16 de novembro de 2016

Capítulo V: Túrin em Doriath

Nos anos da sua infância no reino de Doriath, Túrin foi observado por Melian, embora raramente a visse. Mas havia uma donzela chamada Nellas que vivia nas florestas; e, a mando de Melian, seguia Túrin se este se embrenhava pela floresta e muitas vezes lá se encontrava com ele, como que por acaso. Então brincavam juntos, ou caminhavam de mãos dadas; pois ele crescia rapidamente, ao passo que ela não parecia mais do que uma jovem da idade dele, como era no seu coração, apesar de todos os seus anos élficos. Com Nellas, Túrin aprendeu muito acerca dos hábitos e das coisas selvagens de Doriath. Ela ensinou-o também a falar a língua Sindarin ao modo do reino antigo, mais velha, mais cortês e mais rica de belas palavras. Assim, durante pouco tempo, a disposição dele animava-se, até a sombra pairar de novo sobre Túrin e essa amizade passar como uma manhã de Primavera. Pois Nellas não ia para Menegroth e nunca estava disposta a encontrar-se sob telhados de pedra. Assim, à medida que a adolescência passava e Túrin dirigia os seus pensamentos para feitos de homens, passou a vê-la cada vez menos frequentemente e, por fim, deixou de a chamar. Mesmo assim, ela continuava a observá-lo, apesar de agora se manter oculta.
Nove anos viveu Túrin nos salões de Menegroth. O seu coração e o seu pensamento estavam sempre com a sua família e, de vez em quando, recebia notícias que o confortavam. Pois, sempre que podia, Thingol enviava mensageiros a Morwen e ela respondia com palavras para o seu filho; foi assim que Túrin ficou a saber que a situação da mãe melhorara e que a sua irmã, Niënor, crescia em beleza, uma flor no cinzento Norte. E Túrin cresceu em estatura até se tornar alto entre os Homens e ultrapassar a dos Elfos de Doriath, e a sua força e intrepidez tornaram-se famosas no reino de Thingol. Nesses anos adquiriu muita sabedoria, ouvindo atentamente as histórias de tempos antigos e de grandes feitos passados, e tornou-se pensativo e parco de palavras. Beleg Arco Forte vinha com freqüência a Menegroth, procurá-lo, e levava-o para longe, ensinando-lhe artes de trabalhar madeira, do uso do arco e da flecha e (do que ele mais gostava) do manejo de espadas; mas nas artes de fazer coisas Túrin era menos eficiente, pois mostrava lentidão para adquirir consciência da própria força e, não raro, deformava o que fazia com algum golpe violento. Noutros aspectos também parecia ser-lhe a fortuna adversa, de modo que aquilo que pretendia corria mal e o que desejava não alcançava; tão-pouco fazia amizades facilmente, pois não era alegre, pouco ria e uma sombra toldava a sua mocidade. Apesar disso, era amado e estimado por aqueles que o conheciam bem e recebia honras como filho adotivo do Rei.
No entanto, havia em Doriath alguém que lhe invejava tudo isso, com uma inveja que aumentava à medida que Túrin se aproximava da idade adulta: Saeros se chamava. Ele era orgulhoso e lidava altivamente com aqueles que considerava de menor estatuto e merecimento do que ele. Tornou-se amigo de Daeron, o menestrel, pois também era talentoso no canto. Não tinha simpatia alguma pelos Homens e menos ainda por qualquer parente de Beren Maneta. “Não é estranho”, dizia, “que esta terra se abra para mais outro membro dessa desgraçada raça? Não causou o outro mal suficiente em Doriath?” Por isso, olhava de lado para Túrin e para tudo quanto ele fazia, dizendo todo o mal que podia a esse respeito. Mas as suas palavras eram astutas e o seu rancor velado. Se encontrava Túrin sozinho, falava-lhe altivamente e mostrava sem disfarces o seu desprezo. E Túrin fartou-se dele, embora durante muito tempo tivesse respondido com silêncio às más palavras, pois Saeros era poderoso entre o povo de Doriath e um dos conselheiros do Rei. Mas o silêncio de Túrin desagradava tanto a Saeros como as suas palavras.
