16 de novembro de 2016

Capítulo VII: De Mîm, o anão

Agora a história volta-se para Mîm, o pequeno anão. Os pequenos anões estão há muito esquecidos, pois Mîm foi o último. Pouco se sabia deles, mesmo nos tempos antigos. Nibinno-grim lhes chamavam de há muito os elfos de Beleriand, mas não gostavam deles; e, quanto aos pequenos anões, esses só gostavam de si mesmos. Se odiavam e temiam os Orcs, também odiavam os Eldar e, acima de todos, odiavam os Exilados, pois, diziam, os Noldor haviam-lhes roubado as terras e as casas. Nargothrond foi encontrada, e a sua escavação iniciada, pelos pequenos anões, muito antes de Finrod Felagund ter chegado vindo do mar.
Eles provinham, diziam alguns, de Anões que tinham sido banidos das Cidades dos Anões do leste, em tempos antigos. Muito antes do regresso de Morgoth, tinham vagueado para ocidente. Sem senhor e pouco numerosos, foi-lhes difícil encontrar metais em bruto e a sua arte de ferreiros e provisão de armas enfraqueceram, o que os levou a conduzir vidas furtivas e a tornarem-se um tanto ou quanto mais pequenos de estatura do que os seus semelhantes orientais, caminhando de ombros pendentes e com passos rápidos e furtivos. Apesar disso, e como toda a espécie anã, eram muito mais fortes do que a sua estatura aparentava e conseguiam agarrar-se à vida em situações de grande atribulação. Mas agora, por fim, o seu número tinha diminuído e haviam-se extinguido da Terra Média, exceto Mîm e os seus dois filhos; e Mîm era velho mesmo pelas contas dos Anões, velho e esquecido.
Após a partida de Beleg (que aconteceu no segundo verão depois da fuga de Túrin de Doriath), as coisas correram mal para os bandidos. Houve chuvas fora da época e, em maior número do que antes, vieram Orcs do Norte e pela antiga Estrada do Sul, sobre o Teiglin, perturbando todas as florestas das fronteiras ocidentais de Doriath. Havia pouca segurança ou sossego e a companhia era mais frequentemente perseguida do que perseguidora.
Certa noite, quando estavam à espreita na escuridão sem lume, Túrin meditou na sua vida e pareceu-lhe que ela bem poderia ser melhorada. “Tenho de encontrar algum refúgio seguro”, pensou, “e prevenir-me contra o inverno e a fome.” Mas não sabia para onde se virar.
No dia seguinte, conduziu os seus homens para sul, para mais longe do que alguma vez tinham estado do Teiglin e das marcas de Doriath; e, decorridos três dias de viagem, pararam na orla ocidental das florestas do Vale do Sirion. Aí a terra tornava-se mais seca e mais nua, ao subir para as charnecas.
Pouco depois, quis o acaso que, à medida que a luz cinzenta de um dia chuvoso se desvanecia, Túrin e os seus homens estivessem abrigados num bosque cerrado de azevinho, para lá do qual havia uma clareira sem árvores e com muitas pedras grandes, encostadas umas às outras ou amontoadas juntas. Reinava o silêncio, quebrado apenas pelas gotas que caíam das folhas.
De súbito, um vigia deu um sinal e, levantando-se de repente, viram três vultos encapuzados, vestidos de cinzento e caminhando furtivamente por entre as pedras. Cada um deles carregava um grande saco, o que não os impedia de serem velozes. Túrin gritou-lhes que parassem e os homens correram atrás deles como uma matilha; mas eles continuaram no seu caminho e, apesar de Andróg disparar, dois desapareceram no crepúsculo. Um ficou para trás, por ser mais lento ou estar mais carregado, e não tardou a ser detido e lançado ao chão, agarrado por muitas e duras mãos, apesar de se debater e morder como um animal. Mas Túrin aproximou-se e repreendeu os seus homens.
— Que têm aí? Que necessidade há de serem tão violentos? É velho e pequeno. Que mal há nele?
— Morde — respondeu Andróg, amparando uma mão ensanguentada. — É um Orc, ou da raça dos Orcs. Matem-no!
— Nada menos merece, por defraudar a nossa esperança — disse outro, que se apoderara do saco. — Não há aqui nada além de raízes e pequenas pedras.
— Não — opôs-se Túrin —, tem barba. Suponho que é apenas um Anão. Deixem-no levantar-se e falar.
