16 de novembro de 2016

Capítulo XII: O regresso de Túrin a Dor-Lómin

Por fim, esgotado pela pressa e pela longa estrada (pois quarenta léguas ou mais percorrera sem descanso), chegou com o primeiro gelo do Inverno às lagoas do Ivrin, onde antes fora sarado. Mas agora estavam transformadas num lodaçal gelado e não mais ali pôde beber.
Daí chegou às gargantas de Dor-lómin e a neve veio, agreste, do Norte, tornando os caminhos perigosos e gélidos. Embora fossem decorridos vinte e três anos desde que pisara aquele caminho, ele estava-lhe gravado no coração, tão grande fora o sofrimento de cada passo quando se separara de Morwen. Assim regressou, finalmente, à terra da sua infância. Estava desolada e vazia e as pessoas que lá se encontravam eram poucas e grosseiras, falavam a língua áspera dos Easterlings e a língua antiga tornara-se a linguagem de servos ou de inimigos. Por isso, Túrin caminhou cautelosamente, embuçado e silencioso, e encontrou por fim a casa que procurava. Ali estava, vazia e escura, e nenhum ser vivo habitava perto dela, pois Morwen partira e Brodda, o intruso, (aquele que, pela força, tomara Aerin, parente de Húrin, para mulher) pilhara a casa e apoderara-se de tudo quanto lhe restava em bens ou criadagem. A casa de Brodda era a que ficava mais perto da de Húrin e para lá se dirigiu Túrin, extenuado pela viagem e pelo sofrimento, para rogar abrigo; este foi-lhe concedido, pois alguns dos costumes mais generosos de antigamente ainda ali eram respeitados por Aerin. Foi-lhe dado um lugar perto do lume, junto dos criados e de alguns vagabundos tão sombrios e esgotados pelo caminho como ele, e Túrin pediu que lhe dessem notícias da terra.
Perante isso, o grupo remeteu-se ao silêncio e alguns dos presentes afastaram-se, olhando de esguelha para o desconhecido. Mas um velho vagabundo, com uma muleta, disse-lhe:
— Se quereis falar a língua antiga, Senhor, falai-a baixo e n ão peçais notícias. Quereríeis ser espancado como um tratante ou enforcado como um espião? Pois qualquer deles bem podeis ser, julgando pelo vosso aspecto. O que equivale a dizer — acrescentou, aproximando-se mais e falando ao ouvido de Túrin — uma das bondosas pessoas de antigamente que vieram com Hador nos tempos dourados, antes de as cabeças usarem pelagem de lobo. Alguns daqui são desses, embora estejam agora reduzidos a mendigos e escravos, e não fora a senhora Aerin não teriam nem este lume nem este caldo. De onde sois e que notícias gostaríeis de saber?
— Havia uma senhora chamada Morwen — respondeu Túrin — e há muito tempo vivi na sua casa. Aí, após longa errância, vim procurar acolhimento, mas nem lume nem pessoas lá se encontram agora.
— Nem se encontraram durante todo este longo ano e mais tempo ainda — respondeu o velho. — Mas escassos foram tanto o lume como as pessoas dessa casa desde a terrível guerra; pois ela pertencia ao povo antigo, como sem dúvida sabeis era viúva do nosso senhor Húrin, filho de Galdor. Não ousaram, porém, tocar-lhe, pois temiam-na, altiva e bela como uma rainha, antes de o sofrimento a desfigurar. Bruxa lhe chamavam, e evitavam-na. Bruxa significa apenas “amiga de elfos”, na nova linguagem. Contudo, roubaram-na. Muitas vezes ela e a filha teriam passado fome, não fora a Senhora Aerin. Diz-se que as ajudava em segredo e por isso era muitas vezes espancada pelo rústico Brodda, seu marido por obrigação.
— E nesse longo ano e mais tempo ainda? — perguntou Túrin. — Morreram ou foram escravizadas? Ou atacaram-na os Orcs?