No ano em que Túrin completou dezessete anos, o seu sofrimento agravou-se, pois nessa altura deixaram de chegar quaisquer notícias da sua casa. O poder de Morgoth crescera de ano para ano e Hithlum inteira estava agora sob a sua sombra. Ele sabia, sem dúvida, muito do que faziam o povo e a família de Húrin e, durante algum tempo, não os molestara, para que o seu objetivo pudesse ser alcançado; mas agora, para conseguir o que pretendia, colocara sob estreita vigilância todos os desfiladeiros das Montanhas da Sombra, para que ninguém pudesse sair de Hithlum nem entrar, a não ser com grande perigo, e os Orcs concentravam-se em grande número perto das nascentes do Narog e do Teiglin e das águas mais para o interior do Sirion. Em consequência disso, chegou uma altura em que os mensageiros de Thingol não regressaram e ele resolveu não enviar mais nenhum. Detestava sempre que alguém se afastasse para além das fronteiras protegidas e em nada mostrara maior boa vontade para com Húrin e a sua família do que enviando a sua gente por estradas perigosas, para visitar Morwen em Dor-lómin.
O coração de Túrin inquietou-se, não sabendo que nova desgraça se abatera sobre Morwen e Niënor; e por muitos dias ficou sentado em silêncio, cismando na ruína da Casa de Hador e dos Homens do Norte. Depois levantou-se e foi procurar Thingol, que encontrou sentado com Melian sob a Hirilorn, a grande faia de Menegroth.
Thingol olhou-o com espanto, ao ver de súbito à sua frente, em vez do seu filho adotivo, um Homem e um desconhecido, alto e de cabelo preto, que o olhava com olhos profundos num rosto pálido, austero e orgulhoso; mas sem dizer nada.
— Que desejas, filho adotivo? — perguntou Thingol, calculando que ele não iria pedir nada de pouca monta.
— Cota de malha, espada e escudo condizentes com a minha estatura, Senhor — respondeu Túrin. — E, com vossa licença, reclamarei agora, também, o Elmo do Dragão dos meus antepassados.
— Tê-los-ás. Mas que necessidade tens, já, de semelhantes armas?
— A necessidade de um homem — disse Túrin —, e de um filho que tem família para recordar. E preciso igualmente de companheiros valorosos e com armas.
— Dar-te-ei um lugar entre os meus cavaleiros da espada, pois a espada será sempre a tua arma — respondeu Thingol. — Com eles poderás fazer treino de guerra nas fronteiras, se for esse o teu desejo.
— O coração impele-me para além das fronteiras de Doriath. Pois anseio mais por atacar o nosso inimigo do que por defender-me.
— Então deves fazê-lo sozinho — disse Thingol. — A participa ção do meu povo na guerra com Angband é controlada por mim de acordo com o meu critério, Túrin, filho de Húrin.
Nenhuma força de armas de Doriath mandarei para combate, nesta altura; nem em qualquer outra que possa prever.
— No entanto, és livre para partir quando desejares, filho de Morwen — acrescentou a rainha. — A Cerca de Melian não impede a partida daqueles que entraram com a nossa autorização.
— A não ser que conselho sensato te contenha — disse Thingol.
— Qual é o vosso conselho, senhor?
— Um homem parece em estatura, e de fato és já mais alto do que muitos. No entanto, ainda não atingiste a plenitude da idade viril que chegar á. Até isso ser alcançado, deves ser paciente, pôr à prova e treinar a tua força. Depois, talvez possas lembrar-te da tua família; é, porém, pouca a esperança de que um Homem só possa fazer mais contra o Senhor Negro do que ajudar os Senhores Élficos a defender-se, por muito tempo que isso possa durar.
Túrin respondeu:
— Beren, meu familiar, fez mais.
— Beren e Lúthien — corrigiu Melian. 
— Mas és por demais ousado ao falar assim ao pai de Lúthien. Não é tão alto o teu destino, julgo, T úrin, filho de Morwen, embora haja grandeza em ti e a tua sorte esteja entrela çada com a do povo élfico, para o bem ou para o mal. Tem cautela, se for para o mal. — Depois, após uma pausa, voltou a falar: — Agora vai, filho adotivo, e segue o conselho do Rei. Esse ser á sempre mais sensato do que o teu próprio. Todavia, não creio que habites muito tempo conosco em Doriath após atingires a idade adulta. Se em dias futuros te lembrares das palavras de Melian, será para teu próprio bem: receia sempre o calor e o frio do teu coração e, se puderes, esforça-te para seres paciente.
