29 de novembro de 2016

Capítulo vinte

— ELE FEZ O QUÊ? — EXCLAMA MARINA.
Ella dá de ombros e olha para os pés.
— Ele...
— Ela entendeu — digo a Ella, meus lábios franzidos. — Só não acredita que John faria algo tão estúpido.
Ao meu lado, Nove, irritado, chuta a terra do chão.
— Que merda, Seis! Somos coadjuvantes agora ou o quê? Isso é ridículo.
Nós quatro estamos em uma clareira a pouco mais de um quilômetro rio acima das Cataratas do Niágara. Nossa nave de guerra roubada está parada a algumas centenas de metros, fazendo as árvores esparsas ali perto parecerem pequenas, sua rampa de saída, do tamanho de um tanque, estendida. Toda vez que vejo a nave monstruosa pelo canto do olho tenho que resistir ao impulso de correr para me esconder. É difícil acreditar que agora é nossa.
Marina passa as mãos pelo cabelo.
— Falei com ele sobre isso, sobre controlar a raiva...
Nove ri.
— Isso foi antes ou depois de você tentar apunhalar a cara do Cinco com uma estaca? Outra vez?
— Depois, na verdade — responde Marina, com firmeza. — Achei que ele enfim estava conseguindo lidar com a dor. Mas voar sozinho para combater outra nave de guerra... Meu Deus, Seis, isso é suicídio.
— Eu não sei. Você não o viu lá em cima. Ele parecia imbatível — comento.
— Ele não está pensando direito — diz Marina, balançando a cabeça em um gesto enfático.
— Parte dele acredita mesmo que consegue fazer sem a ajuda de ninguém — intervém Ella. — E outra parte não quer ver ninguém se machucar. Ele está convencido de que será melhor para todos se for sozinho.
Ficamos em silêncio por um instante, pensando nas palavras de Ella. É bem óbvio, pelo menos para mim, que ela captou esses sentimentos direto do cérebro de John. É impossível que ele tenha contado isso a ela.
— Ah, pro inferno com essa bobagem de nobreza — diz Nove. — Esta guerra também é nossa. Vou dar uma surra nele quando voltar.
— Vocês percebem que ele também nos deixou com uma missão e tanto, não é? — pergunto, olhando para cada um dos outros; não quero perder mais tempo falando sobre John. — Entregar esses dispositivos de camuflagem pode salvar várias vidas. É fundamental para a humanidade ganhar a guerra.
Nove faz um muxoxo de deboche e se afasta. Marina suspira e cruza os braços, virando um pouco para olhar o rio. Ella fica parada, ainda segurando o telefone via satélite que John lhe deu. Olho para meu próprio celular, o que Sam me deu e que, com sorte, está emulando a frequência do dispositivo de camuflagem.
Dezessete por cento de bateria. Quando acabar, de acordo com Sam, este aparelho velho vai esquecer as instruções que recebeu. É melhor acelerarmos esse teste.
Assim que começo a me preocupar pelo fato de o tempo estar acabando, ouço o ronco de um motor. Um jipe aparece sacolejando pelo terreno acidentado da clareira, com Lexa ao volante.
Ela para à minha frente e sai, o motor em ponto morto.
— Que timing perfeito — digo.
— Os canadenses falaram que gostariam que não o batêssemos — diz Lexa, dando de ombros. — E foram bastante educados ao pedir.
— Está tudo indo bem; não vai acontecer nada com o carro deles — respondo.
Vejo Adam aparecer no alto da rampa da nave de guerra. Rex está atrás dele – e mais parece que está se escondendo – incrivelmente tímido. Dou alguns passos em direção à nave e aceno para eles. Enquanto isso, Nove chega correndo ao meu lado.
— Está pronto? — grito, colocando as mãos em concha em volta da boca.
— Sim! — berra Adam de volta. — O campo de força está funcionando!
Estreito os olhos na direção da nave. Não enxergo o campo de força daquela distância. Não é possível ver a fraca energia azul até já estar quase em cima dela, da mesma forma que antes, quando voamos em direção à nave. Eu me aproximo. Nove coloca a mão de maneira protetora no meu braço.
— O que você está fazendo? — pergunta ele.
Olho para a mão dele.
— Eu faço a mesma pergunta.
— Não chegue perto demais dessa bosta — diz Nove. — Eu tive que cuidar de Johnny até ele se recuperar depois de bater de cara em um desses campos de força.
— Eu sei o que estou fazendo — respondo, e me livro da mão de Nove.
Eu me aproximo da nave o máximo que me atrevo, até o campo de força se tornar visível. Em seguida, usando o calcanhar, traço uma linha na grama.
— Essa é nossa meta — aviso, enquanto corro de volta até os outros. — Empurramos o jipe, com o dispositivo de camuflagem de Sam preso a ele, para além da marca, e então descobrimos se funciona.
— Por que usar o carro? Por que não fazemos o dispositivo de Sam flutuar através do campo com telecinesia? — pergunta Marina.
— Sabemos que os dispositivos de camuflagem dos mogs cobrem um veículo inteiro — explica Lexa. — Não sabemos se o do Sam tem o mesmo alcance.
— Isso considerando que ele funcione — acrescenta Nove.
Pego o celular com flip e o coloco no painel do jipe. Então recuo e olho em volta.