Foi assim que Mîm entrou na história dos Filhos de Húrin. Pois deixou-se cair de joelhos aos pés de Túrin e rogou pela sua vida.
— Sou velho — disse — e pobre. Apenas um anão, como dissestes, e não um Orc. Chamo-me Mîm. Não permitais que me matem sem motivo, senhor, como os Orcs fariam. 
O coração de Túrin apiedou-se dele, o que não o impediu de dizer:
— Pobre pareceis, Mîm, ainda que tal fosse estranho num Anão; mas creio que nós somos ainda mais pobres: Homens sem teto e sem amigos. Se eu dissesse que não poupamos ninguém apenas por compaixão, pois a nossa necessidade é grande, que ofereceríeis como resgate?
— Não sei o que desejais, Senhor — respondeu Mîm, cauto.
— Bem pouco, com este tempo! — respondeu Túrin, olhando tristemente em redor e com a chuva a molhar-lhe os olhos. — Um lugar seguro para dormirmos ao abrigo das úmidas florestas. Sem dúvida tendes isso para vós próprio.
— Tenho — admitiu Mîm —, mas não posso dá-lo como resgate. Sou demasiado velho para viver debaixo do céu.
— Não precisas de envelhecer mais — disse Andróg, avançando com uma faca na mão incólume. — Posso poupar-te isso.
— Senhor! — gritou Mîm cheio de medo, agarrando-se aos joelhos de Túrin. — Se eu perder a minha vida, vós perdereis o vosso abrigo, pois sem Mîm não o encontrareis. Não posso dá-lo, mas partilhá-lo-ei. Há mais espaço do que em tempos houve, tantos foram os que partiram para sempre. — E começou a chorar.
— A vossa vida está poupada, Mîm — respondeu Túrin.
— Pelo menos até chegarmos ao seu covil — acrescentou Andróg.
Mas Túrin voltou-se para ele e disse-lhe:
— Se Mîm nos conduzir a sua casa sem embuste, e ela for boa, então a sua vida estará resgatada e ele não será morto por nenhum homem que me siga. Assim o juro. Então Mîm beijou-lhe os joelhos e disse:
— Mîm será vosso amigo, Senhor. Ao princípio, pensou que fôsseis um Elfo, pela vossa fala e pela vossa voz. Mas, se sois um Homem, é melhor assim. Mîm não gosta dos elfos.
— Onde fica essa tua casa? — perguntou Andróg. — Terá de ser muito boa, para a partilharmos com um Anão. Pois Andróg não gosta de Anões. O seu povo trouxe do leste poucas boas histórias dessa raça.
— Deixaram piores histórias de si próprios atrás de si. Julga a minha casa quando a vires. Mas precisareis de luz para o caminho, vós, Homens tropeçantes. Regressarei com bom tempo e conduzir-vos-ei. — Depois Mîm levantou-se e pegou no saco.
— Não, não! — protestou Andróg. — Por certo não permitirás isto, capitão? Nunca mais voltarias a ver o velho patife.
— Está a escurecer — respondeu Túrin. — Ele que nos deixe algum penhor. Podemos ficar com o vosso saco e o que ele transporta?
Mas, ao ouvir tais palavras, o Anão caiu de novo de joelhos, muito aflito.
— Se Mîm não tencionasse regressar, não regressaria por causa de uma velho saco de raízes. Eu voltarei. Deixai-me partir.
— Não deixarei — respondeu Túrin. — Se não vos separardes do vosso saco, tereis de ficar aqui com ele. Uma noite debaixo das folhas talvez vos faça compadecer-vos de nós, pelo vosso lado. — Mas apercebeu-se, assim como outros além dele, de que Mîm dava mais importância ao saco do que, à primeira vista, ele parecia merecer.
Levaram o velho Anão para o seu miserável acampamento e, enquanto os acompanhava, ele resmungava numa língua que parecia azedada por um ódio antigo; mas, quando lhe amarraram as pernas, calou-se subitamente. E aqueles que estiveram de sentinela viram-no sentado toda a noite, silencioso e imóvel como uma pedra, com exceção dos seus olhos insones, que cintilavam ao perscrutar a escuridão.
