29 de novembro de 2016

Capítulo vinte e seis

— SUBA UM POUCO, REX — DIZ ADAM. — QUERO ATACAR POR CIMA. TUDO BEM por você, Seis?
— Sim — respondo, distraída. — Eu cuido disso.
Estou bem em frente às janelas enormes da ponte da nossa nave de guerra, as mãos erguidas, girando os dedos. Vejo os reflexos dos outros no vidro, mas estou mais focada no que está lá fora. Puxo os fios indeléveis de atmosfera que só eu sinto e faço o vento me obedecer. Se não fosse pela grossa camada de vidro à frente, eu poderia estender as mãos e tocar as nuvens turbulentas que criei.
Uma tempestade. Maior do que todas as que já fiz. Ao longo dos anos, basicamente trabalhei com raios, ventos fortes, cobertura repentina de nuvens... efeitos rápidos. Não se pode lutar contra a Mãe Natureza por muito tempo. Nunca precisei criar e manter uma enorme tempestade antes.
Bem, como Katarina dizia, as descobertas nascem do desespero.
— A visibilidade está péssima — diz Rex a Adam.
— Está tudo bem — responde Adam. Ella está ao lado dele, os olhos revirados, vendo tudo o que John vê. — Sabemos para onde estamos indo, e não há como perdermos o alvo. Continue subindo.
Envolvi nossa nave com nuvens de tempestade e nevoeiro. Raios cruzam o ar à frente, e o clarão faz meus olhos arderem. A nave é grande, mas minha tempestade é ainda maior. Estende-se por cerca de um quilômetro e meio e vai subindo como uma onda que avança pelo céu. Adam acionou um dispositivo para embaralhar as frequências e confundir o radar, o que, somado à estática dos relâmpagos, deve estar enlouquecendo os sensores da Anubis. Eles com certeza vão saber que estamos chegando, mas não saberão exatamente onde na tempestade estamos nos escondendo. Pelo menos não até que seja tarde demais.
Marina está ao meu lado, pronta para aumentar a força da tempestade com pedaços de gelo quando for necessário. Por enquanto, ela enxuga o suor da minha testa.
— Você está indo muito bem, Seis.
Só quando tento sorrir para ela e ouço meus dentes baterem é que percebo que estou tremendo.
Sigo em frente. Aumento a tempestade. Cada vez mais.
Os ventos uivam lá fora, audíveis mesmo dali. Os trovões estrondam.
— Imaginem as caras deles — comenta Cinco de um dos painéis de armas. — Devem estar se borrando.
— Cala a boca — responde Nove, de maneira automática.
A borda da tempestade alcança a Anubis. As nuvens se dissipam no campo de força, mantendo o ar livre nos cem metros ao redor da nave.
— Sabemos se fenômenos climáticos passam pelos escudos? — pergunta Sam.
— Vamos descobrir — diz Adam. — Manda ver, Seis.
Na mente, pego um relâmpago. Só um pequeno, de teste, e o atiro no campo de força da Anubis. A descarga elétrica se curva, detida pela tecnologia mogadoriana.
— Acho que não atravessou — relata Rex, parecendo ansioso.
— Pois é, mas não importa — respondo com os dentes cerrados. — Estamos bastante perto agora. Não preciso romper o campo de força. Posso ficar em volta.
Faço as nuvens escuras e a névoa se reunirem em torno da Anubis, escondendo-nos, cegando-os além do alcance do campo de força. Então, mantendo essa estrutura, eu recomeço. Minha mão esquerda gira acima de mim, fiando o vento, aumentando sua força, criando pressão. Desta vez, a tempestade se forma por dentro do escudo da nave.
— O ar... — digo. — O ar pertence a mim.
