29 de novembro de 2016

Capítulo vinte e três

CINCO VOA A TODA VELOCIDADE, SEGURANDO A ARMA PELO CANO, SEM DISPARÁ-LA. Em vez disso, empunha a arma como um porrete. Ele atinge a fileira de guerreiros mogs como um furacão, afundando seus crânios com o punho da arma. Enquanto transforma um mog em pó, toma uma segunda arma da mão que se desintegra.
Quando um dos guerreiros tenta pular em suas costas, Cinco dá uma cotovelada violenta, sua carapaça de metal triturando o inimigo com um ruído ressoante. Ele arremessa um mog para trás com telecinesia, deixa-o ricochetear na parede e então lhe dá uma cabeçada para atirá-lo ao chão.
Nunca fiquei tão feliz por ver Cinco.
— Traidor! O Adorado Líder lhe deu tudo! — grita Phiri Dun-Ra.
Ela arremessa uma bola de fogo na direção dele. Cinco se desvia e o roupão pega fogo, mas o calor não machuca sua pele de metal.
— Ele não me deu nada! — rebate Cinco, e lança uma de suas armas com força em Phiri.
A arma a atinge bem entre os olhos e a faz perder o equilíbrio e cair. O sangue escuro que escorre do nariz quebrado logo se espalha pelo rosto.
Se fosse eu, teria apanhado o objeto usando a telecinesia sem problemas. Percebo que, embora Phiri seja capaz de roubar meus Legados, não significa que saiba usá-los.
Ela usa um Legado de cada vez, tentando causar o maior dano possível, mas não os usa para se defender.
Isso me dá uma oportunidade.
Com Phiri atordoada, seguro a corda Voron e a jogo para fora de seu alcance. Então, tiro o laço por cima da cabeça antes que qualquer um de seus comparsas me detenha.
A maioria deles está distraída com Cinco, na verdade.
Agora preciso arrancar os tentáculos das minhas costas.
Phiri se ergue, apoiando-se nos cotovelos, recuperando-se do golpe de Cinco. Eu me atiro para a frente, caindo de joelhos, e dou um soco no pescoço dela, tentando atingir a traqueia.
Ela gorgoleja uma vez e, em seguida, reage. Sinto algo rasgando minhas costas quando os tentáculos me levantam. Então me viram e me empurram para cima, de cara no teto e depois de volta ao chão.
Fico tonto, sem fôlego e com um dente solto na boca. Ainda estou preso a Phiri Dun-Ra. Eu a ouço tossindo, assim como os sons de Cinco avançando pelo esquadrão de mogs.
Quando minha visão enfim entra em foco, percebo que o Mog Magro se aproximou. Ele coloca as mãos em concha em frente à boca e sopra outra nuvem daqueles esporos que usou para controlar as mentes de Mark e dos soldados. No corredor escuro, a única luz vem do roupão em chamas de Cinco, e os esporos parecem uma nuvem de aranhas.
— Cinco! — grito, com dificuldade, sentindo gosto de sangue. — Cuidado! Não inspire essas coisas!
Ele atira um dos últimos mogs nascidos artificialmente no chão bem quando termino de berrar. Cinco vira a cabeça, confuso, e vê os esporos se aproximando. Seu peito se infla enquanto ele tenta prender a respiração, mas os esporos já estão cobrindo sua boca e seu nariz. Eles têm vida própria, forçando o caminho até as narinas e através dos lábios.
Não. Se controlarem a mente de Cinco, tudo estará perdido. Ninguém aqui vai sobreviver.
Tento me jogar em direção ao Mog Magro, mas os tentáculos de Phiri ainda perfuram minhas costas. Estou fraco demais.
As veias negras já se espalham pelo rosto de Cinco. Ele larga a arma e sua pele volta ao normal. Suas costas se arqueiam quando o roupão em chamas entra em contato com a pele.
— Sim... — comanda o Mog Magro. — Não resista.
