29 de novembro de 2016

Capítulo um

A HABITAÇÃO ME LEMBRA OS TIPOS DE LUGARES QUE HENRI E EU COSTUMÁVAMOS frequentar no passado. Antigos hotéis de beira de estrada cujos donos não investiram desde os anos setenta. As paredes são painéis de madeira, o carpete verde-oliva é gasto, e a cama abaixo de mim é dura e tem bolor. Uma escrivaninha descansa contra uma das paredes, as gavetas cheias com uma mistura de roupas de diferentes tipos e tamanhos, todas dobradas e arrumadas. A sala não tem uma TV, mas tem um rádio com um relógio que usa aqueles números antigos de papel que giram, cada minuto pontuado por um som seco.
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Fico aqui sentado no Patience Creek Bed & Breakfast e escuto o tempo passar.
Na parede oposta da minha cama há um quadro que parece uma janela. Não há janelas de verdade, pelo quarto estar localizado bem abaixo no subsolo, então suponho que os designers tenham feito o melhor que puderam. A cena na minha janela falsa é ensolarada e cheia de luz, com um pasto verde bem alto sendo soprado pelo vento e a silhueta indistinta de uma mulher ao longe segurando um chapéu na cabeça.
Eu não sei por que eles planejaram a sala dessa maneira. Talvez tenha sido para transmitir uma sensação de normalidade. Se foi esse o caso, não está funcionando. Em vez disso, a sala parece ampliar cada sentimento ruim que você poderia criar por estar hospedado num motel sujo e sozinho – solidão, desespero, fracasso.
Eu tenho cada um desses sentimentos de sobra.
Aqui uma coisa que esta habitação tem que os outros hotéis da interestadual não possuem. O quadro da parede? Ele desliza para o lado, e atrás dele há um conjunto de monitores que mostra as câmeras de segurança dos arredores de Patience Creek Bed & BreakfastHá uma câmera apontada para a porta de entrada da cabana pitoresca que fica posicionada acima desse subsolo, outra que mostra o gramado e solo perfeito mantido com uma exatidão que têm as dimensões necessárias para o pouso de um avião, e dúzias de outras que vigiam a propriedade e o que há abaixo dela. Esse lugar foi construído por pessoas paranoicas que esperavam uma invasão, um cenário de fim do mundo.
Eles esperavam pelos russos, não pelos mogadorianos. Mesmo assim, acho que a valeu a pena ter sucumbido à paranoia.
No subsolo inimaginável desse lugar localizado a mais ou menos cinquenta quilômetros de Detroit, perto do Lago Erie, há quatro níveis subterrâneos tão secretos que eles foram praticamente esquecidos. A instalação Patience Creek foi originariamente construída pela CIA durante a Guerra Fria para ser um local de fuga caso houvesse um inverno nuclear. Caiu em desuso nos últimos vinte e cinco anos, e, de acordo com nossas fontes do governo americano, todos que sabiam dela estão mortos ou aposentados, o que significa que ninguém ligou sua existência ao ProMog. Para nossa sorte, um general chamado Clarence Lawson voltou da aposentadoria quando as naves de guerra apareceram e o relembraram que esse lugar ainda existia aqui embaixo.
O presidente dos Estados Unidos e os membros que sobraram de sua equipe não estão aqui; eles são mantidos em algum lugar seguro, provavelmente algo móvel, cujo localização não é revelada nem para nós, alienígenas aliados. Alguém deve ter decidido que não seria seguro para o presidente estar entre nós, então estamos aqui com o General Lawson. Em nossa conversa, o presidente me disse que queria que trabalhássemos juntos, que nós teríamos todo o suporte contra Setrákus Ra.
Ele disse muitas coisas, na verdade. Os detalhes estão vagos em minha memória. Eu estava em choque quando nos falamos e não prestava atenção realmente. Ele pareceu gentil. Que seja.
Eu só quero acabar com isso.
Estive acordado desde então – bem, não tenho certeza desde quando. Sei que eu deveria tentar dormir, mas todas as vezes que fecho os olhos, vejo o rosto de Sarah. Vejo seu rosto naquele primeiro dia de aula na Paradise High Schoolmeio escondido atrás de uma câmera fotográfica e o sorriso depois dela ter tirado minha foto.
E então minha imaginação muda, e vejo o mesmo rosto maravilhoso dessa vez pálido e cheio de sangue, sem vida, da forma que deve estar agora. Eu não posso aguentar. Quando abro os olhos há uma dor terrível em minhas entranhas, e sinto que tenho que desviar da dor.
Em vez disso, eu fico acordado. É isso que tem acontecido nas últimas horas, sozinho nesse lugar estranho, tentando descobrir quando conseguirei dormir da mesma forma que, bem... que os mortos.
Prática. É a única esperança que tenho.
