mesmo instante, ouviu-se um silvo imenso e ergueram-se enormes vapores, e Mablung e os seus companheiros, que espreitavam perto, foram engolidos por um vapor cegante e um fedor imundo; e quase todos fugiram, o melhor que conseguiram, no sentido do monte espião. Mas, quando Glaurung passava sobre o Narog, Mablung desviou-se para o lado, escondeu-se debaixo de um rochedo e aí ficou; pois achava que ainda tinha uma incumbência para cumprir. Agora sabia que Glaurung se encontrava, de fato, em Nargothrond, mas também fora encarregado de descobrir a verdade acerca do filho de Húrin, se tal fosse possível. Por isso, na intrepidez do seu coração, resolveu atravessar o rio assim que Glaurung desaparecesse e revistar os salões de Felagund. Pois pensava que tudo fora feito para resguardar Morwen e Niënor: a aproximação de Glaurung seria notada e, naquele momento, os cavaleiros deviam seguir velozmente na direção de Doriath.
Por isso, Glaurung ultrapassou Mablung, uma imensa forma na névoa; e avançou rapidamente, pois era um poderoso Verme, mas ágil, apesar disso. Mablung vadeou então o Narog atrás dele, com grande perigo; mas os vigias que estavam no Amon Ethir observaram o aparecimento do dragão e ficaram temerosos. De imediato, ordenaram a Morwen e Niënor que montassem, sem discutir, e prepararam-se para fugir para leste, como lhes fora dito. Mas, no momento em que desciam do cabeço para a planície, um vento maléfico soprou para eles os grandes vapores, com um cheiro tão fétido que cavalo algum suportaria. Então, cegos pela névoa e loucamente aterrorizados pelo fedor nauseabundo do dragão, os cavalos não tardaram a ficar ingovernáveis e correram desesperadamente de um lado para o outro. Dispersados, os guardas eram lançados contra as árvores, com grande sofrimento, ou procuravam-se em vão uns aos outros. O relinchar dos cavalos e os gritos dos cavaleiros chegaram aos ouvidos de Glaurung, que se sentiu muito satisfeito.
Um dos cavaleiros élficos, debatendo-se com o seu cavalo no nevoeiro, viu de súbito a senhora Morwen passar perto, um vulto cinzento num corcel desenfreado, mas ela desapareceu na névoa, gritando Niënor!, e não voltaram a vê-la.
Quando o terror cego se apoderou dos cavaleiros, o cavalo de Niënor, num galope assustado, tropeçou e ela foi derrubada. Caindo suavemente na erva, ficou ilesa, mas, quando se levantou, encontrava-se sozinha: perdida na neblina, sem cavalo nem companhia.
Sem perder a coragem, pensou na sua situação. Pareceu-lhe inútil ir na direção deste ou daquele grito, pois soavam gritos em toda a sua volta, embora cada vez mais tênues. Em semelhante caso, pareceu-lhe melhor procurar de novo o cabeço: com certeza Mablung não deixaria de lá voltar antes de partir, quanto mais não fosse para se certificar de que nenhum dos seus homens lá ficara. Por isso, caminhando ao acaso, encontrou o cabeço, que na realidade estava bastante perto, junto do terreno que subia à frente dos seus pés. E subiu devagar o carreiro que partia do lado leste. À medida que subia, o nevoeiro foi-se tornando menos denso, até ela chegar finalmente à claridade do sol no cume deserto. Prosseguiu, então, e olhou para oeste. E ali, mesmo diante dela, estava a grande cabeça de Glaurung, que acabara de subir pelo outro lado. Antes que disso tivesse consciência, os olhos dela tinham fitado o espírito maléfico dos dele, que eram terríveis e estavam impregnados pelo espírito maléfico de Morgoth, o seu senhor.
Fortes eram a vontade e a coragem de Niënor, que se debateu contra Glaurung; mas ele exerceu sobre ela os seus poderes.