A chuva cessou antes da manhã e um vento fez estremecer as árvores. O alvorecer chegou mais luminoso do que em muitos dias e aragens ligeiras do Sul desanuviaram o céu, que ficou pálido e limpo por altura do nascer do Sol. Mîm continuava sentado sem se mexer, parecendo morto, pois agora as pálpebras pesadas dos seus olhos estavam descidas e a luz da manhã revelava-o seco e mirrado pela velhice. Túrin levantou-se e olhou para ele.
— Agora há luz suficiente — disse.
Então Mîm abriu os olhos e apontou para as cordas, e quando o soltaram falou furiosamente:
— Aprendei uma coisa, idiotas! Não amarreis nunca um Anão! Ele não o perdoará. Não desejo morrer, mas o meu coração está enfurecido pelo que fizestes. Arrependo-me da minha promessa.
— Mas eu não — respondeu Túrin. — Conduzir-me-eis a vossa casa. Até lá, não falaremos de morte. Essa é a minha vontade.
Fitou com firmeza os olhos do Anão, que não conseguiu suportar o seu olhar; em verdade, poucos conseguiam desafiar o olhar de Túrin, quando decidido na sua vontade ou em fúria. Pouco depois, Mîm voltou a cabeça e levantou-se.
— Segui-me, Senhor!
— Muito bem — respondeu Túrin. — Mas agora acrescento o seguinte: compreendo o vosso orgulho. Podereis morrer, mas não voltareis a ser amarrado.
— Não voltarei — disse Mîm. — Mas agora vinde!
E, ditas estas palavras, conduziu-os ao sítio onde fora capturado e apontou para oeste.
— Ali está a minha casa! Suponho que a tereis visto muitas vezes, pois é alta. Chamávamos-lhe Sharbhund, antes de os Elfos mudarem todos os nomes. — Viram então que ele apontava para Amon Rûdh, o monte Careca, cuja cabeça nua observava muitas léguas de deserto.
— Já a tínhamos visto, mas nunca de tão perto — respondeu Andróg. — Que abrigo seguro pode haver ali, ou água, ou qualquer outra coisa de que necessitemos? Bem me parecia que havia algum truque. Escondem-se homens no cume de um monte?
— Ver longe pode ser mais seguro do que estar escondido — comentou Túrin. — Amon Rûdh olha para longe e em redor. Bem, Mîm, irei ver o que tendes para mostrar. Quanto tempo levaremos nós, Homens tropeçantes, para lá chegarmos?
— Todo este dia até ao anoitecer, se partirmos agora — respondeu Mîm.
Em breve o grupo avançava para oeste, e Túrin seguia à frente com Mîm ao seu lado. Caminharam cautelosamente quando deixaram as florestas, mas toda a terra parecia deserta e silenciosa. Passaram pelas pedras espalhadas e amontoadas e iniciaram a subida, pois o Amon Rûdh erguia-se no extremo oriental das charnecas altas que subiam entre os vales do Sirion e do Narog, e acima do matagal pedregoso da sua base a crista alcandorava-se a mil pés ou mais. Do lado oriental, uma terra irregular subia lentamente para as altas cumeeiras, entre cabeços de vidoeiros e sorveiras-bravas e velhíssimas árvores espinhosas enraizadas na rocha. Para além, nas charnecas e à volta das encostas mais baixas do Amon Rûdh, cresciam bosques de Aeglos, mas a sua íngreme cabeça cinzenta era escalvada, tirando o manto de seregon vermelha que cobria a pedra.
À medida que a tarde declinava, os bandidos aproximavam-se das raízes do monte. Vinham agora do norte, pois por aí Mîm os conduzira, e a luz do Sol a caminho do ocaso incidia na crista do Amon Rûdh e a seregon estava toda em flor.
— Olhem! Há sangue no cimo do monte! — exclamou Andróg.
— Ainda não — respondeu Túrin.
O Sol descia e a luz penetrava nas concavidades. O monte erguia-se agora à frente e acima deles, que se perguntavam que necessidade poderia haver, afinal, de um guia para um destino tão evidente. Mas, à medida que Mîm os guiava e que começaram a subir as últimas encostas íngremes, aperceberam-se de que ele seguia um caminho qualquer, guiando-se por sinais secretos ou costume antigo. Agora o trajeto serpenteava de cá para lá e, se olhavam em volta, viam que, de cada um dos lados, se abriam escuros vales estreitos e ravinas, ou que a terra descia para ermos de grandes pedras com declives e buracos encobertos por sarças e espinheiros. Sem guia, poderiam ter andado e subido por ali durante dias para encontrarem um caminho.