Então, Túrin inclinou-se diante deles e saiu. E pouco depois pôs o Elmo do Dragão, pegou em armas e partiu para as fronteiras setentrionais, onde se juntou aos guerreiros élficos que aí travavam guerra incessante contra os Orcs e todos os servos e criaturas de Morgoth. Assim, embora fosse pouco mais que um rapaz, a sua força e a sua coragem foram provadas; e, lembrando-se dos erros dos seus familiares, esteve sempre à frente em atos de ousadia e recebeu muitos ferimentos de lança ou flecha, ou das lâminas perversas dos Orcs.
Mas o seu destino poupava-o à morte e correu a palavra pelas florestas, e constou para além de Doriath, que o Elmo do Dragão de Dor-lómin voltara a ser visto. Muitos foram os que se surpreenderam, e disseram: “Pode o espírito de algum homem regressar da morte? Ou ter Húrin de Hithlum escapado, de fato, dos abismos do Inferno?”
Um apenas, entre os guardas das fronteiras de Thingol, era, nesse tempo, mais poderoso com as armas do que Túrin: Beleg, Arco Forte. E Beleg e Túrin eram companheiros em todos os perigos e juntos penetravam fundo nas florestas selvagens.
Assim se passaram três anos e, durante esse tempo, Túrin raramente foi aos palácios de Thingol. Deixara de se preocupar com o seu aspecto ou com o seu vestuário, mas o seu cabelo estava revolto e a cota de armas coberta por uma capa cinzenta manchada pelo tempo.
Mas sucedeu que, no terceiro Verão após a sua partida, quando tinha vinte anos, por desejar algum repouso e necessitar de alguns arranjos nas suas armas, dirigiu-se sem ser visto a Menegroth e, uma noite, entrou no palácio. Thingol não se encontrava lá, pois ausentara-se para a Floresta Verde com Melian, como por vezes lhe aprazia no pino do Verão. Túrin procurou um assento descuidadamente, pois estava cansado do caminho e com a cabeça cheia de pensamentos, e por pouca sorte sentou-se numa mesa entre os anciãos do reino e no lugar onde Saeros tinha por hábito sentar-se. Saeros, entrando atrasado, enfureceu-se, convencido de que Túrin procedera inspirado pelo orgulho e com a intenção de o afrontar. E a sua cólera não abrandou quando viu que Túrin não era repreendido pelos que ali estavam sentados, mas antes bem-vindo como alguém digno de se sentar entre eles. Por momentos, assim, Saeros fingiu partilhar o mesmo sentimento e sentou-se noutro lugar, defronte de Túrin.
— É raro o guarda das marcas honrar-nos com a sua companhia — disse — e de bom grado cedo o meu lugar habitual em troca da oportunidade de falar com ele.
Mas Túrin, que conversava com Mablung, o Caçador, não se levantou e limitou-se a responder com um seco “Obrigado”.
Então Saeros crivou-o com perguntas a respeito das notícias das fronteiras e o que fazia ele na floresta; mas embora as suas palavras parecessem amáveis, não podia haver equívoco quanto ao escárnio da sua voz. Húrin impacientou-se, olhou em seu redor, e sentiu a amargura do exílio; e, apesar de toda a luz e riso dos salões élficos, os seus pensamentos voltaram-se para Beleg e a vida de ambos nas florestas, e depois para mais longe ainda, para Morwen em Dor-lómin, na casa do seu pai. Franziu a testa, levado pela tristeza dos seus pensamentos, e não respondeu a Saeros. Convencido de que o franzir de testa lhe era destinado, Saeros deixou de conter a cólera e, pegando num pente de ouro, atirou-o para o outro lado da mesa, à frente de Túrin, e gritou:
— Homem de Hithlum, viestes sem dúvida apressado para esta mesa e podeis ser desculpado pela vossa capa esfarrapada; mas aqui não há necessidade de deixar a cabeça desgrenhada como um matagal de silvas. E é possível que, tendo as orelhas descobertas, ouvísseis melhor o que vos é dito.
