29 de novembro de 2016

Capítulo vinte e quatro

NÃO TEMOS TEMPO PARA PRANTEAR OS MORTOS. NOSSOS AMIGOS E AQUELES que mal tivemos a chance de conhecer. Não temos tempo de pensar no número de vidas perdidas e na nossa responsabilidade por elas.
Talvez seja melhor assim.
Quando aterrissamos a nave de Lexa em frente a Patience Creek, o massacre já terminou. Só chegamos a tempo de ajudar os sobreviventes a escapar. Não queremos estar ali quando os mogs enviarem reforços. Há outros campos de batalha que precisam de atenção.
Levantamos voo no céu noturno, deixando a cabana estranha e seus túneis secretos para trás.
Continuamos a receber notícias de todo o mundo. Algumas cidades já foram destruídas após o início do ataque das naves de guerra. Outras estão aguentando firme, em um longo jogo de gato e rato contra as tropas mogs terrestres, mantendo-se um passo à frente dos bombardeios. Alguns exércitos recuaram, esperando para contra-atacar.
Esperando a nossa ajuda.
— Um ataque coordenado usando a tecnologia de camuflagem que vocês forneceram — diz Lawson, repassando os detalhes mais uma vez.
Seu telefone via satélite não para de fazer barulho desde que o resgatamos junto com os outros. Ele continua:
— Todos os nossos aliados... Inglaterra, China, Alemanha, Índia, enfim, todos os países que ainda dispõem de poderio militar... nós atacaremos ao mesmo tempo, antes que os inimigos percebam que descobrimos como passar pelos escudos. Vamos com tudo para cima deles enquanto ainda podemos contar com o elemento surpresa.
— E, enquanto isso, atacamos a base de West Virginia — diz John. — Matamos Setrákus Ra e destruímos o que ele construiu por lá.
John está péssimo. As feridas causadas por Phiri Dun-Ra cicatrizaram, com exceção dos cortes em volta do pescoço, mas sua palidez ainda é preocupante, as olheiras em um tom escuro de roxo. Estamos todos amontoados na pequena nave, mas John é um dos poucos que estão sentados. Ele bem que precisa. Enquanto repassa o plano com Lawson, Marina dá pontos nos cortes mais profundos em seu pescoço. Ele se encolhe algumas vezes. Nem pensamos em trazer conosco algum dos médicos militares que sobreviveram. Já fazia algum tempo que não precisávamos de ajuda para curar uma ferida.
— Sabe... — fala Lawson, pensativo, olhando para Sam. — Se esse jovem pode falar com as máquinas, ele deve ser capaz de se comunicar com as naves de guerra inimigas. Poderíamos usá-lo para desativar os escudos delas.
Sam arregala os olhos.
— Eu... teria que estar muito perto — explica ele, tentando ser útil. — E não sei muito bem por quanto tempo duraria...
— Nem pense em usar o Sam — interrompo. — Ele é o único capaz de copiar o sinal, e você ainda quer enviá-lo a vinte zonas de guerra para gritar com as naves inimigas? Ele já não fez o bastante?
Lawson olha para mim com uma sobrancelha levantada.
— Foi só uma ideia. É verdade que o risco pode ser maior do que a recompensa.
— Vamos seguir o plano — diz John.
Sam me lança um olhar aliviado. Continuo encarando Lawson.
— Se isso falhar... — começa Lawson.
— Não vai — insiste John.
— Se falhar, não posso me pronunciar em nome de todos os países do mundo, mas se o inimigo for imbatível, o posicionamento dos Estados Unidos é de se concentrar em salvar vidas.
— Você está falando de rendição — constato.
Lawson contrai os lábios.
— Diminuir as perdas — responde ele. — Viver para lutar mais um dia. Preservar o maior número de vidas possível.
John e eu nos entreolhamos. Se o contra-ataque falhar, dificilmente estaremos vivos para ver o que vai acontecer. O que Lawson fará nesse futuro sombrio não importa.
— Faça o que tiver que fazer — diz John.
Deixamos Lawson em um campo aberto perto de Pittsburgh. Há um comboio militar à espera dele, uma reposição para os esquadrões que morreram em Patience Creek. Os faróis dos Humvees são a única iluminação ali. Uma brisa fria sopra pelo campo, fazendo a grama alta balançar. Nosso grupo – lorienos, Gardes humanos, amigos, sobreviventes – está do lado de fora da nave de Lexa. Pouco a pouco, os humanos começam a seguir em direção ao comboio, os cientistas e os poucos soldados sobreviventes mancando.