O vento fora da Anubis uiva, a pressão cai. O vento rodopia em um vórtice, o mais rápido que posso, rápido o bastante para arrancar árvores e armas, tão rápido que começo a ficar um pouco zonza. O vórtice se divide, e em seguida se divide novamente. Três pequenos funis sobre o casco de metal escuro da nave de guerra, destruindo sua blindagem, impedindo-a de pairar no céu. Três tornados para derrubar a maldita nave.
Também mando um pouco de chuva, e, ao meu lado, Marina pressiona as mãos no vidro, congelando a água que cai na Anubis, acrescentando peso e, com sorte, danificando algum equipamento importante.
— Está recuando! — grita Rex. — A Anubis está recuando!
— Isso não é bom — responde Adam. — Seis precisa criar um clima dentro do campo de força deles para derrubar os sistemas.
— Me mantenha... hã... Me mantenha perto — resmungo.
Quanto mais a Anubis se afasta do nosso esconderijo nas nuvens, mais difícil fica manter o controle sobre o clima em volta da nave. A tensão é imensa, cada padrão meteorológico exigindo minha atenção. Para manter a camuflagem enquanto atacamos a Anubis, preciso que estejamos a poucas centenas de metros.
Pelo canto do olho, vejo uma explosão vermelha no ar, perto da nossa nave. Um segundo depois, acontece de novo. Como fogos de artifício.
— Estão atirando em nós! — grita Sam.
— Estão atirando às cegas — responde Adam, em tom calmo. — Relaxa, eles não podem ver...
Explosão. O andar inteiro balança, nossa nave vibra. Fomos atingidos. Por um instante, o mundo inteiro parece vermelho. É o escudo da nossa nave se ativando após o ataque da Anubis, o impacto iluminando o campo de força. E isso revela nossa localização para os mogadorianos.
— Eles podem nos ver! — grita Rex. — Fomos localizados...
— Preparem-se! — berra Adam.
O impacto seguinte é pior. É uma torrente contínua de energia que balança nossa nave. Eu me choco em Marina, e nós duas caímos no chão. Todos os outros se agarram às suas estações. Uma sirene estridente dispara, a mesma que soou antes, quando éramos nós atacando.
— Os escudos caíram para quarenta e oito por cento! — anuncia Rex.
— Quarenta e o quê?! — exclama Sam. — Pensei que esses campos de força fossem impenetráveis!
— Impenetráveis para suas armas — retruca Adam enquanto começa a apertar freneticamente os botões no console de comando. — Eles estão recarregando o canhão principal. Não sei se sobreviveremos a outro disparo.
Nove cambaleia até onde estamos e ajuda a mim e a Marina a nos levantarmos. Minha cabeça dói, e percebo que tenho um pequeno corte na testa. Por um instante, perdi a concentração, e foi o suficiente. Minha tempestade começou a se dissipar. Pior ainda, abaixo de nós, a Anubis está fugindo do alcance dos meus Legados.
— É melhor você lançar logo uma tempestade de granizo nesses cretinos! — grita Nove comigo.
Pressiono as mãos no vidro.
— Me levem mais perto!
— Me ajude, Rex — diz Adam. — Desvie todos os sistemas desnecessários para alimentar os escudos. Leve a gente até onde nosso canhão puder acertá-los.
Rex salta do console de navegação, e Lexa se senta em seu lugar. Ela controla as alavancas, mantendo-nos flutuando acima da Anubis, e nos leva cada vez mais perto.
— Aí vêm eles — rosna Cinco.
Da minha posição privilegiada, vejo a Anubis se abrir, e um enxame sai de repente da lateral. Skimmers. As pequenas naves saem deslizando da Anubis e riscam o céu noturno em nossa direção. Com seus dispositivos de camuflagem ainda operantes, essa armada vai passar direto pelo nosso campo de força e acertar de perto nossa nave de guerra.
— Preparar armas! — grita Adam para Malcolm e Cinco, que logo se posicionam. — Não atirem até que eles saiam do raio do escudo da Anubis.
