29 de novembro de 2016

Capítulo vinte e um

O LAÇO VORON É MANTIDO COM FOLGA PARA NÃO CORTAR MINHA CABEÇA DE imediato. Em vez de me executar, fazem Mark segurar a corda como uma correia para cachorro.
Enquanto me arrasto pelas tábuas do piso de Patience Creek em direção ao elevador secreto, que os mogs levaram dois minutos para encontrar, sinto o material cortante roçar minha garganta sempre que fico um pouco para trás.
Pior do que os cortes é a dor provocada pelos três tentáculos oleosos que me conectam a Phiri Dun-Ra. Esse lado inteiro do meu corpo chia como se algo cáustico e fervente estivesse pingando sob minha pele e se espalhando pelo organismo. Phiri Dun-Ra caminha ao meu lado enquanto sou arrastado atrás de Mark. Ela brinca com uma pequena brasa de fogo arroxeado que flutua na palma de sua mão. Sinto que ela está me drenando. É como se pontos estivessem sendo rasgados e afrouxados em algum lugar dentro de mim. Ela está tomando meus Legados.
A pior dor, porém, é saber o que está por vir.
Morte. Destruição. Fracasso.
— Mark... Ajuda... Parem... — imploro, respirando com dificuldade.
Ele nem sequer vira a cabeça. Vejo veias da gosma negra pulsando em seu pescoço e sinto o Mog Magro, o que tem algum tipo de controle mental sobre Mark, parado ali perto.
Phiri Dun-Ra ri ao ouvir minha súplica.
— É uma grande honra o Adorado Líder visitar os sonhos de alguém — diz ela. Em seguida, apaga o fogo em sua mão para bagunçar o cabelo de Mark. — Este pequeno humano aqui provou ter uma mente muito aberta. Ele desejava algo... algo que você não queria lhe dar. Ele pediu que o Adorado Líder restituísse sua amiguinha... Sarah.
Que eu não queria lhe dar. Meu Deus, eu teria trazido Sarah de volta dos mortos num piscar de olhos se tivesse poder para isso. Será que Mark achou que Setrákus Ra podia fazer isso? Será que eles o convenceram? Será que ele lhes entregou o corpo de Sarah?
Puxo a parte longa do laço, tentando chamar a atenção de Mark.
— Você não fez isso, Mark — rosno. — Me diz... me diz que você não fez.
Phiri Dun-Ra ri outra vez.
— Como se o Adorado Líder fosse desperdiçar uma dádiva dessas com um simples humano. Não, seu amigo teve dúvidas. Mas, a essa altura, já era tarde demais. Nós sabíamos onde encontrá-lo. Fomos forçados a interromper seu luto.
Paradise. Encontraram Mark em Paradise. Setrákus Ra invadiu seus sonhos e o manipulou, assim como tentou fazer com Marina e Cinco. Então, quando Mark voltou a si, o capturou. Achei que tinha me lembrado de todos os que Setrákus Ra poderia ter alcançado, mas tinha me esquecido completamente de Mark.
— Não foi difícil descobrirmos através dele onde vocês estavam — continua Phiri. — Nosso pequeno humano faz tudo o que pedimos.
Vejo a mão de Mark se agitar segurando o laço. Os nós dos dedos dele estão muito brancos. Os músculos estão rígidos. Ele está lutando contra a manipulação, mas não consegue escapar.
— Vamos deixá-lo como seu amigo em breve — diz Phiri, e noto o Mog Magro molhar os lábios, ansioso. — Mas primeiro, quero você só para mim.
Um dos tentáculos de Phiri se retorce dentro de mim, sinto a dor me dominar e caio de lado. Eles me deixam ficar deitado por um instante, enquanto recupero o fôlego.
Com os olhos turvos, tento ver quantos são.
A recepção de Patience Creek está lotada de mogs nascidos artificialmente armados. Em um canto, empilharam os corpos dos soldados que vigiavam a superfície. Ao que parece, morreram de forma rápida e brutal.