Aonde quer que estejam indo, com certeza será muito mais seguro do que ficar com a gente.
— Tenho equipes a postos nas coordenadas que você me deu, protegendo as rochas alienígenas — conta Lawson. — Estão à sua espera. Assim que receberem os dispositivos, vamos dar início ao ataque.
— Pode deixar com a gente — responde John.
— Como exatamente os exércitos da Terra planejam derrubar as naves de guerra? — pergunto, sendo vencida pela curiosidade.
— Cada país tem um plano diferente — responde Lawson com ar severo. — Pelo que ouvi falar, a China e alguns outros devem fazer um ataque nuclear. A maior parte da União Europeia não quer correr esse risco, então deve optar pelo bombardeio de mísseis. A esperança é que os cascos gigantescos das naves não consigam absorver muito impacto sem o campo de força.
— E os Estados Unidos? — indaga John.
Lawson sorri.
— Por sugestão minha, vamos seguir seu exemplo, John. Voar até lá com o maior número possível de pessoas, invadir as naves e liquidar cada maldito alienígena que virmos.
— Gostei — digo.
Lawson concorda, enfiando os polegares nos passadores do cinto e olhando para nós. Então assente para si mesmo, como se estivesse satisfeito por sermos sua maior chance.
Ou conformado. É difícil dizer.
— Acho que é isso — conclui o general. — Vejo vocês do outro lado.
Ele atravessa o campo em direção ao comboio. Caleb, cujo irmão gêmeo pelo visto nunca existiu, vai atrás dele.
— Caleb, espera — diz John.
Com um olhar nervoso para Lawson, Caleb para e se vira para encarar o restante de nós. Ele está ao lado de Nigel e Ran. A japonesa me parece indecifrável, como sempre. Nigel, por outro lado, está abalado. Toda a petulância de antes desapareceu. A camiseta surrada do Misfits ainda está manchada de sangue. Embora Marina tenha curado suas feridas, o último combate deixou mais do que marcas físicas no britânico. Daniela está com os dois, tomando conta deles. Não sei muito bem o que aconteceu em Patience Creek, mas parece que a garota durona da cidade desenvolveu um senso de proteção com relação aos outros Gardes humanos.
— Os Anciões de nosso planeta nos enviaram à Terra para nos manter seguros, para que, um dia, estivéssemos prontos para lutar e vingar nossa destruição — conta John aos humanos. — Este dia chegou. Vocês não estão prontos para a batalha que enfrentaremos. Nós treinamos a vida inteira para isso. O treinamento de vocês está apenas começando. Seu dia vai chegar.
Daniela abre a boca para protestar. Olho em seus olhos e balanço a cabeça com sutileza, relanceando em direção a Nigel e Ran. Ela capta a mensagem e fica quieta.
— Ganhando ou perdendo, amanhã seu mundo será um lugar diferente. E vai precisar de protetores. Uma hora, vocês vão ter que entrar em ação.
John olha para Sam, que está por perto, e esboça um sorriso. Então, continua:
— Mas, por enquanto, acho que os futuros protetores precisam de proteção. Todos nós, pelo menos por um tempo, fomos protegidos pelos encantamentos que foram queimados em nossos tornozelos. Não podemos fazer isso por vocês, mas podemos lhes dar outra coisa...
Não sei bem do que John está falando até Regal, nosso Chimæra em forma de gavião, pousar no ombro de Caleb. O rapaz dá um pulo, acalmando-se apenas quando percebe que as garras da ave não vão machucá-lo. Regal abre as asas e bagunça o cabelo dele.
Bandit, o guaxinim, arranha a perna de Nigel com as patas pretas até o britânico se sentir obrigado a pegá-lo. Gamera, arrastando-se pela grama na forma de uma tartaruga, para perto de Ran. Ela se abaixa e passa o dedo na testa escamosa dele, e, pela primeira vez, eu a vejo abrir um sorriso.
— Ele se chama Gamera — diz Malcolm a Ran. — Dei esse nome em homenagem a um dos meus monstros antigos preferidos.
