16 de novembro de 2016

Capítulo XIII: A chegada de Túrin a Brethil

Então Túrin desceu na direção do Sirion, mas a sua mente estava dividida. Pois parecia-lhe que, enquanto antes tivera duas amargas escolhas, tinha agora três, e o seu povo oprimido, sobre o qual lançara apenas atribulações, chamava-o. Apenas um conforto lhe restava: Morwen e Niënor haviam chegado há muito a Doriath e só graças às proezas do espada negra de Nargothrond o seu caminho se tornara seguro. E disse, mentalmente: “Para onde melhor poderia eu tê-las conduzido, se tivesse, de fato, chegado mais cedo? Se a Cerca de Melian for quebrada, então tudo estará acabado. Não, é melhor assim; pois com a minha ira e os meus atos impetuosos lanço uma sombra onde quer que me encontre. Que Melian as guarde! E eu deixá-las-ei em paz e, por uns tempos, ao abrigo da sombra.”
Mas tarde de mais procurava Túrin agora Finduilas, percorrendo as florestas sob os beirais das Ered Wethrin, solitário e cauteloso como um animal, e revistou todas as estradas que seguiam para norte, para o desfiladeiro do Sirion. Tarde de mais. Pois as chuvas e as neves tinham apagado todas as pistas. Mas aconteceu que, ao passar ao longo do Teiglin, encontrou algumas pessoas do Povo de Haleth, da Floresta de Brethil. A guerra reduzira-as a um pequeno povo que, na sua maioria, habitava agora secretamente no interior de uma cerca no Amon Obel, bem no interior da floresta. O lugar chamava-se Ephel Brandir, pois Brandir, filho de Handir, era agora o seu senhor, desde que o seu pai fora morto. E Brandir estava longe de ser um homem de guerra, tendo ficado coxo em consequência de ter partido uma perna num desastre, na infância. Além disso, era brando de natureza, amando a madeira mais do que o metal, e o conhecimento das coisas que crescem na terra mais do que outros saberes.
Mas alguns dos lenhadores ainda perseguiam os Orcs nas suas fronteiras, e foi deste modo que Túrin lá chegou e ouviu o som de uma peleja. Apressou-se a seguir nessa direção e, ao passar sorrateiramente por entre as árvores, viu um pequeno bando de homens cercados por Orcs.
Os homens defendiam-se desesperadamente, de costas para um maciço de árvores que se erguia, isolado, numa clareira; mas os Orcs eram numerosos e eles tinham pouca esperança de escapar, a não ser que chegasse alguma ajuda. Por isso, fora da vista entre a vegetação rasteira, Túrin fez grande barulho, batendo com os pés no chão e entrechocando as armas, e depois gritou muito alto, como se conduzisse muitos homens:
— Ah, cá estão eles! Sigam-me! Sigam-me já e abatam-nos!
Ouvindo isso, muitos dos Orcs olharam para trás, assustados, e depois Túrin saltou do esconderijo, como se acenasse a muitos homens que o seguiam, e os gumes da Gurthang faiscaram como chamas na sua mão. Conhecendo por demais aquela lâmina, antes mesmo de ele se aproximar muitos Orcs dispersaram e fugiram. Então os lenhadores correram ao encontro de Túrin e, juntos, perseguiram o inimigo até ao rio: poucos o atravessaram. Por fim, detiveram-se na margem e Dorlas, chefe dos lenhadores, disse:
— Sois veloz na perseguição, Senhor, mas os vossos homens são lentos a seguir-vos.
— Não — respondeu Túrin —, nós corremos juntos como um só homem e não permitimos que nos separem.
Então os homens de Brethil riram-se, e disseram:
— Bem, um assim vale por muitos e muito gratos vos estamos. Mas quem sois e o que fazeis aqui?
— Faço apenas o meu ofício, que é matar Orcs. E habito onde o meu ofício me leva. Sou o homem selvagem da floresta.
— Vinde, então, e habitai conosco, pois vivemos nas florestas e precisamos de tais artífices. Sereis bem-vindo.
Túrin olhou-os de modo estranho e disse:
— Quer dizer que ainda resta alguém que me permite ensombrar as suas portas? Mas, amigos, tenho uma missão difícil e dolorosa para cumprir: encontrar Finduilas, filha de Orodreth de Nargothrond, ou pelo menos saber novas dela. Ai de mim, muitas semanas decorreram desde que foi levada de Nargothrond, mas tenho de continuar a minha busca.
Olharam-no, compadecidos, e Dorlas disse:
— Não procureis mais. Pois uma hoste de Orcs veio de Nargothrond na direção dos vaus do Teiglin e nós fomos alertados com grande antecedência, por causa do número de cativos que levavam. Então pensamos dar o nosso pequeno golpe na guerra e montamos uma emboscada aos Orcs com todos os archeiros que conseguimos reunir, na esperança de salvar alguns dos prisioneiros. Infelizmente, porém, mal foram atacados, os malvados Orcs começaram por matar as mulheres que se encontravam entre os seus cativos. E, com uma lança, cravaram a filha de Orodreth numa árvore.
Túrin pareceu atingido de morte.
— Como sabeis isso? — perguntou.
— Sabemos porque ela falou comigo antes de morrer — respondeu Dorlas. — Olhounos como se procurasse alguém que esperara, e pediu: “Mormegil. Dizei a Mormegil que Finduilas está aqui.” E mais não disse. Mas, por causa das suas últimas palavras, sepultamo-la onde morreu.
Jaz num pequeno monte ao lado do Teiglin. Decorrido é já um mês.
— Levai-me lá — pediu Túrin, e eles conduziram-no a um outeiro próximo dos vaus do Teiglin.
Aí se deitou Túrin e caiu sobre ele uma escuridão tal que pensaram que estivesse morto. Mas Dorlas olhou-o, assim deitado, e depois voltou-se para os seus homens e disse-lhes:
— Tarde de mais! Triste ocorrência esta. Mas, olhai: aqui jaz o próprio Mormegil, o grande capitão de Nargothrond. Pela sua espada o devíamos ter conhecido, como fizeram os Orcs.
— Pois a fama do Espada Negra do Sul chegara muito longe, até mesmo às profundezas da floresta.
Levantaram-no, por isso, com reverência e transportaram-no para Ephel Brandir.
Então, indo ao encontro deles, Brandir estranhou a padiola que carregavam. Depois, levantando o pano que o cobria, olhou para o rosto de Túrin, filho de Húrin, e uma sombra negra velou o seu coração.
— Oh, Homens cruéis de Haleth! — gritou. — Porque afastastes a morte deste homem? Com grande labor trouxestes para aqui a última maldição do nosso povo.
Mas os lenhadores responderam:
— Não, é o Mormegil de Nargothrond, um prodigioso matador de Orcs, e será de grande ajuda para nós, se viver. E, mesmo que assim não fosse, deveríamos ter deixado ao abandono, como carniça, um homem atingido pelo infortúnio?
— Não devíeis, de fato — concordou Brandir. — O Destino não quis que assim fosse.
— Depois levou Túrin para sua casa e tratou dele com cuidado.
Mas quando, finalmente, Túrin afastou de si a escuridão, a Primavera tinha regressado e ele acordou e viu o sol nos rebentos verdes. Então a coragem da casa de Hador despertou também nele, que se levantou e disse, no segredo do seu coração: “Todos os meus atos e dias passados foram negros e maus. Mas chegou um novo dia. Aqui permanecerei em paz e renunciarei a nome e laços de sangue; e assim afastarei a sombra para trás, ou pelo menos impedirei que caia sobre aqueles a quem amo.”
Por isso, adotou um novo nome, passando a chamar-se Turambar, que na linguagem élfica superior significava Mestre do Destino; e passou a viver entre os lenhadores, pelos quais foi estimado, e pediu-lhes que esquecessem o seu nome antigo e o considerassem como se tivesse nascido em Brethil. Todavia, a mudança de nome não chegava para modificar inteiramente o seu feitio, nem para o fazer esquecer os seus antigos agravos contra os servos de Morgoth; e ia caçar Orcs com alguns com a mesma inclinação, apesar de isso desagradar a Brandir. Pois este preferia resguardar o seu povo pelo silêncio e pelo segredo.
— O Mormegil já não existe — declarou —; cuidai, no entanto, não vá a valentia de Turambar dar origem a uma vingança semelhante sobre Brethil!
Por isso, Turambar pôs de lado a espada negra e não a levou mais para o combate, substituindo-a pelo arco e pela lança. Mas não tolerava que os Orcs utilizas sem os vaus do Teiglin nem se aproximassem do cabeço onde Finduilas jazia. Haudh-en-Elleth, assim se chamava, o monte da donzela élfica, e os Orcs não tardaram a temer esse lugar e a evitá-lo. E Dorlas disse a Turambar:
— Haveis renunciado ao nome, mas continuais a ser o espada negra. E não consta, com veracidade, que ele era o filho de Húrin de Dor-lómin, senhor da Casa de Hador?
E Turambar respondeu:
— Assim ouvi dizer. Mas não o proclameis, rogo-vos, pois sois meu amigo.

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