Além de Phiri Dun-Ra, identifico três outros mogs nascidos naturalmente com acréscimos.
Há o Mog Magro. O que está controlando Mark. Ele fica sempre por perto, observando Mark com atenção, as mãos que parecem aranhas cruzadas nas costas. Se eu quiser salvar Mark, vou ter que acabar com ele.
Há também o Mog das Sombras. Ele é mais jovem, talvez apenas uns anos mais velho que Adam. Enquanto observo, ele sai de uma sombra como se fosse uma poça de água, erguendo-se do chão. Com ele, há mais alguns guerreiros mogs. Foi assim que se teleportaram para cá sem serem vistos.
— Junte-se à equipe na entrada da caverna. Ninguém pode sair vivo — ordena Phiri, e o Mog das Sombras desaparece de novo no chão.
Não deixo de perceber que ela está falando em inglês. Phiri Dun-Ra quer que eu saiba que há outro esquadrão posicionado na entrada para veículos de Patience Creek.
Ela quer que eu saiba que todos lá embaixo estão presos.
Quer que eu saiba como a situação é desesperadora.
Por fim, parado em frente ao elevador, está o Mog Piken. Os outros três mogs com Acréscimos que observei pelo menos ainda parecem mogadorianos. Este é bizarro, com a parte inferior do corpo mediano ligada a um torso desproporcional. Ele tem dois metros e meio de altura, apesar das costas recurvadas, sua pele é um couro cinzento como o de um piken e seus músculos são exageradamente fortes. Ele tem dedos longos, grossos e com garras afiadas. A cabeça, enterrada na massa pulsante dos músculos do pescoço, é de tamanho normal, com exceção da mandíbula, que se destaca do rosto, deixando os dentes inferiores salientes. O mais repugnante é que dá para ver onde a pele pálida de mog se esticou e rasgou para dar lugar ao novo corpo piken.
Parece que ele sente dor e que está furioso por isso. Ele grunhe e desloca o peso do corpo de um pé para o outro, à espera de uma ordem.
Vejo quando Phiri nota uma das câmeras de segurança. Ela não parece preocupada.
— A essa altura, com certeza eles já sabem que estamos aqui — diz ela, então vira para o Mog Piken. — Vá até lá e diga oi.
Ele responde com um gemido doloroso, então abre a porta do elevador à força e desce pelo poço.
Pouco depois, ouço tiros e gritos vindos de baixo.
Com um sorriso, Phiri Dun-Ra olha para mim.
— Quantos Gardes estão lá embaixo, hein? — pergunta ela. — Quantos amigos seus vou eliminar hoje?
— Eu não... vou contar droga nenhuma.
Phiri revira os olhos e pega uma arma do quadril. Então, aponta para a nuca de Mark.
— Quer me contar agora? — pergunta ela, cutucando a base do crânio de Mark.
Quando sente o cano na cabeça, ele dá um jeito de se afastar. Algo dentro dele, um instinto de sobrevivência, o faz resistir ao controle do Mog Magro. Ele deixa cair o laço, flexionando os dedos como se enfim tivesse voltado a sentir as mãos, e se vira para Phiri Dun-Ra. Em seguida, dá um passo hesitante em direção à mulher. Isso é tudo o que faz. A saliva escorre de sua boca quando ele rosna, deixando evidente o esforço de lutar contra o controle mental mogadoriano. Phiri nem se mexe.
Ela olha para o Mog Magro.
— Ele está combatendo você.
— Vai acabar tendo um aneurisma em seu cérebro frágil antes de sobrepujar minha vontade.
O Mog Magro estreita os olhos, e todos os músculos de Mark se enrijecem, como se ele tivesse sido eletrocutado. Ele fica na ponta dos pés, retesado de um jeito pouco natural, as articulações estalando e os dentes cerrados. Acaba deixando escapar um grito estrangulado.
— Está vendo? — retruca o Mog Magro.