Túrin não respondeu, mas havia um brilho nas trevas do olhar que lançou a Saeros. Este, porém, ignorou a advertência e devolveu o olhar com desdém, dizendo, de modo que todos ouvissem:
— Se os Homens de Hithlum são tão selvagens e desgrenhados, de que espécie serão as mulheres dessa terra? Correm como gamos envoltas apenas nos seus cabelos?
Então Túrin pegou numa taça e arremessou-a ao rosto de Saeros, que caiu para trás com grande dor; e desembainhou a espada e teria avançado para ele se Mablung o não detivesse. Saeros levantou-se, cuspiu sangue para a mesa e falou o melhor que foi capaz com a boca ferida:
— Quanto tempo abrigaremos este selvagem da floresta? Quem manda aqui esta noite? A lei do Rei é pesada sobre aqueles que ferem os seus vassalos no palácio e, para aqueles que aí desembainham a espada, o mínimo dos castigos é serem declarados bandidos. Fora do palácio poderia responder-te, selvagem da floresta!
Mas a ira de Túrin esfriou quando viu sangue em cima da mesa e, com um encolher de ombros, soltou-se de Mablung e saiu sem dizer palavra.
Então Mablung disse a Saeros:
— Que bicho vos mordeu esta noite? Do mal que aconteceu vos considero culpado e talvez a lei do Rei considere uma boca ferida a retribuição justa pelo vosso escárnio.
— Se o fedelho se considera agravado, que exponha a queixa ao critério do Rei. Mas desembainhar espadas, aqui, não é desculpado por semelhante causa. Fora do palácio, se o selvagem desembainhar a espada contra mim, matá-lo-ei.
— Poderia acontecer o contrário — rebateu Mablung. — Mas, se qualquer de vós for morto, será uma má ação mais própria de Angband do que de Doriath e mal maior daí resultará. Em verdade, sinto que alguma sombra do Norte se estendeu para nos tocar esta noite.
Cuidai, Saeros, não acabeis por fazer a vontade a Morgoth, no vosso orgulho, e lembrai-vos de que pertenceis aos Eldar.
— Não o esqueço — respondeu Saeros, mas a sua ira não acalmou e, durante a noite, o seu rancor cresceu, aumentando-lhe o orgulho ferido.
De manhã, saiu ao caminho de Túrin, quando este partia de Menegroth com a intenção de regressar às marcas. Túrin percorrera apenas uma curta distância quando Saeros correu para ele, nas suas costas, de espada desembainhada e escudo no braço. Mas, treinado na selva para ser prudente, Túrin viu-o pelo canto do olho e, saltando para o lado, empunhou rapidamente a espada e voltou-se para o inimigo. ‘Morwen!”, gritou, “Agora o vosso zombador pagará pelo seu escárnio!” E fendeu o escudo de Saeros e depois lutaram ambos com lâminas velozes. Mas Túrin passara muito tempo numa dura escola e tornara-se tão ágil como qualquer elfo, porém mais forte. Não tardou a levar vantagem e, ferindo o braço de Saeros que empunhava a espada, deixou-o à sua mercê. Depois pisou a espada que o adversário deixara cair e disse:
— Saeros, há uma longa corrida à vossa frente e as roupas serão um obstáculo; o cabelo terá de vos bastar.
E, atirando-o subitamente para o chão, despiu-o e Saeros sentiu a grande força de Túrin e teve medo. Mas Túrin deixou-o levantar-se e depois gritou:
— Correi, correi, zombador de mulheres! Correi! Pois a não ser que sejais veloz como os gamos, picar-vos-ei pela retaguarda.
Encostou a ponta da espada às nádegas de Saeros que, aterrorizado, fugiu para a floresta gritando desesperadamente por socorro. Mas Túrin seguiu-o como um cão de caça e, por muito que ele corresse, ou se esquivasse, a espada estava atrás, para o incitar.
Os gritos de Saeros atraíram muitos outros para a perseguição, os quais o seguiram, mas somente os mais velozes conseguiam acompanhar o ritmo dos corredores. Mablung ia à frente dos que tinham acorrido e sentia a mente perturbada, pois embora a provocação lhe tivesse parecido má, “a maldade que desperta de manhã é o júbilo de Morgoth antes da noite”; e era considerado ofensivo sujeitar qualquer elfo à vergonha, de livre vontade, sem o assunto ser levado a julgamento. Ninguém sabia, nessa altura, que Húrin fora atacado primeiro por Saeros, que o teria morto.
