29 de novembro de 2016

Capítulo vinte e sete

TENTO NÃO FICAR ENCARANDO O RASTRO DE DESTRUIÇÃO CAUSADO PELA QUEDA da Anubis.
Ainda há muito a ser feito, mas a visão da nave de guerra em pedaços na encosta da montanha me traz uma empolgação inegável.
Ainda invisível, voo sob um dos Skimmers que sobreviveram ao choque titânico das duas naves de guerra. Rapidamente, disparo uma torrente de gelo que congela os motores. A pequena nave cai como uma pedra, bem na direção dos mogs que se reúnem na entrada da base.
Por um instante, o céu está livre. Cuidei de todos os Skimmers que não foram destruídos pela nossa nave.
Noto uma explosão à direita. Os mogs lá embaixo não estão felizes. Alguns atiram a esmo com as armas a laser enquanto outros disparam o que parecem bazucas. Nada penetra os escudos da nossa nave.
Eles não estavam preparados para este tipo de ataque. Por que estariam? O campo de força da base e as armas de energia seriam suficientes para repelir qualquer coisa que os humanos usassem para atingi-los.
O excesso de confiança pode ser letal.
Voo até a segurança do campo de força da nossa nave de guerra e volto a bordo. Os outros me esperam no hangar.
Estou encharcado da chuva e com o pescoço sangrando. Senti os pontos repuxarem enquanto estava lá fora, usando a visão de pedra para derrubar os Skimmers ao mesmo tempo que desviava dos raios de energia da Anubis e era jogado de um lado para outro pelas rajadas de vento de Seis.
Ela parece quase tão mal quanto eu. Seu cabelo está uma bagunça, emaranhado e colocado ao rosto por causa do suor, como se ela também tivesse estado no meio do vendaval.
— Até aqui tudo bem — diz ela.
— A tempestade mais bonita que eu já vi — respondo.
Lexa já está na cabine da nave, junto com Marina. Adam está sentado na área de passageiros, com uma arma mogadoriana no colo. Ele evita fazer contato visual comigo. Noto um movimento em sua camisa e percebo que Dust está com ele, se mantendo na forma de um ratinho até chegar a hora de se juntar à luta. Nove se posiciona do outro lado de Adam, e Bernie Kosar chega pulando atrás dele. Cinco vem depois de Nove, mas para em frente a mim e a Seis, seu único olho se demorando no espetáculo de luzes lá fora.
— Sabem que eles vão nos transformar em pedacinhos assim que sairmos voando daqui, né?
— Não se oferecermos outro alvo — retruco.
Seis e eu conduzimos Cinco para a nave, entramos também e fechamos a porta.
— Estamos prontos? — pergunto a Lexa.
— É só falar — responde ela.
Sam e Rex, encarregados de manobrar a nave de guerra, nos posicionam de modo que as portas do hangar fiquem logo acima da horda de mogs reunidos lá embaixo.
Eles ocupam toda a área diante da entrada da montanha, atirando através do campo de força que nos impede de retribuir os disparos. Ainda não violaram as defesas da nossa nave, mas isso não os impede de tentar. Acho que os deixamos furiosos quando derrubamos sua capitânia.
— Está bem, todos com telecinesia, agarrem esses Skimmers — digo, indicando as dezenas de naves mogs que depenamos antes. — Vamos atirá-los. Lexa...
— Uso as naves como cobertura — conclui ela, completando meu pensamento. — Pode deixar, John. Não vamos levar mais do que dez segundos para descer.
Nove estala os dedos.
— Estamos prontos.
Todos juntos, empregamos a telecinesia para atirar os Skimmers inúteis pelas portas do hangar. Para o mogs lá embaixo, deve parecer que estão sendo bombardeados por dezenas de suas próprias naves. Lexa nos conduz para fora discretamente, em meio às sucatas. Se não fosse noite, se não estivéssemos numa situação tão caótica, talvez os mogs identificassem nossa nave em meio às outras. Como não é possível, eles atiram em tudo; a escuridão ganha vida com os arcos luminosos dos disparos.
A bordo, o ambiente é de um silêncio estranho.
Por um instante, descemos em queda livre. Todos nos agarramos aos encostos dos assentos ou aos equipamentos de segurança. Absorvemos alguns tiros da saraivada, mas nada que nos faça sair de curso ou cause algum dano real.