Cinco o encara com uma expressão assassina. Mas ele está imóvel, seus músculos se contraindo, fora de controle.
— Ei.
O Mog Magro começa a virar o corpo ao ouvir a voz. É a última coisa que ele faz.
Sam surge de uma das celas ali perto, puxa o gatilho de uma arma mog à queima-roupa.
O tiro arranca a parte de trás da cabeça do Mog Magro. O corredor de repente se enche de esporos, parecendo que uma piñata acabou de explodir. É como se a cabeça inteira do Mog Magro estivesse cheia daquelas estruturas bolorentas, que flutuam, inofensivas, até o chão, onde murcham e se transformam em cinzas.
Atordoado, Cinco espirra e cospe, livrando-se do Mog Magro.
— John... — começa a dizer Sam, mas em seguida seus olhos se arregalam e ele corre de volta para a cela, evitando por pouco a ponta afiada de um sincelo de cor escura.
Phiri Dun-Ra está de pé outra vez e me puxa em direção a ela usando os tentáculos. Como a maior parte de seus reforços está morta, seus olhos de repente ficam arregalados e desesperados.
— Evacuação! — grita ela em um transmissor de ouvido. — Eu preciso ser evacuada daqui!
Cinco dispara em direção a ela, agarrando-a pelo pescoço. A pele dele está salpicada de branco e preto, como o piso. Phiri jorra fogo na cara de Cinco, mas isso só chamusca seu casco e o deixa ainda mais irritado. Ele aperta o pescoço dela com mais força.
É um alívio quando um dos tentáculos de Phiri sai das minhas costas. A sensação não dura muito. Phiri enrola o apêndice oleoso em volta do pescoço de Cinco e o levanta do chão, de modo que os pés não tocam mais o piso. A pele dele perde o revestimento mais forte, voltando ao normal, e Phiri aperta seu pescoço com o tentáculo.
Agora é Cinco que ofega em busca de ar.
— Vamos ver do que você é capaz, garoto — diz Phiri.
A ponta afiada do tentáculo bate no rosto de Cinco, procurando sua órbita vazia. Ela vai se ligar a ele assim como está ligada a mim.
É então que vejo a lâmina de Cinco caída no chão. Um dos mogs que ele pulverizou devia estar com ela.
— Cinco! — grito, tentando chamar sua atenção quando ele começa a ficar roxo.
Estendo a perna o máximo que posso e chuto a lâmina na direção dele. Espero que ele a ouça deslizando pelo chão.
Antes que Phiri se conecte, Cinco usa a telecinesia para pegar a lâmina e a prende no braço. É tão sutil e eficiente que tenho a sensação de que não é a primeira vez que Cinco faz esse movimento. E o que se segue... bem, sei que ele tem experiência nessa área.
Com uma alegria insana, Cinco apunhala Phiri Dun-Ra. Ele fatia o tentáculo em volta do pescoço até que não reste nada além de uma pasta e ele consiga voltar ao chão. Sua pele assume a textura rígida do piso mais uma vez, bem a tempo de absorver o fogo que Phiri lança em desespero para cima dele. Implacável, Cinco ataca a massa estranha ligada ao ombro dela, mutilando-a até que os tentáculos conectados a mim se soltam e viram cinzas. Phiri grita de frustração, embora seu apêndice doentio continue a se regenerar. Toda vez que isso acontece, Cinco parece quase feliz em ter outra chance de dilacerá-lo. Eu quase tinha esquecido como ele é sádico.
— Mate-a de uma vez, Cinco! — grito, me arrastando para trás e fazendo uma careta ao notar o tamanho da trilha de sangue que deixo para trás.
— Não me apresse — resmunga ele.
O Mog das Sombras emerge da escuridão atrás de Phiri Dun-Ra. Deve ser resultado da evacuação que ela pedia aos berros há alguns segundos. Ele passa os braços ao redor da cintura de Phiri e a puxa para trás, as sombras como um líquido em torno deles, engolindo-os.