Phiri Dun-Ra guarda a arma e se agacha sobre mim.
— A verdade é que não importa quantos amigos seus estão lá embaixo. Vamos matá-los de qualquer jeito. Só gosto de ver você se contorcer.
De perto, a gosma que substituiu o braço de Phiri cheira a carne podre. Se ela ao menos chegasse um pouco mais perto, se ficasse mais próxima do meu rosto...
— Sabe, John, nossos caminhos já se cruzaram antes — continua ela. — Eu era a encarregada das operações em West Virginia quando você ajudou o Número Nove a escapar. Sabia disso? Aquele... infeliz incidente me fez ser mandada para o México como punição. Fui forçada a trabalhar na questão impossível do Santuário. Mas acabou que tudo o que eu tinha que fazer era esperar vocês, lorienos idiotas, aparecerem.
Ela volta a se levantar e estende os braços, os tentáculos enterrados em mim se retorcendo. Fico feliz pela dor; assim é mais fácil esconder minha decepção. Quase a peguei.
Tenho um recurso desesperado. Um truque literalmente escondido na manga. Os mogs estavam confiantes demais em seu controle para verificar se eu estava armado.
E a lâmina de Cinco ainda está escondida no meu braço.
Só preciso de uma oportunidade para atacar.
— O que é mesmo que os humanos adoram dizer? Tudo acontece por um motivo. — Phiri ri e prossegue: — Olhe onde eu cheguei, John. De certa forma, tudo graças a você.
Cerro os dentes e a encaro.
— Você não vai... você não vai ganhar.
— Aham, Sr. Grande Herói. Você vai encontrar uma maneira de salvar todos eles, certo? — Phiri olha para Mark, ainda congelado naquela posição desajeitada, e tremendo um pouco por resistir ao controle do Mog Magro. — Vamos ver.
O tentáculo enterrado na minha axila se solta. Sinto um alívio momentâneo. Vejo quando o membro serpenteante de Phiri corta o ar, sua ponta afiada como uma adaga.
Não há nada que eu possa fazer. O movimento é tão rápido e preciso que não consigo reagir.
Phiri enfia o tentáculo sob a mandíbula de Mark, até sair pelo alto da cabeça. Ele se contorce uma vez, de olhos arregalados, mas sem ver nada. Ela o segura no alto por um instante, perfurado pelo tentáculo, para que eu o veja. Depois ela se solta e deixa o corpo de Mark cair no chão ao meu lado.
Eu grito. De raiva, de dor, de pavor.
— Um a zero — diz Phiri para mim.
Fecho a boca. É impossível não encarar o corpo de Mark, seus olhos mortos fixos em mim. É culpa minha.
Dane-se. Se vou morrer, que seja nos meus termos.
Com um impulso rápido, saco a lâmina de Cinco do braço e corto os dois tentáculos que ainda me perfuram. Phiri grita e recua. Os apêndices gotejantes crepitam ao cair no chão. Segundos depois do corte, os tentáculos já começam a se regenerar.
Eu esperava que meus Legados fluíssem de volta para mim. Mas não é o que acontece. Ainda há resquícios de Phiri Dun-Ra se contorcendo em mim. Sinto meu Legado de cura entrar em ação, tentando combatê-los. Dou um jeito de me levantar e tento criar uma bola de fogo ou ativar minha visão de pedra. Os poderes não respondem. Exigem muita força física do meu corpo, que ainda está muito esgotado do ataque.
Um mog nascido artificialmente me dá uma coronhada com sua arma. Estou caindo de volta para o chão. O tempo parece desacelerar.
A telepatia. Ao menos posso usá-la. Meu corpo pode estar fraco, mas minha mente está bem.
Assim que abro a mente, estremeço. Há muito medo e dor irradiando dos níveis subterrâneos de Patience Creek que chegam até mim quando uso a telepatia. Procuro me concentrar e tento alcançar uma mente que fico aliviado ao descobrir que ainda está lá.
Sam!, grito por telepatia.