Sento na cama e olho para meu reflexo no espelho que está pendurado acima da escrivaninha. Meu cabelo está crescendo, e há olheiras abaixo dos meus olhos. Essas coisas não importam agora. Eu olho fixamente para meu reflexo...
E então desapareço.
Reapareço. Respiro fundo.
E fico invisível de novo. Dessa vez eu consigo ficar mais tempo. Pelo maior tempo que posso. Olho para o espaço vazio no espelho onde meu corpo deveria estar e escuto o relógio marcar os minutos.
Com o Ximic, eu devo ser capaz de copiar qualquer Legado com que eu tiver contato. Basta apenas que eu aprenda como controlá-lo, o que não é fácil, mesmo quando o Legado vem com naturalidade. O Legado de cura de Marina, a invisibilidade de Seis, a petrificação de Daniela – essas são as habilidades que aprendi até agora. Eu vou aprender mais, o máximo que puder. Treinarei esses novos Legados até eles virem com naturalidade para mim assim como meu Lúmen. E então repetirei o processo.
Todo esse poder, e um único objetivo.
A destruição de cada mogadoriano existente na Terra. Incluindo especialmente Setrákus Ra, se ele ainda estiver vivo. Seis acha que pode tê-lo matado no México, mas não acreditarei nisso até que os mogs se rendam ou até ver o corpo. Uma pequena parte de mim até espera que ele ainda esteja por aí para que eu seja aquele que matará o bastardo.
Um final feliz? Isso é o que está do lado de fora da janela. Eu fui estúpido em acreditar nisso.
Pittacus Lore, o último lorieno, aquele cujo esqueleto encontramos escondido no bunker de Malcolm Goode, ele possuía o Ximic também, mas ele não fez o suficiente. Não conseguiu impedir a invasão mogadoriana de Lorien. Quando teve a chance de matar Setrákus Ra séculos atrás, também não conseguiu.
A história não vai se repetir.
Ouço passos no corredor que param na frente da minha porta. Mesmo com eles falando baixo, e mesmo eu estando do outro lado de uma porta reforçada de metal, com os meus sentidos aguçados eu posso entender cada palavra que Daniela e Sam dizem.
— Talvez devêssemos deixá-lo descansar – Daniela fala. Eu não estou acostumado a ouvi-la em um tom tão suave. Normalmente, Daniela mistura um tom grosso e cheio de gírias. Há apenas alguns dias, ela deixou sua antiga vida completamente para trás e se juntou à nossa guerra. Embora ela não tivesse muita escolha, considerando que os mogs destruíram sua vida antiga.
Outro humano que se juntou a nós.
— Você não o conhece. Duvido que ele esteja dormindo ali dentro — Sam responde, sua voz rouca.
Sentado nesse quarto, refletindo o passado e os danos que causei, comecei a me perguntar: como a vida de Sam seria diferente se Henri e eu tivéssemos escolhido Cleveland ou Arkon ou outro lugar qualquer em vez de Paradise? Será que ele teria desenvolvido Legados?
Eu estaria pior, talvez morto, sem ele. Tenho certeza disso.
Contudo, Sarah também estaria viva se nunca tivéssemos nos conhecido.
— Uh, tudo bem, eu não estou falando sobre ele ter uma boa noite de sono. O cara é um super-herói alienígena; pelo o que sei, ele dorme três horas por noite pendurado de cabeça para baixo no teto — Daniela responde a Sam.
— Ele dorme da mesma forma que nós.
— Que seja. O que quero dizer é que ele precisa de espaço, entende? Para pensar nas loucuras dele. E ele virá até nós quando estiver pronto. Quando ele...
— Não. Ele gostaria de saber — Sam a interrompe, e então bate suavemente na minha porta.
Saio da cama em alguns segundos e em um lampejo estou abrindo a porta. Sam está certo sobre mim, claro. O que quer que esteja acontecendo, eu quero saber. Quero me distrair.
Sam pisca quando a porta se abre e olha através de mim.
— John?
Levo um segundo para perceber que ainda estou invisível. Quando apareço do nada na frente deles, Daniela tropeça para trás.
— Deus me livre, cara.
Sam mal levanta a sobrancelha. Seus olhos estão vermelhos. Ele parece cansado demais para ficar surpreso.
— Me desculpem. Eu estava treinando minha invisibilidade.
— Os outros estão a dez minutos daqui — Sam me diz. — Sabia que iria querer estar lá quando eles pousassem.
Eu assinto e fecho a porta atrás de mim.
A ilusão de um hotel desaparece assim que saio do quarto. O corredor adiante, mais parecido com um túnel, é pintado com um branco sério e iluminado com luzes de halogênio. Me lembra a instalação no subsolo de Ashwood Estates, com exceção de que esse lugar foi construído por seres humanos.
— Tenho um aparelho de vídeo cassete no meu quarto — Daniela fala, tentando puxar assunto enquanto nós três andamos por um dos vários corredores idênticos desse complexo labiríntico. Quando nem eu, nem Sam respondemos imediatamente, ela continua. — Vocês têm também? Loucura, não é? Eu não vejo um vídeo cassete há anos.