Só que Cinco não desiste. Ele enterra a lâmina no ombro de Phiri e se lança através das sombras no encalço deles. O teleporte é silencioso. Num segundo eles estão ali, e no outro o corredor está vazio. Aonde quer que o Mog das Sombras tenha levado Phiri, Cinco acabou indo atrás.
— John!
Sam cai de joelhos no chão ao meu lado. Vejo pelo seu olhar que minha aparência é péssima. Tenho perfurações na lateral do corpo e nas costas, ossos quebrados no braço e cortes profundos no pescoço. Tudo está pegajoso por causa do meu sangue.
— Eu... Eu estou bem — digo a ele.
— Mas que merda! Não, você não está nem um pouco bem — responde ele. — Você pode se curar?
— Estou me curando.
Sam olha para mim.
— Não. Você está sangrando.
— Vai... ser um processo lento.
Agora que estou separado de Phiri Dun-Ra, sinto meus Legados voltarem aos poucos. Com algum esforço, levanto o braço e examino a perfuração por baixo dele. O óleo negro está saindo de mim devagar, forçado por meu Legado, que luta para curar meu corpo. Quando todo esse líquido for eliminado, espero que meus poderes voltem ao normal. E então será apenas uma questão de ter força para usá-los.
Sam rasga um pedaço de sua camisa e amarra no meu pescoço.
— Este corte nem começou a fechar — constata ele.
— E não vai mesmo — falo. Levanto o laço, sem forças. — Eles usaram aquele laço Voron em mim. Como o que Pittacus usou em Setrákus Ra.
— Ah, cara, você vai ficar com uma cicatriz — murmura Sam, balançando a cabeça.
Percebo um movimento no teto. Vejo o Mog das Sombras bem a tempo. Ele cai de pé da escuridão, uma arma apontada para nós. Voltou para acabar com a gente.
Empurro Sam e rolo para o outro lado. O disparo acerta a parede entre nós. Sam reage depressa, apontando a arma para revidar. O mog, então, desaparece em outra sombra no chão.
— Fique atento em todos os lados — alerto enquanto me sento, agarrando o laço.
O Mog das Sombras sai de uma das celas escuras atrás de mim. Não me viro a tempo, mas Sam usa a telecinesia para jogar a arma do mog longe. Seu último tiro chia no chão ao meu lado. Com um grunhido frustrado, nosso inimigo mergulha mais uma vez na escuridão.
Arremesso o laço em direção a ele.
Não é a ideia mais brilhante. Sem a telecinesia, não tenho como fisgá-lo.
Felizmente, Sam não demora a entender e usa a própria telecinesia para guiar meu laço de improviso. Passamos a corda em torno da cabeça do Mog das Sombras antes de ele desaparecer, e eu o puxo para trás com a pouca força que me resta.
Espero arrancar sua cabeça de imediato, mas não tenho essa sorte. O Mog das Sombras para no meio do teleporte, mergulhado até a cintura na sombra, e agarra o laço. É um cabo de guerra, e ele está ganhando. A corda Voron, escorregadia de sangue, começa a deslizar pelas minhas mãos.
— Atrás de você! — berra Sam.
Olho de relance por cima do ombro. As pernas do Mog das Sombras estão a dez metros no corredor, emergindo de outra penumbra. Ele vai continuar a se teleportar através da escuridão até nos cansar. A corda Voron escorrega um pouco mais das minhas mãos.
— Luzes, acendam! — grita Sam.
De repente, as luzes do corredor voltam a se acender, mais brilhantes do que nunca. Não há mais sombras.
O mog engasga. Seu tronco tomba no chão à nossa frente, e suas pernas caem lá atrás. Ele foi cortado em uma linha reta na altura da cintura. Puxo a corda em seu pescoço com pouca resistência – ele já começou a se desintegrar.