— Não se sabe ao certo — respondeu o velho. — Mas ela desapareceu com a filha e o tal Brodda saqueou-lhe a casa e levou-lhe o que restava. Nem um cão sobrou, e os poucos que lá trabalhavam foram por ele feitos escravos; tirando alguns que se tornaram mendigos, como eu.
Durante muitos anos a servi, e antes ao grande senhor. Sador Perneta me chamam, pois assim me tornou um machado maldito nas florestas, há muito tempo; de contrário, no grande monte jazeria agora. Bem me lembro ainda do dia em que o filho de Húrin foi mandado para fora, e como nós choramos os dois... e ela, quando ele partiu. Diz-se que foi para o reino escondido.
Chegado aqui, o velho travou a língua e olhou, desconfiado, para Túrin.
— Sou velho e falo de mais, senhor — justificou-se. — Não me deis ouvidos! Mas embora seja agradável falar a língua antiga com alguém que a fala cortesmente, como em dias passados, os tempos são maus e precisamos de nos acautelar. Nem todos os que falam a língua cortês são corteses de coração.
— É verdade — respondeu Túrin. — Mas o meu coração está sombrio. Porém, se temes que eu seja um espião do Norte ou do Leste, então pouco mais sabedoria adquiriste do que tinhas há muito tempo, Sador Labadal.
O velho olhou-o, boquiaberto; depois, trêmulo, falou:
— Vamos lá para fora! Está mais frio, mas é mais seguro. Vós falais muito alto e eu demasiado, para uma sala Easterling.
Quando chegaram ao pátio, agarrou a capa de Túrin.
— Há muito tempo morastes naquela casa, dizeis. Senhor Túrin, porque voltastes?
Finalmente os meus olhos estão abertos, assim como os meus ouvidos: tendes a voz do vosso pai. Mas somente o jovem Túrin alguma vez me tratou por esse nome, Labadal. Não o fazia com má intenção; éramos amigos alegres, nesse tempo. Que procura ele agora aqui? Poucos restam e estamos velhos e desarmados. São mais felizes os que se encontram no grande monte.
— Não vim a pensar em combater — respondeu Túrin —, embora as tuas palavras me tenham despertado, agora, esse pensamento, Labadal. Mas isso terá de esperar. Vim em busca da Senhora Morwen e de Niënor. Que podes dizer-me, depressa?
— Pouco, Senhor — confessou Sador. — Elas partiram em segredo. Murmurou-se entre nós que tinham sido chamadas pelo Senhor T úrin, pois não duvidávamos de que ele se tornara notável com os anos, rei ou fidalgo em algum país do Sul. Mas parece que tal não aconteceu.
— Pois não. Fidalgo fui, num país do sul, ainda que seja agora um vagabundo. Mas não as chamei.
— Assim sendo, não sei o que dizer-vos — confessou Sador. — Mas a Senhora Aerin saberá, não duvido. Ela conhecia todas as intenções da vossa mãe.
— Como poderei chegar até ela?
— Isso não sei. Muito sofrimento lhe causaria se fosse surpreendida a segredar a uma porta com um miserável vagabundo do povo oprimido, ainda que alguma mensagem lograsse fazê-la vir. E um pedinte como vós não irá longe no palácio, a caminho do conselho superior, sem que os Easterlings o detenham e espanquem, ou pior ainda.
Furioso, Túrin gritou:
— Não posso entrar no palácio de Brodda porque eles me espancarão? Vem e verás!
Sem mais, entrou no palácio, atirou para trás o capuz e, afastando para o lado todos os que se atravessavam no seu caminho, dirigiu-se para a mesa onde estavam sentados o senhor da casa, a sua mulher e outros senhores Easterlings. Levantaram-se alguns para o deter, mas ele atirou-os ao chão e gritou:
— Alguém governa esta casa ou trata-se de um antro de Orcs? Onde está o senhor?
Brodda levantou-se, furioso.