Sinto onde ele está. Segue depressa por um corredor, junto com Malcolm, vários cientistas e soldados de cada lado deles. Sam leva um grande peso nas costas – uma mochila cheia de diversos eletrônicos, principalmente celulares.
Sua experiência com o Legado tecnológico. Deve ter funcionado. E agora tudo pode ir por água abaixo...
John? Estou tendo alucinações?, pensa Sam de volta.
Não, estou aqui em cima.
Ah, graças a Deus...
Eles me pegaram, conto a Sam. Mark os trouxe aqui. Não por escolha. Eles têm Leg... Acréscimos.
Que merda... Mark... eles nos prenderam aqui.
Os pensamentos de Sam chegam confusos e apressados. Sinto que ele derrapa e para de repente, e Malcolm o agarra pelo braço.
Estou indo ajudá-lo, John. Estou chegando!
Não!, penso de volta, ponderando a chance que Sam tem contra os mogs e o valor do que ele está carregando, a importância de preservar seu Legado; pode ser a maior esperança da humanidade. Você tem que fugir! Há vários deles na saída subterrânea, mas acho que a maioria dos que têm poderes está comigo. Encontre uma forma de sair e...
Não concluo o pensamento. Sinto novas dores me apunhalarem quando os tentáculos de Phiri fazem três novos buracos nas minhas costas. Apenas alguns segundos se passaram. Meus Legados ainda parecem fora de alcance. Um grupo de nascidos artificialmente me prende no chão e arranca a lâmina de Cinco.
— Bela tentativa — diz Phiri com um sorriso triunfante.
Ela pega a ponta do laço que Mark deixou cair e eu me preparo para o que vem a seguir. Phiri parece saber exatamente o que estou planejando, porque abre ainda mais o sorriso.
— Ah, não, John. Você não vai morrer ainda.
Ela me puxa para a frente. Vou me arrastando atrás dela, já que a alternativa é uma garganta cortada.
O elevador está aberto e à espera. Há uma poça de sangue fresco no chão e marcas nas paredes. Quem quer que estivesse protegendo o elevador lá embaixo deve ter sido apanhado pelo Mog Piken.
— Venha, vamos dizer olá para seus amigos — debocha Phiri.
Ela, o Mog Magro e um esquadrão de guerreiros nascidos artificialmente me cercam no elevador. Descemos alguns andares. Tento descobrir onde estamos, mas não tenho certeza. Todas as salas ali embaixo são parecidas. Onde estão Lawson e Walker? Os Gardes humanos? Sam e Malcolm?
Espero que estejam em um andar diferente. Espero que encontrem uma forma de escapar.
Os nascidos artificialmente vão na frente; Phiri e o Mog Magro, logo atrás deles; eu sigo rastejando junto à mogadoriana. Eles não encontram qualquer resistência fora do elevador. Passamos por alguns corpos – soldados – que foram praticamente esquartejados membro a membro.
— Espero que ele tenha deixado alguns para nós — retruca o Mog Magro em tom seco.
Os primeiros tiros são disparados quando dobramos uma esquina. Alguns fuzileiros estão entrincheirados em um canto e liquidam alguns inimigos. Os mogs revidam, mas os soldados bloquearam o corredor com alguns móveis e se escondem atrás deles.
— Peguem-nos — diz Phiri Dun-Ra.
O Mog Magro sorri. Ele coloca as mãos em concha em frente à boca e sopra. Minúsculos esporos negros saem das palmas e flutuam pelo corredor. Tento gritar um alerta, mas Phiri retorce os tentáculos dentro de mim. Os soldados não estão preparados para esse tipo de luta. E como poderiam estar? Nem eu nunca vi nada parecido. Os esporos vão direto até eles, como se tivessem inteligência própria, passando por lacunas na barricada. Não vejo o que acontece, mas ouço sons de engasgos. Em seguida, silêncio.
