29 de novembro de 2016

Capítulo trinta

A CONSCIÊNCIA VOLTA AOS POUCOS. O CHÃO DA CAVERNA VIBRA SOB MEU rosto, um barulho mais alto que um trovão sacudindo todo o complexo. Eu fico perigosamente perto da beira do abismo em que Adam e Phiri caíram. Com um gemido, rolo para longe do buraco, de costas, e tento me sentar.
— Argh...
Sinto gosto de sangue na boca. A cada respiração parece que estou rolando sobre vidro quebrado. A montanha treme mais uma vez, e fragmentos de rocha caem do teto.
Fecho os olhos para evitar os detritos. Talvez seja melhor ficar um pouco mais de olhos fechados.
Seis! Você precisa ficar acordada! Levanta!
Ella, sua voz entrando em meu cérebro como se através de um megafone, tão alto que faz minha cabeça doer.
— Vou levantar, vou levantar — respondo em voz alta, enquanto tento sentar. Dói me encurvar assim, e tenho que sufocar um grito. — O que está acontecendo?
Vamos derrubar a montanha, responde Ella. Sam está começando a destruí-la, mas não vamos acionar o canhão principal até vocês saírem.
— Acho que é melhor eu me levantar, então — falo grunhindo, e me esforço para ficar de pé.
Então Sam foi forçado a fazer o que cabia a Adam – se as coisas derem errado, exploda tudo. Adam... Não o peguei a tempo. Olho para o abismo, mas não vejo nada além de rochas pontudas e sombras. Mas algo na beirada chama minha atenção. Um rastro espesso de sangue que não estava lá antes se estende da sala de controle até o abismo.
O corpo de Dust não está onde ele caiu. Será que o Chimæra ainda está vivo? Será que foi atrás de Adam?
Coloco as mãos em concha em volta da boca e grito para o abismo:
— DUST? ADAM?
Nenhuma resposta. Os gritos me dão uma nova pontada de dor nos pulmões. Coloco as mãos no buraco no tórax e cambaleio para trás, apoiando-me na parede mais próxima.
Marina e Nove estão subindo, informa Ella. Vão se encontrar com você na entrada principal.
Consigo ir até lá... Eu acho.
Devagar, começo a percorrer os corredores sinuosos da caverna. Preciso recuperar o fôlego algumas vezes e sempre acabo engolindo um pouco de sangue. Olho por cima do ombro e percebo que também estou deixando um rastro vermelho. Eu me sinto um pouco zonza ao fazer isso, e meus olhos começam a se fechar.
Continue. Siga em frente. Está quase lá.
— Seis!
Chego aos tropeços à entrada principal ao mesmo tempo que Marina emerge da passagem estreita que leva ao interior do complexo. Nove está jogado por cima do ombro dela como um saco de batatas. Nunca soube que Marina era tão forte – Nove deve ter transferido seus Legados antes de apagar. Eu me encolho ao ver o estado dele: inconsciente, o rosto pálido, sem um dos braços. Tenho a impressão de que Marina ia estender o braço livre para mim, mas está deslocado, então ela acaba projetando o ombro desajeitadamente na minha direção.
— Onde estão John e Cinco? — pergunto a ela.
— Cinco... ninguém merecia morrer daquele jeito, Seis, nem mesmo ele. — Marina balança a cabeça horrorizada ao dar a notícia, evitando me olhar nos olhos. — John ainda está lá embaixo, detendo Setrákus Ra até derrubarmos este lugar em cima deles.
Como se para enfatizar as palavras de Marina, outro tremor sacode a base da montanha. Deve ser Sam, demolindo aos poucos o covil mogadoriano.
Marina dá uma olhada no buraco em meu peito e sua boca se abre como se estivesse surpresa por eu ainda estar de pé.
— Consegue andar um pouco mais? Curo você assim que sairmos daqui.
— Não — respondo. — Me cure agora.
Ela olha para o teto.
— Mas...
— Ella, se você estiver me ouvindo, diga a Sam para parar com essa merda agora!
— Você não viu Setrákus Ra, o que ele se tornou — diz Marina, de olhos arregalados. — Seis, esta pode ser a única forma de detê-lo.
Quando Adam me contou sobre a ideia de pôr a montanha abaixo, eu concordei. Mas era para ser um último recurso, quando nenhum de nós estivesse mais de pé para enfrentar Setrákus Ra.
