29 de novembro de 2016

Capítulo vinte e oito

QUANDO CHEGAMOS À SALA DE CONTROLE DA BASE, ENCONTRAMOS APENAS seis mogs em um espaço que poderia acomodar cinco vezes esse número. Estão todos de olhos grudados em um painel de monitores na parede da caverna, nas telas que mostram o exterior da base. Nelas, o restante do nosso grupo está liquidando os mogs nascidos artificialmente que protegem a entrada da montanha.
Os mogs não nos veem entrar, já que eu e Adam estamos invisíveis. Aperto o braço dele, perguntando se está pronto para acabar com esse grupo. Ele responde com dois tapinhas lentos na minha mão. Um sinal para esperar.
Observando com mais atenção, percebo que todos esses mogs são nascidos naturalmente. Estão armados, mas não parecem nem um pouco ansiosos para sair correndo e entrar na briga.
Um mog do sexo masculino com um moicano ridículo diz algo em sua língua a uma mog com tranças longas. Ela responde com grosseria. Estão discutindo. Os outros se juntam.
De repente, o do moicano mira no rosto da mog de tranças. Ela o imita. Em uma questão de segundos, estão todos apontando as armas uns para os outros, ainda gritando palavras ásperas em mogadoriano.
É uma situação tensa que fico feliz em atiçar.
Com telecinesia, aperto um dos gatilhos, depois outro. Os mogs fazem o resto, gritando de raiva e atirando entre si. Em alguns segundos, estão mortos. Partes do corpo de alguns deles começam a se desintegrar.
Solto o braço de Adam e ficamos visíveis. Ele infla as bochechas em um suspiro, olhando para os mogs mortos com decepção, e, em seguida, começa a procurar nos painéis de controle aquele que opera o campo de força da montanha.
— Por que eles estavam brigando? — pergunto.
Assim como aconteceu com os mogs há pouco, meus olhos são atraídos para a batalha se desenrolando nas telas.
— O de moicano queria saber como isso pôde acontecer. Por que o Adorado Líder permitiria a queda da Anubis, por que deixaria os Gardes chegarem tão longe — explica Adam, em tom moroso. — A mulher disse que Setrákus Ra enlouqueceu, que os Acréscimos o perturbaram. Os outros a acusaram de blasfêmia e...
Ele gesticula com a mão, indicando que sei o resto.
— Ah — respondo, olhando para a mulher mog.
Ao contrário dos demais, ela não se desintegrou. Eu a cutuco com a ponta do pé e sua cabeça pende para o lado. Acho estranho quando eles morrem e os corpos ficam. Sinto algo que eu quase chamaria de culpa.
— Talvez devêssemos ter ajudado essa — acrescento.
Adam balança a cabeça.
— Ela tentaria nos matar.
— Rex não tentou.
— Se existem outros mogadorianos simpáticos à nossa causa, como Rex, não é no calor da batalha que vamos descobrir.
Adam encontra a interface certa e começa a apertar alguns botões. Um símbolo fica piscando na tela – um aviso em qualquer língua. Ele deixa escapar um som de irritação e digita outra sequência.
— Tenho que contornar um protocolo de segurança — explica. — Veja se há um cartão de acesso em um desses corpos.
Revisto os uniformes dos mogadorianos. No bolso da frente do primeiro mog que toco, encontro um cartão plástico, então sopro um pouco do pó que há nele e o entrego a Adam.
— Ótimo — diz ele. Então insere o cartão de acesso, aciona uma alavanca, e segundos depois ouvimos um ruído elétrico alto. Adam vira para mim. — Os escudos foram desativados.
— Maravilha — respondo.
Sinto uma espécie de cócegas na mente, como se, por um instante, houvesse mais alguém ocupando espaço no meu cérebro. É Ella fazendo contato. Já deve ter relatado nosso progresso para John. Bato as mãos uma na outra.
— Vamos lá.
— Espera — diz Adam, com hesitação. — Há algo que eu preciso contar antes... antes que seja tarde demais.
Inclino a cabeça.
— Agora?
Adam confirma com a cabeça, os lábios contraídos.
— John me pediu para voltar à nave de guerra e destruir a montanha. Se vocês não matarem Setrákus Ra... ele quer que eu a destrua, mesmo que ainda estejam aqui.
Penso nisso por um instante.
— Tá, e daí?
— E daí? — indaga ele, incrédulo.
— É, e daí? Se não matarmos Setrákus Ra, devemos estar mortos mesmo — argumento, dando de ombros. — Faça o que ele pediu.
— E aquela história de sobreviver para lutar outro dia?
— Acho que nossos dias já se esgotaram, não concorda? Está na hora de acabarmos com isso, de uma forma ou de outra.
