29 de novembro de 2016

Capítulo vinte e dois

EU ME DEBRUÇO SOBRE O BANCO DE LEXA. PELO PARA-BRISA DA NAVE, VEJO AS copas das árvores passando, as estradas lá embaixo como um borrão. Mesmo ali, o barulho do vento no casco da nave é alto e constante.
— Essa coisa não consegue ir mais rápido? — pergunto a ela entredentes.
Afastando o corpo dos controles, Lexa se vira e me lança um olhar que diz: “Você está mesmo me perguntando isso?”
Há um pequeno triângulo vermelho piscando no console. A velocidade está alta demais. O motor vai queimar se continuar assim.
Não importa. Precisamos voltar para Patience Creek. Precisamos chegar lá agora.
No banco do copiloto, BK apoia as patas dianteiras no painel. O corpo peludo está apontado para a frente, as costas retas, os dentes à mostra. Ele é como uma flecha direcionada para Patience Creek. BK sabe que nossos amigos estão em apuros; talvez tenha algum tipo de sentido animal que percebe o desespero da situação.
Perdemos a conexão com Sam assim que ele contou que Patience Creek estava sendo atacada. Antes de a ligação cair, ouvi tiros e gritos vindos de humanos.
Os mogs não gritam, eu acho.
Depois que perdemos a conexão, não conseguimos mais falar com Sam. Pior ainda, não conseguimos ligar para nenhum dos números programados para Patience Creek. Nem os canadenses conseguiram, quando pedimos ajuda.
E é isso. Estamos voando nesta maldita nave em direção a mais uma tragédia.
Olho para trás, na direção do compartimento de passageiros. Nove anda de um lado para outro. Toda hora ele ergue os punhos, como se fosse socar alguma coisa, depois volta a baixá-los em postura furiosa. Ele não parou de se mexer desde que subimos a bordo. Eu o mandaria parar se não estivesse me sentindo da mesma forma. Inútil.
Marina e Ella estão sentadas de frente uma para a outra. Ella está de olhos fechados, tentando alguma magia telepática. Noto a tensão em seu rosto e o sangue saindo do nariz. Marina segue meu olhar e balança a cabeça discretamente.
— Ela já não está tão forte quanto antes — avisa, em voz baixa.
Tenho notado que o brilho de energia lórica que passou a rodear Ella depois que se atirou na fonte de energia da Entidade tem diminuído aos poucos nos últimos dias.
Pareceu especialmente fraco depois que ela reativou a pedra de loralite nas Cataratas do Niágara. Na primeira reunião com Lawson, ela espionou Setrákus Ra por telepatia a quilômetros de distância. Agora, tentar alcançar Patience Creek com a mente parece um grande esforço.
— A hora perfeita para isso acontecer — digo.
Marina estende o braço e aperta minha mão.
— Sam vai ficar bem — garante ela.
Aperto a ponte do nariz.
— Não tem como saber.
— Destino, Seis. Lorien não teria dado aqueles Legados, a ele ou a qualquer dos outros humanos que se juntaram à luta, se não fossem desempenhar um papel importante na batalha final.
— Você tem muito mais fé do que eu — respondo a Marina em tom amargo. — Para mim, isso tudo é aleatório. Quer dizer, se os Legados têm mesmo a ver com destino, como você me explica um bosta como Cinco? Ou Setrákus Ra?
— Eu...
Marina balança a cabeça, sem saber como responder.
Ella abre os olhos, respira fundo e limpa o sangue no nariz. Olha para mim e balança a cabeça.
— Ainda estamos muito longe. Não consigo alcançar ninguém. Não sei o que está acontecendo.
— E quanto a John? — pergunto. — Você pode localizá-lo?
— Eu tentei — responde ela. — Ele também está fora de alcance.
Mordo o lábio para não gritar de frustração. Que péssima hora para John sair por aí sozinho. Não que ele tivesse como saber que os mogs iriam rastrear Patience Creek, mas, droga, precisamos dele com a gente.
— Você não pode, tipo... — digo, gesticulando para Ella — ... recarregar seu poder? Trazê-lo para um sonho, como fez antes?
— Não é assim... — Ella franze a testa e desvia o olhar. — Meu encontro com Legado, o poder que ganhei, acho que foi só temporário. Estou voltando ao normal, e a energia está retornando ao lugar a que pertence.
Enfio os dedos no cabelo e aperto a cabeça.
— Então não dá.
Um sinal sonoro agudo que vem da cabine chama minha atenção.
— É nossa nave de guerra — grita Lexa para mim. — Eles estão tentando abrir um canal de comunicação.
Deixamos Adam, Dust e Rex nas cataratas, tripulando a nave da melhor maneira possível com uma equipe de duas pessoas. Eles estão vindo atrás de nós, mas, em termos de velocidade, aquela nave colossal não é capaz de acompanhar a pequena nave de Lexa.