Os primeiros Skimmers começam a atingir o campo de força da montanha e a explodir acima dos mogs. Nada consegue passar, é claro. Isso não impede que alguns dos mais estúpidos se dispersem ou se abaixem em busca de abrigo. Pequenas bolas de fogo atingem o campo de força, e é através desse calor que passamos.
— Aqui vamos nós — avisa Lexa entre dentes.
No último instante, ela nos tira da queda livre com um floreio, estabiliza a nave e nos leva até o solo. Ela aterrissa bem em cima de algumas dezenas de mogs, esmagando-os. Já que é a única nave que passou pelo campo de força, eles concentram os disparos em nós. Nove abre a rampa de saída com um chute, animado.
— VAMOS LÁ! — berra ele enquanto o assovio dos disparos mogs enche o ar.
Cinco salta em direção a Seis e Adam, seus braços musculosos envolvendo os dois, e sai voando. Eles ficam invisíveis antes mesmo de deixarem os limites da nave.
Cinco sabe voar como ninguém; tenho que confiar que vai levá-los ilesos sobre a multidão de mogs até a entrada.
Restamos eu, Nove, Marina e BK para liderar o ataque.
Nenhum de nós diz nada quando avançamos rumo ao caos, às centenas de mogs prontos para nos matar. Não precisamos discutir estratégias. Já fizemos isso antes.
Assim que deixamos a rampa, Lexa tira a nave de alcance. Mas não sobe em linha reta, a decolagem é feita girando como um saca-rolhas, eliminando a primeira leva de mogadorianos. Sou grato por isso.
Os disparos mogs zunem no ar ao redor. Com a bagunça criada pela partida de Lexa, as explosões no céu e o fato de estarem todos amontoados em frente à entrada da caverna, os mogs têm tanta chance de atingirem uns aos outros quanto de nos acertarem. Mesmo assim, Nove e Marina não perdem tempo e arrancam as armas dos mogs por telecinesia e as lançam de volta na cabeça deles. Parece que está chovendo arma.
Lanço minha visão de pedra, acertando a fileira mais próxima. Assim que faço isso, Marina tritura as estátuas mogadorianas com um bombardeio de sincelos. Os corpos se estilhaçam em pedaços que Nove pega usando telecinesia e faz girar em torno de nós. É como se estivéssemos cercados por uma chuva de meteoros de pedaços de mogadorianos. Os detritos atuam como escudo, desviando a maioria dos tiros.
Há alguns pikens espalhados em meio à multidão. As grandes feras estão agitadas com toda a confusão e acabam atropelando os mogs para nos atacar. São horrendos como sempre, os corpos musculosos que parecem um cruzamento de touro e gorila e que ainda exibem presas, garras e pele cinzenta cheia de espinhos. Eu logo lembro como essas coisas me apavoravam. Ainda em Paradise, bastou um piken enlouquecido na escola para quase matar todo o nosso grupo.
Agora, eu me mantenho firme.
Das palmas das mãos estendidas, solto um jato de fogo que atinge o piken mais próximo, que grita e queima, o corpo volumoso envolto em chamas. Eu o levanto usando telecinesia e o atiro em direção à multidão, na esperança de esmagar alguns mogs antes que a coisa se desintegre.
Bernie Kosar ataca um segundo piken. Meu velho amigo assumiu uma de suas formas preferidas para a batalha: asas poderosas, o corpo de um leão, a cabeça de uma águia – essencialmente, um grifo. Com um bater de asas, ele sobrevoa o piken, então afunda o bico na coluna da fera.
Outro piken avança para Marina. Nove corre para se colocar entre os dois e soca o focinho do bicho. Então, agarra a parte inferior da mandíbula da fera, quebrando seu pescoço e atirando-a de lado. Nove fica com o braço todo cortado por ter acertado a boca do piken, mas Marina o cura na mesma hora.
Eu atiro bolas de fogo nos mogs. Sempre que o ataque inimigo se intensifica, aumento nossa proteção com minha visão de pedra. Continuamos pressionando e ganhando terreno. Os mogs estão começando a recuar para entrada da caverna.