Ran olha inexpressiva para Malcolm.
— Lutou contra o Godzilla — explica.
Ran deve ter entendido a palavra “Godzilla”, já que revira os olhos e volta a acariciar a tartaruga.
A golden retriever Chimæra, Biscuit, pela qual Sarah tinha tanto carinho, caminha devagar até Daniela e abana o rabo com alegria quando a nova dona começa a coçar atrás de suas orelhas. Percebo alguma coisa diferente no rosto de John; é difícil dizer exatamente o que é, pois já está quase escuro, mas ele parece satisfeito.
E, por fim, com uma agilidade impossível para um felino com seu peso, Stanley pula nos braços de Sam, que ri, e o som me faz sentir um alívio no peito. Eu estava com tanto medo de algo horrível ter acontecido com ele em Patience Creek enquanto estávamos distantes... assim como John e Sarah. Só agora estou relaxando um pouco.
— Pronto, Stanley, pronto — diz Sam, segurando o pesado gato, que ronrona em seus braços. — Nossa relação é oficial.
Nove fecha a cara.
— Você tem que mudar o nome desse gato idiota.
— Estes Chimæra serão seus protetores até vocês dominarem bem o funcionamento dos Legados — continua John, olhando para Bernie Kosar, sentado tranquilamente aos seus pés na forma de um beagle. — E então eles serão seus mais valiosos aliados. Um dia, se tudo der certo, poderemos ajudá-los mais, treiná-los como nossos Cêpans fizeram conosco...
Cinco, um pouco mais afastado, solta uma risada sombria. Todos viram na direção dele, o olhar de Marina particularmente frio, e ele se afasta um pouco mais.
— Mas até esse dia chegar... — continua John, depois para.
Ele não sabe mais o que dizer. Ou talvez não acredite que esse dia vai chegar.
— Metam o pau e deixem a Terra orgulhosa — conclui Nove por ele.
Caleb, Nigel e Ran se despedem e se juntam ao grupo de Lawson. Daniela fica um pouco mais. Ela me dá um abraço forte, em seguida vira para John e Sam.
— Vocês sabem que sou bastante durona e posso ajudar — diz, então aponta para os outros humanos por cima do ombro. — Mas alguém precisa tomar conta deles.
John concorda com a cabeça, sorrindo, cansado.
— Cuide-se, Daniela.
— Não morra — responde ela, e vai se juntar aos outros.
Sam acaricia a cabeça de Stanley, olhando para John com a sobrancelha erguida.
— Sei que você não espera que eu vá com eles.
— Não — responde John, balançando a cabeça. — Você está preso com a gente.
Malcolm cruza os braços, olhando para Sam.
— Eu também vou. Sua mãe vai me matar se eu deixar você enfrentar o fim do mundo sem supervisão.
Passo o braço em torno da cintura de Sam e descanso a cabeça em seu ombro.
— Sério — digo, repreendendo-o. — Ligue para sua mãe.
A agente Walker é a última a se juntar à comitiva de Lawson. Ela para em frente ao nosso grupo sem jeito, olhando de mim para John, depois para Nove. Por fim, ela suspira.
— Eu só quero dizer... — Ela hesita. — Obrigada. Por me darem a chance de consertar alguns dos danos que causei. Por... — Ela balança a cabeça e acena com as mãos. — Obrigada.
— Não foi nada — diz Nove.
— Cuide da garotada, Walker — responde John. — Eles precisam de alguém tomando conta. Alguém que não queira só usá-los pelos seus poderes. E pode ser você.
Walker assente, então vira e segue em direção aos faróis do comboio. Em pouco tempo, os faróis dão lugar às lanternas traseiras, e logo estamos sozinhos no campo escuro.
Eu e Sam. Malcolm e Lexa. John e Bernie Kosar. Nove. Marina e Ella. Cinco. Sou eu quem quebra o silêncio.
— Vamos ganhar esta guerra.


Mais uma vez Lexa nos leva para o norte, rumo às cataratas. A viagem é silenciosa e sombria, todos cansados demais, ou pensativos demais para falar qualquer coisa. John adormece, provavelmente pela primeira vez em dias; Marina está ao lado dele, os olhos atraídos pelo ferimento que desafia sua capacidade de cura. Cinco opta por não viajar na nave, mas ao lado dela, uma decisão que acho que agradou a todos.