— Parai, parai, Túrin — gritou. — Isso é trabalho de Orc nas florestas!
— Trabalho de Orc houve antes; isto é apenas brincadeira de Orc — gritou Túrin em resposta.
Antes de Mablung falar, ele estivera prestes a soltar Saeros, mas agora, com um grito, correu de novo atrás dele; e Saeros, por fim sem esperança de ajuda e julgando a morte bem perto atrás de si, continuou a correr desvairadamente até chegar, de súbito, a um rebordo onde uma corrente que alimentava o Esgalduin passava numa fenda profunda entre rochedos altos, com largura para um salto de veado. No seu terror, Saeros tentou o salto, mas perdeu o pé no lado oposto, caiu para trás com um grito e despedaçou-se numa grande pedra, na água. Assim terminou a sua vida em Doriath e por muito tempo Mandos o reteria.
Túrin olhou para baixo, viu o corpo caído na corrente, e pensou: “Infeliz idiota! Daqui o teria deixado regressar a Menegroth. Agora fez abater-se sobre mim uma culpa imerecida.” Voltou-se e olhou sombriamente para Mablung e para os seus companheiros, que se tinham aproximado e estavam agora perto dele, no rebordo. Após um silêncio, Mablung disse, em tom grave:
— Que tragédia! Regressai agora conosco, Túrin, pois o Rei deve julgar estes atos.
Mas Túrin respondeu:
— Se o Rei fosse justo, considerar-me-ia inocente. Mas não era este um dos seus conselheiros? Porque haveria um rei justo de escolher para amigo um coração perverso? Renego a sua lei e o seu julgamento.
— As vossas palavras são por demais altivas — observou Mablung, embora se compadecesse do jovem. — Aprendei a ser sensato! Não vos torneis um fugitivo. Rogo-vos que regresseis comigo, como amigo. E há outras testemunhas. Quando o Rei souber a verdade, podereis contar com o seu perdão.
Mas Túrin estava cansado dos salões élficos e temia ser feito cativo; por isso, disse a Mablung:
— Recuso o vosso convite. Não pedirei o perdão do Rei Thingol por nada, e parto agora para onde a sua condenação não poderá alcançar-me. Tendes apenas duas escolhas: deixar-me partir livre ou matar-me, se isso estiver de acordo com a vossa lei. Sois muito poucos para me apanhardes vivo.
Viram, pelo fogo do seu olhar, que as suas palavras eram verdadeiras e deixaram-no ir.
— Uma morte é suficiente — disse Mablung.
— Eu não a quis, mas não a lamentarei — respondeu Túrin. — Que Mandos o julgue com justiça e que, se alguma vez regressar às terras dos vivos, ele saiba mostrar-se mais sensato. Ficai bem!
— Ficai livre! — disse Mablung. — Pois esse é o vosso desejo. Dizer bem seria inútil, se seguis neste caminho. Há uma sombra sobre vós. Que ela não seja mais escura, quando voltarmos a encontrar-nos.
Túrin não respondeu, mas deixou-os e afastou-se rapidamente, sozinho, ninguém sabia para onde.
Diz-se que, quando Túrin não regressou às marcas do Norte nem dele chegaram quaisquer notícias, Beleg Arco Forte foi pessoalmente procurá-lo a Menegroth e, com o coração pesado, tomou conhecimento dos atos e da fuga de Túrin. Pouco depois, Thingol e Melian regressaram aos seus palácios, pois o Verão ia no fim, e quando o Rei ouviu o que acontecera disse:
“Este é um assunto grave que preciso de conhecer no seu todo. Embora Saeros, meu conselheiro, tenha sido morto, e Túrin, meu filho adotivo tenha fugido, amanhã sentar-me-ei no trono do julgamento e ouvirei de novo tudo, pela devida ordem, antes de pronunciar a minha sentença.”
No dia seguinte, o Rei sentou-se no trono, na sua corte, rodeado por todos os chefes e anciãos de Doriath. Então foram ouvidas muitas testemunhas e, destas, Mablung foi quem mais falou e com maior clareza. E quando referiu a discussão havida à mesa, pareceu ao Rei que o coração de Mablung pendia para Túrin.