Sam olha para mim antes de responder.
— Eu encontrei um Game Boy embaixo do meu colchão.
— Droga! Quer trocar?
— Não tem bateria.
— Deixa para lá.
Posso ouvir o zumbido distante de geradores, o som de ferramentas de homens trabalhando. A única desvantagem de Patience Creek ser tão secreto é que a maioria dos sistemas não pode ser considerado moderno. Por motivos de segurança, o General Lawson decidiu que eles deveriam mudar apenas o essencial. Com tudo acontecendo, não havia tempo suficiente para contratar pessoas para atualizar tudo. Ainda assim, devia haver quase cem engenheiros trabalhando no local para tentar melhorá-lo.
Quando chegamos na noite anterior, vi que o pai de Sam, Malcolm, já estava aqui, ajudando uma equipe de eletricistas a instalar alguns dos aparelhos mogadorianos recuperados de Ashwood Estates. Por enquanto, tudo o que eles pensam é que Malcolm é um lunático por extraterrestres.
A conversa de Sam e Daniela não continuou, e eu rapidamente percebo que é por minha causa. Estou em silêncio, olhos fixos no caminho, e tenho quase certeza de que minha expressão é neutra. Eles não sabem mais como falar comigo.
— John, eu... — Sam coloca uma das mãos em meu ombro, e sei que ele quer falar algo sobre Sarah. Sei que o que aconteceu com Sarah o machucou também. Eles cresceram juntos. Mas eu não quero conversar agora. Não quero ter tempo para chorar pelos mortos até que isso acabe.
Eu forço um sorriso.
— Eles te deram uma fita para assistir no aparelho? — pergunto a Daniela, mudando de assunto.
— WrestleMania III – ela responde, e faz uma careta.
— Aí, sabe, vou passar lá para pegar emprestado mais tarde, Danny — Nove diz, emergindo de um dos vários corredores com um sorriso.
De todos nós, Nove é o que parece mais descansado. Faz apenas um dia desde que ele e Cinco quase se mataram por toda Nova York. Eu curei a maior parte dos ferimentos lá, e sua própria regeneração sobre-humana aparentemente cuidou do resto. Ele dá um tapinha forte nas minhas costas e nas de Sam e se junta a nós, seguindo pelo corredor.
Claro, Nove age como se não houvesse nada de errado, e, honestamente, eu prefiro desse jeito.
Enquanto andamos, olho de relance pelo corredor em que Nove veio. Há quatro soldados fortemente armados lá, de guarda.
— Tudo certo? — pergunto a Nove.
— Sim, Johnny — Nove responde. — Eles têm várias celas especiais aqui, incluindo uma almofadada. Com o Gordinho aprisionado com algumas almofadas e preso numa camisa de força, ele não vai a lugar algum.
— Ótimo — Sam diz.
Eu assinto em concordância. Cinco é um psicopata completo e merece estar preso. Mas se eu fosse brutalmente prático sobre ganhar esta guerra, eu não tinha certeza por quanto mais tempo nós poderíamos gastar para mantê-lo preso na gaiola.
Nós viramos em um corredor, e o elevador entra em nosso campo de visão. Acima, as luzes de halogênio zunem alto, e percebo que Sam está coçando a ponta de seu nariz.
— Cara, como eu sinto falta da sua cobertura, Nove — Sam diz. — Foi o único esconderijo que tivemos com luzes normais.
— É, sinto falta também — Nove responde, uma nota de nostalgia em sua voz.
— Esse lugar já está me dando uma séria enxaqueca. Deveriam ter me dado alguns controles junto com aquele vídeo cassete.
Há um estalo de energia acima de nós, e uma das lâmpadas se apaga.
A iluminação do corredor de repente fica mais tolerável. Todos com exceção de mim param para observar.
— Bem, isso foi estranhamente cronometrado — comenta Daniela.
— Bem melhor, não acha? — Sam diz com um suspiro.
Eu aperto o botão para chamar o elevador. Os outros se juntam atrás de mim.
— Então... eles... hum... a estão trazendo para cá? — Nove pergunta, sua voz baixa, sendo o mais delicado possível.
— Sim — eu consigo dizer, pensando na nave lórica que agora está pousando sobre Patience Creektrazendo nossos amigos e aliados, e o amor perdido de minha vida.
— Isso é bom — Nove diz, então tosse em suas mãos. — Quero dizer, não é bom. Mas nós podemos, você sabe, dizer adeus.
— Nós entendemos, Nove — Sam responde gentilmente. — Ele sabe o que você quer dizer.
Eu assinto, despreparado para falar qualquer outra coisa. A porta do elevador se abre na nossa frente, e então, as palavras começam a sair.
— Essa é a última vez – eu digo, não me virando para encarar os outros. As palavras parecem gelo na minha boca. — Estou farto de dar adeus para as pessoas que amamos. Estou cheio disso. Farto de despedidas. A partir de hoje, mataremos até ganhar.