Sam e Malcolm aproveitam esse tempo para ligar para a mãe de Sam. É uma conversa sofrida, que tento não ouvir. Do outro lado do corredor, Nove olha para mim.
— Deve ser bom ter alguém de quem se despedir, né? — diz ele em voz baixa.
Fecho a cara.
— Ninguém está se despedindo, Nove.
— Qual é, Seis! Acredita mesmo nisso?
Quando chegamos às cataratas, Adam e Rex acabaram de preparar nossas remessas. Os dois mogs encheram mochilas resistentes – cortesia dos canadenses – com dispositivos de camuflagem retirados dos Skimmers da nave de guerra que roubamos. Também dividimos entre as mochilas os celulares e aparelhos que Sam ordenou que copiassem os sinais de dispositivos de camuflagem.
Nove olha para Rex.
— Se eu checar essas mochilas, será que vou descobrir que você, tipo, sabotou alguma coisa?
Rex passa a mão pelo cabelo preto curto, sem saber como responder. Adam se aproxima.
— Já chega, Nove — diz ele. — Rex é íntegro. Podemos confiar nele.
— Para mim, isso é como atirar pedrinhas em um deus — comenta Rex em tom calmo, olhando para as mochilas. — Só espero que baste para derrubar o Adorado Líder. Seria... algo interessante de se ver.
— Bem, pelo menos ele é otimista — diz Nove com sarcasmo.
Ao todo, cada mochila tem cerca de trinta dispositivos de camuflagem. Uma mochila por zona de guerra.
— Será que vai ser suficiente? — pergunta Marina.
— Tem que ser — responde John.
Ella direciona o tráfego, já que sabe onde estão as novas pedras de loralite que afloraram na Terra desde que liberamos a Entidade. De acordo com Lawson, haverá pessoas esperando em cada local para receber nossas entregas. Caberá a elas decidir como usar os dispositivos de camuflagem. Espero que tenham planos sólidos.
— Você só precisa imaginar para onde quer ir — explica Ella enquanto estamos em um semicírculo ao redor da pedra das Cataratas do Niágara; o fraco brilho azul é nossa única fonte de luz. — Se tiverem dificuldade, posso ajudar... colocar uma imagem na sua mente — continua ela. — Quando eu estava ligada à Legado, vi todas as pedras ao mesmo tempo, então sei como são os arredores.
— Isso é bom — diz Sam, olhando para a lista de locais. — Cabeça do Leão é um lugar e não, hã, a cabeça de um leão, certo?
Ella olha para ele.
— Eu vou ajudá-lo, Sam. Não se preocupe.
Nove levanta a mão.
— Se imaginarmos uma cabeça de leão de verdade...
— Não — interrompe Ella, concluindo o pensamento dele. — Você não vai se teleportar para um leão.
Permito-me abrir um discreto sorriso. Eles estão brincando; em face de tudo o que aconteceu, ainda conseguem fazer isso.
— Vamos lá — diz John em tom brusco.
Nós nos dividimos em grupos de dois para fazer as entregas. Nove e Marina. Eu e Sam. Como ninguém quer formar dupla com Cinco nem ser deixado para trás com ele, John concorda em acompanhá-lo. O restante do grupo fica. Adam e Rex levam Malcolm até a nave de guerra para explicar parte do funcionamento, na esperança de que ele ajude a pilotar aquela coisa colossal quando atacarmos West Virginia.
— Pronta? — pergunta Sam.
— Pronta — respondo, e, de mãos dadas, com a mochila de dispositivos de camuflagem pendurada no ombro de Sam, tocamos a pedra de loralite e nos focamos em uma imagem mental que Ella nos envia por telepatia.
Um brilho caloroso de energia nos envolve e, um segundo depois, precisamos proteger os olhos. Está amanhecendo na África do Sul, e estamos no cume da Montanha Cabeça do Leão. Há seixos decorativos ao lado de jardins bem cuidados – um lugar para turistas tirarem fotos. A pedra de loralite se projeta no meio de tudo, rachando as pedras artificiais e deslocando as plantas. A vista é de tirar o fôlego. Estamos na altura das nuvens. À esquerda, vejo o oceano de um azul cristalino, o sol deixando um brilho dourado nas ondas. À direita, vejo os edifícios brancos movimentados da Cidade do Cabo.
