16 de novembro de 2016

Capítulo XI: A queda de Nargothrond

Volvidos cinco anos após a chegada de Túrin a Nargothrond, na Primavera, chegaram dois elfos que se identificaram como Gelmir e Arminas, do povo de Finarfin, e disseram que tinham uma mensagem para o Senhor de Nargothrond. Túrin comandava agora todas as forças de Nargothrond e tinha a seu cargo todas as questões relacionadas com a guerra; na verdade, tornara-se severo e altivo e ordenava tudo conforme o seu desejo ou como julgava certo. Foram, por isso, conduzidos à presença de Túrin, mas Gelmir esclareceu: “É com Orodreth, filho de Finarfin, que desejamos falar.”
E quando Orodreth apareceu, Gelmir disse-lhe: — Senhor, pertencíamos ao povo de Angrod e desde a Nirnaeth muito caminho temos percorrido; mas ultima mente permanecemos entre o séquito de Círdan, junto das Embocaduras do Sirion. E certo dia ele chamou-nos e mandou-nos procurar-vos, pois Ulmo, em pessoa, o Senhor das Águas, aparecera-lhe e advertira-o do grande perigo que se acerca de Nargothrond. Orodreth, porém, foi cauteloso e perguntou:
— Então porque estais aqui vindos do Norte? Teríeis, porventura, outras
incumbências?
Arminas respondeu-lhe:
— Sim, Senhor. Desde a Nirnaeth que em v ão procuro o reino oculto de Turgon; e temo que, nessa procura, tenha atrasado a nossa missão aqui. Pois Círdan enviou-nos por barco ao longo da costa, por razões de segredo e rapidez, e fomos desembarcados em Drengist. Mas entre a gente do mar encontravam-se alguns que viajaram para sul em anos passados, como mensageiros de Turgon, e pareceu-me, pelo seu falar cauteloso, que talvez Turgon permanecesse ainda no norte, e não no sul como muitos acreditam. Mas não encontramos nem vestígios nem rumores do que procurávamos.
— Porque procurais Turgon? — indagou Orodreth.
— Porque se diz que o seu reino resistir á mais tempo contra Morgoth — respondeu Arminas, mas estas palavras pareceram de mau agouro a Orodreth, que ficou desagradado.
— Nesse caso, não vos demoreis em Nargothrond — respondeu —, pois aqui não encontrareis quaisquer notícias de Turgon. E eu não preciso de que ninguém me avise de que Nargothrond está em perigo.
— Não vos irriteis, Senhor, se respondemos às vossas perguntas com a verdade — disse Gelmir. — E o nosso desvio do caminho direto até aqui não foi infrutífero, pois passamos para além do alcance das vossas sentinelas mais avançadas; atravessamos Dor-lómin e todas as terras sob as Ered Wethrin e exploramos o desfiladeiro do Sirion para espiarmos as manobras do inimigo. Há um grande ajuntamento de Orcs e criaturas malignas nessas regiões e está a formar-se uma hoste nas proximidades da Ilha de Sauron.
— Eu sei — respondeu Túrin. — As vossas notícias são retardadas. Se a mensagem de Círdan servisse para alguma coisa, deveria ter chegado mais cedo.
— Pelo menos, Senhor, ouvireis agora a mensagem — disse Gelmir a Orodreth. — Escutai, pois, as palavras do senhor das águas, que assim falou a Círdan: “O mal do norte conspurcou as nascentes do Sirion e o meu poder está a afastar-se dos dedos das águas correntes. Mas algo ainda pior está para acontecer. Dizei, portanto, ao Senhor de Nargothrond: Cerrai as portas da fortaleza e não as transponhais. Lançai as pedras do vosso orgulho ao rio estrondoso, para que o mal rastejante não logre encontrar a entrada.”
Estas palavras pareceram sombrias a Orodreth, o qual, como sempre, se voltou para Túrin em busca de aconselhamento. Este, porém, desconfiava dos mensageiros e disse, desdenhoso:
— Que sabe Círdan das nossas guerras, ele que habita perto do inimigo? Deixai o marinheiro velar pelos seus navios! Mas se, na verdade, o senhor das águas nos quer avisar, então que fale mais claramente. Caso contrário, a alguém treinado na guerra continuará a parecer melhor, no que nos respeita, reunir a nossa força e ir ousadamente ao encontro dos nossos inimigos, antes que eles se aproximem demasiado.