O Mog Magro faz um movimento para o alto com as mãos, e os fuzileiros se levantam todos juntos. Veias negras se espalharam sob a pele de seus rostos. Eles se movem da mesma forma que Mark, como marionetes, os olhos aterrorizados enquanto os corpos seguem os comandos do Mog Magro.
O esquadrão de fuzileiros abre caminho para os mogadorianos.
Em pouco tempo, nos deparamos com outro grupo de soldados tentando bloquear um corredor. Eles hesitam ao ver seus amigos andando na direção deles.
— Matem-nos — sussurra o Mog Magro.
Sem hesitar, os fuzileiros com as mentes controladas disparam indiscriminadamente em seus colegas. O mogs assistem a tudo com satisfação. O corredor se enche de fumaça com todo o tiroteio. Phiri Dun-Ra ri quando desvio o olhar.
— Não é divertido? — pergunta ela.
De repente, as armas dos fuzileiros são arrancadas das mãos deles por uma força invisível. Os mogs erguem suas armas e acabam perdendo-as também.
Telecinesia.
Do jeito que Nove os ensinou. Desarmem seus oponentes.
— Mas que droga — ouço a voz de Nigel. — Cuidado, Ran, esses são amigos!
Um instante depois, quando o corredor explode, sei que a japonesa não deu ouvidos.
Ran deve ter atirado um de seus projéteis carregados, já que corpos voam para todo lado. Alguns são fuzileiros e outros, mogs; muitos dos últimos se desintegram com a força. Também sou jogado para trás e sinto o laço cortar meu pescoço, o sangue quente escorrendo pelo ombro. Só sobrevivo porque o impacto fez Phiri Dun-Ra soltar a correia.
Meus ouvidos estão zumbindo. O corredor está ainda mais esfumaçado do que antes. Vejo o Mog Magro e alguns outros mogs se protegendo em uma sala vazia. Tento me arrastar para longe, só que os tentáculos de Phiri ainda estão em mim. Ela soltou a correia; não a vejo, mas de alguma forma ainda estou preso a ela.
Pelo menos posso me livrar deste laço. Levanto a mão para arrancá-lo.
Espera.
Não estou mais me vendo. Não vejo minhas mãos, meus braços...
Estamos invisíveis.
Phiri Dun-Ra está usando meu Legado. Está nos fazendo ficar invisíveis.
Voltamos a ficar visíveis por um instante. O controle de Phiri é instável. Mas ela me vê mexendo no laço, e logo seus tentáculos se retorcem dentro de mim. Minhas mãos se afastam do pescoço e apertam a barriga.
Então, ficamos invisíveis outra vez.
Quando a fumaça começa a se dissipar, vejo Ran e Nigel avançando pelo corredor. Fleur e Bertrand também estão com eles. Todos, fora a japonesa, estão armados com fuzis de assalto; ela segura um livro velho que brilha, carregado com seu Legado explosivo. Eles já têm vários cortes e arranhões, e todos parecem muito abalados.
Estão andando na minha direção, o que significa que estão vindo em direção a Phiri Dun-Ra.
— Cuidado! — grito. — Voltem!
Eles pulam juntos ao som da minha voz. Mas não me veem.
E então é tarde demais.
Phiri Dun-Ra aparece do nada. Eu também, e meu estado – amarrado, empalado e de joelhos – é o tipo de distração que os mogs precisam. Os quatro Gardes humanos me olham em choque e apavorados. Até mesmo Ran deixa o brilho se apagar de seu projétil.
— Jo... John? — gagueja Nigel, de olhos arregalados.
— CORRAM! — grito em resposta, embora saiba que é tarde demais.
Antes que possam agir, Phiri Dun-Ra ataca.
Ela começa estendendo a palma da mão em direção a Fleur. Seis sincelos pontudos, afiados e – ao contrário do que acontece quando eu e Marina usamos esse Legado – com um tom feio de ferrugem acertam o peito de Fleur. A garota se encolhe, arfando, o sangue escorrendo pela boca.
— Não! Fleur! — grita Bertrand.