— Que procurais aqui? — perguntou-lhe. Forçada a responder, ela disse:
— Procuro apenas alguém chamado Túrin, que viveu aqui algum tempo. Mas talvez tenha morrido.
— Ignoro. Ele foi deixado aqui para defender as mulheres e os fracos, mas, quando eu vim, abandonou-os e fugiu. Fanfarrão mas covarde, ao que parece. Porque procurais tal pessoa?
— Mentis — respondeu Niënor. — Pelo menos os filhos de Húrin não são covardes.
Não vos tememos.
Glaurung riu-se, pois a filha de Húrin acabava de revelar-se à sua perfídia.
— Então sois tolos, vós e vosso irmão. E a vossa jactância será vã. Pois eu sou Glaurung!
Depois atraiu os olhos dela para os seus e a vontade de Niënor enfraqueceu.
Pareceu-lhe que o Sol empalidecia e tudo se tornava esbatido à sua volta. Lentamente, uma grande escuridão desceu sobre ela e nessa escuridão só havia vazio; não tinha conhecimento de nada, não ouvia nada, não se lembrava de nada.
Demoradamente explorou Mablung os salões de Nargothrond, o melhor que lhe era possível devido à escuridão e ao fedor; mas não encontrou lá nenhum ser vivo: nada mexia entre os ossos e ninguém respondia aos seus chamamentos. Por fim, oprimido pelo horror do lugar e temendo o regresso de Glaurung, voltou para as Portas. O sol descia no ocidente e, atrás, as sombras do Faroth estendiam-se, escuras, pelos socalcos e pelo rio enfurecido, em baixo. Mas ao longe, sob o Amon Ethir, pareceu-lhe distinguir a forma maligna do dragão. Mais difícil e perigoso foi o regresso, sobre o Narog, com tal pressa e medo; e, mal chegara à margem oriental e se ocultara sob o talude, Glaurung aproximou-se. Mas agora tornara-se lento e furtivo, pois todos os fogos que ardiam nele estavam amodorrados: grande força se esvaíra dele, que ia agora descansar e dormir nas trevas. Assim serpenteou pela água e se esgueirou para as Portas como uma enorme serpente cor de cinza, deixando viscoso o solo sob a sua barriga.
Mas, antes de entrar, olhou para trás, para leste, e irrompeu dele o riso de Morgoth, esbatido mas horrível, como um eco de malvadez vindo de distantes e negras profundezas. Seguiu-se-lhe a voz fria e baixa: “Aí vos escondeis como uma ratazana sob a margem, Mablung, o poderoso! Far-vos-ei moço de recados de Thingol. Apressai-vos agora para o cabeço e vede o que aconteceu a quem vos foi confiado!”
Depois Glaurung entrou no seu covil e o Sol desceu, e o anoitecer cinzento abateu-se, gélido, sobre a terra. Mas Mablung estugou o passo de volta a Amon Ethir e, enquanto subia para o cume, as estrelas começaram a brilhar no oriente. Contra elas viu, de pé, escura e imóvel, uma figura que dir-se-ia ser uma imagem de pedra. Assim se encontrava Niënor, que não ouvia nada do que ele dizia nem lhe dava qualquer resposta. Mas quando, por fim, Mablung lhe pegou na mão, ela estremeceu e deixou-se levar por ele. E enquanto Mablung a segurava, Niënor seguia-o, mas, se a largava, ficava parada e imóvel.
Grande era o sofrimento e o espanto de Mablung; mas nada mais podia fazer senão conduzi-la assim no longo caminho para leste, sem auxílio ou companhia. Deste modo se afastaram, caminhando como se sonhassem, e entraram na planície envolta na sombra da noite. E, quando a manhã voltou, Niënor tropeçou, caiu e ficou imóvel, e Mablung sentou-se, cheio de desespero, ao seu lado.