Então Gelmir inclinou-se diante de Orodreth e disse:
— Falei como me foi ordenado que falasse, senhor — e voltou-se para se afastar.
Mas Arminas perguntou a Túrin:
— Sois, na verdade, da Casa de Hador, como ouvi dizer?
— Aqui o meu nome é Agarwaen, Espada Negra de Nargothrond — disse Túrin. — Ao que parece, sois grande adepto da linguagem cautelosa, amigo Arminas. É bom que o segredo de Turgon seja de vós escondido, ou em breve seria ouvido em Angband. O nome de um homem a ele pertence, e se o filho de Húrin souber que o denunciastes quando ele deveria permanecer oculto, então que Morgoth vos aprisione e queime a vossa língua!
Arminas ficou abalado com a fúria negra de Túrin, mas Gelmir disse:
— Ele não será denunciado por nós, Agarwaen. Não estamos a conversar atrás de portas fechadas, onde é possível falar com maior franqueza? E eu creio que Arminas vos interrogou por ser do conhecimento de todos quantos habitam junto do Mar que Ulmo tem grande amizade pela casa de Hador e há até quem diga que Húrin e Huor, seu irmão, estiveram uma vez no reino escondido.
— Se assim foi, então ele não terá falado disso a ninguém, nem aos superiores nem aos inferiores, e menos ainda ao seu filho, na infância deste — respondeu Túrin. — Portanto, não acredito que Arminasmo tenha perguntado a fim de saber alguma coisa de Turgon. Desconfio de tais arautos de desgraças.
— Poupai a vossa desconfiança! — exclamou Arminas, irado. — Gelmir compreendeu-me mal. Eu perguntei porque duvido do que parece aqui ser acreditado; pois na realidade pouco vos pareceis com a família de Hador, seja o vosso nome qual for.
— E que sabeis vós dela? — perguntou Túrin.
— Vi Húrin e, antes dele, os seus antepassados. E nos ermos de Dor-lómin conheci Tuor, filho de Huor, irmão de Húrin; e ele é como os seus antepassados, o que vós não sois.
— É possível que sim, embora de Tuor nunca antes tenha ouvido falar. Mas, se a minha cabeça é negra e não dourada, disso me não envergonho. Pois não sou o primeiro dos filhos que se parece com a sua mãe e provenho de Morwen Eledhwen, da Casa de Beor e parente de Beren Camlost.
— Não falo da diferença entre o negro e o dourado — esclareceu Arminas. — Mas outros da Casa de Huor comportam-se de modo diverso e, entre eles, Tuor. Pois usam de cortesia e escutam bons conselhos, mantendo os Senhores do Oeste em respeito. Mas vós, ao que parece, aconselhais-vos com o vosso próprio discernimento ou apenas com a vossa espada e falais altivamente. Digo-vos, Agarwaen Mormegil, que, se assim fizerdes, diferente ser á o vosso destino daquele que as casas de Hador e Beor poderiam esperar.
— Outro sempre foi — respondeu Túrin. — E se, como parece, devo sofrer o ódio de Morgoth por causa da valentia do meu pai, terei também de suportar os sarcasmos e os maus agouros de um renegado da guerra, ainda que ele se proclame aparentado com reis? Voltai para as costas seguras do mar!
Então Gelmir e Arminas partiram e regressaram ao Sul; mas, apesar das provocações de Túrin, de bom grado teriam aguardado o combate ao lado dos seus parentes, e só partiram porque Círdan os encarregara, por ordem de Ulmo, de lhes levarem notícias de Nargothrond e do resultado do que lá tinham ido fazer. Orodreth ficou muito perturbado com as palavras dos mensageiros e a disposição de Túrin tornou-se mais sombria; de modo algum escutaria os conselhos deles e menos ainda toleraria que a grande ponte fosse descida. Pois até aí, pelo menos, as palavras de Ulmo tinham sido bem interpretadas.
Pouco depois da partida dos mensageiros, Handir, Senhor de Brethil, foi morto; pois os Orcs invadiram a sua terra, procurando assegurar assim os Vaus do Teiglin para o seu posterior avanço. Handir deu-lhes luta, mas os Homens de Brethil foram derrotados e rechaçados para as suas florestas. Os Orcs não os perseguiram, porque tinham alcançado o que pretendiam, naquele momento; e continuaram a concentrar a sua força no Canal do Sirion.