Se Adam ainda quer protestar, é interrompido por um clarão de luz nos monitores.
Nós dois viramos e vemos nossa nave abrir fogo contra os mogs lá fora, John e os outros abrigados em segurança sob o que parece ser um casco de tartaruga feito de pedra.
— Eles entrarão em breve — digo. — Vamos descer para encontrar o...
Minha frase termina com uma tosse úmida. Olho para mim mesma, intrigada por uma súbita dor no peito.
Há um tentáculo afiado de gosma mogadoriana saindo de baixo do meu seio esquerdo. Entrou pelas costas, por entre as escápulas. Eu o sinto, coçando e ardendo dentro de mim. Atingiu um pulmão, eu acho. Minha respiração é ruidosa, e há sangue nos meus lábios.
— Ah... — É tudo o que consigo pensar em dizer.
— Seis! — grita Adam.
— Como eu esperava que fossem vocês dois... — diz uma voz familiar atrás de mim.
Viro a cabeça, já que não consigo mover o resto do corpo, empalado pelo tentáculo.
Phiri Dun-Ra está na porta da sala de controle. Seu Acréscimo é como John descreveu: uma massa asquerosa de gosma negra serpenteante, ligada ao ombro dela no local onde deveria estar o braço.
Ela me matou. Não acredito.
Dust é o primeiro a reagir. Ele se lança depressa para longe de Adam, ficando imenso em sua forma de lobo, o pelo cinzento se eriçando nas costas musculosas, os dentes rangendo. Acerta Phiri Dun-Ra com as gigantescas patas dianteiras, fazendo-a cair no chão. Ele avança com os dentes arreganhados em direção ao rosto de Phiri, mas ela inclina a cabeça para trás o suficiente para não ser mordida. Um dos tentáculos envolve o focinho de Dust, amordaçando-o. Os outros começam a apunhalar o corpo.
Ainda assim, o Chimæra luta, atacando-a com as garras e comprimindo-a com seu peso. Por causa do ataque de Dust, o tentáculo de Phiri se solta do meu corpo. Eu provavelmente cairia se Adam não estivesse ali para me pegar. Ele pressiona minha ferida, ajudando-me a recostar na parede. Meu sangue borbulha em sua mão, e vejo pelo pânico nos olhos dele que a ferida não parece nada bem.
— Seis, precisamos levá-la a Marina ou John...
Adam é interrompido por um grito e então algo pesado cai em cima de nós. É Dust, lançado pelo apêndice doentio de Phiri Dun-Ra. O pelo dele está encharcado de sangue, e todo o corpo se encolhe rapidamente, cravejado pelos tentáculos de Phiri.
Cambaleante, ele tenta se levantar, e quase consegue antes que as pernas cedam. Enquanto tomba de lado, seus olhos escuros encontram Adam. Dust gane uma vez e, em seguida, fica imóvel.
Adam grita.
Só então Phiri Dun-Ra consegue ficar de pé, o rosto e o peito cobertos de marcas das garras do Chimaera. Adam pega sua arma e dispara, acertando uma vez no peito, mas os dois tiros seguintes são absorvidos pelos tentáculos. Ela se abaixa ao sair pela porta, correndo para se esconder.
Seis! É a voz de Ella na minha mente. Estou mandando os outros para ajudar você!
Não!, penso de volta, forçando-me a ficar de pé. Nós cuidamos isso. Diga a eles para se concentrarem em Setrákus Ra.
Mas...
Imagino Phiri Dun-Ra assumindo o controle dos meus Legados ou do de Adam, usando-os para atrasar os nossos amigos e aniquilá-los. Lembro-me das ordens secretas de John para Adam, que ele deveria destruir a base na montanha se alguma coisa desse errado. E me lembro de quando Ella saltou em uma torrente de energia lórica porque sabia que isso significava derrotar Setrákus Ra.
Prioridades. Sacrifícios.
Nós deteremos Phiri Dun-Ra. E garantiremos que nada os pegue de surpresa.
Eu me esforço para levantar, mesmo sendo difícil. Quando tento respirar fundo, a reação do meu corpo é preencher o peito com uma dor aguda. Sinto uma pontada em todo o lado esquerdo do corpo. Mas ainda posso lutar.
Tenho que lutar.
Cubro a ferida com uma das mãos da melhor forma que posso e vou mancando atrás de Adam. Ele já saiu em disparada para o corredor, furioso, perseguindo Phiri Dun-Ra.
Ouço mais alguns tiros. Phiri salta, seu tentáculo se prende a uma estalactite, e ela se ergue, desviando. Então se atira de volta na direção de Adam.