— Excelente — digo a Sam quando ele se ajoelha ao meu lado.
— Esse cara já estava me irritando — resmunga Sam, mais uma vez examinando o corte no meu pescoço. — Você vai precisar levar pontos, cara.
Coloco a mão sobre a dele.
— Sam, seu pai está...?
— Ele está bem! Quer dizer, estava, na última vez em que o vi. Não tinha como escapar, então ele e os outros cientistas se esconderam lá na antiga biblioteca. Os Chimæra estão tomando conta deles. Estão com meus dispositivos de camuflagem caseiros. Eu corri para... hã... soltar nosso psicopata secreto antes que meu pai me impedisse.
Sam respira fundo e olha em volta.
— Cadê o Mark?
Comprimo os lábios e balanço a cabeça. Sam desvia o olhar.
— Malditos — diz ele em voz baixa. — Malditos culpados de toda essa merda.
Ficamos em silêncio ao ouvir o som de tiros vindo de um corredor ao lado. O tiroteio é interrompido por um rugido animalesco e, logo em seguida, gritos desesperados. Deve ser aquele mog deformado e imenso que vi lá em cima, o Mog Piken. Está perto.
Sam olha para mim.
— Você consegue lutar?
Faço uma careta e crio uma fraca bola de fogo com meu Lúmen. Assim que faço isso, meu Legado de cura para de funcionar e meu tronco dói muito. Apago a chama e me concentro na cura, balançando a cabeça para Sam.
— Ainda não — digo.
— Então é melhor sairmos daqui — responde ele. — A menos que você queira tentar aquele truque do laço outra vez.
— Não, obrigado. Esse aí não se teleporta. Ele derruba paredes.
Sam me ajuda a levantar com delicadeza. Passo o braço bom sobre os ombros dele, o outro agarrado à minha barriga, e nos arrastamos depressa pelo corredor. Um dos braços de Sam está em volta da minha cintura, e a mão livre aponta uma arma para a frente. Atrás de nós, os passos pesados e os grunhidos do Mog Piken ecoam, ficando pouco a pouco mais distantes.
— Você sabe o que pensei no dia em que o conheci na escola? — pergunta Sam, baixinho, arfando pelo cansaço.
Ergo uma das sobrancelhas.
— Hã... não. O quê?
— Pensei: está na cara que esse garoto vai me fazer carregá-lo por metade de Nova York e depois por uma base militar subterrânea ultrassecreta enquanto sangra por aí. Espero que sejamos melhores amigos.
Não consigo deixar de rir, apesar da dor nas costelas perfuradas.
— Você se saiu muito bem.
— Sim, obrigado — responde Sam, com um sorriso triste.
Fazemos uma curva e um tiro ressoa. Sinto a bala zunir ao lado do meu rosto.
— Cessar fogo! — grita a agente Walker. — Merda, eles são amigos!
Com um fuzil de assalto em riste, a agente Walker está pronta para disparar, o rosto manchado de cinzas, uma queimadura horrível de arma a laser em uma perna.
Na frente dela, um deles ainda mirando com uma pistola em nossa direção, estão os gêmeos, Caleb e Christian. Foi Christian, o inexpressivo, que atirou em nós. Caleb lhe dá um soco no braço para fazê-lo abaixar a arma.
— Desculpe — pede Caleb, apontando com a cabeça para a mão de Sam. — Vimos a arma virando a esquina e...
— Não se preocupe — diz Sam. — Já estou levando tiros há um bom tempo.
— Deus do céu, se você está aqui, como estamos perdendo?
O comentário, dirigido a mim, vem do general Lawson. Ele está entre Walker e os gêmeos, como se eles fossem seus guarda-costas. Toda aquela encenação de avô imperturbável desmoronou. Lawson está horrível. Seu uniforme está rasgado e manchado de sangue, há uma ferida aberta sobre a sobrancelha, e ele parece uns dez anos mais velho.
