16 de novembro de 2016

Capítulo VIII: A Terra do Arco e do Elmo

Nos dias que se seguiram, Beleg labutou muito para o bem do grupo. Tratou dos que estavam feridos e doentes e todos sararam depressa. Pois naqueles tempos os elfos cinzentos ainda eram um povo superior, possuidores de grande poder e sabedores dos caminhos da vida e de todas as coisas viventes; e, embora ficassem aquém, em ofícios e sabedoria, dos exilados de Valinor, possuíam muitas artes que ultrapassavam o alcance dos homens. Além disso, Beleg, o Archeiro, era grande entre o povo de Doriath. Era forte, resistente e perspicaz tanto em pensamento como em visão e, se necessário, valente em combate, confiante não apenas no seu comprido arco, mas também na sua grande espada, Anglachel. E por tudo isso cresceu ainda mais o ódio no coração de Mîm, que odiava todos os elfos, como já foi dito, e via com olhos invejosos a amizade que Túrin sentia por Beleg.
Quando o Inverno passou, a vida começou a estuar e a Primavera chegou, os bandidos não tardaram a ter trabalho mais duro para fazer. O poderio de Morgoth foi posto em movimento e, como os compridos dedos de uma grande mão, as guardas avançadas dos seus exércitos tateavam os caminhos para Beleriand.
Quem conhece agora os intentos de Morgoth? Quem pode medir o alcance do seu pensamento, ele que fora Melkor, poderoso entre os Ainur da Grande Música, e se sentava agora, negro senhor, num negro trono no Norte, avaliando na sua perfídia todas as notícias que lhe chegavam através de traidor ou espião, vendo nos olhos da sua mente e compreendendo muito melhor os atos e propósitos dos seus inimigos do que até os mais sagazes de entre eles temiam, a não ser Melian, a Rainha? Para ela muitas vezes se dirigia o pensamento dele, e lá era despistado.
Neste ano, portanto, concentrou a sua perfídia na direção das terras a oeste do Sirion, onde havia ainda força que se lhe opunha. Gondolin permanecia de pé, mas estava oculta. Ele conhecia Doriath, mas ainda lá não podia entrar. Mais longe, ficava Nargothrond, para a qual nenhum dos seus servos descobrira ainda o caminho, um nome que para eles era sinônimo de terror; aí vivia o povo de Finrod, em número desconhecido. E muito longe, ao sul, para lá das matas brancas dos vidoeiros de Numbrethil, da costa do Avernien e das embocaduras do Sirion, chegavam rumores dos Portos dos Navios. Aí não conseguiria ele chegar enquanto tudo o mais não tivesse caído.
Assim, os Orcs desciam agora do Norte em número cada vez maior. Pelo Anach vieram e Dimbar foi tomada e todas as marcas setentrionais de Doriath assoladas. Desceram a antiga estrada que seguia pelo longo desfiladeiro do Sirion, passando pela ilha onde Minas Tirith de Finrod existira e pela terra entre o Malduin e o Sirion, e depois prosseguiram pelas florestas de Brethil para os Vaus do Teiglin. Aí, de há muito, passava a estrada para a Planície Guardada que depois, ao longo dos sopés das terras altas vigiadas pelo Amon Rûdh, descia pelo vale de Narog e chegava, finalmente, a Nargothrond. Mas, por enquanto, os Orcs não avançaram muito por essa estrada; pois havia agora nos ermos um terror que estava oculto e no monte vermelho estavam postos olhos vigilantes dos quais não tinham sido avisados.
Nessa Primavera, Túrin voltou a pôr o Elmo de Hador e Beleg sentiu-se satisfeito. Ao princípio, o seu grupo contava com menos de cinqüenta homens, mas o conhecimento que Beleg tinha das florestas e a coragem de T úrin faziam com que parecessem uma hoste aos seus inimigos.
Os batedores dos Orcs eram perseguidos e os seus campos espiados, e quando se reuniam para marchar em força nalgum lugar estreito fora dos rochedos ou da sombra das árvores, a eles se lançavam o Elmo do Dragão e os seus homens, altos e violentos. Em breve, o simples som da sua trombeta nos montes fazia com que os comandantes vacilassem e os Orcs desatassem a fugir antes que alguma flecha assobiasse ou espada fosse desembainhada.