— Como vamos saber...? — começa a perguntar Malcolm, um anel de suor visível em volta de seu pescoço.
— Agora! — berra Adam.
A nave de guerra trepida quando Malcolm e Cinco começam a disparar as armas auxiliares. O efeito é parecido com cinquenta armas mogs sendo acionadas ao mesmo tempo. Cinco atira sem controle, a respiração ofegante e empolgada, enquanto Malcolm rastreia os alvos com mais calma, de forma metódica. Basta um tiro para derrubar um Skimmer, mas há uma quantidade absurda deles no ar.
Percebo que alguns dos Skimmers vindo em nossa direção caem sem nem sequer serem atingidos. Um brilho prateado ilumina o Skimmer, que, em seguida, cai como uma pedra... porque é uma pedra mesmo. John está lá fora, invisível, voando e usando sua visão de pedra como estratégia de defesa.
— Mais perto! — grito por cima do ombro, reunindo os ventos mais uma vez.
— Estamos cuidando disso — responde Adam. — Rex, como estão os escudos?
Rex digita em desespero. Quando responde, parece apavorado.
— Eu... eu sinto muito. Não consigo redirecionar a energia. Sou um navegador; energia não é minha área.
— Está sabotando a gente, seu idiota? — rosna Nove.
— Não! — responde Rex. — Juro, eu preciso de mais um minuto ou dois...
— Deixe-me tentar! — diz Sam, enxugando o suor da testa. — Toda a energia para os escudos!
A sirene da nave para de soar.
As armas deixam de disparar.
E começamos a cair.
— Me diz que você não desligou outra nave! — grita Lexa.
— Hã, eu... — começa a responder Sam.
— Toda a energia para os escudos — repete Rex, depois outra vez, mais alto, como se estivéssemos condenados. — Toda a energia para os escudos significa que não podemos voar!
— Eu posso consertar — afirma Sam.
Ele olha para Adam.
— Restaurar a energia dos motores — diz Adam, com uma calma forçada. — Comece por aí, Sam.
— Energia para os motores! — grita Sam.
Nada muda. Sam repete, mas ou a nave não está obedecendo ou o Legado de Sam não está funcionando. Atrás de mim, ouço Rex batendo furiosamente no console.
Estamos caindo.
Meus pés chegam a sair do chão da ponte. Marina se agarra a mim, e Nove se agarra a ela. Graças a seu Legado antigravidade, os pés dele nunca saem do chão. Continuo controlando a tempestade, mesmo enquanto mergulhamos em direção à Anubis.
— Vamos lá, sua lata-velha mogadoriana! — grita Sam. — Motores ligados! Faz alguma coisa!
— Espera — diz Adam, olhando pela janela e vendo o mesmo que eu. — Está tudo bem. Estamos bem.
Um raio vermelho de energia é disparado do canhão principal da Anubis na nossa direção. Os escudos voltam a funcionar, e desta vez sinto um pouco do calor chegar até nós. A janela diante de mim, grossa como uma parede de tijolos, começa a rachar.
— Os escudos suportaram o impacto! — relata Rex. — Por pouco.
— Acho que você salvou nossos traseiros, Sammy — diz Nove. — Por alguns minutos, pelo menos.
— Ainda estamos caindo, seus imbecis — acrescenta Cinco.
— Ótimo — retruca Adam. — Vamos esmagá-los. Seis?
— Sim?
— Preciso que você ataque com força total. Derrube esses caras.
Estamos despencando em direção à Anubis. Eu me concentro. Um Skimmer colide com nosso casco, explode, e sinto o cheiro de um pequeno incêndio em algum canto da ponte. Chego a ouvir o vento assoviando através das rachaduras à minha frente conforme ganhamos velocidade.
É meu vento lá fora.
Chegamos cada vez mais perto. Caindo.