Isso não dura muito tempo. Cinco aparece por trás deles, o corpo todo de aço, segurando uma arma mog em uma das mãos. Brandindo sua lâmina na outra, ele ataca um monte de mogs antes de levantar voo. Com alegria metódica, Cinco se lança várias vezes em direção aos inimigos, esmagando mogs sob sua estrutura pesada de metal, levantando, apunhalando qualquer um ao redor e, em seguida, levantando voo mais uma vez para repetir o processo.
John, uma voz serena na minha mente, um alívio em meio a toda essa loucura em torno de mim. É Ella. Seis avisou que os escudos estão desativados.
Olho em volta. Já reduzimos pela metade o número de mogs ali fora, mas ainda há muita luta pela frente. Percebo queimaduras nos meus braços e peito, que curo depressa. Nove e Marina também precisam se curar entre um ataque e outro. Cinco é o único com cara de quem ficaria feliz em passar o resto da noite eliminando mogs nascidos artificialmente. É hora de acabar com isso.
Marina, falo com ela por telepatia. Crie um iglu.
A reação vem de imediato. Ela cria uma cúpula de gelo sobre si mesma e Nove, espessa e resistente. Assim que termina, acerto a estrutura com a visão de pedra, transformando-a de gelo em granito maciço. Em seguida, corro, me juntando a eles sob o iglu. BK também se une a nós. Cinco vê o que estamos fazendo e resmunga, com deboche. Em vez de mergulhar para dentro conosco, ele voa para longe da batalha.
Mogs correm em nossa direção, mas Marina e eu logo selamos a entrada.
— Curti o bunker — comenta Nove no escuro.
Abrir fogo, digo a Ella.
Nós quatro nos agrupamos sob o iglu de pedra enquanto nossa nave de guerra bombardeia os mogs que nos cercam. O chão treme, e o ar fica tão quente que Marina tem que começar a gerar um campo de ar frio para não fritarmos. Surgem algumas rachaduras na estrutura improvisada e pedaços do iglu caem em nossos cabelos; mas eu logo o selo de novo com a visão de pedra.
A ação dura apenas cerca de trinta segundos.
Quando o tiroteio para, Nove acerta a cobertura de pedra com telecinesia. Lá fora, o chão está todo queimado. Uma poeira espessa paira no ar, e pedaços retorcidos de armas derretidas cobrem o chão.
A entrada da base da montanha está liberada.
Cinco volta para o chão.
— Não havia muitos lá dentro — conta ele, com um sorriso insano. — Entraram em pânico quando vocês derrubaram a Anubis e saíram correndo para honrar seu Adorado Líder.
— Você o viu? — pergunto. — Algum sinal de Setrákus Ra?
Ele balança a cabeça.
— Deve estar se escondendo nos tonéis.
Paramos para recuperar o fôlego, em seguida entramos no complexo cavernoso. O lugar é exatamente como eu lembrava. As paredes são de pedras cinzentas e polidas, marcadas a cada seis metros, mais ou menos, por um condutor de energia ou uma lâmpada de halogênio. O ar é frio, o sistema de ventilação ligado com força total. À esquerda, há uma escadaria esculpida na rocha que leva até onde acreditamos estar as salas de controle. À direita, um túnel desce, chegando mais fundo na montanha, até os tonéis.
Ele está lá à espera. Sei disso.
Alguns mogs nascidos artificialmente saem correndo do túnel. Retardatários que perderam a batalha de verdade. Eu os despacho com uma bola de fogo, nem um pouco preocupado.
Ainda nenhum sinal de Seis e Adam.
— O que estamos esperando? — resmunga Cinco.
Ele e Nove seguem adiante, rumo ao túnel, como se estivessem disputando quem chega lá primeiro. Marina e BK me acompanham, cada um de um lado.
Seis pediu para esperar um minuto, avisa a voz de Ella, entrando na minha mente.
Algum problema?, penso de volta.
Estou prestes a tentar contato telepático com Seis para descobrir o que a está atrasando, quando um grito de dor chama minha atenção mais à frente.
— Foi Nove — diz Marina, alarmada.
Descemos correndo o túnel que se estreita, com BK em nossos calcanhares. Nove e Cinco, ansiosos por mais combates e querendo se mostrar um para o outro, estão muito adiante. Enquanto corremos, o ar fica úmido e sufocante, carregado com um cheiro de carne podre coberta de gasolina.