— Isso é tudo o que precisa fazer? — pergunta Marina, com uma das sobrancelhas levantada.
— Acho que sim — respondo. — Sam disse que o telefone está emitindo o tempo todo a frequência de camuflagem, ou o pacote de dados, ou seja lá que for.
— Pacote de dados — resmunga Nove. — Isso é chato. Sabe, na verdade estou esperando que o jipe exploda para termos um pouco de ação.
— Que ótimo, Nove — diz Marina.
Balanço o braço, sem dar importância ao que ele disse.
— Prontos para empurrar essa coisa?
Lexa coloca as mãos na parte de trás do jipe, que continua em ponto morto.
— Pronta — diz ela.
Todos nós olhamos para ela. Por fim, Nove ri.
— Hã, madame, não empurramos assim.
Lexa se afasta, e nós quatro – eu, Nove, Marina e Ella – nos concentramos no jipe e o empurramos com telecinesia. O carro faz terra e grama se levantarem do chão, as rodas girando, movendo-se depressa.
— Calma — alerto os outros. — Não queremos que exploda se atingir o campo de força.
— Um lindo voto de confiança ao trabalho do seu namorado — murmura Nove.
Fecho a cara. Vai funcionar e, mesmo que não dê certo, pelo menos Sam está tentando, e não fica só reclamando por não ter a chance de matar alguém, como Nove está fazendo. Abro a boca para dar uma resposta atravessada, mas Marina fala primeiro:
— Nove, você acha que é só coincidência que um de nossos aliados mais próximos manifeste exatamente o Legado de que precisamos para combater a invasão mogadoriana? — Marina balança a cabeça com fervor e continua: — É vontade da própria Lorien que a gente receba esse dom.
Sinto Marina aumentar seu impulso telecinético no jipe, acelerando-o a uma grande velocidade em direção ao campo de força. Nove fica quieto e observa, assim como o resto de nós. Escondida dos outros, eu cruzo os dedos.
O jipe cruza a linha que fiz na terra.
Sua dianteira se ergue como se tivesse atingido uma enorme lombada. O para-brisa e todas as janelas estilhaçam para dentro. Ouvimos então um zumbido magnético vindo do campo de força; eu o sinto nos dentes.
Mas o carro atravessa. Quase intacto.
Marina e Ella gritam ao mesmo tempo pelo triunfo. Viro para Nove e sorrio. Ele dá de ombros.
— Parabéns ao Sam — diz ele.
Adam desce depressa a rampa da nave para examinar o jipe. Do outro lado do campo de força ainda ativo, ele grita para nós:
— Foi um pouco turbulento, mas funcionou!
Então estende a mão para pegar o celular no painel do jipe. Tenta segurá-lo com dois dedos em pinça, mas acaba deixando-o cair – mesmo a distância, vejo que a coisa está fumegando. A grama sob o telefone parece queimar.
— Mas acho que só dá para usar uma vez — conclui Adam.
— Melhor do que nada — diz Nove.
Animada, pego o telefone via satélite das mãos de Ella e ligo para Sam.
— Sam! — exclamo assim que ouço sua voz.
— Ei! — responde ele, parecendo aliviado. — Acabamos de saber. Vocês roubaram mesmo uma nave de guerra?
— Isso não importa. Mas, sim. Ouça... sua... coisa, aquele lance com o celular, funcionou! Explodiu logo depois e talvez não tenha sido a passagem mais suave pelo campo de força, mas funcionou.
Ouço um grito abafado de Sam. Ele deve estar cobrindo o receptor com a mão.
— Funcionou! Meu Legado funcionou! — ouço-o gritar para quem mais está na sala com ele.
Logo ouço várias vozes comemorando.
— Que incrível! — exclama Sam, falando comigo. — Eu fiz outros esta manhã, para o caso de valer a pena. Os outros caras aqui acham que, agora que temos tecnologia terrestre imitando a frequência, talvez seja mais fácil reproduzir. Quer dizer, sem usar superpoderes.
— Você é um herói, Sam — digo com um sorriso.
Ao meu lado, Nove revira os olhos, mas também está sorrindo.
— Vamos começar a entregar os dispositivos de camuflagem em breve — conto. — Apronte essas coisas para que a gente possa distribuí-las.
— Pode deixar — responde ele. — Eu...
Um estrondo no seu lado da ligação interrompe Sam. Ao fundo, ouço Malcolm indagar:
— Mas que merda foi essa?
— Sam? — pergunto, erguendo as sobrancelhas, preocupada.
— Ei, desculpe — diz ele. — Alguma coisa acabou de explodir. Devem ser os novatos treinando.
Antes que eu fale alguma coisa, ouço um barulho inconfundível. O ruído parece com fogos de artifício a distância, mas aprendi há muito tempo o que esse som significa.
São tiros.
E não estão diminuindo.
As vozes em torno de Sam ficam abafadas. Estão prestando atenção. Seguro o telefone com mais força e sinto um aperto na boca do estômago.
— Sam, fala comigo.
Ao ouvirem a tensão na minha voz, os outros ao meu redor param o que estão fazendo e se aproximam. Os sorrisos pelo nosso teste bem-sucedido com a nave de guerra vão desaparecendo aos poucos.
— Seis... — diz Sam, um pouco mais alto do que um sussurro. — Seis, acho que estamos sendo atacados.

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