Por fim, chegaram a um terreno mais íngreme mas também menos acidentado. Passaram sob a sombra de velhíssimas sobreiras-bravas para alas de aeglos de pernas altas: uma melancolia impregnada de suave odor. De súbito, ergueu-se diante deles uma parede de rocha, de face plana e íngreme, talvez com uns quarenta pés de altura, mas o crepúsculo obscurecia o céu acima deles e era incerto calcular.
— É esta a porta para a vossa casa? — perguntou Túrin. — Diz-se que os anões adoram a pedra. — Aproximou-se mais de Mîm, não fosse ele pregar-lhes alguma partida no último momento.
— Não é a porta da casa, mas o portão do pátio — respondeu o Anão. Depois virou para a direita ao longo da base do penhasco e, cerca de vinte passos adiante, parou subitamente.
Túrin viu então que, por obra de mãos ou do tempo, havia uma fresta talhada de tal modo que duas faces da parede se sobrepunham e uma abertura retrocedia para a esquerda, por entre elas. A sua entrada estava coberta por compridas plantas trepadeiras enraizadas em fendas, acima, mas no lado de dentro havia um íngreme carreiro de pedra que subia para a escuridão. A água escorria por ele abaixo e tornava-o úmido.
Um por um, começaram a subir em fila. No cimo, o carreiro que virava para a direita e de novo para sul conduziu-os, através de um maciço de espinheiros, a uma superfície verde plana, através da qual um fio de água corria para as sombras. Tinham chegado à casa de Mîm, Bar-en-Nibin-noeg, recordada apenas em histórias antigas de Doriath e Nargothrond e que nenhum homem ainda vira. Mas a noite caía, o céu oriental estava coalhado de estrelas, e eles não conseguiam ver qual era a forma daquele estranho lugar.
Amon Rûdh tinha uma coroa: uma grande massa semelhante a um barrete de pedra íngreme, com um topo achatado e nu. No seu lado norte irrompia dele uma saliência de pedra, plana e quase quadrada, que não podia ser vista de baixo, pois atrás dela erguia-se a coroa do monte, como uma parede, e da sua beira desciam escarpas a pique. Só do lado norte, de onde tinham vindo, podia ser alcançada com facilidade por aqueles que conheciam o caminho. A partir da “entrada”, seguia um caminho que a breve trecho penetrava num bosque de vidoeiros anões que cresciam em redor de um charco límpido, numa bacia escavada na rocha. Era alimentado por uma nascente na base da parede da retaguarda e, através de um arroio, fluía como um fio branco sobre a margem ocidental da saliência rochosa. Atrás da fileira de árvores, próxima da nascente entre dois altos pilares de rocha, havia uma caverna. Não parecia mais do que uma gruta pouco profunda, comum arco baixo e irregular, mas mais para o seu interior fora escavada e furada numa grande extensão, por baixo do monte, pelas mãos lentas dos Pequenos Anões, nos longos anos que ali tinham vivido sem serem incomodados pelos Elfos Cinzentos das florestas.
Através da densa penumbra, Mîm conduziu-os para além da bacia, onde agora se espelhavam as tímidas estrelas por entre as sombras dos ramos dos vidoeiros. A entrada da caverna, o Anão voltou-se e fez uma vênia a Túrin.
— Entrai, Senhor! Bar-en-Danwedh, a Casa do Resgate. Pois assim será chamada. 
— Talvez — respondeu Túrin. — Primeiro quero vê-la. Depois entrou com Mîm e os outros, vendo-o sem medo, seguiram-nos, até mesmo o próprio Andróg, que era quem mais desconfiava do Anão. Em breve encontraram-se num negrume total, mas Mîm bateu com as palmas das mãos e apareceu uma pequena luz a contornar um canto, e de um corredor na retaguarda da gruta exterior surgiu outro anão com uma pequena tocha.
— Ah, errei a pontaria, como receava! — exclamou Andróg. Mas Mîm falou rapidamente com o outro, na áspera língua de ambos, e, parecendo perturbado ou irritado com o que ouvia, ele meteu pelo corredor e desapareceu. Agora Andróg queria investir em força.
 — Há que atacar primeiro! — gritou. — Pode haver um enxame deles, mas são pequenos.