O garoto tenta fazer algo heroico. Ele se abaixa e pega Fleur pelos ombros, tentando arrastá-la para fora de alcance.
Phiri Dun-Ra envolve os dois em uma bola de fogo, as chamas roxas cheirando a pneus queimados.
Ela está usando versões degeneradas de meus Legados para matar os Gardes humanos que fui burro o bastante para convocar. Aqueles que jurei treinar e proteger. Quero fechar os olhos e parar de assistir.
— Sua vaca! — berra Nigel, os olhos cheios de lágrimas.
Ele levanta a arma, mas Phiri Dun-Ra torce o cano com telecinesia. Quando ele puxa o gatilho, o tiro sai pela culatra. Nigel grita. Não sei bem onde foi atingido ou qual é a gravidade... Mas isso não vai mais importar em um instante.
Só que Ran ainda está ali. Por sorte, Nigel tropeça nela. A menina o agarra pela nuca e o joga em um corredor lateral. Com um olhar de despedida para mim, Ran faz o que pedi. Ela corre, arrastando Nigel, ferido, escapando por pouco de outra das bolas de fogo.
Phiri vai na direção deles, mas eu forço meu peso. Seus tentáculos se afundam ainda mais no meu corpo, e sinto gosto de sangue na boca. Mas eu a desacelero, e, sabendo que precisa ficar ligada a mim para manter meus Legados roubados, ela não continua sua caçada.
— Você só está adiando o inevitável, John.
Phiri olha para os dois corpos, Bertrand e Fleur, praticamente irreconhecíveis, a pele deles carbonizada, e um novo tentáculo se projeta para fora do ombro oleoso, examinando-os. Ela suspira.
— A faísca desses dois mal tinha começado...
— Você os colheu antes de estarem maduros — diz o Mog Magro quando ele e os mogs nascidos artificialmente vêm da sala onde tinham se escondido.
Os mogs perambulam por ali, recolhendo as armas.
Phiri Dun-Ra pega minha correia – não cheguei a passar o laço pela cabeça – e dá de ombros para o Mog Magro. Então, olha para mim.
— Eu me pergunto se foi assim que você se sentiu quando massacrou a nave de guerra. — Ela faz um som parecido com um ronronar. — Gostou tanto quanto estou gostando disso?
Ela dá um puxão na corda, e recomeçamos a nos mover. Quando passamos por Bertrand e Fleur, estendo a mão na direção deles. Sei que é inútil – ficarei sem meus Legados enquanto Phiri Dun-Ra tiver controle sobre mim – mas alimento a louca esperança de mandar um pouco do meu Legado de cura para eles. Meus dedos mal tocam o ombro de Fleur; nada acontece, e então sou forçado a seguir em frente.
Viramos no corredor para onde Nigel e Ran fugiram, os nascidos artificialmente mais uma vez à frente. A essa altura, a única coisa que posso fazer para ajudar é diminuir o ritmo dos mogs. Por isso, ignoro a dor que o laço de Voron me causa e sigo Phiri o mais devagar que posso.
Quando minha visão começa a se turvar, percebo que minha lentidão não é apenas uma estratégia defensiva. Estou perdendo muito sangue. Em determinado momento, caio para a frente, me apoiando nos cotovelos, e ouço algo estalar em meu ombro.
Sinto tanta dor e estou tão desorientado que já nem sei mais em que lugar de Patience Creek estamos.
Não dá para acreditar que tudo vai terminar assim.
O som de luta ressoa por toda a base. Ao longe, ouço tiros e gritos. Ecos de batalhas perdidas nas proximidades. Seguimos pelas salas mais silenciosas, caçando pessoas que se dispersaram.
— Lá! — grita o Mog Magro.
Levanto os olhos bem a tempo, espiando entre as pernas de Phiri Dun-Ra, quando uma pessoa sozinha aparece. Os mogs nascidos artificialmente logo ajustam a mira e abrem fogo.