— Falais como amigo de Túrin filho de Húrin? — perguntou Thingol.
— Amigo fui, mas amo mais, e há mais tempo, a verdade. Ouvi-me até ao fim, senhor!
Depois de tudo dito até às palavras de despedida de Túrin, Thingol suspirou, olhou para os que estavam sentados diante dele e disse:
— Ai de mim, vejo uma sombra nos vossos rostos. Como se insinuou ela no meu reino? A maldade está a atuar aqui. Considerava Saeros fiel e sensato, mas se ele estivesse vivo sentiria a minha cólera, pois o seu escárnio foi maldoso e considero-o culpado de tudo quanto aconteceu no palácio. Até aqui, Túrin tem o meu perdão. Mas não posso ignorar os seus atos posteriores, quando a ira deveria ter arrefecido. A humilhação de Saeros e a sua perseguição até à morte foram males maiores do que a ofensa. Revelam um coração duro e orgulhoso.
Thingol ficou um momento sentado, a pensar, e por fim disse, tristemente:
— Este é um filho adotivo ingrato e na verdade um Homem demasiado orgulhoso para a sua condição. Como poderei continuar a albergar alguém que desdenha da minha lei ou perdoar a quem não se arrependerá? Eis a minha sentença: banirei Túrin de Doriath. Se ele procurar entrar, será levado a julgamento perante mim e enquanto não rogar por perdão a meus pés não voltará a ser meu filho. Se algum dos presentes considera injusta a sentença, que o diga agora!
Reinou o silêncio no salão e Thingol levantou a mão para pronunciar a sua sentença. Mas, nesse momento, Beleg entrou apressadamente e gritou:
— Senhor, posso falar?
— Chegais atrasado. Não fostes convocado como os outros?
— Na verdade fui, Senhor, mas sofri um atraso enquanto procurava alguém que conhecia. Agora trago-vos, finalmente, uma testemunha que deve ser ouvida, antes que a vossa sentença seja proclamada.
— Foram convocados todos quantos tinham alguma coisa a dizer. — respondeu o Rei. — Que pode a testemunha dizer agora de mais peso do que aqueles a quem escutei?
— Julgareis quando ouvirdes. Concedei-me essa mercê, se alguma vez mereci o vosso favor.
— Concedida está — respondeu Thingol.
Então Beleg saiu e voltou trazendo pela mão a jovem Nellas, que vivia nas florestas e nunca entrava em Menegroth. E ela sentiu-se receosa, tanto do grande salão cheio de colunas e do telhado de pedra como da presença dos muitos olhos que a observavam. E quando Thingol lhe pediu que falasse, disse:
— Senhor, eu estava sentada numa árvore... — mas depois hesitou, temerosa do rei, e não conseguiu dizer mais nada.
Perante isto, o Rei sorriu e disse:
— Já outros o fizeram também, mas não sentiram necessidade demo dizer.
— Sim, de fato — concordou ela, encorajada pelo sorriso.
— Até Lúthien! E nela estava eu a pensar naquela manhã, assim como em Beren, o homem.
Thingol não deu resposta e deixou de sorrir, mas esperou que Nellas voltasse a falar.
— Pois Túrin lembrava-me de Beren — disse ela, por fim.
— São parentes, segundo me disseram, e alguns conseguem ver esse parentesco: alguns que olhem de perto.
Thingol impacientou-se.
— E possível que assim seja. Mas Túrin, filho de Húrin, partiu, desfeiteando-me, e não mais o verás para avaliar o seu parentesco. Pois agora proferirei a minha sentença.
— Senhor rei! — exclamou a rapariga. — Tende paciência comigo e deixai-me falar primeiro. Eu estava sentada numa árvore, a ver Túrin afastar-se, e foi então que vi Saeros sair da floresta com espada e escudo e lançar-se de surpresa contra ele.
Soou um murmúrio no salão e o Rei ergueu a mão e disse:
— Trazes aos meus ouvidos notícias mais graves do que pareciam prováveis. Tem tento agora em tudo o que disseres, pois este é um tribunal de condenação.
— Assim me disse Beleg — respondeu ela —, e só por isso ousei vir aqui, para que Túrin não seja erradamente julgado. Ele é valente, mas também é misericordioso. Eles lutaram, senhor, esses dois, até que Túrin despojou Saeros de escudo e espada, mas não o matou. Não creio, por isso, que ele desejasse a sua morte, no fim. Se Saeros foi humilhado, foi humilhação que mereceu.