— São apenas três, suponho — respondeu Túrin.
Depois seguiu à frente enquanto, atrás dele, os bandidos tateavam pelo corredor fora, guiando-se pelo contato das paredes ásperas. O corredor guinava muitas vezes, para um lado e para o outro, em ângulos agudos; mas, por fim, uma luz tênue brilhou em frente e chegaram a um salão pequeno mas alto, parcamente iluminado por candeeiros suspensos de correntes finas do telhado-sombra. Mîm não se encontrava ali, mas ouvia-se a sua voz e, guiado por ela, Túrin chegou à porta de uma câmara que se abria no fundo do corredor. Olhando para dentro, viu Mîm ajoelhado no chão. Ao lado dele erguia-se, silencioso, o Anão portador da tocha; mas num leito de pedra, junto da parede oposta, jazia outro.
— Khîm, Khîm, Khîm! — gemia o velho Anão, puxando pela barba.
— Nem todos os teus disparos falharam — disse Túrin a Andróg. — Mas o fato de este ter acertado pode revelar-se funesto. Soltas setas com demasiada ligeireza, mas podes não viver o suficiente para aprenderes a ser sensato.
Deixando os outros, Túrin entrou silenciosamente, parou atrás de Mîm e falou-lhe:
— Qual é o problema, mestre? Conheço algumas artes de sarar. Posso ajudá-lo?
Mîm voltou a cabeça e havia nos seus olhos uma luz vermelha.
— Só se pudésseis voltar atrás no tempo e decepar as mãos cruéis dos vossos homens. Este é o meu filho. Cravou-se-lhe uma seta no peito e agora nada pode valer-lhe. Morreu ao pôr-do-sol. As vossas cordas impediram-me de sará-lo.
Mais uma vez a compaixão há muito endurecida encheu o coração de Túrin, como água a brotar de rocha.
— Ai de mim, faria essa seta voltar atrás, se pudesse. Agora Bar-en-Danwedh, a casa do resgate, assim se chamará verdadeiramente. Pois quer vivamos aqui quer não, considerar-me-ei em dívida para convosco e, se alguma vez possuir alguma fortuna, pagar-vos-ei um Danwedh de pesado ouro pelo vosso filho, como prova de mágoa, mesmo que isso não alegre mais o vosso coração.
Mîm levantou-se e olhou demoradamente para Túrin.
— Ouço-vos e falais como um senhor Anão de antigamente, e com isso me admiro. Agora o meu coração arrefeceu, embora não esteja feliz. O meu próprio resgate pagarei, portanto: podeis morar aqui, se quiserdes. Mas uma condição acrescento: aquele que disparou a seta deve quebrar o seu arco e as suas flechas e depô-los aos pés do meu filho; e jamais voltará a pegar numa flecha ou a usar um arco. Se o fizer, por tal morrerá. Esta praga lhe rogo.
Andróg ficou com medo quando teve conhecimento dessa praga, e, embora o fizesse com grande contrariedade, quebrou o arco e as flechas e depositou-os aos pés do anão morto.
Mas, ao sair da sala, olhou maldosamente para Mîm e resmungou: “Dizem que a praga de um anão nunca morre; mas a de um Homem também pode ser cumprida. Pois que morra com um dardo na garganta!”
Nessa noite deitaram-se na sala e dormiram agitadamente por causa das lamentações de Mîm e de Ibun, o seu outro filho. Quando elas cessaram não faziam ideia, mas quando finalmente acordaram os anões tinham saído e uma pedra fechava a câmara. O dia estava de novo bonito e, ao sol matinal, os bandidos lavaram-se no pequeno lago e prepararam a comida de que dispunham; e enquanto comiam Mîm apareceu diante deles.
Fez uma vênia a Túrin e disse:
— Ele foi-se e está tudo feito. Jaz com os seus antepassados. Agora voltamo-nos para a vida que resta, embora possam ser breves os dias que temos pela frente. A casa de Mîm apraz-vos? Está o resgate pago e aceite?
— Está — respondeu Túrin.
— Agora é tudo vosso, para governar ou habitar como quiserdes, com uma exceção: a câmara que está fechada ninguém abrirá senão Mîm.
— Ouvimos-vos — respondeu Túrin. — Quanto à nossa vida aqui, estamos seguros, ou assim parece; mas precisamos de alimentos e de outras coisas. Como sairemos ou, mais importante ainda, como regressaremos?