Foi dito que, quando Mîm cedeu a sua habitação escondida no Amon Rûdh a Túrin e ao seu grupo, exigiu que quem disparara a flecha que lhe matara o filho partisse o arco e as flechas e os depositasse aos pés de Khîm; e Andróg era esse homem. Então, com grande contrariedade, Andróg obedeceu à ordem de Mîm. Além disso, Mîm declarou que Andróg jamais deveria voltar a usar arco e flecha e rogou-lhe uma praga: se, apesar de tudo, ele o fizesse, então encontraria a própria morte por esse meio.
Ora, na primavera daquele ano, Andróg ignorou a praga de Mîm e voltou a empunhar um arco numa incursão a partir da Bar-en-Danwedh; e nessa incursão foi atingido por uma flecha Orc envenenada e trazido de volta moribundo e em grande sofrimento. Mas Beleg sarou-o do seu ferimento, o que aumentou mais ainda o ódio de Mîm por Beleg, que anulara assim a sua praga. “Mas voltará a atuar de novo”, disse ele.
Nesse ano, longamente correu o murmúrio em Beleriand, debaixo de arvoredo, sobre rio e através das gargantas dos montes, de que o arco e o elmo que tinham caído em Dimbar (como se pensava) se haviam erguido de novo, contra toda a esperança. Então, muitos, tanto elfos como homens, que tinham ficado sem chefes, desvalidos mas intrépidos, sobreviventes de combate, derrota e terras deixadas incultas, ganharam de novo ânimo e partiram à procura dos
Dois Capitães, embora ninguém soubesse ainda onde ficava a sua fortaleza. Túrin recebia de bom grado todos quantos o procuravam, mas, a conselho de Beleg, não deixava entrar nenhum desconhecido no seu refúgio no Amon Rûdh (o qual se chamava agora Echad i Sedryn, Campo dos Fiéis); o caminho para lá só era conhecido pelos membros do Antigo Grupo e mais nenhum eram admitidos. Mas outros acampamentos e fortes guardados foram criados em redor: na floresta, a leste, ou nas terras altas, ou nos brejos meridionais de Methed-en-glad (“O Fim da Floresta”), a sul dos Vaus do Teiglin para Bar-erib, algumas léguas a sul do Amon Rûdh na terra outrora fértil entre Narog e os Pântanos do Sirion. De todos estes lugares podiam os homens ver o cume do Amon Rûdh e, por sinais, receber notícias e ordens.
Deste modo, antes de findo o Verão, os seguidores de Túrin tinham-se tornado uma grande força e o poder de Angband foi repelido. Notícias disto chegaram mesmo até Nargothrond, onde muitos ficaram agitados, dizendo que se um bandido podia causar tal dano ao inimigo, o que não poderia o senhor de Narog fazer. Mas Orodreth, rei de Nargothrond, recusou modificar os seus intentos. Seguia em tudo Thingol, com quem trocava mensagens por vias secretas; e era um senhor sensato, de acordo com a sabedoria daqueles que pensavam primeiro no seu próprio povo e em quanto tempo poderiam proteger-lhe a vida e os bens da cobiça do norte. Por isso não permitiu que nenhum dos seus fosse juntar-se a Túrin e enviou mensageiros dizer-lhe que, em tudo quanto pudesse fazer ou planejar na sua guerra, não deveria pôr os pés na terra de Nargothrond nem rechaçar Orcs para lá. Mas ofereceria outra ajuda, que não em força de homens, aos dois capitães, se de tal tivessem necessidade (e nisto, crê-se, foi inspirado por Thingol e Melian).