Após correr pelo caminho estreito, Marina e eu saímos na cavernosa câmara central da base na montanha. Uma saliência rochosa se espirala para baixo ao longo das paredes, passando por dezenas de túneis, entrecortada aqui e ali por pontes de pedra em arco. Duas enormes colunas correm do chão ao teto. Na última vez em que vi este lugar, lembro que fervilhava de mogadorianos, a estrutura lembrando uma colmeia e os mogs, zangões. Agora, o lugar está quase vazio.
A saliência termina cerca de oitocentos metros abaixo em um grande lago daquela gosma preta mogadoriana. Lembro que aquela coisa era verde e fedia a produtos químicos, mas isso foi antes de Setrákus Ra chegar à Terra e colocar suas experiências em prática. Há máquinas ali, projetando-se do lago de gosma como torres de petróleo. Mesmo daquela altura, vejo uma faísca azul de energia lórica borbulhar daquele grude de vez em quando e, com a mesma rapidez, se dissolver.
— Lá! — grita Marina, agarrando meu braço.
Nove está na saliência logo abaixo da nossa, com a mão no rosto. Pego Marina e nos levo voando até ele.
— A coisa surgiu do nada — rosna ele.
A lateral de seu rosto está queimada e rachada, como se tivesse sido salpicada por produtos químicos, e as mechas de cabelo desse lado da cabeça estão brancas.
Depressa, Marina pressiona a mão na bochecha de Nove e começa a curá-lo.
— Onde...?
Não preciso terminar a pergunta. Eu os vejo cruzando o ar abaixo de onde estamos.
Cinco faz loopings, esquivando-se de um mogadoriano nascido naturalmente, sem dúvida com Acréscimos, e que também pode voar. Ele lembra um fantasma, a forma irregular deixando rastros de sombras que saem da parte inferior do corpo.
Salto da saliência em que estamos e saio voando para ajudar Cinco. BK me segue, de volta à forma de grifo. Olho de relance por cima do ombro e vejo Nove, curado, correndo para baixo também, usando o Legado antigravidade para andar pelas paredes com Marina agarrada aos ombros.
Quando me aproximo, vejo melhor esse mog com Acréscimos. Ele não tem a parte inferior do corpo. Da cintura para baixo, é formado apenas por sombras semissólidas. Os membros sombrios ondulam para a frente e para trás como a cauda de um peixe, impulsionando-o pelo ar. Pior ainda, ele não tem mandíbula nem um bom pedaço da parte superior do tórax. Parece que está preso em um grito perpétuo, uma substância verde e ácida espumando da boca. Foi isso que queimou Nove e é o que está atormentando Cinco, o líquido passando até mesmo através da pele revestida de metal.
Essa aberração não me vê chegando. Está prestes a atacar Cinco outra vez quando o acerto entre as escápulas com os pés a toda velocidade. Eu a empurro uns sessenta metros para baixo, esmagando-a na saliência com um som repugnantemente úmido, e ela para de se mover.
Cinco aterrissa ao meu lado e, sem alarde, enfia a lâmina na parte de trás da cabeça do mog com Acréscimo já morto. Só para garantir, eu acho. Ele me olha e, pela primeira vez, vejo algo parecido com horror em seu olhar.
— Viu aquilo? — pergunta ele.
— Vi.
— Por quê...? — Cinco balança a cabeça. — Ele prometeu aos mogs, ele me prometeu, novos Legados. Quem iria querer ficar assim?
Balanço a cabeça e me aproximo de Cinco, tocando as partes corroídas dos seus braços e ombros para curá-las. Ele se encolhe por um instante, depois se acalma e me deixa terminar.
— Ele é louco, Cinco — declaro. — Você foi enganado por um louco.
— Ele tem que morrer.
— Enfim concordamos em alguma coisa — diz Nove, saltando da saliência acima da nossa.
Marina desce de suas costas e observa o mog morto.
— Isso é uma abominação — diz ela. — Ele distorceu o trabalho de Lorien para fazer algo... algo...
Perplexa, Marina leva uma das mãos à boca e se afasta. Ela entra no túnel mais próximo, onde imediatamente para.
— Ah... meu Deus.
Todos corremos até ela.
É o cheiro que me atinge primeiro. O odor podre, o cheiro de putrefação, ainda pior por causa do calor opressivo ali embaixo, já que estamos mais perto do tonel de gosma negra.