— Eu governo esta casa — afirmou, mas, antes que pudesse acrescentar mais alguma coisa, Túrin disse:
— Então ainda não aprendestes a cortesia que vigorava nesta terra antes de vós. É agora atitude de homens consentir que lacaios tratem com rudeza os parentes das suas mulheres? Isso eu sou, e tenho um recado para a Senhora Aerin. Posso entrar livremente ou terei de o fazer como quiser?
— Entrai — respondeu Brodda, carrancudo, enquanto Aerin empalidecia.
Então Túrin dirigiu-se para a mesa alta, parou e inclinou-se.
— Peço-vos perdão, Senhora Aerin, por aparecer desta maneira; mas a minha incumbência é urgente e trouxe-me de longe. Procuro Morwen, Senhora de Dor-lómin, e Niënor, sua filha. Mas encontrei a casa dela deserta e pilhada. Que podeis dizer-me?
— Nada — respondeu Aerin com grande medo, pois Brodda observava-a atentamente.
— Em tal não acredito — declarou Túrin.
Então Brodda saltou para a frente, com o rosto vermelho de fúria e embriaguez.
— Basta! — gritou. — Como ousais contradizer a minha mulher na minha presença, vós que sois um mendigo e falais a língua dos servos? Não existe nenhuma Senhora de Dor-lómin. Mas, quanto a Morwen, ela pertencia ao povo escravizado e fugiu, como é hábito dos escravos. Fazei o mesmo, e depressa, ou mando-vos enforcar numa árvore!
Então Túrin saltou sobre ele, desembainhou a espada negra, agarrou Brodda pelos cabelos e empurrou-lhe a cabeça para trás.
— Que ninguém se mexa — avisou —, ou esta cabeça separar-se-á dos ombros! Senhora Aerin, rogar-vos-ia perdão, uma vez mais, se pensasse que este labrego alguma vez vos fez alguma coisa a não ser mal. Mas agora falai e não me renegueis! Não sou eu Túrin, senhor de Dor-lómin? Deverei ordenar-vos?
— Ordenai — disse ela.
— Quem pilhou a casa de Morwen?
— Brodda — respondeu ela.
— Quando fugiu ela, e para onde?
— Um ano e três meses são volvidos. Mestre Brodda e outros dos intrusos do leste por aqui a oprimiram grandemente. Há muito tempo foi convidada para o reino escondido e, finalmente, aceitou o convite. Pois as terras intermédias encontravam-se então, por uns tempos, livres do mal, graças às proezas do espada negra do país do Sul, ao que se diz; mas isso agora acabou. Ela contava encontrar lá o filho, à sua espera. Mas se vós sois ele, então temo que tudo tenha corrido errado.
Túrin riu-se amargamente.
— Errado, errado? — gritou. — Sim, sempre errado, errado e torto como Morgoth!
Tomou-o de súbito uma ira negra, pois os seus olhos estavam abertos e o feitiço de Glaurung perdia os seus últimos fios, e ele percebeu as mentiras com que o haviam burlado.
— Terei sido enganado de tal forma para vir aqui e morrer desonrado, eu que podia, pelo menos, ter caído valentemente diante das Portas de Nargothrond?
E, vindos da noite que envolvia o palácio, pareceu-lhe ouvir os gritos de Finduilas.
— Mas o primeiro a morrer aqui não serei eu! — gritou. Agarrou Brodda e, com a força da sua enorme angústia e fúria, ergueu-o alto e sacudiu-o, como se fosse um cão.
— Morwen do povo escravizado, dizes? Tu, filho de poltrões, ladrão, escravo de escravos!
E atirou Brodda de cabe ça para cima da sua própria mesa, direito ao rosto de um Easterling que se ergueu para atacar Túrin. Na queda, Brodda partiu o pescoço e Túrin saltou atrás dele e abateu mais três que ali estavam encolhidos, pois tinham sido apanhados desarmados.