Perante tal inquietação, Mîm riu-se guturalmente.
— Temeis ter seguido uma aranha para o centro da sua teia? Não, Mîm não come homens. E uma aranha dificilmente poderia haver-se com trinta vespas ao mesmo tempo. Reparai, vós estais armados e eu estou aqui sem nada. Não, teremos de partilhar, vós e eu: casa, comida e lume, e talvez outros ganhos. A casa, suponho, guardareis e mantereis secreta para vosso próprio bem, mesmo quando souberdes os modos de entrar e sair. Aprendê-los-eis a seu tempo. Entretanto, porém, Mîm terá de guiar-vos, ou Ibun, seu filho, quando sairdes; e um de nós irá aonde fordes e regressará quando regressardes — ou esperar-vos-á em algum lugar que conhecerdes ou puderdes encontrar sem guia. Isso será cada vez mais perto de casa, assim creio.
Túrin concordou e agradeceu a Mîm, e a maioria dos seus homens ficou contente; pois, sob o sol da manhã, enquanto o Verão ainda estava no apogeu, parecia um bom lugar para morarem. Andróg, apenas, estava descontente.
— Quanto mais depressa formos senhores das nossas idas e vindas, melhor — declarou. — Nunca antes fizemos um prisioneiro com o agravo de se intrometer nas nossas andanças.
Nesse dia descansaram, limparam as armas e consertaram o que precisava de conserto; pois ainda tinham comida para um dia ou dois e Mîm contribuía para o que tinham.
Emprestou-lhes três grandes panelas para cozinhar e lenha e um saco.
— Ninharias — disse. — Não vale a pena serem roubadas. Trata-se apenas de raízes silvestres.
Mas, depois de lavadas, as raízes revelaram-se brancas e carnudas, com a sua pele, e depois de cozidas eram agradáveis de comer, algo semelhantes ao pão. Os bandidos sentiram-se gratos por isso, pois havia muito que não tinham pão, a não ser quando conseguiam roubá-lo.
— Os Elfos Silvestres não as conhecem, os elfos cinzentos não as encontraram, os orgulhosos do outro lado do Mar são orgulhosos de mais para as desenterrar — explicou Mîm.
— Como se chamam? — perguntou Túrin. Mîm olhou-o de esguelha.
— Não têm nome, a não ser na língua dos Anões, que não ensinamos. E também não ensinamos homens a encontrá-las, pois os homens são ávidos e esbanjadores e não teriam comedimento até todas as plantas perecerem; ao passo que, agora, passam por elas sem darem por isso, quando vão fazer disparates no deserto. Não mais ficareis a saber por mim; mas podereis receber o suficiente da minha dádiva desde que faleis com respeito e não espieis ou roubeis. — Depois fez ouvir de novo o seu riso gutural. — São de grande utilidade, valem mais do que ouro no estéril inverno, pois podem ser armazenadas como as nozes de um esquilo e nós já estamos a reunir a nossa reserva com as primeiras que amadureceram. Mas sois tolos, se pensais que não repartiria uma pequena porção mesmo que fosse pela salvação da minha vida.
— Eu ouço-te — disse Ulrad, que espreitara no saco quando Mîm fora aprisionado.
— No entanto, não quiseste repartir e as tuas palavras ainda me dão mais que pensar.
Mîm voltou-se e olhou para ele, carrancudo.
— És um dos tolos que a Primavera não lamentaria se perecessem no inverno — respondeu-lhe. — Eu dissera o que tinha a dizer e por isso devia ter regressado, de bom ou mau grado, com ou sem o saco, pensasse o que pensasse um homem sem lei e sem fé! Mas não gosto de ser privado do que é meu pela força dos perversos, mesmo que não seja de mais do que um atacador de bota. Acaso não me lembro que as tuas mãos se contavam entre as que me prenderam e assim me impediram de voltar a falar com o meu filho? Sempre que distribuir o pão da terra da minha provisão, tu serás excluído e, se o comeres, será graças à generosidade dos teus companheiros e não da minha.
Então Mîm deixou-os, mas Ulrad, a quem a sua ira contivera, falou nas suas costas:
— Belas palavras! No entanto, o velho patife tinha outras coisas no saco, do mesmo formato, mas mais duras e pesadas. Talvez haja nos ermos outras coisas além do pão da terra que os elfos não encontraram e de que os Homens não podem saber!