Vários corpos estão empilhados ali. Alguns têm o cabelo escuro e a pele pálida dos mogadorianos. Estão parcialmente desintegrados, deformados, os membros transformados em frágeis cascas empoeiradas. Outros com certeza são humanos. Parece que foram drenados, os corpos pálidos e enrugados, veias negras secas visíveis por baixo da pele. Parece que Setrákus Ra sugou a vitalidade deles. Um olhar mais atento revela que, apesar da aparência enrugada, os cadáveres humanos são todos de adolescentes.
Lembro-me de Lawson falando que os russos estavam entregando jovens suspeitos de serem Gardes aos mogadorianos, então me dou conta. São dos nossos. Os Gardes humanos dos países que se renderam e os que o pessoal de Setrákus rastreou. Ele extraiu a centelha lórica desses adolescentes.
Diante dessa visão, sem perceber, saco meu punhal Voron. Ele brilha com uma fraca energia vermelha. Ao vê-lo na minha mão, Nove dá um passo para trás.
— Cuidado com essa coisa, Johnny — diz ele em voz baixa.
A pilha de corpos deixou seus olhos cheios de lágrimas. Marina cobre o rosto. Cinco só encara.
Carreguei o punhal com Dreynen, sem nem mesmo perceber. Quando conversei com Ella, tinha medo de não conseguir usar meu Ximic para copiar esse poder, já que o acho tão abominável. Mas eu nunca quis tanto separar alguém de Lorien como quero separar Setrákus Ra.
Viro de costas para essa última atrocidade, e grito da beirada da saliência:
— SETRÁKUS RA!
Há um estrondo no alto. Pó de rochas cai do teto. Parece que a própria terra se moveu. Não sei se foi por causa do meu grito ou de outra coisa.
E não me importo. Porque vejo movimento lá embaixo. No meio do lago de gosma mogadoriana.
Setrákus Ra emerge da lama oleosa, erguendo-se das profundezas. Os vermes de lodo não escorrem dele, mas deslizam para baixo da pele como se estivessem procurando abrigo. Ele veste a armadura mogadoriana vermelha e preta que já vi antes, ornamentada e vistosa, com uma capa preta ondulante presa aos ombros. Sua cabeça pálida e bulbosa está coberta por fios grossos de cabelo escuro. Isso é novo. Da mesma forma, suas feições não estão mais tão encovadas nem tão envelhecidas.
Mesmo a cicatriz roxa em torno do pescoço começou a desvanecer. Ele está mais jovem, mais saudável do que jamais o vi. E flutua com as mãos estendidas para o lado como um santo deturpado.
Ele estica o pescoço para nos olhar e sorri.
— Sejam bem-vindos — diz. Percebendo em qual túnel estamos, baixa os olhos e franze a testa, com um ar ironicamente grave. — Por favor, não se ofendam com a visão de meus experimentos fracassados. Eles não estavam preparados para meus presentes. Como todos vocês, não estavam prontos para o pro...
Chega desses malditos discursos.
Lanço uma bola de fogo nele. Não espero que o acerte; é mais para encobrir minha abordagem. Voo para a frente em um impulso, o mais rápido que posso. Atrás de mim, sinto os outros se lançando também. É isso.
Matar ou morrer.
Setrákus Ra levanta a mão e uma nuvem de lodo em forma de escudo se estende. Minha bola de fogo é absorvida. Não importa.
Aproveito que ele está distraído e arremesso meu punhal. Uso a telecinesia para aumentar a velocidade.
A lâmina se enterra no ombro dele, perfurando a armadura. Uma ferida que ele não será capaz de curar, graças ao Voron, e que o deixará sem Legados, graças ao meu Dreynen.
Só que parece fácil demais. Quase como se ele quisesse que eu o acertasse.
— Muito bom, John — elogia Setrákus Ra em tom presunçoso. — Você dominou o Dreynen. — Nada acontece. Ele ainda flutua. Ainda sorri. — Você me separou do pedaço de Lorien que ainda vivia em mim. Eu não serei capaz de tirar seus Legados — continua, em tom de conversa. — Não importa.
Setrákus Ra puxa a adaga do ombro e a atira de volta para mim. Voo para o lado e, atrás de mim, Nove pega a arma usando telecinesia.
— Já superei isso. Deixei os Legados para trás. Seus poderes derivam de um ser primitivo aleatório. Meus Acréscimos são escolha minha, não foram limitados por uma Entidade externa, apenas pela minha própria capacidade intelectual. Que, devo ressaltar, é impressionante.