Phiri chuta a arma da mão dele. Antes que ela o corte com os tentáculos, eu a empurro usando telecinesia e a pressiono contra a parede. Mantenho-a presa lá, um peso telecinético contra seu peito. Os músculos do pescoço se retesam quando ela tenta se soltar, mas não consegue.
— Seis, você...
Adam parece surpreso ao me ver de pé, como se fosse me repreender por voltar à luta. Respiro ofegante, enquanto mantenho Phiri presa com a telecinesia, e sinto que estou prestes a vomitar. Eu me apoio na porta da sala de controle.
— Estou bem — digo, quase sem voz. — Acabe com ela.
Adam vira para Phiri, e, claro, ela começa a falar.
— Você não se sente mal por estar do lado perdedor da história, Sutekh? — pergunta, um tom agudo de desespero na voz.
— É isso que é vitória para você, Phiri? — retruca Adam em tom seco, pegando a arma.
Phiri continua berrando:
— Quando estas batalhas forem colocadas no Grande Livro, você será uma daquelas histórias que servirão de lição sobre o que não se deve fazer, uma nota de rodapé sobre traidores, um...
— Cala a boca — digo.
Ela resiste à minha telecinesia, sem sucesso. Seu Acréscimo se contorce, inútil, debatendo-se na parede. Diferentemente do que aconteceu no México, Marina não está por perto para nos impedir de matar essa cretina. Depois do que ela fez com John, com Dust, com todos em Patience Creek, não acho que Marina faria qualquer objeção, mesmo que estivesse aqui.
O som de uma arma mog põe fim à argumentação de Phiri Dun-Ra.
Minhas costas ardem.
Phiri Dun-Ra ri.
Adam se vira, os olhos arregalados.
Olho para trás de mim. Vejo a mog de tranças, a que achamos que estava morta, meio sentada.
Ela acabou de atirar nas minhas costas.
Adam atira nela, arrancando sua cabeça.
Mas essa nova dor foi suficiente. Por um breve instante, deixo de me concentrar em Phiri Dun-Ra.
Seus tentáculos se soltam. Dois deles mergulham direto no abdômen de Adam, que se curva na mesma hora. O outro me procura, mas eu me jogo para trás, para a sala de controle, escapando. Apesar de toda a dor que sinto, tento agarrar Phiri Dun-Ra com a telecinesia.
Ela pisa com força no chão, e um tremor sísmico me lança para trás, me fazendo bater com força em um dos gabinetes de computador. Ouvimos um ruído abaixo de nós, como pedras se movimentando e se atritando umas contra as outras. Tusso sangue no chão instável.
Phiri Dun-Ra ri com alegria.
— Incrível! Eu não sabia se você teria uma faísca lórica para me alimentar, Adamus. Pensei que fosse só um dos primeiros com Acréscimos, uma experiência fracassada. — Phiri estala os lábios, como se estivesse tentando descobrir que gosto está sentindo. — Mas você é mesmo como eles! Ficará feliz em morrer sabendo que era especial? O pior dos dois mundos?
Adam pende dos tentáculos de Phiri. Vejo partículas de energia lórica cintilando através da massa oleosa, indo para ela. Tento me levantar, mas meus braços estão fracos.
Devagar, Adam levanta a cabeça, tirando o cabelo escuro dos olhos. Ele encara Phiri Dun-Ra.
— Eu sou como eles — diz, os dentes cerrados. — Mas também sou como você.
Ele mergulha as mãos no óleo negro dos tentáculos. Os dois arquejam – ela, em choque; ele, de dor – quando a lama se aglutina. Ele então puxa as mãos, e o lodo passa a se desprender do cotoco do ombro de Phiri e a se ligar a Adam. Deve reconhecer os genes mogadorianos. A substância doentia está emaranhada entre os dois. O fluxo de energia lórica de Adam em direção a Phiri é interrompido.
— O quê...? — começa ela, os olhos arregalados.
Adam pisa com força no chão. Um tremor violento se espalha a partir dele. O estrondo é ensurdecedor. O chão da caverna se parte. Estalactites caem do alto. Um abismo se abre sob os dois mogadorianos. Phiri Dun-Ra tenta recuar, alcançar a borda com o braço, com os tentáculos. Mas Adam se segura a ela com firmeza.
Eles caem na escuridão.
— ADAM! — grito.
Apesar da dor lancinante no peito, mergulho até a borda do buraco recém-aberto. Tento alcançá-lo com telecinesia.
Tarde demais. Não há nada além de sombras lá embaixo.
Ele se foi.
— Adam... — repito, as mãos pendendo sem forças no abismo, o sangue se acumulando nas rochas abaixo de mim.

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