— E possível que sim — admitiu Túrin. — Contudo, o Anão falou verdade pelo menos num ponto, ao chamar-te tolo. Porque há de dar a conhecer os teus pensamentos? Se justas palavras se te encravam na garganta, o silêncio serviria melhor todos os nossos desígnios.
O dia passou em paz e nenhum dos bandidos quis ir para o exterior. Túrin andou muito pelo relvado verde da saliência rochosa, de extremo a extremo, e olhou para leste, oeste e norte, tentando descobrir até onde a vista alcançava no ar claro. Na direção norte, e parecendo estranhamente próxima, conseguia distinguir a floresta de Brethil subindo, verdejante, à volta do Amon Obel. Descobriu que os seus olhos se desviavam para aí mais frequentemente do que desejaria, embora não soubesse porquê; pois o seu coração sentia-se mais atraído para noroeste, onde, légua após légua de distância, na periferia do céu, lhe parecia vislumbrar as Montanhas da Sombra e as fronteiras da sua terra. Mas, ao anoitecer, Túrin olhou para oeste, para o pôr-do-sol, enquanto o astro descia, vermelho, para as névoas acima das costas mais distantes, e o Vale de Narog se encontrava profundamente afundado nas sombras de permeio.
Assim começou a permanência de Túrin, filho de Húrin, nas salas de Mîm em Bar-en-Danwedh, a Casa do Resgate. Durante muito tempo a vida dos bandidos decorreu de acordo com o seu gosto. A comida não escasseava e estavam bem abrigados, quentes e secos, com espaço que chegava e sobrava; pois descobriram que as cavernas poderiam albergar uma centena ou mais, se fosse necessário. Mais para o interior havia outro salão que tinha, a um lado, uma lareira, acima da qual uma chaminé subia através da rocha até um respiradouro astuciosamente oculto numa abertura na encosta do monte. Havia também muitas outras câmaras que se abriam a partir das salas ou do corredor de permeio, umas para habitação e outras para trabalhar ou para armazenamento. No capítulo de armazenamento, Mîm era mais eficiente do que eles e tinha muitas vasilhas e armários de pedra e madeira que pareciam muito antigos. Mas a maioria das câmaras encontrava-se agora vazia; nos armeiros estavam pendurados machados e outro equipamento, enferrujado e poeirento, prateleiras e recessos estavam vazios; as forjas abandonadas. Exceto uma: uma pequena sala que saía do salão interior e tinha uma lareira que partilhava o respiradouro da lareira do sal ão. Mîm trabalhava por vezes aí, mas não permitia a companhia de outros; assim como não falava de uma escada secreta oculta que levava da sua casa ao cume plano do Amon Rûdh. Andróg descobriu-a quando, faminto, procurava as reservas de alimentos de Mîm e se perdeu nas cavernas. Mas guardou a descoberta para si.
Durante o resto daquele ano não fizeram mais incursões e, se saíam para caçar ou colher alimentos, faziam-no a maior parte das vezes em pequenos grupos. Mas durante muito tempo tiveram dificuldade em reencontrar o caminho e, além de Túrin, não mais de seis dos seus homens estavam seguros dele. No entanto, compreendendo que os mais hábeis em tais coisas poderiam chegar ao seu esconderijo sem a ajuda de Mîm, montaram uma guarda de dia e de noite perto da fenda da encosta norte. Do sul não esperavam inimigos nem havia o receio de alguém subir o Amon Rûdh por esse lado; mas durante o dia havia muitas vezes um vigia no topo da crista, de onde podia ver até muito longe, a toda a volta. Apesar de os lados da crista serem íngremes, era possível alcançar o cume, pois a leste da entrada da caverna tinham sido talhados degraus toscos que conduziam às encostas aonde os homens podiam subir sem ajuda.
Assim foi correndo o ano sem sobressaltos ou alarme. Mas, à medida que os dias minguavam e a lagoa se tornava cinzenta e fria, os vidoeiros se desnudavam e regressavam as grandes chuvadas, tiveram de passar mais tempo abrigados. Em breve se tornaram temerosos da escura parte inferior do monte, ou da tênue meia-luz das salas, e a muitos pareceu que a vida seria melhor se a não partilhassem com Mîm.