Então Morgoth refreou a sua mão, embora fizesse freqüentes simulacros de ataque, para que, por vitória fácil, a confiança daqueles rebeldes pudesse tornar-se enfatuada. Como na realidade veio a verificar-se. Pois Túrin deu o nome de Dor-Cúarthol a toda a terra entre o Teiglin e a marca ocidental de Doriath; e, reivindicando o seu domínio, atribuiu a si mesmo um novo nome, Gorthol, o Elmo do Terror, e o seu coração engrandeceu-se. Mas a Beleg pareceu então que o Elmo exercera em Túrin efeito diferente do que esperara; e, olhando para os dias que viriam, sentiu a mente perturbada.
Um dia, quando o Verão ia passando e ele e Túrin estavam sentados no Echad a descansar de uma longa incursão e marcha, Túrin perguntou a Beleg:
— Porque estás tão triste e pensativo? Não tem corrido tudo bem, desde que regressaste para junto de mim? O meu objetivo não revelou ser bom?
— Está tudo bem agora — respondeu Beleg. — Os nossos inimigos ainda estão surpreendidos e receosos. E ainda temos pela frente dias bons... por um tempo.
— E depois?
— Inverno — disse Beleg. — E a seguir outro ano, para aqueles que viverem para o ver.
— E depois?
— A cólera de Angband. Chamuscamos as pontas dos dedos da Mão Negra, não mais do que isso. Ela não se afastará.
— Mas não é a cólera de Angband o nosso objetivo e contentamento? — perguntou Túrin. — Que outra coisa quererias que eu fizesse?
— Muito bem o sabes. Mas desse caminho me proibiste de falar. No entanto, escuta-me agora. Um rei ou o senhor de uma grande hoste tem muitas necessidades. Precisa de ter um refúgio seguro, precisa de ter riqueza e muitos cuja missão não seja a guerra. Os números acarretam a necessidade de alimentos, mais do que aqueles que a floresta fornecerá aos caçadores. E depois há a guarda do segredo. Amon Rûdh é um bom lugar para alguns, tem olhos e ouvidos. Mas está solitário e é visto de muito longe, e não é necessária uma grande força para o cercar, a não ser que uma hoste o defenda, uma hoste muito maior do que é a nossa, ainda, ou tem probabilidades de vir a ser.
— Apesar disso, eu serei capitão da minha própria hoste — disse Túrin — e, se cair, cairei. Aqui, estou no caminho de Morgoth e, enquanto assim estiver, ele não poderá usar a estrada para sul.
Novas da presença do Elmo do Dragão na terra a oeste do Sirion chegaram depressa aos ouvidos de Morgoth, e ele riu-se, pois agora Túrin estava-lhe de novo revelado, ele que tanto tempo estivera perdido nas sombras e sob os v éus de Melian. No entanto, começou a recear que Túrin alcançasse um poder tal que a praga que sobre ele lançara se tornasse nula e Túrin pudesse escapar ao destino que para ele fora concebido, ou ent ão que pudesse retirar-se para Doriath e se perdesse de novo da sua vista. Por isso, o seu intento agora era apoderar-se de Túrin e atormentá-lo tanto quanto ao seu pai, torturá-lo e escravizá-lo.
Beleg estivera certo quando dissera a T úrin que tinham apenas chamuscado os dedos da Mão Negra e que ela não se afastaria. Mas Morgoth ocultava os seus desígnios e, por enquanto, contentava-se com o envio dos seus batedores mais hábeis. Assim, o Amon Rûdh não tardou a ficar cercado por espiões, que espreitavam, ocultos, no deserto, e não tomavam qualquer iniciativa contra os grupos de homens que entravam e saíam.
Mas Mîm estava consciente da presença de Orcs nas terras que circundavam o Amon Rûdh e o ódio que sentia por Beleg levou o seu entenebrecido coração a tomar uma decisão perversa. Um dia, no declínio do ano, disse aos homens que estavam em Bar-en-Danwedh que ia com o filho, Ibun, procurar raízes para a reserva do inverno; mas o seu verdadeiro propósito era procurar os servos de Morgoth e conduzi-los ao esconderijo de Túrin.