Bem, eu ainda estou de pé.
— Tô nem aí — respondo a Marina. — Não vou deixar John dar uma de mártir. Vou lá ajudar. Quando nós sairmos, podem derrubar esta montanha em cima do que quer que tenha restado de Setrákus Ra.
Essa última parte é mais para Ella que para Marina, porque tenho certeza de que estamos sendo ouvidas por telepatia. Quero que Ella diga isso a Sam.
Mantenham este lugar em pé. Só quero uma chance.
Marina me encara, e percebo que está tentando ver se enlouqueci. Em seguida, coloca Nove no chão com cuidado, o grandalhão gemendo em delírios, e pressiona a mão boa no meu peito. Quando sua energia fria de cura flui para mim, respiro fundo pela primeira vez desde que lutei com Phiri Dun-Ra.
— Eu deveria ir com você... — diz Marina.
O olhar dela corre em direção a Nove.
— Não, ele não parece bem — respondo. — Fique com Nove; cuide para que ele não morra. Ninguém mais morre hoje, está bem?
Marina termina de me curar. Ela pega minha mão.
— Tenha cuidado, Seis.
Sentindo-me revitalizada, corro na direção de onde Marina veio. Eu me lembro bem deste lugar... não faz muito tempo que escapei destas cavernas. Nunca pensei que um dia estaria correndo de volta para essas profundezas, ainda mais considerando que colocar esta montanha abaixo é uma alternativa viável.
Não vou deixar John morrer aqui. Ele acha que pode vencer a guerra sem o restante de nós, acha que deve suportar tudo isso para compensar o que aconteceu com Sarah.
Ele não precisa carregar o fardo sozinho.
Por isso, eu corro. Meus pés pisam com força no terreno irregular. Logo estou descendo a saliência em espiral, correndo rumo ao fundo. Vejo o repulsivo reservatório de gosma negra lá embaixo. Sei que é onde eles devem estar. Salto um pedaço de rocha caída no chão, desvio de uma estalactite que desmorona e, para poupar tempo, pulo da saliência para uma das estreitas pontes de pedra. A descida é vertiginosa, e meu coração bate acelerado.
Lá no fundo, desacelero e fico invisível. Paro assim que chego à beira do lago de gosma.
O óleo negro se espalha pelo chão de pedra, quase como se um balão cheio daquilo tivesse explodido. Alguns dos tentáculos se debatem como um peixe fora d’água. Mas a maior parte está seca e endurecida.
John está no epicentro de tudo. Parece que ele passou por um moedor de carne. Não há um centímetro do seu corpo que não esteja ensopado de sangue. A pele está cortada, mutilada; os ossos saem em alguns lugares. Acho que suas pernas e braços estão quebrados. Observo o peito por alguns segundos, na esperança de vê-lo subir e descer.
Não há movimento.
Lembro como ele era quando o rastreei em Paradise. Bonito e corajoso, tão ingênuo... Pronto para arriscar sua vida. Lembro-me de segurar sua mão – os dedos agora quebrados, todos cortados – e lembro que ele me reconfortou quando precisei.
E morreu sozinho ali.
Eu deveria gritar. Mas depois de todos esses anos, todas essas mortes, não sinto mais raiva e tristeza. Sinto uma fria determinação.
Vou acabar com isso.
Engulo a bile e volto a atenção para a outra forma no chão da caverna. Frágil e encarquilhado, um velho, a pele manchada em alguns pontos e, em outros, preta e endurecida como a gosma espalhada por todo o chão. Enquanto observo, essas seções escuras do corpo aos poucos se desintegram, desfazendo-se como cinzas na ponta de um cigarro. O velho deixa um rastro da substância fuliginosa enquanto se arrasta pelas rochas, aproximando-se do lago de lodo, a mão nodosa estendida.
A cicatriz roxa em torno do pescoço é inconfundível.
Setrákus Ra. Ainda vivo. Por pouco.
Centímetro a centímetro, ele se arrasta para o lodo.
Avanço. Com os olhos fixos em Setrákus Ra, não noto o punhal Voron que John fez até esbarrar com o pé nele. A lâmina faz barulho por ter sido chutada alguns centímetros à frente nas pedras.