A cena seria tranquilizadora se não fosse pelo helicóptero voando devagar a apenas alguns metros de distância. O constante vup-vup-vup dos rotores arruína a calma da manhã. Há um grupo de soldados camuflados de guarda ali perto. Como aparecemos do nada, alguns se assustam, e outros apontam os rifles de assalto em nossa direção. A maioria continua impassível. Acho que dá para se acostumar a ver coisas malucas durante uma invasão alienígena.
Dois dos soldados correm até nós e pegam a mochila com Sam. Eles não nos dizem nada, e não dizemos nada a eles. Logo todos entram no helicóptero e partem para atacar a nave de guerra mais próxima. Johannesburgo, eu acho.
— Um “obrigado” teria sido legal — reclama Sam.
Dou de ombros e viro para apreciar a vista. É tão linda que esqueço, por cinco segundos, o que estamos fazendo ali e as probabilidades que estão contra nós.
— Eu sempre quis ver o mundo, sabia? — digo.
— Isto é, em um contexto em que não se está fugindo para sobreviver ou enfrentando um chefão alienígena, né?
— É — admito com um sorriso travesso. — Acho que vocês, terráqueos, chamam isso de férias.
Sam se aproxima e, juntos, observamos o oceano.
— Talvez quando... — começa ele, então para.
Olho para ele.
— Talvez quando...?
O olhar de Sam se desvia para seus tênis.
— Eu ia dizer que talvez, quando tudo isso acabar, a gente possa tirar umas férias. Mas eu não deveria falar assim. Ou fazer planos. Quer dizer, depois de tudo o que aconteceu. Oito, Sarah, Mark... — Sam balança a cabeça. — Ainda não acredito, sabe? Não consigo nem entender. São pessoas com quem cresci, que conheci durante a vida inteira. Caramba, o mundo inteiro! Está tudo virado de cabeça para baixo. Nós provavelmente vamos morrer em poucas horas. E eu pensando em férias. Parece errado.
Corro a mão pela nuca de Sam, enrosco os dedos em seu cabelo e puxo.
— Ninguém vai morrer, Sam.
— Todo mundo vai morrer, Seis. Quer dizer... no mundo todo.
— Vamos conseguir — digo, puxando seu rosto para perto. — E, se você acha que está prestes a morrer, Sam, quero que se lembre deste momento. Lembre-se de que estamos lutando por isso, pelo futuro. Nosso futuro.
Sam respira fundo.
— Ok. Está bem, você está certa.
Ele olha por cima do ombro para a pedra reluzente de loralite pronta para nos levar de volta para as cataratas e então para a próxima entrega.
— Precisamos ir.
Inclino a cabeça para trás e respiro fundo – o ar é fresco e revigorante aqui em cima, com apenas um cheiro suave de maresia.
— Um minuto — digo, entrelaçando meus dedos nos dele. — Um minuto para apreciar o mundo.
E, assim, ficamos um minuto lá. Absorvendo aquilo tudo.
Fazemos o mesmo quando nos teleportamos para as areias ondulantes do Saara, o ar seco e causticante, a pedra de loralite parecendo um oásis reluzente.
E outra vez quando chegamos ao Monte Zao, no Japão, a pedra de loralite próxima ao lago de uma cratera vulcânica que brilha com uma intensidade até maior que a da pedra. A neve sopra em nossos rostos, e nós rimos. Os soldados japoneses que pegam o equipamento olham para nós como se estivéssemos loucos, como se estivéssemos perdendo tempo.
Podemos perder alguns minutos.
Paramos em Portugal. Paramos no interior desértico da Austrália. Um minuto extra passado em cada lugar, um minuto que só serve para contemplação. Férias de cinco minutos.
Em pouco tempo, terminamos. As entregas foram feitas. Estamos de volta às cataratas, no meio da noite, e só temos mais um destino. West Virginia.
Sam e eu trocamos um último sorriso e assumimos nossas posições. Nós nos preparamos para fazer o que for necessário.
Ao amanhecer, de uma forma ou de outra, tudo isso vai acabar.

2 comentários:

  1. Ao amanhecer, de uma forma ou outra,tudo isso vai acabar. 😢😢

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