No Outono desse ano, Morgoth julgou ter chegado o momento de lançar contra o povo de Narog a grande hoste que havia muito preparara; e Glaurung, o Pai dos Dragões, atravessou a Anfauglith e passou daí para os vales setentrionais do Sirion, onde causou grande infortúnio. Sob as sombras das Ered Wethrin, conduzindo atrás de si um grande exército de Orcs, poluiu o Eithel Ivrin e de lá passou para o reino de Nargothrond, incendiando Talath Dirnen, a planície guardada, entre o Narog e o Teiglin.
Então, os guerreiros de Nargothrond avançaram, e alto e terrível pareceu, nesse dia, Túrin, e o coração da hoste animou-se enquanto ele cavalgava à direita de Orodreth. Mas a hoste de Morgoth era muito maior do que aquilo que qualquer dos batedores dissera, e ninguém, a não ser Túrin, protegido pela sua máscara de anão, conseguia resistir à aproximação de Glaurung. Os elfos foram obrigados a recuar e derrotados no campo de Tumhalad, onde todo o orgulho e toda a hoste de Nargothrond foram humilhados. Orodreth, o Rei, foi morto na primeira linha do combate e Gwindor, filho de Guilin, ferido de morte. Mas Túrin correu em seu socorro e todos fugiram diante dele. Tirou Gwindor do meio da confusão e fugiu para uma mata, onde o deitou na erva.
Então Gwindor disse-lhe:
— Como te transportei assim tu me transportaste! Mas infortunado foi o meu gesto e vão é o teu, pois o meu corpo está ferido para além de toda a possibilidade de cura e tenho de deixar a Terra Média. E, embora te estime, filho de Húrin, lamento o dia em que te salvei dos Orcs. Não fossem as tuas proezas e o teu orgulho, ainda teria amor e vida, e Nargothrond permaneceria algum tempo. Agora, se me estimas, deixa-me! Apressa-te a regressar a Nargothrond e salva Finduilas. E por último te digo: só ela se ergue entre ti e o teu destino. Se falhares perante ela, ele não falhará em encontrar-te. Adeus!
Então Túrin bateu velozmente em retirada para Nargothrond, juntando a si todos os grupos em debandada que encontrou pelo caminho; e, enquanto viajavam, as folhas caíam das árvores sopradas por um grande vento, pois o outono estava a ceder o lugar a um agreste inverno. Mas Glaurung e a sua hoste de Orcs chegaram lá antes dele, por causa do tempo que levara a ajudar Gwindor, e surgiram subitamente, antes que aqueles que tinham ficado de guarda tivessem conhecimento do que acontecera em Tumhalad. Nesse dia, a ponte que Túrin mandara construir sobre o Narog revelou-se um infortúnio, pois por ser grande e de robusta envergadura não pôde ser destruída com rapidez; assim, o inimigo passou velozmente sobre o rio profundo e Glaurung lançou-se com todo o fogo e ímpeto contra as Portas de Felagund, derrubou-as, e entrou.
E, no momento em que Túrin chegou, o terrível saque de Nargothrond estava quase consumado. Os Orcs tinham chacinado ou rechaçado todos os que ainda continuavam armados e estavam nesse momento a pilhar as grandes salas e mansões, saqueando e destruindo; mas às mulheres e donzelas que não tinham sido queimadas ou assassinadas haviam-nas reunido no pátio diante das portas, como escravas que levariam para Angband. Perante tal ruína e calamidade, Túrin chegou e ninguém pôde, ou não quis, detê-lo, embora ele abatesse tudo quanto encontrava pela frente, atravessasse a ponte e abrisse caminho na direção das cativas.
Encontrava-se agora sozinho, pois os poucos que o haviam seguido tinham fugido para se esconderem. Mas, nesse momento, Glaurung, o impiedoso, saiu das derrubadas portas de Felagund e ficou para trás, entre Túrin e a ponte. De súbito, falou através do espírito maligno que havia nele, e disse:
— Salve, Túrin, filho de Húrin. Feliz encontro!