Pego o punhal. Quando volto a olhá-lo, Setrákus Ra virou de lado. Seus olhos escuros correm à procura da fonte do ruído. Ele não tem mais nariz, apenas um buraco esquelético na frente do rosto, e sua boca não tem mais nenhum dente.
Ele está com medo.
Fico visível e olho em seus olhos.
— Olá, meu velho.
Ele deixa escapar um gemido baixo, vira sobre a barriga de novo e se arrasta mais depressa em direção ao óleo.
Eu o ultrapasso com facilidade e chuto a lateral de seu corpo, virando-o. Meu pé faz um buraco nele, como se eu tivesse chutado uma casca. Seu peito é esquelético, côncavo, com um espaço escurecido onde o coração deveria estar. Ele tenta, desajeitado, me acertar com as garras que se desintegram da mão. Empurro-a e me agacho por cima de Setrákus, enfiando o joelho em sua barriga.
— Em poucos minutos, este lugar vai desabar em cima do que restou de você — digo a ele, mantendo a voz fria e firme. — Quero que saiba que, depois disso, vou localizar e queimar cada cópia daquele seu maldito livro. Todo o seu trabalho, tudo o que você fez... está se desfazendo.
Ele tenta falar algo, mas não consegue. Enfio o joelho mais fundo.
— Olhe para mim — ordeno. — Isto é o progresso, cretino.
Corto a lateral de seu pescoço com o punhal Voron, bem na cicatriz. Setrákus Ra gorgoleja. Continuo a cortar.
Em seguida, solto o punhal e me levanto.
Seguro a cabeça de Setrákus Ra nas mãos.
Bastam alguns segundos até que comece a se desintegrar. Espero tudo desaparecer, os fragmentos do líder mogadoriano, o destruidor do meu planeta, assassino do meu povo, dos meus amigos, tremulando das pontas dos meus dedos como um confete escuro.
Limpo as mãos.
Então, ouço um ruído úmido atrás de mim. Viro e vejo uma bolha da gosma negra que pairava sobre o lago estourar. Bernie Kosar se liberta, sacudindo os pelos, e logo salta para o chão. Ele olha para mim e solta um ganido baixo e lamurioso.
Nós dois nos aproximamos de John. Ele está horrível, quase irreconhecível. BK se deita de bruços ao lado dele e empurra sua mão com o focinho. Toco a testa de John, ajeitando uma mecha de cabelo louro, pegajosa de sangue.
— Seu imbecil — sussurro. — Acabou e você nem sequer sabe, seu maldito idiota.
John tosse, engasgando.
Pulo para trás, a princípio assustada, as lágrimas ardendo nos olhos. Com um ruído agudo, todo o corpo de John se arqueia. Ele convulsiona, tosse, treme nos meus braços.
Eu aperto mais forte. Quando olho para baixo, vejo que seus ferimentos estão começando a cicatrizar. A regeneração é lenta, quase imperceptível em comparação à rapidez com que costumamos nos curar, mas está acontecendo.
Seus olhos estão fechados de tão inchados. Uma das mãos agarra meu braço, sem forças.
— Sarah...? — sussurra.
Eu o beijo. Apenas um selinho nos lábios, as lágrimas escorrendo pelo meu rosto. Tenho certeza de que Sam não vai se importar. Considerando as circunstâncias, aposto que ele também o beijaria.
John abre um sorriso fraco, então fica inconsciente outra vez, a respiração irregular, mas constante.
BK assume a forma de grifo e, com muito cuidado, coloco John em suas costas. Subo atrás dele. Levantamos voo em direção à saída da caverna, deixando o odor fétido do mundo mogadoriano para trás.
— Ella! Pessoal! — digo para o ar, esperando que alguém esteja ouvindo por telepatia. — Estamos chegando.
Lá fora, começa a amanhecer.

6 comentários:

  1. to chorando horrores aqui.. q livro perfeito

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  2. Felizmente tu sobreviveste!! Assustasteme Jonh!! T_T T_T T_T

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  3. Puta q pariu véi... Nunca imaginei q ia chorar no final desse livro... E olha, eu chorei kkk é emocionante, simplesmente o melhor livro!

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