— Quem julga sou eu — lembrou Thingol. — Mas o que disseste influenciará o meu julgamento. — Depois interrogou-a minuciosamente e por fim voltou-se para Mablung, dizendo:
— É estranho que Túrin não vos tenha dito nada disto.
— E, todavia, não disse, pois de contrário eu tê-lo-ia contado. E de modo diferente lhe teria falado quando nos separamos.
— E diferente será agora a minha sentença — disse o Rei.
— Escutai-me! Qualquer culpa que possa ser atribuída a Túrin agora perdoo, pois considero-o afrontado e provocado. E como foi de fato, como ele disse, um membro do meu conselho que assim o maltratou, não terá Túrin de procurar o este perdão, mas serei eu que lho enviarei, onde quer que possa ser encontrado; e convidá-lo-ei a regressar com honra aos meus salões.
Mas, quando a sentença foi pronunciada, Nellas subitamente chorou.
— Onde poderá ele ser encontrado? — perguntou. — Deixou a nossa terra e o mundo é vasto.
— Será procurado — respondeu Thingol, levantando-se. Então Beleg levou Nellas de Menegroth e disse-lhe:
— Não chores, pois se Túrin está vivo e ainda caminha por outras terras, eu o encontrarei, mesmo que todos os outros o não consigam.
No dia seguinte, Beleg compareceu perante Thingol e Melian e o Rei disse-lhe:
— Aconselhai-me, Beleg, pois sinto-me pesaroso. Acolhi o filho de Húrin como meu filho e assim ele permanecerá, a não ser que o próprio Húrin regresse das sombras para reclamar o que é seu. Não queria que se dissesse que Túrin foi injustamente forçado a ir para as terras selvagens e de bom grado lhe daria as boas-vindas, se ele voltasse, pois o amei muito.
— Dai-me permissão, Senhor — pediu Beleg —, e em vosso nome repararei esta injustiça, se estiver ao meu alcance. Pois uma virilidade como a que ele prometia não deveria ser reduzida a nada nas terras selvagens. Doriath precisa dele, e essa necessidade tornar-se-á ainda maior. E eu também o amo.
Então Thingol disse a Beleg:
— Agora tenho esperança na demanda! Parti com os meus bons votos e, se o encontrardes, protegei-o e guiai-o como puderdes. Beleg Cúthalion, há muito que estais na vanguarda da defesa de Doriath e por muitos feitos de coragem e sabedoria merecestes os meus agradecimentos. Acima de todos eles colocarei a descoberta de Túrin. Nesta despedida pedi o que quiserdes, pois não vos será negado.
— Nesse caso, peço uma espada de valia, pois os Orcs atacam agora em grandes números e demasiado perto para um arco apenas, e a lâmina de que disponho não está à altura das armaduras deles.
— Escolhei entre todas as que possuo, excetuando apenas Aranrúth, que é minha.
Então Beleg escolheu Anglachel, que era uma espada de grande fama e assim chamada por ter sido feita de ferro caído do céu numa estrela incandescente. Fenderia todo o ferro escavado do solo. Uma única espada a ela se equiparava na Terra Média. Essa espada não entra nesta história, embora tenha sido feita do mesmo minério e pelo mesmo ferreiro; esse ferreiro era Eöl, o Elfo Negro, que tomou como esposa Aredhel, irmã de Turgon. Ele deu Anglachel a Thingol como paga, o que lamentou, por o deixar viver em Nan Elmoth; mas a outra espada, Anguirel, sua igual, guardou-a para si, até lhe ser roubada por Maeglin, seu filho.
Mas quando Thingol voltou o punho da Anglachel para Beleg, Melian olhou para a lâmina e disse:
— Há malignidade nessa espada. O coração do ferreiro ainda habita nela, e esse coração é negro. Ela não amará a mão que serve nem permanecerá muito tempo convosco.
— Apesar disso, empunhá-la-ei enquanto puder — respondeu Beleg; e, agradecendo ao rei, pegou na espada e partiu.
Muito longe de Beleriand e através de muitos perigos procurou em vão notícias de Túrin. E esse Inverno passou, e também a primavera.

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