Gerou-se tumulto no salão. Os Easterlings que lá se encontravam teriam investido contra Túrin, mas muitos outros ali se tinham reunido que pertenciam ao povo antigo de Dor-lómin: durante muito tempo tinham sido servos submissos, mas agora ergueram-se com gritos de rebeldia. Em breve se travava grande luta no salão e, embora os cativos dispusessem apenas de facas de trinchar carne, e outros objetos semelhantes de que puderam apoderar-se, para enfrentar punhais e espadas, muitos foram rapidamente abatidos de ambos os lados, antes de Túrin saltar para o meio deles e matar os últimos Easterlings que restavam no salão.
Depois descansou, encostado a uma coluna, e o fogo da sua ira assemelhou-se a cinzas. Mas o velho Sador arrastou-se para ele e agarrou-o pelos joelhos, pois estava ferido de morte.
— Mais do que três vezes sete anos foi muito tempo para esperar por esta hora — disse-lhe. — Mas agora ide, ide, Senhor! Ide e não volteis, a não ser com uma força maior. Eles levantarão a terra toda contra vós. Muitos fugiram do salão. Ide, ou acabareis aqui. Adeus! — Depois o seu corpo escorregou e ele morreu.
— Ele fala com a verdade da morte — disse Aerin. — Aprendestes o que havia a aprender. Agora sede célere e parti! Mas procurai primeiro Morwen e confortai-a, ou ser-me-á difícil perdoar todo o caos que desencadeastes aqui. Pois por má que a minha vida fosse, trouxestes a morte sobre mim com a vossa violência. Os intrusos vingarão esta noite tudo quanto aqui se passou. Impetuosos são os vossos atos, filho de Húrin, como se fôsseis ainda a criança que conheci.
— E timorato é o vosso coração, Aerin, filha de Indor, como era quando vos chamava tia e um cão atiçado vos assustava — respondeu Túrin. — Fostes feita para um mundo mais afável. Mas vinde! Levar-vos-ei a Morwen.
— A neve cobre a terra, mas é ainda mais densa sobre a minha cabeça. Tão depressa morreria nos ermos convosco como com os brutais Easterlings. Não podeis emendar o que fizestes. Ide! Ficar tornaria tudo pior e enlutaria escusadamente Morwen. Ide, rogo-vos!
Túrin fez-lhe uma vênia profunda, voltou-se e saiu do salão de Brodda; mas foi seguido por todos os rebeldes com forças para tal. Fugiram na direção das montanhas, pois alguns de entre eles conheciam bem os caminhos dos ermos e abençoaram a neve que caiu atrás deles e lhes cobriu o rasto. Assim, embora a perseguição não tardasse, com muitos homens, cães e relinchos de cavalos, eles fugiram para sul, para os montes. Depois, olhando para trás, viram uma luz vermelha muito ao longe, na terra de onde haviam fugido.
— Deitaram fogo ao palácio — comentou Túrin. — Com que propósito o fariam?
— Eles? Não, Senhor: ela, me parece — disse um, de nome Asgon. — Não poucos homens de armas interpretam mal a paciência e a serenidade. Ela fez muito bem entre nós, e por alto preço. O seu coração não era timorato e a paciência acaba por render-se.
Alguns dos homens mais resistentes, capazes de suportar o inverno, permaneceram com Túrin e conduziram-no por estranhos caminhos a um refúgio nas montanhas, uma caverna conhecida de bandidos e renegados; e lá encontraram escondida alguma quantidade de alimentos.
Aí esperaram que a neve parasse, deram comida a Túrin e conduziram-no a um desfiladeiro pouco usado que seguia para sul, para o Vale do Sirion, onde a neve não chegara. No caminho de descida, despediram-se.
— Passai bem, Senhor de Dor-lómin — desejou Asgon. — Mas não vos esqueçais de nós. Agora seremos homens perseguidos e a gente do Lobo tornar-se-á ainda mais cruel por causa da vossa vinda. Por isso, ide e não volteis, a não ser com uma força capaz de nos libertar. Adeus!

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