— Eles me pegaram de jeito — digo, entredentes. — Por ora, estou fora do páreo.
— Eles pegaram todos nós de jeito — corrige Walker, olhando irritada na direção de Lawson. Ela se aproxima de mim e ajuda Sam a apoiar meu peso. — Você... você vai conseguir curar esses ferimentos, não vai?
— A maioria — respondo.
Só agora as perfurações estão começando a se fechar, o resíduo preto oleoso ainda vazando delas.
— Algum lugar está seguro? — pergunta Sam.
— Tentamos romper as fileiras deles na garagem — responde Lawson, sua expressão ficando sombria. — Sofremos grandes perdas e eles continuaram trazendo reforços. Eles têm um teleportador.
— Não mais — diz Sam.
— Você sabia disso? — indaga Lawson, me olhando. — Que eles têm Legados?
— Aquelas coisas não são Legados. São cópias doentias. Acréscimos — explico. — Mas não, é algo novo.
— Foi isso que eles roubaram de vocês — constata Lawson, juntando as peças. — Era disso que estavam falando na reunião do outro dia.
— Não podemos ficar parados — intervém Walker.
Lawson balança a cabeça, ainda olhando para mim.
— Eu não fazia ideia de como estávamos ferrados.
— Estávamos voltando para os elevadores — conta Walker, assumindo. — Esperávamos que houvesse menos resistência.
— Talvez — digo. — Cinco acabou de eliminar um esquadrão que desceu comigo. Não sei bem quantos deles restaram, mas...
Todos nós ouvimos, ao mesmo tempo. Passos pesados seguindo por um corredor. Muito perto.
— Mas tem um deles que é enorme — falo. — Ele está caçando. Está...
— Dilacerando as pessoas — completa Lawson. — Vimos os corpos.
Sam olha para Christian.
— Deve ter ouvido seu tiro.
— Precisamos ir — diz Walker. — Agora.
Prosseguimos, andando depressa por um corredor, depois por outro. Mas o Mog Piken sente nosso cheiro. Eu o ouço atrás de nós, cada vez mais perto, gemendo animado.
Percebo que sou eu quem está nos atrasando. Olho por cima do ombro e vejo a sombra gigantesca do mog se movendo pelo corredor que acabamos de deixar.
— Vão — peço aos outros. — Cheguem ao elevador. Vou atrasá-lo para vocês.
Não faço ideia de como vou fazer isso, mas eles não precisam saber.
— John, não seja estúpido — retruca Sam.
Ele me arrasta, e não consigo detê-lo.
— Você é um garoto corajoso — resmunga Lawson. — Mas é nosso maior trunfo. Se sairmos dessa, vamos precisar de você.
O Mog Piken aparece a cerca de cinquenta metros no corredor. Ele ruge, animado por finalmente nos ver. A coisa, pouco mais que um animal, bate os punhos grossos na pele cheia de cicatrizes do enorme peitoral.
Lawson vira para Caleb e Christian.
— Sua vez.
Os gêmeos assentem ao mesmo tempo. Christian vira e começa a andar na direção do Mog Piken.
— Pare! — grito com ele, depois viro para Lawson. — Está maluco? Não pode mandá-lo para a morte assim!
A princípio, o Mog Piken parece confuso, algum resquício de seu cérebro de mog nascido naturalmente registrando que aquele humano deve ser maluco. Mas então, com um fio de baba pendendo da mandíbula, ele dispara pelo corredor, avançando para cima de Christian.
— Está tudo bem — interrompe Caleb. — Observe.
É claro que eu observo. Eu não desviaria o olhar nem se quisesse, mesmo enquanto recuamos pelo corredor. Christian dispara a arma no Mog Piken, mas as balas ou são absorvidas ou desviadas pela pele grossa.
Lawson faz uma careta.
— Esperava que as balas dessem um jeito.