— Merda! — exclama Sam, enquanto busca abrigo dobrando uma curva.
Ah, não. Sam, não. Por favor, o Sam, não. Não quero ver isso.
Ele não fez o que pedi. Não fugiu. Não escapou. Está sozinho. Não sei o que aconteceu com Malcolm e os outros cientistas, com os Chimæra que estavam com eles, mas só consigo pensar no pior. Antes que ele suma de vista, noto que não está mais usando a mochila pesada. Talvez a tenha escondido em algum lugar, ou talvez a tenha perdido durante os combates.
Os nascidos artificialmente correm atrás de Sam. Eles têm que recuar quando Sam usa uma arma a laser para atirar às cegas de seu esconderijo.
— John? — grita ele. — É você?
— Sam... — falo, quase sem forças. — Sam, saia logo daqui.
— Vou salvar você, John! — berra ele de volta.
Phiri Dun-Ra ri.
— Ah, que emocionante. Peguem esse aí e tragam para mim. Quero cuidar disso bem devagar.
Cumprindo o ordenado, os guerreiros fazem a curva sem cautela. Phiri, o Mog Magro, alguns mogs nascidos artificialmente e eu vamos atrás, a salvo de qualquer disparo. Ouço os passos de Sam pelo corredor, correndo para longe da emboscada.
— Luzes, apaguem! — grita ele, sem fôlego. — Luzes, apaguem!
As lâmpadas de halogênio se desligam ao comando de Sam. Só os disparos mogadorianos iluminam o caminho. Phiri rosna, impaciente.
Tenho a sensação de que Sam está nos levando a algum lugar. Olho para todos os lados, tentando descobrir onde estamos. É difícil no escuro, e, nos clarões dos disparos, só consigo ver uma série de portas idênticas fechadas.
Mais alto que os gritos alegres e tiros dos mogs, ouço um ruído metálico, como uma tranca pesada sendo aberta. À frente, uma porta range. Será que Sam se trancou em algum lugar? Ele está em segurança?
De repente, o corredor escuro fica muito mais silencioso. Os tiros param. Ouço um gemido de dor seguido de um barulho de alguém soltando o ar com dificuldade.
É o som de um mog virando cinzas.
Phiri Dun-Ra e o Mog Magro trocam um olhar. Nós paramos quando o grupo que abre o caminho fica em silêncio.
Da escuridão, ouço metal batendo em metal. Um som rítmico e ecoante.
Clang. Clang. Clang. Clang. Clang.
Parecem palmas.
Com Phiri Dun-Ra distraída, fico de joelhos. Percebo onde estamos. Aquelas portas idênticas dos dois lados são celas. Sam não estava trancando uma porta.
Estava abrindo uma cela.
— Você parece muito boa em matar os outros, madame — rosna uma voz familiar na escuridão.
Phiri Dun-Ra estende a mão à frente e cria uma bola de fogo que ilumina todo o corredor. Então, dá um passo involuntário para trás.
Cinco está no meio do caminho, a cerca de vinte metros de distância. Está vestindo apenas uma cueca boxer de algodão e um roupão aberto. Também está com uma arma mogadoriana, que bate na lateral da cabeça, criando o som metálico. Cada centímetro de seu corpo assumiu o mesmo brilho da liga metálica da arma. Na outra mão, ele segura um guerreiro mog pela garganta. Com um simples aperto, quebra o pescoço dele, e o mog vira pó. Em seguida, Cinco passa a mão suja no peito nu. A chama da bola de fogo de Phiri Dun-Ra se reflete no olho restante dele. Em seguida, Cinco fala com um sorriso insanamente largo no rosto:
— Vamos ver quem é melhor.

3 comentários:

  1. desculpe, não faltou não..eu estava abrindo os capítulos para página principal e ai repete o 22, mas utilizando o,link aqui embaixo para passar o próximo caítulo, vai certinho...
    Vlw"

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    1. Okay, de qualquer maneira, obrgada! Corrigi os links

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