9 comentários:

  1. OH my God, ta muito incrivel!!! o Ruim é que demorou bem para chegare esse último livro e tipo esqueci bastante coisa dos outros livros da coleção kkkkk até porque ja umonte na frente dessem:( mais ta muito top!

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  2. karina , aqui ta um erro " Os outros estão a dez muitos daqui — Sam me diz. — Sabia que iria querer estar lá quando eles pousassem.
    devia ser :a dez minutos daqui. nao é?

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  3. — Me desculpem. Eu estava treinando minha invisibilidade.
    — Os outros estão a dez muitos daqui — Sam me diz. — Sabia que iria querer estar lá quando eles pousassem.
    Eu assinto e fecho a porta atrás de mim.

    Nao deveria ser minutos daqui?

    Ps. FINALMEEEEEEEEENTE AMO

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  4. Ele é mesmo siyytemmental!!
    vou ter saudades da shara!! Quando ela morreu no ultimo livro fiquei muito triste!! :'(

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  5. como nove diria..
    VAMOS CHUTAR UMAS BUNDAS!!

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  6. "Mesmo assim, acho que a valeu a pena ter sucumbido à paranoia." não seria " acho que valeu a pena"

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  7. Jhon querido isso não é vc???!!! mas ainda te amo mesmo assim!!!

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  8. John ta com sangue nos olhos, agr é q o bicHo vai pega

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  9. 9 nem eh o mais foda agr kkkk qro ver 4 matando a porra toda

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