Levanto as mãos de novo, agitando-as no ar vazio. Um tornado, outro. Uma chuva congelante que Marina reforça com pedaços gigantes de gelo. Atiro tudo isso em direção à Anubis, todo o peso do céu, arrancando painéis de metal e despedaçando as armas da nave.
Vejo a energia se acumulando no canhão principal. O brilho vermelho é como o centro de um alvo. É como enfiar a linha em uma agulha, mas lanço um relâmpago bem no centro. Vemos um clarão, ouvimos um ruído elétrico, e o canhão explode em um halo de fogo. Um pedaço enorme da nave vai junto. Pequenas explosões vão se espalhando por toda a nave.
A Anubis oscila.
— Continue! — grita Rex. — Você pode derrubar os sistemas deles!
Lanço raios na cabine do piloto, bem no lugar que espelha minha posição, se estivesse naquele deque, em vez de neste. Forço o vento a ir até lá, rasgando tudo, virando a cabine do avesso. Vejo corpos de mogs serem sugados para o céu noturno, engolidos pelo tornado.
Vamos bater. Campo de força com campo de força. E não faço ideia do que vai acontecer.
Nove passou uma das mãos em volta da minha cintura e a outra em torno da cintura de Marina. Ele nos mantém firmes, os pés bem presos ao chão.
— Sabe, para quem vai morrer, poderia haver situações piores...
Eu queria ter energia para dar um tapa na cara dele. Toda a minha raiva, todos os anos e anos de sofrimento e medo, estão concentrados nesta tempestade. O vórtice é tão forte que algumas árvores da montanha são arrancadas e pegam fogo ao encostar no campo de força da Anubis.
Até que uma delas não se incendeia.
— Os escudos deles foram desativados! — anuncia Rex aos berros.
— Você deve tê-los explodido — grita Adam para mim. — Continue! Segurem-se!
Nós nos chocamos contra a Anubis. Nosso campo de força destrói parte do casco deles com um chiado elétrico e um barulho estridente de metais sendo triturados que me dá nervoso. Vejo mais focos de incêndio surgirem na ponte, consoles faiscando e explodindo por causa do impacto, e Marina se solta de Nove para apagá-los salpicando gelo.
A Anubis começa a rodopiar.
Está caindo.
Uma torre de fogo laranja explode no ar quando a Anubis atinge o campo de força que protege a base na montanha, depois ricocheteia e desaba no chão. A imensa nave ainda sai capotando por entre as árvores, derrubando tudo, despedaçando-se e abrindo uma enorme vala na terra.
— Propulsores! — grita Adam. — Sam, me devolva os propulsores.
— Nave! Ligar propulsores!
Nada acontece.
— Droga! — exclama Sam.
— Ella, estou tentando imaginar como eles são...
É isso. O mesmo truque que usamos nas Cataratas do Niágara.
— Feito — diz Ella na mesma hora. — É com você, Sam.
— Ah... propulsores! Nave, me devolva os propulsores!
Funciona. A nave obedece.
Estabilizamos. Não batemos. Meu estômago se acalma.
E a tempestade lá fora se dissipa, revelando apenas destroços flamejantes lá embaixo.
Todos na ponte comemoram. Marina me abraça. Nove também. Dou uma cotovelada no estômago dele.
Ainda não acabou.
Eu me viro para olhar pela janela quebrada. Estamos sobrevoando a montanha, a poucas centenas de metros do campo de força. Toda a área está iluminada pelo rastro de fogo deixado pela Anubis. Eu os vejo lá embaixo, agrupando-se em frente à entrada cavernosa da base. Uma horda de mogadorianos, as armas apontadas para nossa nave.
Talvez seja só impressão minha, mas acho que aqueles cretinos estão apavorados.

2 comentários:

  1. Se uma meia dúzia de lorienos fez este estrago em uma nave mãe como os mogadorianos exterminaram lorien tão facilmente sendo q existiam em Lorien diversos guerreiros mais poderosos q os q derrubaram a Anúbis?

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