Então Túrin avançou contra ele, com fogo nos olhos e os gumes da Gurthang a brilhar como chamas. Mas Glaurung conteve-lhe a investida, arregalou os olhos de serpente e fitou Túrin. Este sustentou aquele olhar sem medo, ao mesmo tempo que levantava a espada; e, instantaneamente, foi atingido pelo terrível feitiço do dragão e ficou como que transformado em pedra. Assim permaneceram muito tempo, imóveis e silenciosos diante das grandes Portas de
Felagund. Depois Glaurung voltou a falar, provocando Túrin:
— Perversos têm sido todos os teus atos, filho de Húrin. Filho adotivo ingrato, bandido, assassino do teu amigo, ladrão de amor, usurpador de Nargothrond, capitão temerário e imprudente, desertor da tua família. Como cativas vivem tua mãe e tua irmã em Dor-lómin, na miséria e na privação. Tu vestes como um príncipe, mas elas cobrem-se de farrapos. Por ti anseiam, mas isso não te perturba. Feliz se sinta teu pai quando souber que tal filho tem: e sabê-lo-á.
Sob o feitiço de Glaurung, Túrin escutou as suas palavras, viu-se num espelho deformado por maldade e abominou o que viu.
E, enquanto permanecia dominado pelos olhos de Glaurung, com a mente atormentada e incapaz de se mexer, a um sinal do dragão, os Orcs levaram as cativas arrebanhadas, que passaram perto de Túrin e seguiram pela ponte. Entre elas ia Finduilas, que estendeu os braços para Túrin e gritou o seu nome. Mas só depois de os gritos dela e os lamentos das cativas se perderem na estrada que seguia para norte Glaurung libertou Túrin, que não conseguia tapar os ouvidos para aquela voz que continuava a atormentá-lo.
Nisto, inesperadamente, Glaurung desviou o olhar e aguardou; e Túrin estremeceu devagar, como se acordasse de um sonho horrendo. Depois, recuperando a consciência com um grito estrondoso, lançou-se contra o Dragão. Mas Glaurung riu-se.
— Se desejas ser morto, de bom grado te matarei. Mas em pouco isso ajudará Morwen e Niënor. Não quiseste saber dos gritos da mulher elfa. Negarás também os laços do teu sangue?
Mas Túrin, puxando da espada, arremeteu-lha aos olhos e Glaurung, recuando rapidamente, empinou-se acima dele, e disse:
— Ah, pelo menos és corajoso, mais do que todos quantos conheci. E mentem os que dizem que nós, pela nossa parte, não honramos a valentia dos nossos inimigos. Agora escuta! Ofereço-te a liberdade. Procura a tua família, se puderes. Segue o teu caminho! E se elfo ou homem sobreviver para contar a história destes dias, seguramente referirão o teu nome com desprezo, se recusares esta dádiva.
Então Túrin, ainda enfeitiçado pelos olhos do Dragão, como se estivesse a tratar com um inimigo capaz de conhecer a piedade, acreditou nas palavras de Glaurung e, voltando-se, atravessou velozmente a ponte. Mas Glaurung gritou atrás dele, numa voz terrível:
— Apressa-te agora, filho de Húrin, para Dor-lómin. Não vá acontecer que os Orcs cheguem antes de ti, uma vez mais. E, se te demorares a procurar Finduilas, então nunca mais voltarás a ver Morwen nem Niënor, e elas te amaldiçoarão.
Mas Túrin seguiu pela estrada que levava para norte e Glaurung voltou a rir-se, pois cumprira aquilo de que o seu Senhor o encarregara. Então, voltou-se para o seu próprio prazer, expeliu o seu sopro e queimou tudo quanto havia em redor. Mas a todos os Orcs entregues ao saque desbaratou e afugentou, e negou-lhes tudo quanto tinham pilhado, até à mais insignificante coisa de algum valor. Destruiu depois a ponte e mergulhou-a na espuma do Narog; e, sentindo-se assim seguro, reuniu todo o tesouro e todas as riquezas de Felagund, amontoou-os e deitou-se sobre eles no salão mais recôndito, onde repousou algum tempo.
Túrin apressava-se pelos caminhos que conduziam ao Norte, passando pelas terras agora desoladas entre o Narog e o Teiglin, e o Inverno Terrível avançou ao seu encontro; pois nesse ano a neve caiu antes de passado o Outono e a Primavera chegou tarde e fria. Enquanto avançava, tinha sempre a sensação de ouvir a voz de Finduilas, gritando o nome dele por florestas e montes, e a sua angústia não conhecia limites. Mas, com o coração incendiado pelas mentiras de

Glaurung, e vendo sempre na sua mente os Orcs incendiando a casa de Húrin ou infligindo tormentos a Morwen e Niënor, manteve-se no seu caminho, sem nunca se desviar dele.

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