Não raro, ele surgia de algum canto sombrio ou soleira de porta quando pensavam que se encontrava noutro lugar. E, quando Mîm estava presente, descia um constrangimento sobre as suas conversas. Passaram a falar uns com os outros sempre em murmúrios.
Todavia, e estranho lhes parecia, com Túrin as coisas eram diferentes, e ele tornou-se cada vez mais cordial com o velho Anão e cada vez mais dava ouvidos aos seus conselhos. No inverno que se seguiu, passava longas horas sentado com Mîm, escutando os seus saberes e as histórias da sua vida; e Túrin também não o repreendia se ele dizia mal dos Eldar. Mîm parecia muito satisfeito e, em troca, mostrava grande preferência por Túrin; só a ele permitia, por vezes, a entrada na sua forja, onde falavam juntos em voz baixa.
Mas, quando o outono passou, o inverno não lhes poupou tormentos. Antes do fim de dezembro, a neve chegou do norte com mais força do que alguma vez acontecera nos vales do rio; nessa altura, e cada vez mais à medida que o poder de Angband crescia, os invernos agravaram-se em Beleriand. O Amon Rûdh estava profundamente coberto de neve e só os mais corajosos se atreviam a sair. Alguns adoeceram e todos sofreram o tormento da fome.
No sombrio entardecer de um dia do meio do inverno, apareceu de súbito entre eles um homem, ao que parecia, de grande arcabouço e bojo, de capa e capuz brancos. Eludira os vigilantes e dirigira-se para a sua fogueira sem uma palavra. Quando os homens se levantaram de rompante, ele desatou a rir e atirou o capuz para trás, e viram que era Beleg Arco Forte. Debaixo da ampla capa trazia um grande volume em que transportava muitas coisas para ajudar os homens.
Deste modo voltou Beleg para Túrin, deixando a amizade levar a melhor sobre a sensatez. Túrin ficou muito contente, pois muitas vezes lamentara a sua obstinação. E agora o desejo do seu coração era-lhe concedido sem precisar de se humilhar ou ceder na sua vontade. Mas se Túrin estava contente, o mesmo não se podia dizer de Andróg, nem de alguns outros do seu grupo. Parecia-lhes que houvera entre Beleg e o seu capitão um encontro que ele lhes escondera; e Andróg observava-os invejosamente, enquanto se sentavam, à parte, a conversar um com o outro.
Beleg trouxera consigo o Elmo de Hador, na esperança de conseguir reerguer o pensamento de Túrin acima da sua vida oculta como chefe de um bando de miseráveis bandidos.
— Isto te pertence e eu trago-o de volta — disse a Túrin, enquanto tirava o elmo.
— Foi deixado à minha guarda nas marcas setentrionais, mas penso que não foi esquecido.
— Quase — respondeu Túrin —, mas não voltará a sê-lo. — Ficou silencioso, olhando para longe com os olhos do pensamento, e de súbito apercebeu-se do brilho de outra coisa que Beleg segurava. Era o presente de Melian, mas as folhas de prata tornaram-se vermelhas à luz da fogueira e, quando Túrin viu o sinete, os seus olhos escureceram. 
— Que tens aí?
— A maior dádiva que alguém que te ama ainda tem para oferecer — respondeu Beleg. — Aqui estão lembas in Elidh, o pão do caminho dos Eldar que homem algum jamais provou.
— O elmo de meu pai aceito, grato por o teres guardado. Mas não receberei dádivas de Doriath.
— Então devolve a tua espada e as tuas armas. Devolve também os ensinamentos e o amparo da tua juventude. E deixa os teus homens que (tu o dizes) têm sido fiéis morrer no deserto para satisfazeres a tua disposição! Todavia, este pão do caminho foi uma dádiva não para ti, mas sim para mim, e com ela posso fazer o que me aprouver. Não o comas se te causa engulhos na garganta; mas outros podem estar mais famintos e ser menos orgulhosos.
Os olhos de Túrin cintilaram, mas quando olhou para Beleg o fogo que neles ardia apagou-se e tornaram-se cinzentos. Então disse, numa voz que mal se podia ouvir:
— Surpreende-me, amigo que ainda te dignes a procurar de novo um grosseiro como eu. De ti aceitarei tudo quanto me deres, at é reprimendas. Doravante, aconselhar-me-ás quanto a todos os caminhos, com a única exceção da estrada para Doriath.

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