— Não foi em vão que temi este encargo — disse. — Pois ao que parece será o meu último. Com esta infortunada filha de Homens perecerei no mato e o meu nome ser á escarnecido em Doriath: se, acaso, algumas notícias do nosso destino forem conhecidas. Todos os outros foram sem dúvida chacinados e apenas ela poupada, mas não por misericórdia.
Assim foram encontrados por três do grupo que fugira de Narog à chegada de Glaurung e, depois de muito vaguearem e de a névoa se dissipar, regressaram ao cabeço.
Encontrando-o deserto, tinham come çado a procurar o caminho para casa. A esperança voltou então a Mablung e, juntos, prosseguiram para norte e leste, pois não havia nenhuma estrada de regresso a Doriath, no sul, e, desde a queda de Nargothrond, os barqueiros estavam proibidos de transportar alguém, a não ser os que vinham do interior. Lenta foi a viagem, como seria para quem transportasse uma criança fatigada. Mas, à medida que se iam afastando de Nargothrond e aproximando de Doriath, as forças foram regressando a pouco e pouco a Niënor, que caminhava obedientemente, hora atrás de hora, conduzida pela mão. No entanto, os seus grandes olhos não viam nada, nem os seus ouvidos ouviam quaisquer palavras ou os seus lábios as pronunciavam.
Finalmente, decorridos muitos dias, aproximaram-se da fronteira ocidental de Doriath, algures a sul do Teiglin; pois tencionavam transpor as cercas da pequena terra de Thingol para lá do Sirion e chegar assim à ponte guardada próxima do afluxo do Esgalduin. Pararam aí algum tempo, deitaram Niënor numa cama de erva e ela fechou os olhos, como ainda não fizera até então, e pareceu dormir. Os elfos também descansaram e, por pura exaustão, foram imprudentes. Por isso foram assaltados, desprevenidos, por um bando de caçadores Orcs, os quais deambulavam agora muito naquela região, o mais perto das cercas de Doriath que se atreviam a chegar. No meio da refrega, Niënor saltou de repente da cama improvisada, como se um alarme na noite a tivesse despertado, e, com um grito, fugiu para a floresta. Então os Orcs deram a volta e perseguiram-na, e os elfos foram atrás deles. Mas operara-se em Niënor uma estranha mudança e, agora, ela corria mais velozmente do que todos, voando como um gamo entre as árvores, com os cabelos caídos ao vento desencadeado pela sua velocidade. Mablung e os seus companheiros depressa alcançaram os Orcs e a todos mataram um por um, apressando-se depois a continuar.
Mas, entretanto, Niënor desaparecera como um fantasma e não conseguiram avistá-la nem encontrar rasto dela, embora a procurassem muito para norte e durante muitos dias. Por fim, Mablung regressou a Doriath, vergado pela mágoa e pela vergonha.
— Procurai um novo mestre para os vossos perseguidores, senhor — disse ao rei. — Pois eu estou desonrado.
Mas Melian respondeu-lhe:
— Não é assim, Mablung. Fizestes tudo quanto estava ao vosso alcance e nenhum outro, entre os servidores do Rei, teria feito tanto. Mas quis a má sorte que vos defrontásseis com um poder demasiado grande para vós, demasiado grande, na verdade, para todos quantos vivem agora na Terra Média.
— Mandei-vos para recolherdes notícias, e isso fizestes — disse Thingol. — Não é vossa culpa que aquelas a quem as vossas notícias mais de perto respeitavam não possam agora ouvi-las. Lamentável é, deveras, este fim de toda a família de Húrin, mas vós não contribuístes para ele.
Pois agora não apenas Niënor desaparecera, desatinada, nos ermos, como também Morwen estava perdida. Nem então nem depois chegaram novas fiáveis do seu destino a Doriath ou a Dor-lómin. Apesar disso, Mablung não descansava e, com um pequeno grupo, partiu para os ermos e durante três anos vagueou por longe, das Ered Wethrin até as Bocas do Sirion, procurando sinais ou notícias das desaparecidas.

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