No entanto, tentou impor algumas condições aos Orcs, que se riram dele, mas Mîm disse-lhes que pouco sabiam, se estavam convencidos de que podiam conseguir qualquer coisa de um pequeno Anão pela tortura. Perguntaram-lhe então quais seriam as suas condições e Mîm expôs o que queria: que lhe pagassem o peso em ferro de cada homem que capturassem ou matassem, mas, no caso de Túrin e Beleg, esse peso seria em ouro; que a casa de Mîm, depois de livre de Túrin e do seu grupo, lhe fosse entregue e não o molestassem a ele; que Beleg fosse deixado para trás, amarrado, para Mîm se encarregar dele, e que Túrin fosse deixado em liberdade.
Os emissários de Morgoth concordaram prontamente com essas condições, sem a mínima intenção de cumprirem a primeira nem a segunda. O capitão orc achou que o destino de Beleg poderia bem ser deixado nas mãos de Mîm; mas, quanto a deixar Túrin livre, “vivo para Angband” eram as suas ordens. Embora concordassem com as condições, insistiram em ficar cora Ibun como refém. Então Mîm teve medo e tentou desistir do empreendimento ou então fugir. Mas, como os Orcs tinham o seu filho, viu-se obrigado a guiá-los até Bar-en-Danwedh. Assim foi traída a casa do resgate.
Foi dito que a massa de pedra que constituía a coroa ou o barrete do Amon Rûdh tinha um topo nu ou achatado, mas que, íngremes como eram as suas encostas, podia-se chegar ao cume subindo por uma escada talhada na rocha que subia da plataforma ou terraço existente antes da entrada da casa de Mîm. Havia vigias no cimo, os quais alertaram para a aproximação de inimigos. Mas estes, guiados por Mîm, chegaram à plataforma plana diante das portas e Túrin e Beleg foram repelidos para a entrada de Bar-en-Danwedh. Alguns dos homens que tentaram subir os degraus talhados na rocha foram abatidos pelas flechas dos Orcs.
Túrin e Beleg retiraram-se para a caverna e rolaram uma grande pedra para tapar a entrada. Neste aperto, Andróg revelou-lhes a escada oculta que conduzia ao cume plano do Amon Rûdh, a qual descobrira quando se perdera nas cavernas, como foi dito. Então, Túrin e Beleg, com muitos dos seus homens, subiram por essa escada e desembocaram no cume, surpreendendo os poucos Orcs que já lá tinham chegado pelo caminho exterior e rechaçando-os para fora da crista. Durante um curto espaço de tempo, contiveram os Orcs que subiam pela rocha, mas, sem nenhum abrigo no cume desprotegido, muitos foram atingidos por flechas lançadas de baixo. O mais valente destes foi Andróg, que caiu ferido de morte por uma flecha no cimo da escada exterior.
Então, Túrin e Beleg, com os dez homens que lhes restavam, recuaram para o centro do cume, onde se erguia uma pedra alta, e, formando um anel à volta dela, defenderam-se até todos terem sido mortos com exceção de Beleg e Túrin, sobre os quais os Orcs lançaram redes.
Túrin foi amarrado e levado; Beleg, que estava ferido, foi igualmente amarrado, mas deixaram-no no chão, com os pulsos e os tornozelos presos a espigões de ferro cravados na rocha. Descobrindo a saída da escada secreta, os Orcs abandonaram o cume e entraram na Bar-en-Danweth, que profanaram e saquearam. Não encontraram Mîm, escondido nas suas cavernas, e, quando eles partiram de Amon Rûdh, Mîm apareceu no cume e, aproximando-se de onde Beleg se encontrava, prostrado e imóvel, regozijou-se a contemplá-lo enquanto afiava uma faca.
Porém, Mîm e Beleg não eram os únicos seres vivos que se encontravam naquele pico rochoso. Andróg, apesar de ferido de morte, rastejou pelo meio dos cadáveres direito a eles e, pegando numa espada, arremeteu-a contra o anão. A guinchar de medo, Mîm correu para a beira do penhasco e desapareceu: fugiu por um íngreme e difícil caminho de cabras que conhecia. Mas Andróg, chamando a si as últimas forças, cortou as cordas que prendiam Beleg e libertou-o. Ao morrer, disse: “Os meus ferimentos são tão profundos que nem tu conseguirias sará-los.”

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