— Era esse seu plano? — berra Sam, com os olhos arregalados.
O mog do tamanho de um gorila alcança Christian em segundos e agarra a cabeça do garoto. Em seguida, o ergue no ar e bate o corpo dele primeiro na parede, depois contra o chão. Christian não emite nenhum som. E até continua a disparar.
E então, depois de se chocar de forma horrível contra o piso, Christian evapora em uma explosão de energia azul. O Mog Piken parece atordoado.
— Mas o que...?! — exclama Sam.
Ao meu lado, Caleb começa a brilhar. Seu corpo inteiro começa a vibrar, se turvando e se dividindo.
Um segundo depois, há mais dois dele. Duas versões novinhas de Caleb. Eles piscam, orientando-se, e em seguida olham para o original. Caleb indica o Mog Piken com a cabeça, e eles saem em disparada rumo a uma batalha perdida.
Ele nunca teve um irmão gêmeo. É um Legado. Ele pode se duplicar.
— Dois de uma vez — diz Lawson. — Está cada vez melhor, filho.
— Obrigado — responde Caleb enquanto recuamos.
Ele parece um pouco trêmulo. Atrás de nós, ouço o Mog Piken atacando os novos gêmeos. De relance, vejo que estão sendo mais espertos do que Christian, usando a técnica de bater e correr para distrair o monstro. Eles não vão durar muito, mas devem, pelo menos, atrasá-lo.
— Tenho algumas perguntas para você — digo para Caleb.
— Imaginei que teria — afirma ele, sem me olhar nos olhos.
— Todas podem esperar, menos uma — continuo. — Quantas cópias você pode criar?
— Não o suficiente. — responde ele, engolindo em seco. — É difícil. Estou só aprendendo.
— Essa besta está se livrando das balas como se fossem mosquitos — interrompe Sam. — Precisamos despistar a coisa até que um de nós... hã... até que um de nós com todos os Legados possa acabar com ele.
Olho para mim mesmo, estudando minhas feridas. Está mais perto. Sinto meu poder voltando aos poucos. Mas também me sinto zonzo por causa da perda de sangue.
Nosso grupo dobra algumas esquinas fechadas pelos sinuosos corredores subterrâneos. Acho que já demos a volta a esta altura. Passamos por corpos, lugares onde batalhas foram travadas, mas não encontramos ninguém vivo. Há uma grande chance de sermos os únicos sobreviventes.
Em pouco tempo, ouvimos os passos fortes outra vez. Os rosnados, o arrastar do corpo.
— O miserável não desiste — diz Lawson.
Testo acionar meu Lúmen, mas outra vez meu corpo se encolhe em agonia. Cada centímetro de mim precisa se dedicar à cura.
Viramos outra esquina e...
— Merda!
Uma fileira de soldados mogs bloqueia o corredor, com suas armas apontadas para nós. Walker, ainda me dando apoio, me empurra com força para o lado e pega seu fuzil. Enquanto caio, batendo em Sam, a agente pulveriza toda a fileira de mogs. Pedaços deles ricocheteiam pelo corredor.
Os mogs foram transformados em pedra.
— Mas que merda é essa?! — exclama Walker.
— Você salvou nossas vidas — diz Sam.
— Cale a boca, Goode.
Olho em volta.
— Daniela estava aqui, se...
Um rugido atrás de nós. O Mog Piken reaparece no corredor.
— Por aqui! — exclama Caleb, já ajudando Lawson a passar entre dois mogadorianos de pedra. — Pelo menos eles devem atrasá-lo.
Não sei, não. O Mog Piken está vindo a toda, inclinado para a frente. Vai derrubar aqueles mogs de pedra e todos nós. É agora ou nunca. Dane-se a dor. Começo a formar uma bola de fogo com as mãos, mesmo que isso faça meu corpo todo se encolher de agonia.
— Abaixem-se! — grita alguém.