A ferida em seu ombro não cicatriza, mas é preenchida pela gosma preta.
Mal tenho tempo para processar essa informação enquanto me lanço à frente, enfurecido. Se o Dreynen não vai funcionar, existe outro método.
Força bruta.
Atinjo Setrákus Ra com o ombro. Ele mal se move. Depressa, acendo meu Lúmen, os punhos jorrando chamas flamejantes, e tento acertá-lo uma, duas, três vezes. Ele desvia a cabeça para o lado em todas elas, numa velocidade impossível.
Setrákus segura o golpe quando tento dar o próximo soco. Sinto cheiro de carne queimada quando a mão dele cobre a minha. Ele não parece notar.
— Depois de todos esses anos, você ainda não entendeu? — indaga Setrákus Ra, nós dois cara a cara.
Cinco se lança às costas de Setrákus e começa a apunhalá-lo. Enfia a lâmina na garganta dele, nas costas, no rosto.
Cada ferida logo é selada pela gosma negra.
O braço livre de Setrákus Ra gira cento e oitenta graus. Sua mão vira ao contrário como se as juntas fossem flexíveis e, sem se afastar de mim, agarra Cinco pelo pescoço. Ele segura nós dois.
— Vocês nunca conseguiriam ganhar — declara Setrákus Ra, concluindo seu pensamento. — Os Anciões enviaram todos para cá para morrer.
Então, ele esmaga minha mão. Sinto cada dedo quebrar, cada junta ser compactada. A dor é insuportável. Setrákus Ra me atira para longe com tanta força que perco o controle do voo. Por sorte, Nove salta no ar e me pega pela cintura. Da saliência, Marina cria uma banquisa sobre o lago de lodo, onde nós pousamos em segurança.
Nove olha para mim, os olhos arregalados.
— John... que poderes são aqueles?
Engulo em seco, tentando curar minha mão depressa, fazendo uma careta quando os ossos compactados voltam ao lugar.
— Não sei.
Enquanto isso, Setrákus Ra traz o braço de volta para a posição normal, ainda segurando Cinco pelo pescoço. Cinco desistiu de apunhalar o mogadoriano e está tentando desesperadamente soltar os dedos que o prendem.
— Você — diz Setrákus Ra. — Uma das minhas maiores decepções. O poder que eu teria lhe dado, rapaz...
Setrákus ergue a mão. A ponta dos dedos brilha, cada uma com uma garra afiada. Ele quer que a gente veja isso. Está brincando conosco.
Puxo Cinco com telecinesia. Sinto que Nove e Marina fazem o mesmo. Mas não somos fortes o suficiente para tirá-lo da mão de Setrákus Ra.
Ouvimos um ruído estridente emitido pelo metal, e Cinco começa a gritar.
Setrákus Ra arrasta as garras pelo rosto dele, cortando a pele de aço como se fosse manteiga. Então a remove, como uma máscara, e joga o rosto de metal de lado.
Cinco não está mais gritando. Não sei se está consciente, ou mesmo vivo.
— Deixe-me mostrar o que você perdeu, traidor — diz Setrákus Ra.
Então seu braço se estica como se fosse de borracha, e ele mergulha o garoto no lodo mogadoriano. Cinco se debate, sua pele muda de consistência por um breve momento, assumindo a oleosidade do lodo. Enquanto observo, vejo parte da energia azul-clara ser sugada para fora de Cinco em direção à gosma.
Em alguns segundos, ele para de se mexer. Setrákus Ra deixa seu corpo afundar no lodo. Agarro meu tornozelo, mas não há uma nova cicatriz. Ou Cinco ainda está vivo, ou Setrákus Ra e o lodo retiraram toda a energia que lhe conferia seus Legados e o encantamento não o reconhece mais.
Uma única bolha chega à superfície do lodo, estoura, e em seguida o lago escuro volta a ficar parado. Ninguém conseguiria sobreviver a isso.
Setrákus Ra vira para nós. Sorri.
— Não era para vocês, crianças, viverem por tanto tempo. Uma discrepância que remediarei em breve.

Um comentário:

  1. Apesar do que fez com meu amorzinho Oito, tinha certo carisma pelo Cinco :(

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