Volto depressa à cabine enquanto Lexa aperta um botão que exibe uma projeção holográfica de Adam em um canto do para-brisa. Ele está de pé na plataforma elevada do comandante e, com um imenso vazio atrás, parece pequeno e deslocado. Imagino que vá perguntar se recebemos alguma notícia de Patience Creek. No entanto, assim que me vê, Adam aperta um botão em um console à frente.
— Gente, vou compartilhar uma transmissão com vocês — avisa Adam com voz grave e urgente. — Está ao vivo.
— Do que você está falando? — pergunto, confusa.
Não consigo processar a ideia de que pode haver algo mais urgente do que o destino para onde estamos correndo.
— Toda nave de guerra da frota está recebendo isso — diz Adam. — E, pelo que entendi, ele invadiu cada satélite ainda ativo para transmitir aos canais de notícias restantes também.
— Quem...?
Antes que eu termine a pergunta, Adam divide a tela. A nova transmissão me faz perder o ar, e tenho que me sentar no braço da cadeira de Lexa.
É Setrákus Ra. Vivinho da silva.
— Não tenho sido paciente? — pergunta ele, os olhos escuros fitando diretamente a câmera.
O enquadramento mostra Setrákus Ra do peito para cima. Ele está sentado em uma cadeira ornamentada que pode ser descrita como um trono. Atrás dele, vejo as paredes de pedra de uma caverna. Ele veste uma camisa de seda vermelho-sangue, os botões abertos até a metade do esterno. É uma visão ridícula, mas também é uma mensagem.
Uma mensagem para mim.
Não há cicatriz no peito. Nenhuma marca. Nada.
— Minhas naves de guerra estão sitiando as cidades mais importantes do seu planeta. A esta altura, a condenação já deveria estar clara. E, mesmo assim, vocês ainda resistem...
O tom de Setrákus Ra é tranquilo e condescendente. Marina, Ella e Nove se reúnem atrás de mim enquanto ele prossegue com sua ladainha.
— Será que ele fez uma plástica ou algo assim? — indaga Nove. — O que aconteceu com o rosto dele?
Olho com mais atenção. As feições de Setrákus Ra parecem mordazes como sempre, a cabeça ainda raspada, a cicatriz roxa no pescoço com o mesmo inchaço. Ele continua pálido; os olhos, escuros; e ainda assim... ele parece menos desfigurado que da última vez que o vi. Não parece tão velho nem tão monstruoso. Está muito mais parecido com a versão jovem de Setrákus Ra que conhecemos na visão de Ella.
— Ele pode mudar de forma, não pode? — pergunta Marina.
— Não — responde Ella. — O bastão que ele usava para isso foi destruído em Nova York. Isso... é outra coisa.
— Lorien — digo. — Deve ser da energia lórica que ele roubou.
— Dei um ultimato à humanidade — continua Setrákus Ra. — Ordenei que se rendessem incondicionalmente e me entregassem os humanos infectados com Legados. Apenas os líderes inteligentes da Rússia reconheceram a sabedoria de minhas palavras. Só eles entenderam que os Legados que afligem a humanidade são uma doença, algo passado a eles por uma espécie alien extinta em decorrência da própria arrogância. Eles são uma doença que só eu posso curar.
— Extinta é o cacete — rosna Nove.
Setrákus Ra coloca a mão sobre o peito, como se estivesse emocionado.
— Entendo como mudanças de paradigma podem ser difíceis. Entendo que reconhecer a subserviência da humanidade seja uma preocupação para os ignorantes. Não sou um monstro. Não quero ver suas cidades arrasadas, derramar sangue sem necessidade, por isso permiti que o prazo que defini se estendesse. Dei à humanidade tempo de ver a razão. Tive misericórdia.
Setrákus Ra se inclina para a frente, e por instinto me afasto da tela.
— Mas não mais — diz ele, assumindo um tom frio de repente. — Esta transmissão está sendo veiculada simultaneamente para os capitães da minha frota. Meus seguidores leais, a humanidade se recusou a abraçar o Progresso Mogadoriano. Então, devemos mostrar o caminho. Vamos guiá-la até a luz com fogo e sangue.
Marina cobre a boca com a mão. Ella fuzila a tela com o olhar. Lexa concentra-se em voar, forçando o motor da nave ao máximo. Nove cerra os punhos, os nós dos dedos estalando. Olho para o peito de Setrákus Ra, no ponto onde o atingi quando quase o matei. Não foi bom o bastante. Nada foi bom o bastante.
Setrákus Ra respira fundo e berra:
— Todas as naves de guerra! Abrir fogo!

2 comentários:

  1. Ola, Parabéns e muito obrigado por nos trazer este livro, mas ficou faltando o capítulo 21. Este é o 22 (está repetido)

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