Baixo a cabeça bem quando um raio de energia prateado vem de trás das estátuas mogs e atinge o Mog Piken. A energia se espalha por seu corpo imenso, uma cobertura de pedra envolvendo-o aos poucos. Ele é congelado a cerca de dez metros de nós, os punhos erguidos no ar, a boca aberta em um grito sanguinário.
Depois de usar seu olhar de pedra, Daniela esfrega as têmporas, como se estivesse com muita dor de cabeça. Ao ver a mim e a Sam, ela inclina o quadril e levanta uma das sobrancelhas.
— Essa é minha função oficial? Transformar monstros em pedra e salvar traseiros? Porque... — Daniela para ao ver meu estado. — Deus do céu, cara!
— Sim, obrigado pela ajuda — digo, apertando seu ombro ao passar pela muralha de estátuas.
Daniela parece bem cansada, como todos, mas no geral está ótima. Há mogs de pedra por todo o corredor. Ela andou usando bastante seu Legado.
— Ah, você escapou — comenta Nigel.
Ele e Ran estão juntos entre algumas estátuas mogs, usando-as como esconderijo. O garoto britânico está pálido, as feridas do combate contra Phiri Dun-Ra ainda sangrando muito.
Faço que sim, me sentindo culpado, como se os tivesse decepcionado. Muitas mortes aconteceram ali. Muita destruição.
— Venham — digo. — Vamos dar o fora daqui.
Patience Creek está em silêncio. Sem nada nos perseguindo ou atirando em nós, nosso grupo chega ao elevador sem problemas. A máquina ainda funciona, embora tenhamos que gastar algum tempo tirando corpos dali. Há vários deles. E não muitos sobreviventes.
Primeiro seguimos até o andar mais baixo e encontramos Malcolm, junto com alguns cientistas, o agente Noto e os cinco Chimæra. Todos os animais sobreviveram ao combate sem nenhum dano além de um pouco de pelo queimado e, no caso de Bandit, um rabo lacerado. Todos, humanos e Chimæra, parecem exaustos.
Depois começamos a procurar nos outros andares. Não encontramos nada além de mortos até chegarmos ao nível superior, aquele onde Lawson mantinha seu centro de controle. Somos atraídos pelo som de aparelhos de tevê sintonizados ao que parece ser uma dezena de noticiários mostrando um estado geral de pânico.
Cinco está no escritório de Lawson, de costas para a porta, assistindo às notícias na parede coberta de telas. Ele saca sua lâmina quando nos ouve chegar, mas logo a recolhe quando percebe que não somos mogs.
— Ela escapou — diz Cinco, parecendo frustrado. — Tinham um posto de concentração alguns quilômetros ao sul daqui, na floresta. Foram embora quando perceberam que a maré estava virando. Sei como eles agem. Logo vão voltar com reforços.
Sam e eu entramos na sala com cuidado enquanto Cinco fala, o resto do grupo esperando lá fora. Cinco veste uma farda que encontrou em algum lugar de Patience Creek, ou pegou de algum soldado morto. Acho que a última opção é mais provável, considerando os respingos de sangue na camuflagem.
— Vai tentar me prender de novo? — pergunta Cinco, me olhando por cima do ombro.
— Não — respondo.
— Que bom.
Sam e eu ficamos ao lado de Cinco, nós três olhando os monitores. O bombardeio mogadoriano começou. Estamos vendo filmagens de pelo menos dez cidades diferentes, todas sendo aos poucos destruídas pelas naves de guerra. Meus olhos saltam de catástrofe em catástrofe, parando no Arco do Triunfo, quando a construção se parte ao meio, os dois pilares se chocando um no outro.
— Este planeta está ferrado — comenta Cinco.
Sam o ignora e olha para mim.
— E agora, John?
— Vamos com tudo o que temos para cima deles — digo de pronto, olhando na direção de Cinco. — Tudo. Ou acabamos com esta guerra, ou morremos tentando.

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